25 anos de
pontificado
1. O 25º aniversário da eleição de João
Paulo II é ocasião para refletir na orientação fundamental que o
Papa deu ao seu pontificado. Na seqüência do Concílio Vaticano II,
quis colocá-lo sob o signo da unidade: «A restauração da unidade de
todos os cristãos era um dos fins principais do II Concílio do
Vaticano (cf. UR nº 1) e, desde a minha eleição, empenhei-me
formalmente em promover a execução das suas normas e das suas
orientações, considerando que tal era para mim um dever primordial»
[1]. Essa “restauração da unidade dos cristãos” marcou, segundo João
Paulo II, um passo em direção a uma unidade maior, a da família
humana inteira: «A unidade dos cristãos está aberta sobre uma
unidade sempre mais vasta, a da família humana inteira» [2].
2. Em razão desta escolha fundamental:
- João Paulo II estimou dever «retomar em mãos
essa “magna carta” conciliar que é a Constituição Dogmática Lumen
gentium» [3], a qual definiu a Igreja como um «sacramento, quer
dizer, simultaneamente sinal e meio da união íntima com Deus
e da unidade de todo o gênero humano» [4]. Essa
“retomada em mãos” era feita com vista a «realizar sempre melhor a
comunhão vital em Cristo de todos os que crêem e esperam n'Ele, mas
igualmente com vista a contribuir para uma mais ampla e mais forte
unidade da família humana inteira» [5];
- João Paulo II consagrou o essencial do seu
pontificado à prossecução dessa unidade, multiplicando encontros
inter-religiosos, arrependimentos e gestos ecumênicos. Esta foi
também a principal razão das suas viagens: «elas permitiram alcançar
as Igrejas particulares em todos os continentes, levando-lhes uma
atenção sustentada no desenvolvimento das relações ecumênicas com os
cristãos das diferentes Confissões» [6];
- João Paulo II deu o ecumenismo como traço
característico do Jubileu do ano 2000 [7].
Em completa verdade, pois, «pode dizer-se que
toda a atividade das Igrejas locais e da Sé Apostólica tiveram estes
últimos anos uma inspiração ecumênica» [8]. Hoje, passaram-se vinte
e cinco anos, o Jubileu acabou: soou a hora do balanço.
3. Durante muito tempo, João Paulo II
creu que o seu pontificado seria um novo Advento [9], permitindo «na
alvorada deste novo milênio erguer-se sobre uma Igreja que
reencontrou a sua plena unidade» [10]. Então, ter-se-ia realizado o
«sonho» do Papa: «Todos os povos do mundo em marcha de diferentes
lugares da Terra, para se reunirem junto do Deus único como uma só
família» [11]. A realidade é completamente outra: «O tempo em que
vivemos mostra-se como uma época de desvario [em que] muitos homens
e mulheres parecem desorientados» [12]. Por exemplo, reina na Europa
uma «espécie de agnosticismo prático e de indiferentismo religioso,
a ponto de a cultura européia dar a impressão de uma “apostasia
silenciosa”» [13]. O ecumenismo não é estranho a esta situação. A
análise do pensamento de João Paulo II (1ª parte) far-nos-á
verificar, não sem profunda tristeza, que a prática ecumênica é
herdade de um pensamento estranho à doutrina católica (2ª parte), e
leva à “apostasia silenciosa” (3ª parte).
Capítulo I
ANÁLISE DO PENSAMENTO ECUMÊNICO
A unidade do gênero humano e o diálogo
inter-religioso
Cristo, unido a cada homem
4. Na base da concepção do Papa
encontra-se a afirmação segundo a qual «Jesus Cristo [que] “Se uniu
de uma certa maneira a todos os homens” (Gaudium et spes, nº
22), mesmo se estes disso não estiverem conscientes» [14]. Com
efeito, João Paulo II explica que a Redenção trazida por Cristo é
universal, não somente no sentido de que é superabundante para todo
o gênero humano e que é proposta a cada um dos seus membros em
particular, mas, sobretudo, porque é aplicada, de fato, a todos os
homens: logo, se por um lado, «em Cristo, a religião já não é uma
“procura de Deus como às apalpadelas” (Atos 17, 27), mas uma
resposta da fé a Deus que Se revela [...], resposta tornada possível
por este Homem único [...] em que todo o homem se tornou capaz de
responder a Deus, por outro, o Papa acrescenta [que] neste Homem, a
criação inteira responde a Deus» [15]. Com efeito, «cada um foi
incluído no mistério da Redenção, e Jesus Cristo uniu-se a cada um,
para sempre, através deste mistério. [...] É isso, o homem em toda a
plenitude do mistério do qual se tornou participante em Jesus Cristo
e do qual participa cada um dos quatro bilhões de homens vivendo no
nosso planeta, desde o instante da sua concepção» [16]. Desta forma,
«no Espírito Santo, cada pessoa e cada povo tornaram-se, pela Cruz e
Ressurreição de Cristo, filhos de Deus, participantes na natureza
divina e herdeiros da vida eterna» [17].
O Congresso de Assis
5. Este universalismo da Redenção
encontra a sua aplicação imediata na maneira com a qual João Paulo
II pratica as relações entre a Igreja Católica e as outras
religiões. Com efeito, se a ordem da unidade descrita «é aquela que
remonta à criação à redenção e se é, portanto, neste sentido,
“divina”, estas diferenças e estas divergências [citadas
anteriormente], mesmo religiosas, devem-se, sobretudo, a um “fato
humano”» [18] e devem, assim, «ser ultrapassadas no progresso para o
grandioso desígnio de unidade que preside à criação» [19]. Daí as
reuniões inter-religiosas como a de Assis, em 27 de outubro de 1986,
na qual o Papa quis desvendar «de maneira visível, a unidade
escondida mas radical que o Verbo Divino [...] estabeleceu entre os
homens e as mulheres deste mundo» [20]. Com tais gestos, o Papa
entende fazer proclamara à Igreja que «Cristo é a realização da
aspiração de todas as religiões do mundo e, por isso mesmo, delas é
fim único e definitivo» [21].
A Igreja
de Cristo e o Ecumenismo
A única Igreja de Cristo
6. Uma ordem dupla: unidade divina
permanecendo inviolada, e divisões históricas que não derivam senão
do humano; tal é ainda a grelha aplicada à Igreja, considerada como
comunhão. Com efeito, João Paulo II distingue a Igreja de Cristo,
realmente divina, das diferentes Igrejas, frutos das “divisões
humanas” [22]. A Igreja de Cristo, de contornos assaz mal definidos
pelo fato de exceder os limites da Igreja Católica [23], é uma
realidade interior [24]. Ela reúne pelo menos o conjunto dos
cristãos [25], qualquer que seja a sua pertença eclesial: todos são
«discípulos de Cristo» [26], «numa pertença comum a Cristo» [27],
eles «são um porque, no Espírito, estão na comunhão do Filho e,
n'Ele, na comunhão com o Pai» [28]. A Igreja de Cristo é, assim,
comunhão dos santos, para além das divisões: «A Igreja é Comunhão
dos Santos» [29]. Com efeito, «A comunhão na qual os cristãos crêem
e esperam é, na sua realidade mais profunda, a sua unidade com o Pai
por Cristo e no Espírito Santo. Desde o Pentecostes é dada e
recebida na Igreja, comunhão dos santos» [30].
As divisões eclesiais
7. Conforme João Paulo II, as divisões
eclesiais acontecidas no decurso da História não teriam afetado a
Igreja de Cristo, ou, dito de outro modo, teriam deixado inviolada a
unidade radical dos cristãos entre eles: «Pela graça de Deus, o que
pertence à estrutura da Igreja de Cristo contudo não foi destruído,
nem a comunhão que permanece com as outras Igrejas e Comunidades
eclesiais» [31]. Com efeito, estas divisões são de outra ordem; só
respeitam à manifestação da comunhão dos santos, o que a
torna visível: os tradicionais laços da profissão de fé, dos
sacramentos e da comunhão hierárquica. Recusando um ou outro destes
laços, as Igrejas separadas não ferem senão comunhão visível
com a Igreja Católica, e somente de maneira parcial: esta última
comunhão é capaz de mais ou menos, conforme um maior ou menor número
de laços tiverem sido salvaguardados. Falar-se-á então de comunhão
imperfeita entre as Igrejas separadas e a Igreja Católica,
permanecendo salva a comunhão de todas na única Igreja de Cristo
[32]. A expressão “Igrejas irmãs” será utilizada frequentemente
[33].
8. Segundo essa concepção, o que une
entre elas as diferentes Igrejas cristãs é maior do que o que as
separa [34]: «O espaço espiritual comum vence muitas barreiras
confessionais que ainda nos separam um dos outros» [35]. Este espaço
espiritual, eis a Igreja de Cristo. Se esta não «subsiste» [36] «em
um único sujeito» [37] senão na Igreja Católica, não deixa de manter
uma presença ativa nas Comunidades separadas, em virtude dos
«elementos de santificação e de verdade» [38] que nelas estão
presentes. É este pretendido espaço espiritual comum que João Paulo
II quer consolidar com a publicação de um martirológio comum às
Igrejas: «O ecumenismo dos santos, dos mártires, é talvez o que mais
convence. A voz da communio sanctorum é mais forte que a dos
fautores de divisão» [39].
Nem absorção nem fusão, mas dom recíproco
9. Portanto, «o fim último do movimento
ecumênico não é senão o restabelecimento da plena unidade
visível de todos os batizados» [40]. Tal unidade não mais se
realizará pelo “ecumenismo de regresso” [41]: «Rejeitamo-lo como
método de procura de unidade. [...] A ação pastoral da Igreja
Católica, tanto latina como oriental, já não tende a fazer passar os
fiéis de uma Igreja para outra» [42]. Com efeito, seria esquecer
duas coisas:
- Estas divisões, que o Concílio Vaticano II
analisa como faltas de caridade [43], são imputáveis a uma e outra
parte: «Evocando a divisão dos cristãos, o decreto sobre o
ecumenismo não ignora “a falta dos homens de uma e outra parte”,
reconhecendo que a responsabilidade não pode ser atribuída
unicamente “senão aos outros (UR, 3)”» [44].
- O ecumenismo é também «troca de dons» [45]
entre as Igrejas: «A troca de dons entre as Igrejas, na sua
complementaridade, torna fecunda a comunhão» [46].
É por isso que a unidade desejada por João
Paulo II «não é absorção nem mesmo fusão» [47]. Aplicando este
princípio às relações entre a Igreja Católica e os ortodoxos, o Papa
expõe: «As duas Igrejas irmãs do Oriente e do Ocidente compreendem
hoje que sem uma escuta recíproca das razões profundas que tendem em
cada uma delas à compreensão do que as caracteriza, sem um dom
recíproco dos tesouros do gênio que cada uma é portadora, a Igreja
de Cristo não pode manifestar a plena maturidade da forma que
recebeu no início, no Cenáculo» [48].
A recomposição da unidade visível
10. «Do mesmo modo que na família as
eventuais dissensões devem ser ultrapassadas pela recomposição da
unidade, é assim que se deve fazer na família mais vasta da
comunidade cristã inteira» [49]. Ultrapassar as dissensões humanas
pela recomposição da unidade visível, tal é a metodologia do Papa.
Será necessário aplica-la nos três laços tradicionais da profissão
de fé, dos sacramentos e da comunhão hierárquica, porque são eles
que constituem a visibilidade da unidade.
A unidade dos sacramentos
11. Sabe-se como Paulo VI entregou a
essa tarefa em matéria de sacramentos: nas sucessivas reformas
litúrgicas que aplicaram os decretos conciliares, «a Igreja foi
guiada [...] pelo desejo de tudo fazer para facilitar aos nossos
irmãos separados o caminho da união, afastando qualquer pedra que
pudesse constituir nem que fosse a sombra de um risco de tropeço ou
de desagrado» [50].
12. Afastado, assim, o obstáculo de uma
liturgia católica demasiado expressiva do dogma, faltava ultrapassar
a dificuldade das liturgias das comunidades separadas. A reforma
cedeu, então, o lugar ao reconhecimento: se bem que não contenha as
palavras consagratórias, a anáfora assíria (nestoriana) de Addaï e
Mari foi decretada válida num documento expressamente aprovado por
João Paulo II [51].
A unidade na profissão de fé
13. Em matéria de fé, João Paulo II
estima que, muito frequentemente, «as polêmicas e as controvérsias
intolerantes transformaram em afirmações incompatíveis o que era de
fato o resultado de dois olhares perscrutando a mesma realidade, mas
de dois pontos de vista diferentes. É preciso encontrar hoje a
fórmula, que aprendendo esta realidade integralmente, permite
ultrapassar as leituras parciais e eliminar as interpretações
erradas» [52]. Isto reclama uma certa latitude em relação às
fórmulas dogmáticas até aqui empregadas pela Igreja. Recorre-se,
portanto, ao relativismo histórico, a fim de tornar as fórmulas
dogmáticas dependentes da sua época: «As verdades que a Igreja
entende realmente ensinar pelas suas fórmulas dogmáticas são sem
dúvida distinta das concepções mutáveis próprias de uma época
determinada; mas não se exclui que sejam eventualmente formuladas,
mesmo pelo Magistério, em termos que transportem os traços de tais
concepções» [53].
14. Duas aplicações destes princípios
são citadas com freqüência. No caso da heresia nestoriana, João
Paulo II estima que «as divisões que se produziram eram devidas em
larga medida a mal entendidos» [54]. Com efeito, se é claro o
princípio afirmando que «em primeiro lugar, perante as formulações
doutrinais que se separam das fórmulas em uso na comunidade à qual
pertencem, convém manifestamente discernir se as palavras não cobrem
um conteúdo idêntico» [55], é pervertida a aplicação que dele é
feita. É assim o reconhecimento de fé cristológica da Igreja Assíria
do Oriente, sem que lhe tenha sido reclamada a adesão à fórmula de
Éfeso, segundo a qual Maria é Mãe de Deus, despreza as condenações
anteriores, sem ter em conta a sua característica de infalibilidade
[56]. Mais característica ainda é a declaração comum com a Federação
Luterana Mundial. O seu cuidado não foi afirmar a fé e afastar o
erro, mas somente encontrar uma formulação apta a escapar aos
anátemas do Concílio de Trento: «Esta declaração comum é apresentada
na convicção de que a ultrapassagem das condenações e das
questões até então controversas não significa que as
separações e as condenações sejam tomadas com ligeireza ou que o
passado de cada uma das nossas tradições eclesiais seja
desautorizado. É apresentada, no entanto, na convicção de que
novas apreciações acontecem na história das nossas Igrejas»
[57]. Numa bem simples palavra, o Cardeal Kasper comentará essa
declaração: «Ali onde tínhamos visto inicialmente uma contradição,
podemos ver uma posição complementar» [58].
A comunhão hierárquica
15. Quanto ao ministério de Pedro, os
desejos pontifícios são conhecidos, encontrar, de concerto com os
pastores e teólogos das diferentes Igrejas, «as formas pelas quais
este ministério poderá realizar um serviço de amor reconhecido por
uns e outros» [59]. Introduzir-se-á, então, o regulador da
necessitas Ecclesiæ [60], compreendido hoje como realização da
unidade dos cristãos, para atenuar o que, no exercício do ministério
petrino, poderia ser obstáculo ao ecumenismo.
16. Segundo o Cardeal Kasper, esta
diligência não basta. É preciso ainda ultrapassar os obstáculos
presentes nas comunidades separadas, por exemplo, a decretada
invalidade das ordenações anglicanas [61]. A pista para que para
isso propõe é uma redefinição do conceito de sucessão apostólica,
não já «no sentido de uma cadeia histórica de imposição das mãos
remontando através dos séculos a um Apóstolo – seria uma visão muito
mecânica e individualista», mas como «participação colegial num
colégio que, como um todo, remonta aos Apóstolos pela partilha da
mesma fé apostólica e pela mesma missão apostólica» [62].
Capítulo II
OS PROBLEMAS DOUTRINAIS
COLOCADOS
PELO ECUMENISMO [63]
17. A prática ecumênica deste
pontificado repousa inteiramente sobre a distinção Igreja de Cristo
/ Igreja Católica, a qual permite avançar que, se a comunhão visível
foi ferida por divisões eclesiais, a comunhão dos santos,
considerada como partilha dos bens espirituais na comum união a
Cristo, não foi quebrada. Ora, esta afirmação não se mantém perante
a fé católica.
A Igreja de Cristo é a Igreja Católica
18. Não se pode distinguir a Igreja de
Cristo da Igreja Católica, assim como supõe a prática ecumênica.
Pelo próprio fato de ser considerada como realidade interior, essa
“Igreja Corpo de Cristo”, distinta realmente da Igreja Católica,
junta-se à noção protestante de uma «Igreja invisível para nós,
visível só aos olhos de Deus» [64]. É contrária aos ensinamentos
constantes da Igreja. Leão XIII, falando da Igreja, afirma, por
exemplo: «é porque [a Igreja] é corpo que ela é visível aos nossos
olhares» [65]. Pio XI não diz outra coisa: «A Sua Igreja, Cristo
Nosso Senhor estabeleceu-a como sociedade perfeita,
exterior por natureza e perceptível aos sentidos» [66]. Pio XII
concluirá então: «É afastar-se da verdade divina imaginar uma Igreja
que não se poderá ver nem tocar, que não seria senão “espiritual” (pneumaticum),
na qual as numerosas comunidades cristãs, ainda que divididas entre
si pela fé, seriam, apesar disso, reunidas por um laço invisível»
[67].
19. Ora bem, a fé católica obriga a
afirmar a identidade da Igreja de Cristo e da Igreja Católica. É o
que faz Pio XII identificando «o Corpo Místico de Jesus Cristo com
essa verdadeira Igreja de Jesus Cristo – a que é santa, católica,
apostólica, romana» [68]. Antes dele, o Magistério havia afirmado
que «não há outra Igreja além da que, construída exclusivamente
sobre Pedro, em um corpo unido e agrupado [entenda-se, visível],
ergue-se na unidade da fé e da caridade» [69]. Recordemos, enfim, a
exclamação de Pio IX: «Não há, com efeito, senão uma única religião
verdadeira e santa, fundada por Cristo Nosso Senhor. Mãe e ama das
virtudes, destruidora dos vícios, libertadora das almas, indicadora
da verdadeira felicidade; chama-se: Católica, Apostólica e Romana»
[70]. No seguimento de um magistério constante e universal, o 1º
esquema preparatório do Vaticano I tinha legitimidade para avançar
este cânone condenatório: «Se alguém disser que a Igreja, a quem
foram feitas as promessas divinas, não é uma sociedade
(coetus) externa e visível de fiéis, mas uma sociedade
espiritual de predestinados ou de justos só conhecidos de Deus, seja
anátema» [71].
20. Por via de conseqüência, a proposição
do Cardeal Kasper segundo a qual: «A verdadeira natureza da Igreja –
a Igreja na qualidade de Corpo de Cristo – está escondida e não é
apreendida senão pela fé» [72] é certamente herética. Acrescentar
que «essa natureza apreensível unicamente pela fé se atualiza sob
formas visíveis: na Palavra proclamada, na administração dos
sacramentos, nos ministérios e no serviço cristão» [73] é
insuficiente para dar conta da visibilidade da Igreja: “tornar-se
visível” – ainda mais, por simples atos – não é “ser visível”.
A pertença à Igreja pela tripla unidade
21. Visto que a Igreja de Cristo é
a Igreja Católica, não se pode afirmar com os partidários do
ecumenismo que a tripla unidade de fé, dos sacramentos e de comunhão
hierárquica não é necessária senão unicamente à comunhão visível
da Igreja, sendo esta asserção tomada no sentido de que: na ausência
de um destes laços, manifesta-se ruptura da comunhão visível da
Igreja, mas não significaria a separação vital com a Igreja. É preciso, pelo
contrário, afirmar que estes três laços são constitutivos da
unidade da Igreja, não no sentido de que um só uniria à Igreja, mas
pelo fato de que se um só destes três laços não for possuído in
re vel saltem in voto [74], aquele a quem ele faltaria estaria
separado da Igreja e não beneficiaria da vida sobrenatural. É o que
a fé católica obriga a crer, tal como se mostra a seguir.
Unidade de fé
22. Se a necessidade da fé é por todos
admitida [75], é necessário ainda precisar a natureza dessa fé que é
necessária à salvação, logo, constitutiva da pertença à Igreja. Não
é «este sentimento íntimo criado pela necessidade divina»,
denunciado por São Pio X [76], mas bem essa fé descrita pelo
Concílio Vaticano I: «uma virtude sobrenatural pela qual, sob a
inspiração e com o socorro da graça de Deus, cremos que o que nos
foi revelado por Ele é verdadeiro: nós cremo-lo não por causa da
verdade intrínseca das coisas vistas à luz natural da nossa razão,
mas por causa da mesma autoridade de Deus que nos revela essas
verdades e que não pode enganar-Se nem enganar-nos» [77]. É por isso
que aquele que recusa nem que seja uma só verdade de fé conhecida
como revelada perde totalmente a fé necessária à salvação: «Aquele
que, mesmo sobre um só ponto, recusa o seu assentimento às verdades
divinamente reveladas, realmente abdica completamente da fé, pois
recusa submeter-se a Deus que é a soberana Verdade e o motivo
próprio de fé» [78].
Unidade de governo
23. «A fim de manter sempre na Sua
Igreja esta unidade de fé e de doutrina, Ele [Cristo] escolheu um
homem entre todos os outros, Pedro... » [79]: é assim que Pio IX
apresenta a necessidade de unidade na cátedra de Pedro, «dogma da
nossa divina religião [que] sempre foi pregado, defendido, afirmado
com coração e voz unânime pelos Padres e Concílios de todos os
tempos». No seguimento dos Padres, o mesmo Papa expõe: «é dela [a
cátedra de Pedro] que decorrem, sobre todos os direitos à união
divina [80]; [...] aquele que a deixa não pode esperar permanecer na
Igreja [81], aquele que come o Cordeiro fora dela não tem parte com
Deus» [82]. Daí a célebre palavra que Santo Agostinho dirige aos cismáticos: «O que é vosso, é que tivestes a impiedade de
separar-vos de nós; porque, se em tudo o resto pensais e possuis a
verdade, perseverando, apesar disso, na vossa separação [...] não
vos falta senão o que falta àquele a quem a caridade faz falta»
[83].
Unidade de sacramentos
24. «Quem crer e for batizado
será salvo» [84]. Por esta palavra de Nosso Senhor, todos
reconhecemos a necessidade, além da unidade de fé e de propósito, de
uma «comunidade [...] de meios adequados ao propósito» [85] para
constituir a unidade da Igreja: os sacramentos. Assim, tal é «a
Igreja Católica [que Cristo instituiu], adquirida com o Seu Sangue,
como única morada de Deus vivo [...] o corpo único animado e
vivificado por um Espírito único, mantido na coesão e na concórdia
pela unidade de fé, de esperança e de caridade, pelos laços dos
sacramentos, do culto e da doutrina» [86].
Conclusão
25. A união deste triplo laço obriga,
assim, a crer que «aquele que recusa ouvir a Igreja deve ser
considerado, segundo a ordem do Senhor, “como pagão e publicano” (Mt.
18,17) e aqueles que estão divididos por razões de fé ou de governo
não podem viver nesse mesmo Corpo nem, por conseqüência, desse mesmo
Espírito divino» [87].
Fora da Igreja não há salvação
Os não católicos são membros da Igreja?
26. Em conseqüência do que acaba de ser
dito, a proposição seguinte: «aqueles [nascidos fora da Igreja
Católica, logo, não podendo “ser acusados de pecado de divisão”] que
crêem em Cristo e que receberam validamente o batismo, encontram-se
numa certa comunhão, se bem que imperfeita, com a Igreja Católica»,
a ponto de que «justificados pela fé recebida no batismo,
incorporados em Cristo, usam a justo título o nome de cristãos, e os
filhos da Igreja Católica reconhecem-nos com razão como filhos do
Senhor», enquanto que «divergências várias entre eles e a Igreja
Católica sobre questões doutrinais, por vezes disciplinares, ou
sobre a estrutura da Igreja, constituem numerosos obstáculos, por
vezes muito graves» [88], deve ser cuidadosamente pesada; se essa
proposição entende falar daqueles que permanecem nas suas
divergências, contudo conhecidas deles mesmo, é contrária à fé
católica. O inciso afirmando que «não podem ser acusados de pecado
de divisão» é, pelo menos, temerário: permanecendo exteriormente em
dissidência, nada indica que não aderem à divisão dos seus
predecessores, a aparência levando sobretudo a crer o contrário.
Presumir a boa fé não é aqui possível [89], conforme lembra Pio IX:
«É necessário admitir de fé que, fora da Igreja Apostólica Romana,
ninguém pode ser salvo. [...] No entanto é preciso reconhecer, por
outro lado, com certeza, que aqueles que estão em relação à
verdadeira religião numa ignorância invencível, não têm falta diante
do Senhor. Agora, na verdade, quem irá, na sua presunção, até marcar
as fronteiras dessa ignorância?» [90].
Há elementos de santificação e de verdade
nas comunidades separadas?
27. A afirmação segundo a qual
«numerosos elementos de santificação e de verdade» [91] se encontram
fora da Igreja, é equívoca. Supõe, com efeito, a eficácia
santificante dos meios de salvação materialmente presentes nas
Comunidades separadas. Ora, este propósito não pode ser afirmado sem
distinção. Entre estes elementos, os que não exigem disposição
específica da parte do sujeito – batismo de uma criança – são
efetivamente salvíficos, no sentido de que produzem eficazmente a
graça na alma do batizado, que então pertence à Igreja Católica de
pleno direito, enquanto não atinge a idade das escolhas pessoais
[92]. Quanto aos outros elementos, que exigem disposições da parte
do sujeito para serem eficazes, deve dizer-se que são salvíficas
somente na medida em que o sujeito já é membro da Igreja pelo seu
desejo implícito. É o que afirma a doutrina dos concílios. «Ela [a
Igreja] professa que a unidade do corpo da Igreja tem tal poder, que
os sacramentos da Igreja não têm utilidade em vista da salvação
senão para aqueles que nela permanecem» [93]. Ora, enquanto
separadas, estas comunidades opõe-se ao desejo implícito, único que
torna os sacramentos frutuosos. Não se pode dizer, portanto, dessas
comunidades, que possuem elementos de santificação e de verdade,
senão materialmente.
Serve-Se o Espírito Santo das comunidades
separadas como meios de salvação? As “Igrejas irmãs”
28. Não se pode afirmar que «o Espírito
de Cristo não recusa servir-Se delas [das comunidades separadas]
como meios de salvação» [94]. Com efeito, afirma Santo Agostinho:
«Não há senão uma Igreja, só ela chamada católica, e é ela que, nas
comunidades separadas da sua unidade, engendra pela virtude o que,
nessas seitas, permanece sua propriedade, seja o que for que ali
possua» [95]. A única coisa que estas comunidades separadas podem
realizar por sua própria virtude é a separação dessas almas da
unidade eclesial, como ainda indica Santo Agostinho: «Não é nada
vosso [o batismo], o que é vosso é que tendes sentimentos maus e
práticas sacrílegas, e que tivestes a impiedade de vos separardes de
nós» [96]. Na medida em que põe em causa a afirmação segundo a qual
a Igreja Católica é a única detentora dos meios de salvação, a
asserção do documento conciliar está próxima da heresia: se,
concedendo-lhes uma «significação e um valor no mistério da
salvação» [97], reconhece a essas comunidades separadas uma quase
legitimidade – tal como deixa entender a expressão “Igrejas irmãs”
[98] – vai num sentido oposto à doutrina católica, porque nega a
unicidade da Igreja Católica.
O que nos une é maior do que aquilo que
nos separa?
29. A proposição permanece verdadeira
materialmente, no sentido de que todos estes elementos são outros
tantos podendo servir de base a discussões visando a trazê-los para
a única família. Se as Comunidades separadas não são formalmente
detentoras dos elementos de santificação e de verdade – tal como foi
dito mais atrás – a proposição segundo a qual o que une os católicos
aos dissidentes é maior do que aquilo que os separa não pode ser
formalmente verdade, e por isso Santo Agostinho diz: «Em muitos
pontos eles estão comigo, somente em alguns não estão comigo; mas
por causa destes certos pontos nos quais se separam de mim, não lhes
serve de nada estarem comigo em tudo o resto» [99].
Conclusão
30. O ecumenismo não pode estar próximo
senão da “teoria dos ramos” [100] condenada pelo Magistério: «O seu
fundamento [...] é tal que inverte de cima a baixo a constituição
divina da Igreja» e a sua oração pela unidade, segundo «uma intenção
profundamente manchada e infectada pela heresia, não pode ser
absolutamente tolerada» [101].
Capítulo III
OS PROBLEMAS PASTORAIS
CAUSADOS PELO
ECUMENISMO
31. Além do fato de se apoiar em teses
heterodoxas, o ecumenismo é nocivo para as almas, no sentido em que
relativiza a fé católica, contudo indispensável à salvação, e
perverte a Igreja Católica, única arca de salvação. A Igreja
Católica não age mais como farol da verdade que ilumina os corações
e dissipa o erro, mas mergulha a humanidade numa bruma do
indiferentismo religioso, e em breve nas trevas da «apostasia
silenciosa» [102].
O ecumenismo cria o relativismo da fé
Relativiza as fraturas operadas pelos
heréticos
32. O diálogo ecumênico encobre o pecado
contra a fé que o herético comete – razão formal da ruptura – para
realçar o pecado contra a caridade, arbitrariamente imputado tanto
ao herético como ao filho da Igreja. Chega, por fim, a negar
o pecado contra a fé que constitui a heresia. É assim que João Paulo
II, sobre a heresia monofisita, afirma: «As divisões que se
produziram eram devidas em larga medida a mal-entendidos» [103],
acrescentando: «As formulações doutrinais que se separam das
fórmulas em uso [...] cobrem um conteúdo idêntico» [104]. Tais
afirmações negam na mesma proporção o Magistério, não obstante
infalível, que condenou essas heresias.
Pretende que a fé da Igreja pode ser
aperfeiçoada pelas “riquezas” do outro
33. Mesmo se o Concílio Vaticano II
precisa, ainda que em termos bem moderados, a natureza do
“enriquecimento” trazido pelo diálogo – «um conhecimento mais
conforme à verdade, ao mesmo tempo que uma consideração mais justa
do ensinamento e da vida de cada comunhão» [105] – a prática
ecumênica deste pontificado deforma esta afirmação para fazer dela
um enriquecimento da fé. A Igreja abandona um olhar parcial para
apreender a realidade integralmente: «As polêmicas e as
controvérsias intolerantes transformaram em afirmações incompatíveis
o que era de fato o resultado de dois olhares perscrutando a mesma
realidade, mas de dois pontos de vista diferentes. É preciso
encontrar hoje a fórmula que, apreendendo essa realidade
integralmente, permite ultrapassar leituras parciais e eliminar
interpretações erradas» [106]. É assim que «a troca de dons entre
Igrejas, na sua complementaridade, torna fecunda a comunhão»
[107]. Tais afirmações, pressupõem-se que a Igreja não é
definitivamente e integralmente depositária do tesouro da fé, não
são conformes à doutrina tradicional da Igreja. «Regressando à
Igreja, não perderão nada do bem que, pela graça de Deus, é
realizado neles até ao presente, mas pelo seu regresso esse bem será
mais (potius) completo e levado à perfeição. Evitar-se-á,
todavia, falar sobre este ponto de tal maneira que, regressando à
Igreja, eles imaginem trazer-lhe um elemento essencial que lhe teria
faltado até aqui» [108].
Relativiza a adesão a certos dados da fé
34. A suposta «hierarquia das verdades
da doutrina católica» [109] é certamente bem restabelecida
teologicamente pela Congregação para a Doutrina da Fé: ela
«significa que certos dogmas têm a sua razão de ser em outros que
ocupam o primeiro lugar e os esclarecem. Mas todos os dogmas, pois
que são revelados, devem igualmente ser cridos de fé divina» [110].
No entanto, a prática ecumênica de João Paulo II liberta-se desta
interpretação autêntica. Por exemplo, na sua mensagem à “Igreja”
evangélica, sublinha “o que importa”: «Sabeis que, durante dezenas
de anos, a minha vida foi marcada pela experiência dos desafios
lançados ao cristianismo pelo ateísmo e pela incredulidade. Tenho
tanto mais claramente diante dos olhos o que importa: a nossa comum
profissão de Jesus Cristo. [...] Jesus é a salvação de nós todos.
[...] Pela força do Espírito Santo, tornamo-nos seus irmãos,
verdadeiramente e essencialmente filhos de Deus. [...] Graças à
reflexão sobre a Confissão de Augsburgo e a múltiplos encontros,
tomamos uma nova consciência do fato que juntos cremos e professamos
tudo isso» [111]. Leão XIII condena este tipo de prática ecumênica,
que encontra o seu apogeu na Declaração sobre a Justificação:
«Sustentam que é oportuno, para ganhar os corações dos
desencaminhados, relativizar certos pontos de doutrina como sendo de
menor importância, ou de os atenuar ao ponto de não lhes deixar o
sentido ao qual a Igreja sempre se ateve. Não há necessidade de
longos discursos para mostrar quanto é condenável uma tal concepção»
[112].
Promove a “reforma permanente” das
fórmulas de fé
35. A latitude que a prática ecumênica
se atribui com as fórmulas dogmáticas já foi dita. Falta mostrar a
importância deste procedimento no processo ecumênico: «O
aprofundamento da comunhão numa reforma constante, realizado à luz
da Tradição apostólica, é sem dúvida um dos traços distintivos mais
importantes do ecumenismo. [...] O decreto sobre o ecumenismo (UR nº
6) apresenta a maneira de formular a doutrina entre os elementos de
reforma permanente» [113]. Tal procedimento foi condenado por Pio
XII: «Alguns entendem reduzir o mais possível a significação dos
dogmas e libertar o próprio dogma da maneira de se exprimir em uso
na Igreja desde há longo tempo, e dos conceitos filosóficos em vigor
entre os doutores católicos. [...] É claro [...] que estas
tentativas não somente conduzem ao que eles chamam “relativismo”
dogmático, mas já o contém de fato. [...] Decerto, não há ninguém
que não veja que os termos para exprimir tais noções, e que são
utilizados tanto nas escolas [teológicas] como pelo próprio
Magistério da Igreja, podem ser melhorados e aperfeiçoados. [...] É
igualmente claro que a Igreja não se pode ligar a qualquer sistema
filosófico, cujo reinado só dura pouco tempo: mas o que durante
séculos foi estabelecido pelo consentimento comum dos doutores
católicos para chegar a uma certa compreensão do dogma, não repousa
certamente sobre um fundamento tão frágil. [...] Por isso não é de
se espantar se certas destas noções não foram apenas usadas pelos
concílios ecumênicos, mas igualmente foram por eles sancionadas, de
modo que não é permitido afastar-se delas» [114].
Recusa ensinar sem ambigüidade o conteúdo
integral da fé católica
36. O postulado ecumênico segundo o qual
«o método e a maneira de exprimir a fé católica não devem de modo
algum ser obstáculo ao diálogo com os irmãos» [115] teve como
resultado declarações comuns assinadas solenemente, mas equívocas e
ambivalentes. Na Declaração Comum sobre a Justificação, por exemplo,
nunca é claramente ensinada a infusão da graça santificante [116] na
alma do justo; a única frase aludindo-lhe, das mais desastradas,
pode até levar a crer o contrário: «A graça santificante não se
torna nunca uma posse da pessoa da qual esta última se poderia
reclamar ante Deus» [117]. Tais práticas não respeitam mais o dever
de expor integralmente e sem ambigüidade a fé católica, como
“devendo ser crida”: «A doutrina católica deve ser proposta
totalmente e integralmente, não pode passar em silêncio
ou encobrir em termos ambíguos o que a verdade católica ensina sobre
a verdadeira natureza e as etapas da justificação, sobre a
constituição da Igreja, sobre o primado de jurisdição do Pontífice
Romano, sobre a única verdadeira união de regresso dos cristãos
separados à única verdadeira Igreja de Cristo» [118].
Coloca em pé de igualdade os santos
autênticos e os “santos” supostos
37. Publicando um martirológio comum às
diferentes confissões cristãs, João Paulo II põe em pé de igualdade
os santos autênticos e os “santos” supostos. É esquecer a frase de
Santo Agostinho: «Se, permanecendo separado da Igreja, é perseguido
por um inimigo de Cristo [...] e que o inimigo de Cristo diz ao
separado da Igreja de Cristo: “Oferece incenso aos ídolos, adora os
meus deuses”, e o mata porque não os adora, poderá derramar o seu
sangue, mas não receber a coroa» [119]. Se a Igreja deseja
piedosamente que o irmão separado morto por Cristo tivesse a
caridade perfeita, não o pode afirmar. No seu direito,
presume que o “obex”, o obstáculo de separação visível, tenha sido
um obstáculo ao ato de caridade perfeita que constitui o martírio.
Não pode, assim, canonizá-lo sem inscrevê-lo no martirológio [120].
Provoca, portanto, a perda da fé
38. Relativista, evolucionista e
ambíguo, este ecumenismo provoca diretamente a perda da fé. A sua
primeira vítima é o Presidente do Conselho Pontifício para a
Promoção da Unidade dos Cristãos, Cardeal Kasper, ele mesmo, quando
afirma, por exemplo, sobre a justificação, que «o nosso valor
pessoal não depende das nossas obras, quer sejam boas ou más. Antes
mesmo de agir, somos aceites e recebemos o “sim” de Deus» [121]; ou
ainda, a propósito da Missa e do sacerdócio, que «não é o padre que
opera a transubstanciação: o padre pede ao Pai, a fim de que ela
tenha lugar por operação do Espírito Santo. [...] A necessidade do
ministério ordenado é um sinal que sugere e faz também apreciar a
gratuidade do sacramento eucarístico» [122].
O ecumenismo afasta da Igreja
39. Além de destruir a fé católica, o
ecumenismo ainda desvia da Igreja os heréticos, os cismáticos e os
infiéis.
Já não reclama a conversão dos heréticos
e cismáticos
40. O movimento ecumênico já não procura
a sua conversão e o seu regresso «à única família de Cristo, fora da
qual se encontra certamente todo aquele que não está ligado a esta
Santa Cátedra de Pedro» [123]. Tal está claramente afirmado: «Nós
rejeitamo-lo [o uniatismo] como método de procura de unidade. [...]
A ação pastoral da Igreja Católica, tanto a Latina como a Oriental,
já não tende a fazer passar os fiéis de uma Igreja para outra»
[124]. Daí a supressão da cerimônia de abjuração no caso de regresso
de um herético à Igreja Católica. O Cardeal Kasper vai muito longe
neste tipo de afirmações: «O ecumenismo não se faz renunciando à
nossa própria tradição de fé. Nenhuma Igreja pode praticar essa
renúncia» [125]. Acrescenta ainda: «Podemos descrever o “ethos”
próprio do ecumenismo de vida da maneira seguinte: renúncia a toda
forma de proselitismo aberto ou camuflado» [126]. Tudo isso é
radicalmente oposto à prática constante dos Papas através dos
séculos, que sempre trabalharam pelo regresso dos dissidentes à
única Igreja [127].
Cria igualitarismo entre as confissões
cristãs
41. A prática ecumênica engendra um
igualitarismo entre os católicos e outros cristãos, quando, por
exemplo, João Paulo II se regozija com o fato de que «à expressão
irmãos separados, o uso tende a substituir hoje termos mais aptos a
evocar a profundidade da comunhão ligada ao caráter batismal. [...]
A consciência da pertença a Cristo aprofunda-se. [...] A
“fraternidade universal” dos cristãos tornou-se uma firme convicção
ecumênica» [128]. Mais ainda, é a própria Igreja Católica que,
praticamente, é colocada em pé de igualdade com as Comunidades
separadas: já mencionamos a expressão “Igrejas irmãs”; João Paulo II
regozija-se igualmente que «o Diretório para a Aplicação dos
Princípios e das Normas sobre o Ecumenismo chame as Comunidades
às quais pertencem os cristãos das “Igrejas e Comunidades eclesiais
que não estão em plena comunhão com a Igreja Católica”. [...]
Relegando-se para o olvido as excomunhões do passado, as
Comunidades, rivais numa época, ajudam-se hoje mutuamente» [129].
Regozijar-se com isso, é esquecer que «reconhecer a qualidade de
Igreja ao cisma de Photius e o Anglicanismo [...] favorece o
indiferentismo religioso [...] e pára a conversão dos não católicos
à verdadeira e única Igreja» [130].
Humilha a Igreja e torna orgulhosos os
dissidentes
42. A prática ecumênica dos
arrependimentos dissuade os infiéis de se voltarem para a Igreja
Católica, dada a falsa imagem que esta dá de si própria. Se é
possível levar diante de Deus a falta daqueles que nos precederam
[131], em compensação, a prática dos arrependimentos, tal como a
conhecemos, deixa crer que é a Igreja Católica, enquanto tal, que é
pecadora, pois é ela que perde perdão. O primeiro a crê-lo é o
Cardeal Kasper: «[O Concílio Vaticano II] reconheceu que a Igreja
Católica tinha uma responsabilidade na divisão dos cristãos e
sublinhou que o restabelecimento da unidade supunha uma conversão de
uns e outros ao Senhor» [132]. Os textos justificativos, portanto,
não fazem nada: a nota eclesial de santidade, tão poderosa para
atrair as almas perdidas ao único lar, foi denegrida. Portanto,
estes arrependimentos são gravemente imprudentes, porque humilham a
Igreja Católica e provocam o orgulho nos dissidentes. Daí o alerta
do Santo Ofício: «[Os bispos] impedirão cuidadosamente e com tal
insistência que, expondo a história da Reforma e dos Reformadores,
muito se exagerem os defeitos dos Católicos e muito se dissimulem as
faltas dos Reformadores, ou ainda que muito se exponham sobretudo
elementos acidentais, que não se veja e não se sinta mais o que é
essencial, a defecção da fé católica» [133].
Conclusão
43. Considerando sob o aspecto pastoral,
deve dizer-se que o ecumenismo destas últimas décadas que leva os
católicos à apostasia silenciosa e que dissuade os não católicos de
entrar na única arca de salvação. É preciso, portanto, reprovar «a
impiedade daqueles que fecham aos homens a entrada no Reino dos
Céus» [134]. Sob a cobertura de procurar a unidade, este ecumenismo
dispersa as ovelhas; não tem a marca de Cristo, mas o divisor por
excelência, o diabo.
CONCLUSÃO GERAL
44. Por mais atraente que possa parecer
à primeira vista, pos mais espectadores que possam mostrar-se na
televisão as suas cerimônias, pois mais numerosas que possam ser as
multidões que reúne, a realidade permanece: o ecumenismo faz da
cidade santa, que é a Igreja, uma cidade em ruínas. Marchando em
perseguição de uma utopia – a unidade do gênero humano – este Papa
não averiguou quanto o ecumenismo que perseguia era propriamente e
tristemente revolucionário: inverte a ordem querida por Deus.
45. Revolucionário é, afirma-se
revolucionário. Fica-se impressionado pela sucessão de textos que o
lembram: «O aprofundamento da comunhão numa reforma constante
[...] é sem dúvida um dos traços distintivos mais importantes do
ecumenismo» [135]. «Retomando a idéia que o Papa João XXIII tinha
exprimido na abertura do concílio, o decreto sobre o ecumenismo faz
figurar a maneira de reformular a doutrina entre os elementos da
reforma permanente» [136]. Por momentos, esta afirmação
adorna-se com unção eclesiástica para se tornar “conversão”. Na
ocorrência, a diferença importa pouco. Nos dois casos, é rejeitado o
que preexiste: «“Convertei-vos”. Não há nenhuma aproximação
ecumênica sem conversão e sem renovação. Não a
conversão de uma confissão a outra. [...] Todos devem converter-se.
Não devemos, portanto, perguntar primeiro “o que não está bem no
outro”, mas “o que não está bem entre nós”; por onde começar,
entre nós, o trabalho?» [137] O apelo ao povo que este
ecumenismo reclama, é traço característico do seu aspecto
revolucionário: «Na ação ecumênica, os fiéis da Igreja Católica
[...] considerarão sobretudo com lealdade e atenção o que, na
própria família católica, tem necessidade de ser renovado»
[138]. Sim, verdadeiramente, nesta embriaguez de “aggiornamento”, a
cabeça tem necessidade de ser ultrapassada pelos membros: «O
movimento ecumênico é um processo um pouco complexo, e seria erro
pensar, do lado católico, que tudo seja feito por Roma. [...] As
instituições, os desafios devem também vir das Igrejas locais, e
muito deve ser feito no nível local antes que a Igreja universal o
faça seu» [139].
46. Nestas tristes circunstâncias, como
não ouvir o grito do Anjo em Fátima: «Penitência! Penitência!
Penitência!»? Nesta marcha utópica, sintetizada aqui pelo Papa Pio
XI: «A união dos cristãos não pode ser procurada de outro modo senão
favorecendo o regresso dos dissidentes à única verdadeira Igreja de
Cristo, que outrora tiveram a infelicidade de abandonar» [140]. Tal
é a verdadeira e caridosa pastoral para os desencaminhados, tal deve
ser a oração da Igreja. «Desejamos que suba até Deus a súplica comum
de todo o Corpo Místico (isto é, de toda a Igreja Católica), a fim
de que todas as ovelhas errantes se reúnam mais brevemente ao único
lar de Jesus Cristo» [141].
47. Esperando a hora feliz do regresso à
razão, pela nossa parte agradecemos o sábio aviso e a firme
sabedoria recebidos do nosso fundador: «Queremos estar em unidade
perfeita com o Santo Padre, mas na unidade da fé católica, porque só
esta unidade nos pode reunir, e não uma espécie de união ecumênica,
um gênero de ecumenismo liberal; porque creio o que melhor define
toda a crise da Igreja é, verdadeiramente o espírito ecumênico
liberal. Digo ecumenismo liberal, porque há um certo ecumenismo que,
se bem definido, poderia ser aceitável. Mas o ecumenismo liberal,
tal como é praticado pela Igreja atual, e sobretudo depois do
Concílio Vaticano II, comporta necessariamente verdadeiras heresias»
[142]. Fazendo também subir a nossa súplica ao Céu, imploramos a
Cristo pelo Seu Corpo que é a Igreja Católica, dizendo: «Salvum me
fac, Domine, quoniam defecit sanctus, quoniam diminutae sunt
veritatis a filiis hominum. Vana locuti sunt unusquisque ad proximum
suum: labia dolosa in corde et corde locuti sunt. Disperdat Dominus
universa labia dolosa et linguam magniloquam» [143].
Notas
[1] João Paulo II, Alocução ao Secretariado
para a Unidade dos Cristãos, 18/1/78, La documentation
catholique (DC) nº 1753, 3/12/1978, p. 107.
[2] João Paulo II, Angelus, 17/1/1982,
DC nº 1823, p. 144.
[3] João Paulo II, 1ª Mensagem ao Mundo,
171/10/1978, DC n° 1751, 5/11/1978, p. 902-903.
[4] Conc. Ecum. Vat. II, Const. Dogm. Lumen
Gentium, nº 1.
[5] João Paulo II, 1ª Mensagem ao Mundo,
17/10/1978, DC nº 1751, 5/11/1978, p. 902-903.
[6] João Paulo II, Tertio millennio
adveniente, nº 124. Cf. João Paulo II, Ut unum sint, nº
42: «As celebrações ecumênicas estão entre os acontecimentos mais
importantes das minhas viagens apostólicas às diferentes partes do
mundo».
[7] João Paulo II, Homilia na abertura da
Porta Santa em São Paulo Extra-muros, 18/1/2000, DC nº 2219,
6/2/2000, p. 106: «A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos
começa hoje em Roma com a celebração que nos reúne. Quis que
coincida com a abertura da Porta Santa nesta basílica consagrada ao
Apóstolo das Nações, para sublinhar a dimensão ecumênica que deve
caracterizar o Ano Jubilar 2000».
[8] João Paulo II, Tertio millennio
adveniente, nº 34.
[9] João Paulo II, Redemptor hominis, nº
1.
[10] João Paulo II, Homilia pronunciada na
presença do Patriarca Ecumênico de Constantinopla Dimitrios I,
29/11/1979, Istambul, DC nº 1776, 12/12/1979, pg. 1056.
[11] João Paulo II, Mensagem para o XV
Encontro Internacional de Oração pela Paz, DC nº 2225,
7/10/2001, p. 818.
[12] João Paulo II, Ecclesia in Europa,
nº 7, DC nº 2296, 20/7/2003, p. 670-671.
[13] João Paulo II, Ecclesia in Europa,
nºs 7 e 9, DC nº 2296, 20/7/2003, p. 671-672.
[14] João Paulo II, A Situação do Mundo e o
Espírito de Assis, discurso aos cardeais e à Cúria, 22/12/1986,
DC nº 1933, 1/2/1987, p. 134.
[15] João Paulo II, Tertio millennio
adveniente, nº 6.
[16] João Paulo II, Redemptor Hominis,
nº 13.
[17] João Paulo II, Mensagem aos Povos da
Ásia, 21/2/1981, DC nº 1804, 15/3/1981, p. 281.
[18] João Paulo II, A Situação do Mundo e o
Espírito de Assis, discurso aos cardeais e à Cúria, 22/12/1986,
DC nº 1933, 1/2/1987, p. 134.
[19] João Paulo II, ibid.
[20] João Paulo II, ibid, p. 133.
[21] João Paulo II, Tertio millennio
adveniente, nº 6.
[22] João Paulo II, Ut unum sint, nº 42:
«O uso tende hoje a substituir termos mais aptos a exprimir a
profundidade da comunhão – ligada ao caráter batismal – que o
Espírito alimenta apesar das rupturas históricas e canônicas».
[23] Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis
redintegratio, nº 3: «Entre os elementos ou os bens pelo
conjunto dos quais a Igreja constrói e é vivificada, vários e mesmo
muitos, e de grande valor, podem existir fora dos limites visíveis
da única Igreja Católica. [...] Tudo isso, que provém de Cristo e a
Ele conduz, pertence de direito à Igreja de Cristo». É em razão
desta afirmação que LG nº 8 diz da Igreja de Cristo que ela
“subsiste na” Igreja Católica, e não que “é” a Igreja Católica. Cf.
comentário do Cardeal Ratzinger, A Eclesiologia da Constituição
Conciliar Lumen Gentium, conferência de 27/2/2000, DC nº 2223,
2/4/2000, p. 310-311: «Com essa expressão, o Concílio afasta-se da
fórmula de Pio XII, que tinha dito na sua Encíclica Mystici
Corporis: a Igreja Católica “é” (est, em latim) o único
corpo místico de Cristo. [...] A diferença entre “subsistit”
e “est” encerra o drama da divisão eclesial. Se bem que a
Igreja somente uma e subsista num único sujeito, existem
realidades eclesiais fora desse sujeito: verdadeiras Igrejas
locais e diversas Comunidades eclesiais».
[24] Esta afirmação decorre diretamente da
maneira como Lumen Gentium (nº 7 e 8) apresenta a Igreja. Até
então, o Magistério deduzia-a da analogia Paulina, segundo a qual a
Igreja é o Corpo Místico de Cristo: corpo, logo visível: «Porque é
um corpo, a Igreja é visível aos nossos olhos» (Leão XIII, Satis
cognitum, DzH 3300). Ora, o Concílio recusa fazer esta ligação:
trata separadamente da Igreja Corpo de Cristo e da Igreja orgânica:
«A sociedade dotada de órgãos hierárquicos [Igreja Católica] e o
Corpo místico de Cristo [Igreja de Cristo], a assembléia visível
[Igreja Católica] e a comunidade espiritual [Igreja de Cristo], a
Igreja da terra [Igreja Católica] e a Igreja tão rica em bens
celestes [Igreja de Cristo], não devem ser consideradas como duas
realidades, mas formam uma única realidade complexa». Mas esta
afirmação não é suficiente: a união de duas coisas distintas – a
Igreja de Cristo e a Igreja orgânica – não é a afirmação da unidade
própria da Igreja. Esta unidade é, pelo contrário, recusada, quando
é dito da Igreja de Cristo que ela «subsiste na Igreja Católica»: a
relação entre continente e conteúdo não é a de identidade, sobretudo
quando se afirma que a Igreja de Cristo se torna presente de maneira
ativa fora do conteúdo perfeito que é a Igreja Católica. Em
conseqüência desta afirmação e na seqüência de LG nº 15, João Paulo
II afirma com freqüência que o batizado, qualquer que seja a sua
pertença eclesial, é e permanece unido a Cristo, incorporado n'Ele.
Esta teoria afirmando a interioridade da Igreja de Cristo está de
tal modo espalhada, que cardeais tão diferentes como J. Ratzinger e
W. Kasper a lembram como uma evidência: «“A Igreja reanima-se nas
almas”: esta frase de Guardini foi longamente amadurecida. Com
efeito, mostra que a Igreja era finalmente reconhecida e vivida
como qualquer coisa de interior, que não existe diante de nós,
como uma instituição qualquer, mas vive em nós mesmos. Se, até
então, a Igreja tinha sido considerada, antes de tudo, como uma
estrutura e uma organização, tomou-se finalmente consciência que
nós mesmos éramos a Igreja. Ela era muito mais do que uma
organização: ela era o organismo do Espírito Santo, qualquer
coisa de vital, que nos agarra na nossa intimidade. Esta nova
consciência da Igreja encontrou a sua expressão lingüística no
conceito de “corpo místico de Cristo”» (J. Ratzinger, A
Eclesiologia do Vaticano II, conferência de 15/9/2001, na
ocasião do Congresso Pastoral da Diocese de Aversa); «A verdadeira
natureza da Igreja – a Igreja quanto Corpo de Cristo – está
escondida, e não é perceptível senão pela fé. Mas essa natureza,
perceptível unicamente pela fé, atualiza-se sob formas visíveis» (W.
Kasper, O Compromisso Ecumênico da Igreja Católica,
conferência de 23/3/02 à Assembléia-geral da Federação Protestante
da França, Ecumenismo Informações nº 325, 5/2002 e 326, 6/2002).
[25] Pelo menos: Karol Woytila foi, com efeito
muito mais longe, no retiro que pregou no Vaticano quando ainda era
cardeal: «Deus de majestade infinita! O trapista ou o cartuxo
confessam este Deus com uma vida de total silêncio. É para Ele que
se volta o beduíno no deserto quando chega a hora da prece. E o
monge budista concentra-se na sua contemplação que purifica o seu
espírito orientando-o para o Nirvana: mas é somente o Nirvana? [...]
A Igreja do Deus vivo reúne justamente nela essas gentes que de
alguma maneira participam nessa transcendência simultaneamente
admirável e fundamental do espírito humano» (Karol Woytila, O
Sinal de Contradição, Ed. Fayard 1979, p. 31-32).
[26] João Paulo II, Ut unum sint, nº 42.
[27] João Paulo II, ibid.
[28] João Paulo II, Ut unum sint, nº 9.
[29] Congregação para a Doutrina da Fé,
Carta sobre certos aspectos da Igreja compreendida como Comunhão,
nº 6, DC nº 2055, 2/8/1992, p. 730.
[30] Cf. Diretiva para Aplicação dos
Princípios e das Normas sobre o Ecumenismo (aprovada por João
Paulo II em 25/3/1993), nº 13, DC nº 2075, 4/7/1993, p. 611.
[31] João Paulo II, Ut unum sint, nº 11.
[32] Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis
redintegratio, nº 3: «Os que crêem em Cristo e receberam o
batismo validamente, encontram-se numa certa comunhão, bem que
imperfeita, com a Igreja Católica. Seguramente, divergências
várias entre eles e a Igreja Católica sobre questões doutrinais, por
vezes disciplinares, ou sobre a estrutura da Igreja, constituem
numerosos obstáculos, por vezes muito graves, à plena comunhão
eclesial. O movimento ecumênico tende a ultrapassá-los». Eis o
que respeita à comunhão visível parcialmente rompida; mas o decreto
acrescenta logo, para mostrar a permanência da comunhão invisível: «Não
obstante, justificados pela fé recebida no batismo, incorporados
em Cristo, têm a justo título o nome de cristãos, e os filhos da
Igreja Católica reconhecem-nos com justiça como irmãos no Senhor.
[...] Do mesmo modo, entre os nossos irmãos separados efetuam-se
muitas ações sagradas da religião cristã que, de maneiras diferentes
segundo a situação diversa de cada Igreja ou comunidade, podem
certamente produzir efetivamente a vida da graça, e deve-se
reconhecer que elas dão acesso à comunhão da salvação».
[33] Cf. João Paulo II, Ut unum sint, nº
56, 57 e 60; Alocução na Basílica São Nicolau de Bari,
26/2/1984, DC nº 1872, 15/4/1984, p. 414; Declaração Cristológica
Comum entre a Igreja Católica e a Igreja Assíria do Oriente, DC
nº 2106, 18/12/1994, p. 1070; Homilia na Presença do Patriarca
Ecumênico de Constantinopla Dimitrios I, Istambul, 29/11/1979,
DC nº 1776, 16/12/1979, p. 1056: «Convido-vos a rezar com fervor
pela plena comunhão das nossas Igrejas. [...] Suplicai ao Senhor
para que nós mesmos, pastores das Igrejas irmãs, sejamos os melhores
instrumentos nesta hora da História, para reger estas Igrejas, quer
dizer, para as servir como quer o Senhor, e servir assim a única
Igreja que é Seu Corpo».
[34] Cf. João Paulo II, Tertio millennio
adveniente, nº 16.
[35] João Paulo II, Discurso à Delegação da
Federação Luterana Mundial, 9/12/1999, DC nº 2219, 6/2/2000, pg.
109.
[36] Conc. Ecum. Vat. II, Const. Dogm. Lumen
Gentium, nº 8; Dec. Unitatis redintegratio, nº 4; Decl.
Dignitatis humanae, nº 1.
[37] Cardeal Ratzinger, conferência A
Eclesiologia da Constituição Conciliar Lumen Gentium, 27/2/2000,
DC nº 2223, 2/4/2000, p. 311.
[38] Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis
redintegratio, nº 3; João Paulo II, Ut unum sint, nº 11.
[39] João Paulo II, Tertio millennio
adveniente, nº 37.
[40] João Paulo II, Ut unum sint, nº 77.
[41] Entende-se por “ecumenismo de regresso” o
lembrado por Pio XI na Encic. Mortalium animos: «levar ao
regresso dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, da
qual tiveram outrora a infelicidade de se separar. O regresso à
única verdadeira Igreja, dizemos Nós, bem visível a todos os
olhares».
[42] Declaração da Comissão Mista
Internacional para o Diálogo Teológico entre a Igreja Católica e a
Igreja Ortodoxa, 23/6/1993, dita “de Balamand”, nº 2 e 22, DC nº
2077, 1-15/8/1993, p. 713. Esta citação não respeita senão ao
uniatismo, mas o Cardeal Kasper usará fórmulas sistemáticas: «O
velho conceito de ecumenismo de regresso foi hoje substituído pelo
de itinerário comum, que dirige os cristãos para o objetivo da
comunhão eclesial, compreendida como unidade na diversidade
reconciliada» (W. Kasper, A Declaração Comum sobre a Doutrina da
Justificação: um Motivo de Esperança, DC nº 2220, 20/2/2000, p.
167).
[43] Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis
redintegratio, nº 3: «Apareceram certas cisões, [...] nasceram
dissensões mais graves, [...] por vezes pela falta de pessoas de uma
ou de outra parte». Daí, a natureza da conversão reclamada por UR,
nº 7: «Não há verdadeiro ecumenismo sem conversão interior. Com
efeito, é da renovação da alma, da renúncia a si mesmo e de uma
livre efusão da caridade que partem e amadurecem os desejos da
unidade». Cf. Cardeal Kasper, Conferência no Kirchentag Ecumênico
de Berlim, Convertei-vos, DC nº 2298, 7-9/9/2003: «Não existe
nenhuma reconciliação ecumênica sem conversão e sem renovação. Não a
conversão de uma confissão a outra. Estas podem existir em casos
particulares, e se é por razões de consciência, isso merece respeito
e consideração. Mas não há só os outros a dever converterem-se; a
conversão começa por si próprio. Todos devem converter-se. Não
podemos, perguntar primeiro: ”O que não está bem no outro?” Mas: “O
que não está bem em nós; por onde começar, entre nós, a arrumação”?»
[44] João Paulo II, Ut unum sint, nº 11,
cf. nº 34.
[45] Conc. Ecum. Vat. II, Const. Dogm. Lumen
Gentium, nº 13; cf. João Paulo II, Ut unum sint, nº 28.
[46] João Paulo II, Ut unum sint, nº 57.
[47] João Paulo II, Alocução na Basílica São
Nicolau de Bari, 26/12/1984, na presença do Metropolita de Mire,
Constantinidis (Patriarca de Constantinopla), DC nº 1872, 15/4/1984,
p. 414.
[48] Ibid.
[49] João Paulo II, Angelus, 17/1/1982,
DC nº 1823, 7/2/1982, p. 144.
[50] A. Bugnini, Modificação das Orações
Solenes de Sexta-Feira Santa, DC nº 1445, 4/3/1965, col. 603.
cf. G. Celier, A Dimensão Ecumênica da Reforma Litúrgica, Ed.
Fideliter, 1987, p. 34.
[51] Cf. o Osservatore Romano, ed. Em
italiano, 26/10/2001. Admissão à Eucaristia entre a Igreja
Caldaica e a Igreja Assíria do Oriente, Nota e Orientações do
Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, DC nº
2265, 3/3/2002, p. 214.
[52] João Paulo II, Ut unum sint, nº 38.
[53] João Paulo II, citando em Ut unum sint,
nº 38, a Declaração Mysterium Ecclesiae da Congregação para a
Doutrina da Fé (DC nº 1636, 15/7/1973, p. 267).
[54] Declaração Cristológica Comum entre a
Igreja Católica e a Igreja Assíria do Oriente, DC nº 2106,
18/12/1994, p. 1069.
[55] João Paulo II, Ut unum sint, nº 38.
[56] DC nº 2106, 18/12/1994, p. 1069. Cf. DzH,
nº 251d e 252.
[57] Declaração Comum da Federação Luterana
Mundial e da Igreja Católica, nº 7 (cf. nº 5, 13, 40 a 42), DC
nº 2168, 19/10/1997, p. 875.
[58] W. Kasper, A Declaração Comum sobre a
Doutrina da Justificação: um Motivo de Esperança, DC nº 2220,
20/2/2000, p. 172.
[59] João Paulo II, Ut unum sint, nº 95.
[60] O Primado do Sucessor de Pedro no
Mistério da Igreja, reflexões da Congregação para a Doutrina da
Fé, DC nº 2193, 6/12/1998, p. 1018.
[61] Leão XIII, Carta Apostólica Apostolicae
curae, 13/9/1896.
[62] W. Kasper, Podem Todos Ser Um? Mas
Como? Uma Visão da Unidade Crista para a Próxima Geração, The
Tablet, 24/5/2003.
[63] Limitamo-nos aqui só à refutação do
ecumenismo; não estudaremos o ensinamento de João Paulo II relativo
à Redenção cumprida de fato em cada pessoa e em cada povo. Diremos
simplesmente que tal proposição é totalmente estranha à fé católica
e a ruína de cima a baixo (que se faz, por exemplo, da necessidade
do batismo?).
[64] Calvino, Inst., 1.4, c.4.
[65] Leão XIII, Encic. Satis Cognitum,
DzH nº 3300 ss.
[66] Pio XI, Encic. Mortalium animos,
AAS 20, 1928, p. 8. Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A
Igreja, vol. 1, nº 861.
[67] Pio XII, Encic. Mystici Corporis,
AAS 35, 1943, p. 199-200. Ensinamentos Pontifícios de
Solesmes, A Igreja, vol. 2, nº 1015.
[68] Pio XII, Encic. Mystici Corporis,
Ibid, p. 199. Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja,
vol. 2, nº 1014.
[69] Carta do Santo Ofício aos Bispos da
Inglaterra, 16/9/1864, DzH nº 2888.
[70] Pio IX, Alocução ao Consistório,
18/7/1861, Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 1,
nº 230.
[71] 1º Esquema Preparatório do Concílio
Vaticano I sobre a Igreja, cânone 4.
[72] W. Kasper, O Compromisso Ecumênico da
Igreja Católica, 23/3/2002, conferência à Assembléia-geral da
Federação Protestante da França, Ecumenismo Informações nº 325, 5/02
e 326, 6/02.
[73] W. Kasper, ibid.
[74] Este triplo laço deve, repitamo-lo, seja
de fato, seja ao menos «por um certo desejo ou voto inconsciente»
(cf. Pio XII, Mystici Corporis, AAS 35, 1943, p. 243.
DzH 3821). Mas a Igreja não é juiz deste desejo. Em matéria jurídica
– o que é este caso – a Igreja não pode julgar realidades interiores
das consciências de cada um, mas somente o que aparenta: «O estado
de espírito e a intenção, porque são coisas diferentes, a Igreja não
julga; mas tanto como apareçam exteriormente, deve julgá-los» (Leão
XIII, Carta Apostólica Apostolicae curae, 13/9/1896, sobre a
nulidade das ordenações anglicanas, ASS 29, 1896-1897, p.
201. DzH 3318). Desde logo, mesmo se, na sua pastoral, como
boa mãe, ela se inclina a esperar a sua pertença “de desejo pelo
menos inconsciente” quando deles se aproxima e se encontram perigo
de morte (Dom M. Prümmer, O.P., Manuale theologiae moralis,
T. 1, nº 514, 3), no entanto, juridicamente, a Igreja não o
presume em tempo normal. Por isso sempre exigiu, ad cautelam,
a sua abjuração do cisma ou da heresia quando eles regressassem à
Igreja Católica (cf. CIC 1917, cân. 2314, § 2). Com mais forte
razão, não presume a boa fé dos dissidentes considerados em corpo
constituído, em comunidade visivelmente separada da Igreja Católica,
tal como a considera o ecumenismo. O que nós dizemos dos três
elementos necessários à pertença à Igreja Católica supõe a presunção
acima expressa. Querer suprimi-la seria mover-se no incerto e no
irreal.
[75] Heb. 11, 6: «Sem a fé, é impossível
agradar a Deus».
[76] São Pio X, Pascendi dominici gregis:
«A fé, princípio e fundamento de toda a religião, reside num certo
sentimento íntimo criado ele mesmo pela necessidade do divino... Tal
é, para os modernistas, a fé, e na fé assim entendida, o começo de
toda a religião» (Acta S. Pii X 4, 1907, p. 52; DzH 3477 não
cita integralmente). Esta breve descrição é de comparar com o
pensamento de Karol Woytila (O Sinal de Contradição, Ed.
Fayard. 1979, p. 31-32): «Deus de majestade infinita! O trapista ou
o cartuxo confessa esse Deus com uma vida de silêncio. É para Ele
que se volta o beduíno peregrinando no deserto quando chega a hora
da prece. E esse monge budista concentra-se na sua contemplação que
purifica o seu espírito orientando-o para o Nirvana: mas é somente o
Nirvana? [...] A Igreja do Deus vivo reúne justamente nela essas
gentes que de alguma maneira participam nessa transcendência
simultaneamente admirável e fundamental do espírito humano, porque
sabe que ninguém pode apaziguar as mais profundas aspirações deste
princípio senão só Ele, o Deus de majestade infinita».
[77] Vaticano I, sess. 3, c. 3, DzH nº 3008.
[78] Leão XIII, Encic. Satis cognitum,
29/6/1896, ASS 28, 1895-1896, p. 722. Ensinamentos
Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 1 nº 573.
[79] Pio IX, Encic. Amantissimus,
8/4/1862, Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 1, nº
234, e 234 a 237.
[80] Cf. Santo Ambrósio, Epist. 11 ad
imperatores.
[81] Cf. São Cipriano, De Unitate Ecclesiae.
[82] Cf. São Jerônimo, Epist. 41 ad Damasum.
[83] Santo Agostinho, De baptismo contra
donatistas, liv. I, cap. 14, § 22.
[84] Mc. 16, 16.
[85] Leão XIII, Encic. Satis cognitum,
ASS 28, 1895-1896, p. 724. Ensinamentos Pontifícios de
Solesmes, A Igreja, vol. 1, nº 578.
[86] Pio IX, Encic. Amantissimus,
8/4/1862, Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 1, nº
233.
[87] Pio XII, Mystici Corporis,
29/6/1943, AAS 35, 1943, p. 203. DzH 3802.
[88] Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis
redintegratio, nº 3, do qual citamos aqui a passagem completa:
«Os que nascem hoje em tais comunidades, e que vivem a fé em Cristo,
não podem ser acusados de pecado de divisão, e a Igreja Católica
envolve-os de respeito fraternal e de caridade. Com efeito, aqueles
que crêem em Cristo e que receberam validamente o batismo,
encontram-se numa certa comunhão, se bem que imperfeita, com a
Igreja Católica. Seguramente, divergências várias entre eles e a
Igreja Católica sobre questões doutrinais, por vezes disciplinares,
ou sobre a estrutura da Igreja, constituem numerosos obstáculos, por
vezes muito graves, à comunhão eclesial. O movimento ecumênico tende
a ultrapassá-los. Não obstante, justificados pela fé recebida no
batismo, incorporados em Cristo, usam a justo título o nome de
cristãos, e os filhos da Igreja Católica reconhecem-nos com razão
como irmãos no Senhor».
[89] Cf. acima, nota 73.
[90] Pio IX, alocução Singulari Quadam,
9/12/1854, Dz 1647 (antiga numeração; ausente em DzH).
[91] Conc. Ecum. Vat. II, Const. Dog. Lumen
Gentium, nº 8.
[92] Bento XIV, Breve Singulari nobis,
9/2/1749, DzH nº 2566 a 2568.
[93] Concílio de Florença, Bula Cantate
Domino, para os jacobitas, DzH 1351.
[94] Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis
redintegratio, nº 3.
[95] Santo Agostinho, De baptismo contra
donatistas, liv. 1, cap. 10, nº 14.
[96] Santo Agostinho, De baptismo contra
donatistas, liv. 1, cap. 14, nº 22.
[97] Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis
redintegratio, nº 3.
[98] Cf. Ratzinger, A Eclesiologia da
Constituição Conciliar Lumen Gentium, DC nº 2223, 2/4/2000, p.
311. «Se bem que a Igreja seja somente uma e subsiste num
único sujeito, existem realidades eclesiais fora deste sujeito:
verdadeiras Igrejas locais e diversas Comunidades eclesiais». É que,
efetivamente: «Encontram-se aí elementos essenciais ao ser-Igreja: o
anúncio da Palavra de Deus, o batismo, a presença ativa do Espírito
Santo, fé, esperança e caridade, formas de santidade até ao
martírio. Pode-se falar de uma figuração diferente destes elementos
eclesiais constitutivos, de Igrejas de outro gênero ou de outro
tipo». W. Kasper, O Compromisso Ecumênico da Igreja Católica,
conferência, 23/3/2002, à Assembléia-geral da Federação Protestante
da França, Ecumenismo Informações nº 325, 5/2002, e 326 6/2002.
[99] Santo Agostinho, In Ps. 54, § 19,
citado por Leão XIII, Satis cognitum, ASS 28,
1895-1896, p. 724. Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja,
vol. 1, nº 578.
[100] Carta do Santo Ofício aos Bispos da
Inglaterra, 16/9/1864. Essa teoria «professa expressamente que
três comunidades cristãs, a católica-romana, a greco-cismática e a
anglicana, se bem que separadas e diversas entre si, reivindicam com
o mesmo direito para si mesmas o nome de católica. [...] Pede a
todos os seus membros que recitem orações e aos padres que ofereçam
sacrifícios segundo a sua intenção: a saber, para que as três
comunhões cristãs, como é sugerido, constituam todas juntas a Igreja
Católica, reunindo-se, enfim, para formar um único corpo». DzH 2885
e 2886.
[101] Ibid. DzH nº 2886 e 1887.
[102] João Paulo II, Ecclesia in Europa,
nº 9, DC nº 2296, 20/7/2003, p. 668 ss.
[103] Declaração Cristológica Comum Entre a
Igreja Católica e a Igreja Assíria do Oriente, DC nº 2106,
18/12/1994, p. 1069.
[104] Ibid.
[105] Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis
redintegratio, nº 4.
[106] João Paulo II, Ut unum sint, nº
38.
[107] João Paulo II, Ut unum sint, nº
57. Cf. Cardeal Kasper, Declaração Comum sobre a Doutrina da
Justificação: um Motivo de Esperança, DC nº 2220, 20/2/2000, p.
167: «Mostra-se claramente que o fim do diálogo não consiste em
fazer mudar o parceiro, mas em reconhecer as nossas próprias faltas
e aprender com o outro. [...] Ali onde no primeiro momento tínhamos
visto uma contradição, podemos ver uma posição complementar».
[108] Congregação do Santo Ofício, Dec. De
motione oecumenica, 20/12/1949, AAS 42, 1950, p. 144. DC
nº 1064, 12/3/1950, col. 332.
[109] Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis
redintegratio, nº 11.
[110] Congregação para a Doutrina da Fé,
Declaração Mysterium Ecclesiae, 24/6/1973, DC nº 1636,
15/7/1973, p. 667.
[111] João Paulo II, Encontro com o Conselho
da Igreja Evangélica, 17/11/1980, DC nº 1798, 21/12/1980, p.
1147.
[112] Leão XIII, Encic. Testem benevolentiae,
22/1/1899, ASS 31, 1898-1899, p. 471; Atas de Leão XIII. Boa
Imprensa, vol. 5, p. 313. Cf. Pio XI, Mortalium animos,
AAS 20, 1928, p. 12; DzH nº 3683: «Tratando-se de pontos de fé,
não é de nenhum modo lícito distinguir de alguma maneira entre os
pontos que seriam fundamentais e os que não seriam, devendo os
primeiros ser aceites por todos, e os outros podendo ser deixados ao
livre assentimento dos crentes; a virtude sobrenatural da fé tem a
sua causa formal na autoridade de Deus Revelador, que não tolera
nenhuma distinção desse tipo».
[113] João Paulo II, Ut unum sint, nº 17
e 18.
[114] Pio XII, Encic. Humani generis,
12/8/1950, ASS 52, 1950, p. 566-567, DzH 3881-83.
[115] Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis
redintegratio, nº 11; João Paulo II, Ut unum sint, nº 36.
[116] Cf. Concílio de Trento, Decreto sobre
a Justificação, cap. 7, DzH 1528: «A justificação [que] não é
somente remissão dos pecados, mas simultaneamente santificação e
renovação do homem interior pela recepção voluntária da graça e dos
dons».
[117] Declaração Comum da Federação Luterana
Mundial e da Igreja Católica, nº 27, DC nº 2168, 19/10/1997, p.
875 ss.
[118] Congregação do Santo Ofício, Decreto
de 20/12/1949, DC nº 1064, 12/3/1950, col. 330 ss.
[119] Santo Agostinho, Sermão ao Povo de
Cesaréia, pronunciada perante Emérito, bispo donatista, nº 6.
[120] O Papa Bento XIV, no seu admirável De
servorum Dei beatificatione et beatorum canonizatione, explica
assim: se um herético estabelecido na ignorância invencível da
verdadeira fé morre por um ponto da doutrina católica, não pode,
mesmo nesse caso, ser considerado mártir. Com efeito, será talvez
mártir coram Deo, mas não coram Ecclesia, porque a
Igreja não julga senão o exterior e a heresia professada
publicamente obriga a conjecturar a heresia interna (De servorum,
c. 20). Quanto à objeção de Santo Hipólito, mártir e anti-papa
(217-235), ela não vem a propósito. Se o martirológio o menciona na
data de 30 de outubro, dies natalis do Papa São Ponciano, é
porque Hipólito se reconciliou com Ponciano nas minas da Sardenha,
antes que ambos sofressem o martírio em 236.
[121] W. Kasper, Declaração Comum sobre a
Doutrina da Justificação: um Motivo de Esperança, DC nº 2220,
20/2/2000, p. 171-172.
[122] W. Kasper, 30 Dias na Igreja e no
Mundo, nº 5/2003, p. 22.
[123] Pio IX, Encic. Neminem vestrum,
2/2/1854, Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 1, nº
219.
[124] Declaração da Comissão Mista para o
Diálogo entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa, 23/6/1993,
dita “de Balamand”, nº 2 e 22, DC nº 2077, 1/8/1993, p. 711.
[125] W. Kasper, Declaração Comum sobre a
Doutrina da Justificação: um Motivo de Esperança, DC nº 2220,
20/2/2000, p. 167. Cf. W. Kasper, Conferência no Kirchentag
Ecumênico de Berlim, DC nº 2298, 21/9/2003, p. 817: «Não podemos
lançar pela borda fora o que nos trouxe e o que nos manteve até o
presente, o que os nossos antepassados viveram, em circunstâncias
frequentemente difíceis, e não devemos esperar isso dos nossos
irmãos e das nossas irmãs do protestantismo e da ortodoxia. Nem eles
nem nós podemos tornar-nos infiéis».
[126] W. Kasper, O Compromisso Ecumênico da
Igreja Católica, conferência de 23/3/2002 à Assembléia-geral da
Federação Protestante da França, Ecumenismo Informações nº 325,
5/2002, e 326, 6/2002.
[127] Cf., por ex., Pio IX, Carta Jam vos
omnes, 13/9/1868, p. 131, DzH 2997 a 2999, convidando os
protestantes e outros não católicos a aproveitarem a oportunidade do
Concílio Vaticano I para regressarem à Igreja Católica; Leão XIII
faz o mesmo por ocasião do seu jubileu episcopal, na Carta
Praeclara gratulationis, 20/6/1894, ASS 26, 1894, p. 705
ss. O texto mais conhecido é, evidentemente, o de Pio XI na
Encíclica Mortalium animos, 6/1/1928, AAS 20, 1928, p.
14, Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 1, nº 872:
«A união dos cristãos não pode ser buscada de outro modo senão
favorecendo o regresso dos dissidentes à única e verdadeira Igreja
de Cristo, que outrora tiveram a infelicidade de abandonar». Esta
prática do “regresso” não é própria do século XIX, mas o grande
cuidado dos Papas por esta causa. Com efeito, a prática do
“regresso” é constante na Igreja. Em 1595, Clemente VIII dizia, por.
ex., dos bispos metropolitas de Kiev (Instrução Magnus Dominus,
23/12/1595): «Graças à luz do Espírito Santo que iluminou o seu
coração, começaram a considerar seriamente que não eram membros do
Corpo de Cristo que é a Igreja, pois não estavam ligados à sua
cabeça visível, que é o Soberano Pontífice de Roma. Por isso
decidiram entrar na Igreja Romana que é a sua mãe e de todos os
fiéis».
[128] João Paulo II, Ut unum sint, nº
42.
[129] João Paulo II, ibid.
[130] Congregação do Santo Ofício, Carta de
16/9/1864, ASS 2, 660.
[131] Lamentações 5, 7: «Nossos pais
pecaram, já não existem, e nós é que carregamos o peso de suas
culpas».
[132] W. Kasper, Declaração Comum sobre a
Doutrina da Justificação: um Motivo de Esperança, DC nº 2220,
20/2/2000, p. 168.
[133] Congregação do Santo Ofício, Instrução
de 20/12/1949, AAS 42, 1950, p. 144. DC nº 1064,
12/3/1950. col. 332.
[134] 1º Esquema Preparatório do Concílio
Vaticano I sobre a Igreja, publicado nos Ensinamentos
Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 2, p. 8: «Reprovamos a
impiedade daqueles que fecham aos homens a entrada no Reino dos
Céus, assegurando-lhes sob falsos pretextos que é desonroso e nada
necessário à salvação abandonar a religião – mesmo falsa – na qual
se nasceu, na qual se foi educado e instruído; e que censuram a
própria Igreja por se apresentar como a única religião verdadeira,
por proscrever e condenar todas as religiões e seitas separadas da
sua comunhão, como se houvesse possibilidade de participação entre a
luz e as trevas, de acordo entre Cristo e Belial».
[135] João Paulo II, Ut unum sint, nº
17.
[136] João Paulo II, Ut unum sint, nº
18.
[137] W. Kasper, Conferência no Kirchentag
Ecumênico de Berlim, DC nº 2298, 21/9/2003, p. 820.
[138] Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis
redintegratio, nº 4; cf. todo o nº 6.
[139] W. Kasper, Declaração Comum sobre a
Doutrina da Justificação: um Motivo de Esperança, DC nº 2220,
20/2/2000, p. 167.
[140] Pio XI, Encic. Mortalium animos,
6/1/1928, AAS 20, 1928, p. 14, Ensinamentos Pontifícios de
Solesmes, A Igreja, vol. 1, nº 872.
[141] Pio XII, Mystici Corporis, AAS
35, 1943, p. 2453, Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja,
vol. 1, nº 1105.
[142] Mons. Lefebvre, Conferência de
14/4/1978.
[143] Salmos
12 (11), 2-4: «Socorro, Senhor! Pois acabaram-se os varões piedosos;
desapareceram os leais dentre os homens. Falsidades falam uns aos
outros, lábios enganadores falam com coração dúplice. Extirpe o
Senhor todos os lábios enganadores, toda a língua que fala com
arrogância»... Relativamente ao último versículo citado,
referir-se-á utilmente o comentário que dele faz São João Crisóstomo:
(In Ps. 11, nº 1): «Não é nada contra eles que fala, é no seu
interesse; não pede a Deus que os perca, mas que ponha fim às suas
iniqüidades. Com efeito, não diz: “Deus os exterminará”, mas
“extirpará todos os lábios enganadores”. Portanto, uma vez mais
ainda, não é a sua natureza que [o salmista] deseja ver aniquilada,
mas sua linguagem».