Pediram-me
para indicar qual devia ser a nossa atitude em relação à primeira
Encíclica do Papa Bento XVI, intitulada Deus Caritas est.
Certamente é encorajador ouvir um Papa falar sobre o amor, sobre as
diferentes palavras usadas para expressá-lo na Sagrada Escritura, e
sobre a sua necessidade, tão oposta à noção protestante de salvação
só pela fé (i.e. confiança). Também é bom ouvir a defesa da
possibilidade de um amor que não é puramente materialista e
instintivo, e também da necessidade do amor a nosso próximo, e como
esse amor pressupõe a justiça.
Omissões
Entretanto,
eu não poderia recomendar a leitura dessa encíclica a nenhum
católico. Deixem-me explicar o que quero dizer com isso, sem entrar
nos termos técnicos filosóficos desenvolvidos na encíclica. A
primeira observação perturbadora é a ausência de toda e qualquer
referência ao Magistério da Igreja pré-Vaticano II. Há, é claro,
algumas referências aos Padres da Igreja, e também faz-se menção de
exemplos dos santos que praticaram a caridade em grau heróico (§
40), mas não há nenhuma palavra sobre os ensinamentos precisos da
Igreja sobre a virtude sobrenatural da caridade, e nem mesmo uma
leve menção de que ela é uma virtude teologal. (cf. § 39). A
necessidade da caridade para a justificação é omitida, apesar de ter
a Igreja definido isso como sendo de Fé (cf. Concílio de Trento,
Sessão VI, cânones 9 & 11). Não se diz também que ela é infundida
por Deus (II Orange, cân. 25 & Trento, Sessão VI), nem que pode ser
realmente aumentada, particularmente pelos méritos da mortificação e
boas obras (Trento, id., capítulo 10 & cân. 24 & 32), e que de modo
algum é pecado colocar nossa recompensa eterna como o objetivo de
nossas obras de caridade (ib. cân. 31). Por que o Papa escreveria
uma encíclica sobre a caridade que não reitera esses ensinamentos
tão importantes e necessários à nossa salvação?
Fusão do amor de si mesmo & amor que se sacrifica pelo outro
Bento XVI deixa entender isso desde o início, quando descreve a
finalidade da encíclica, que é mostrar “o laço intrínseco entre o
Amor e a realidade do amor humano” (§ 1), isto é, entre o amor
divino e o amor humano, entre o amor que é a novidade da nova lei
fundada por Cristo, um amor que se sacrifica inteiramente e que
corretamente chamamos de caridade (ágape em grego), e o amor
instintivo, que busca a si mesmo, intoxicante, sensual, derivado da
natureza decaída do homem, característico do paganismo (eros
em grego). A espiritualidade constante da Igreja, fundamentada no
Evangelho (cf. Jo. 12, 25: “Aquele que ama sua vida perdê-la–á,
aquele que a odeia nesse mundo, conservá-la-á para a vida eterna”)
é que a sensualidade seja mortificada, assim como o amor de si mesmo
em todos os aspectos, para que se cresça na caridade, no amor que se
sacrifica e que é dirigido a Deus em primeiro lugar e ao próximo em
segundo. O objetivo dessa encíclica, no entanto, é promover a
unificação entre os dois amores, considerados como dois aspectos do
mesmo amor. “Somente quando as duas dimensões estão
verdadeiramente unidas, é que o homem atinge sua estatura perfeita.
Somente então o amor – eros – é capaz de amadurecer e atingir
sua grandeza autêntica” (§ 5).
Esse princípio é cheio de conseqüências, tão perigosas para a alma
quanto ilusórias para a inteligência. É o desenvolvimento da
nova teologia de João Paulo II sobre o corpo, em que a sensualidade,
apesar de disciplinada e de estar acima da sexualidade grosseira do
prazer fugaz, está integrada no todo da dignidade da pessoa humana,
ou nossa “completa liberdade existencial” (id.) como
Bento XVI coloca. Tenta-se fazer uma nova síntese, um meio termo
entre o cristianismo do passado, com razão “criticado por ter se
oposto ao corpo” (ib.) e a exaltação contemporânea do corpo que
denigre a pessoa humana.
Mas por quê? Por que tentar uma nova compreensão do amor que
pretende criar uma ponte sobre o abismo impossível de transpor entre
a caridade ensinada por Cristo, infundida na alma pela graça (cf. Jo.
13, 34: “Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros
como Eu vos amei”), e a noção pagã de amor, sensual, que busca a si
próprio? Não apenas para encontrar “pontos de contato com a
experiência de amor humano comum” (§ 7), mas muito mais do que
isso. Para mostrar que eles são a mesma coisa, para tentar mostrar
que “ amor é uma única realidade” (§ 8), que há uma “inseparável
conexão” e que “quanto mais os dois (eros e ágape)
encontrarem uma unidade conveniente na única realidade do amor, mais
a verdadeira natureza do amor em geral é realizada” (§ 8). Ora,
a Igreja sempre ensinou que uma caridade verdadeiramente ordenada,
que começa com o amor de Deus tem que necessariamente incluir o amor
de si mesmo, e em particular do verdadeiro bem de si mesmo, a
própria salvação eterna. Mas isso significa necessariamente a
mortificação do amor-próprio através da aceitação de abraçar a cruz:
“Aquele que quer vir após Mim, negue-se a si mesmo e tome a sua cruz
e siga-me” (Mt. 16, 24). Qualquer um que freqüenta regularmente o
sacramento de penitência pode dar testemunho da realidade dessa
batalha contra o amor-próprio.
Naturalismo
Mas novamente, temos de pergunta por quê. Por que tentar unir como
se fossem um, dois movimentos da vontade que estão freqüentemente em
oposição, de um lado a natureza decaída que busca sua vantagem
própria e de outro lado a graça, que busca a santa vontade de Deus?
Por que tentar estabelecer que o amor com que o homem é criado “que
em primeira instância é manifestado acima de tudo como eros
entre o homem e a mulher, tem de ser transformado interiormente,
mais tarde, em ágape, em dádiva de si ao outro para
responder precisamente à natureza autêntica do eros”
, como Bento XVI afirmou ser o objetivo da encíclica? Por que ir tão
longe e identificar o amor da infinita Bondade, dando-Se por pura
generosidade a suas criaturas, sem nenhuma possibilidade de buscar
vantagem para Si próprio, com o amor que busca a si mesmo, eros?
Mas é isso exatamente que Bento XVI faz: “Deus ama, e Seu
amor pode certamente ser chamado de eros, e ele é também
totalmente ágape” (§ 9). Por que tentar juntar em só um
desses dois tipos de amor totalmente diferentes um do outro?
Só
pode haver uma explicação para esse esforço: para radicalmente
obscurecer a distinção que existe entre a ordem natural (o amor
humano) e a ordem sobrenatural (caridade infusa). Este é o
verdadeiro objetivo dessa encíclica e é assim que ela serve para
obnubilar a distinção entre a Igreja Católica e qualquer outra
religião, e promover um humanitarismo mais elevado, não simplesmente
“um tipo de atividade para o bem-estar” (§ 25), como no caso
de empreendimentos puramente seculares.
A
negação prática do pecado original acompanha necessariamente essa
recusa de fazer distinção entre o amor de si mesmo e o amor cristão
que se sacrifica, consumado na cruz. A encíclica não apensas deixa
de mencionar completamente o pecado original, e especialmente as
feridas de fraqueza, concupiscência, ignorância e malícia, que são
um obstáculo contínuo em nosso caminho, tornando tão difícil a
prática da caridade verdadeira, sobrenatural. Além disso, a
encíclica tem a ousadia de comparar todo o relato da criação no
Gênesis a um mito grego, apesar de fazer essa distinção: “a
narrativa bíblica não fala de castigo” (§ 11). E a expulsão do
paraíso, e a perda dos dons preternaturais de imortalidade e
integridade? Não foram um castigo de Deus? Eis exatamente o que
Bento XVI tem a dizer sobre a criação de Eva da costela de Adão:
“Aqui podem-se detectar indícios de idéias que também são
encontradas, por exemplo, no mito mencionado por Platão, segundo o
qual o homem era originalmente esférico, porque era completo em si
mesmo e auto-suficiente. Mas por um castigo ao orgulho, ele foi
dividido em dois por Zeus, e assim ele tem necessidade de sua outra
metade, lutando com todo seu ser para possuí-la e desse modo,
recobrar sua integridade. Apesar de não falar em castigo, a
narrativa bíblica apresenta a idéia de que o homem é de certa
maneira incompleto, e é levado pela natureza a buscar num outro o
que poderá completá-lo: a idéia de que somente em comunhão com o
sexo oposto ele poderá tornar-se ‘completo’” (§ 11).
Um
novo humanismo
Como pode uma tal explicação do amor conjugal não ser vista como
uma negação da divina inspiração da Sagrada Escritura? Para essa
encíclica, o amor conjugal católico não é mais o amor sagrado,
sobrenatural, a participação no mistério da cruz que é descrito por
São Paulo na carta aos Efésios (5, 22-27 & 32), a graça sacramental
de um dos sete sacramentos. Não, é uma fenômeno puramente natural,
comum a toda humanidade. É o desenvolvimento do amor de si mesmo,
possibilitando ao homem descobrir sua própria humanidade:
“Primeiro, eros está de certo modo enraizado na natureza do
homem; Adão é um desbravador que “abandona sua mãe e seu pai” para
encontrar uma mulher; somente juntos os dois representam a
humanidade completa e se tornam “uma carne”. O segundo aspecto é
igualmente importante. Do ponto de vista da criação, eros
leva o homem em direção ao casamento, a um laço que é único e
definitivo; assim, e somente assim, a criação atinge seu objetivo
mais profundo... O casamento baseado no amor exclusivo e definitivo
torna-se o ícone do relacionamento entre Deus e seu povo e
vive-versa” (§ 11).
O
casamento assim considerado é um voto pessoal, ditado pelo impulso
natural de buscar o próprio bem, mas compreende-se que só se pode
atingir esse bem verdadeiramente se o casamento for indissolúvel e
exclusivo, isto é, uma relação monogâmica para a vida toda. Essa
consideração é verdade na ordem natural, mas falta-lhe profundidade
em termos sobrenaturais. Onde estão o amor que se sacrifica e a
verdadeira caridade da cruz que caracterizam cada um dos casamentos
realmente católicos? E onde fica o estado de virgindade consagrada?
De acordo com essa filosofia, uma pessoa que nega a inclinação
natural para o casamento para amar de um modo puramente sobrenatural
poderá ser considerada tão completa quanto a que se casa? Certamente
uma concepção tão naturalista do amor destrói o grande sinal da
santidade da Igreja que é o voto de castidade perpétua proferido por
todos os padres e religiosos, cumprindo a palavra de Nosso Senhor: “Há
eunucos que se fizeram a si mesmos eunucos pelo reino dos céus. Quem
pode compreender, compreenda” (Mt. 19, 12).
Essa encíclica é uma promoção de um novo humanismo, numa tentativa
de fusão entre o amor de si mesmo e o amor de Deus, entre a natureza
e a graça, entre a criação e a revelação, e o Papa Bento XVI não faz
a menor distinção entre esses termos. Ele proclama que a Antiga Lei
era “o caminho que leva ao verdadeiro humanismo” (§ 9). Ele
explica isso abertamente na segunda parte da encíclica, de modo
algum separada da primeira, em que descreve “as atividades da
Igreja a serviço do homem” (§ 30). Aqui ele afirma que a Igreja
deve estar sempre disposta a cooperar com outras iniciativas
não-católicas de caridade “pois todos nós temos a mesma motivação
fundamental e visamos ao mesmo objetivo: um humanismo verdadeiro,
que reconhece que o homem é feito à imagem de Deus e quer ajudá-lo a
viver em conformidade com essa dignidade” (id.).
Notem a ausência da ordem sobrenatural, e portanto, de qualquer
característica verdadeiramente católica dessa atividade. Ela
significa que a “caridade” católica só pode ser dirigida para
ajudar as pessoas a se tornarem indivíduos melhores, e expressarem
sua dignidade através de sua liberdade de expressão, e também
experimentando os confortos e facilidades dessa vida terrena. Não se
leva em conta a salvação eterna, nem é esse o propósito de tais
atividades caritativas. A conseqüência é radical. É imoral praticar
atos de caridade com o objetivo de encorajar alguém a se converter à
Fé católica, como os missionários sempre fizeram na história da
Igreja, acreditem ou não! É isso que o Papa diz: “A
caridade, além disso, não pode ser usada como meio de engajar no que
hoje em dia é considerado proselitismo. O amor é livre; não é
praticado como modo de alcançar outros fins”
(§ 31).
A
outra conseqüência desse humanismo é que seria imoral fazer atos de
caridade que promovessem os princípios católicos na ordem civil, ou
de algum modo mantivessem a unidade da Igreja e do Estado que os
Papas constantemente ensinaram até o Vaticano II. Ao contrário, o
parágrafo 28 mostra que a Igreja tem quem aceitar “a
autonomia da esfera temporal”
(= pura secularização) e o Estado “tem
que garantir a liberdade religiosa e a harmonia entre os seguidores
das diferentes religiões”
e simplesmente reconhecer a Igreja como uma comunidade de fé (=
liberdade religiosa) e de modo algum como a única verdadeira Igreja,
estabelecida pelo próprio Cristo (= liberalismo).
É
difícil ver como essas teorias do amor não levem a uma forma de “imanência
vital” condenada por São Pio X sob o nome de modernismo:
“A
questão não é mais aquela do velho erro que pretendia exigir
para a natureza humana uma espécie de direito ao sobrenatural. Ela
vai mais além, e chegou a ponto de afirmar que nossa sagrada
religião, no Cristo-homem e em nós, emana da natureza
espontaneamente e por si mesma. Com certeza nada poderia ser mais
destrutivo para toda a ordem sobrenatural” (Pascendi, § 10).
O
Papa Pio XII expressou a mesma preocupação em sua encíclica de 1950
sobre “Opiniões falsas que ameaçam minar os fundamentos da
doutrina católica”.
“Outros destroem a gratuidade da ordem sobrenatural, desde que
Deus, dizem, não pode criar seres intelectuais sem ordená-los e
chamá-los à visão beatífica. Isso não é tudo. Desprezando o Concílio
de Trento, alguns pervertem o próprio conceito de pecado original, o
conceito de pecado em geral como ofensa a Deus... Alguns reduzem a
uma fórmula sem sentido a necessidade de pertencer à verdadeira
Igreja” (§ 26 & 27).
Preferimos aprender nossas lições de caridade com a grande
encíclica do Papa Pio XI, impelido pela caridade de Cristo (Caritate
Christi compulsi), publicada na época da Grande Depressão, em
1932. Ao mesmo tempo em que deplorava as injustiças da época, ele
imediatamente acertou no alvo, o egoísmo sórdido, o amor de si mesmo
desordenado, cujo exemplo mais marcante era o amor do dinheiro, raiz
de todos os males (I Tim. 6, 10), que continua presente até agora. A
resposta sobrenatural, os atos de caridade praticados por uma
criatura que compreende sua dependência absoluta, são a oração e a
penitência. Oração, em primeiro lugar, porque é ela quem remove os
obstáculos à prática da caridade, isto é, a consideração de si
próprio como centro de tudo, a auto-suficiência, e o desejo dos bens
terrenos e de sucesso. Só passando por cima disso é possível chegar
à paz, fruto da caridade. Mas à oração tem de se acrescentar a
penitência, como Nosso Divino Salvador pregou desde o início: “Também
é o ensinamento de toda a Tradição cristã, de toda a história da
Igreja”.
Pio XI insistiu que a caridade requer de nós penitência e a
expiação do pecado, incitando os fiéis a renovar o ato de reparação
amorosa pelos pecados pedida pelo Sagrado Coração. Deplorando o fato
de que o desejo de fazer reparação pelos pecados já naquele tempo
não inspirava mais esforços de generosidade como antes, devido à
orgulhosa independência do homem moderno, ele continua: “A defesa
de Deus e da religião, pelo que estamos lutando, fazem disso um
dever. A penitência, na verdade, é por sua própria natureza, um
reconhecimento e uma restauração da ordem moral no mundo, dessa
ordem moral que é fundada na lei eterna, ou seja, no Deus vivo”.
Que seja esse o foco de nossa verdadeira caridade sobrenatural
durante a Quaresma.: antes de tudo pelas orações pessoais, terços e
sacrifícios pelos quais mortificamos nosso amor próprio, mas também
oferecendo tudo isso, e também nosso tempo, nossos bens, dinheiro,
posses e doações pelo bem de outras almas, membros ou membros
potenciais do Corpo Místico de Cristo. Assim nossos esforços nos
elevarão à divinamente sublime generosidade da cruz, lembrando que o
único amor capaz de salvar o mundo é o de um Deus sofredor, e que é
nessa caridade que nós cremos (I Jo. 4, 16).
Unidos no Sagrado e Coração de Nosso Senhor Crucificado,
Padre
Peter R. Scott, FSSPX