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Tradição católica vs Vaticano II > Origens da crise
Luzes da encíclica “Pascendi” para os católicos de hoje,
ou, “Pascendi” explicada
1) OS FUNDAMENTOS da
filosofia religiosa modernista
Dois
princípios
entrelaçados:
Agnosticismo e imanência vital
O
fundamento
da filosofia
religiosa
modernista é o agnosticismo.
Segundo
o agnosticismo, a razão humana só
consegue conhecer
fenômenos.
“(...) A
razão humana
fica inteiramente reduzida à consideração dos fenômenos,
isto é, só
das coisas perceptíveis e
pelo
modo como
são perceptíveis” Pascendi.
Pensando assim, o
filósofo modernista diz que não pode conhecer a realidade como ela é, não conhece o que
são as coisas.
Não se trata
mais de compreender
a realidade, mas o que aparece.
Assim, o homem estabelece primeiro, por ele mesmo, certa ciência da
realidade conhecendo os fenômenos. E, depois, ele aplica este
conhecimento imperfeito e superficial sobre a realidade.
Dessa maneira, o agnosticismo diz que não conhece a realidade, mas
admite um conhecimento sensível da realidade, os fenômenos.
Por esse caminho, a conclusão lógica é a negação da existência de
Deus. Se não consegue definir ou dizer o que
é uma pêra
ou
uma maçã
que
vê, que
poderá dizer de
Deus
que ninguém
vê!
Tal
homem, cuja
inteligência
pretende não
poder
dizer o que é
a realidade, mas
só designá-la ou
qualificá-la, se torna prisioneiro e encarcerado em
si mesmo.
Assim, tudo o que consegue dizer ou viver esse homem
é uma expressão do que está nele. O homem diz às coisas o que são.
Estamos no subjetivismo: O sujeito, o "eu" é afirmado em primeiro
lugar, e daí se segue o resto!
Mas,
então, por que um modernista não
professa
diretamente
e imediatamente o
ateísmo?
Porque
não nega o sensível. A religião
pode observar-se também de maneira sensível:
Vejo uma pessoa
rezar! Logo, o filósofo
modernista deve explicar
esse
fenômeno.
Qual
será a única
resposta
possível?
A
religião
vem do interior do
homem
(imanente = in-manere =
dentro-permanecer = permanece dentro)
e pertence aos fenômenos
sensíveis. É o
que
a encíclica Pascendi chama de “imanência
vital”. A
religião
é uma forma de
vida
humana (vita =
vida, vitalis = vital)
que
nasce e permanece dentro dos homens,
e procura e reage aos fenômenos.
É, segundo os modernistas,
uma necessidade do homem,
ou, em outros termos, do coração humano.
Há, no homem, uma
necessidade
do divino.
A
fé
modernista é a aceitação voluntária pela
consciência desta necessidade
do divino
que o homem
experimenta.
A
fé
é a resposta à
necessidade
do divino cuja
origem exata
não é conhecida.
Não posso conhecer as coisas além do
sensível, mas pela “fé”, aceito a realidade da
experimentação deste “além”.
A
experiência
do divino é a
única
prova formal
da sua
existência.
Explicação
O filósofo
modernista explica que o conhecimento
da ciência e da
história
se mantém necessariamente entre dois limites.
“... a ciência e
a história, dizem eles, acham-se fechadas entre dois termos: um
externo, que é o mundo visível; outro interno, que é a consciência.”
Pascendi
Além do mundo
visível e da consciência “... acha-se o incognoscível. Diante
deste incognoscível, seja que ele se ache fora do homem e fora de
todas as coisas visíveis, seja que ele se ache oculto na
subconsciência do homem, a necessidade de um quê divino, sem nenhum
ato prévio da inteligência... (...)... gera no ânimo já
inclinado um certo sentimento particular....” (Pascendi)
O
fato
de descobrir a
existência
do incognoscível
não
corresponde a um
ato
da inteligência, mas a uma experiência religiosa. Assim,
visito um
convento, uma igreja,
vejo um
filme, escuto o
testemunho
de um convertido... e nasce em mim uma atitude interior, uma
impressão que
não consigo
explicar, quer
com
os elementos do
mundo
visível, quer
com a minha
consciência atual
das coisas e deste
fenômeno!
O
que
nasce então
em
mim é um
certo sentimento
que responde à
necessidade
de aderir ou
aproximar-se deste misterioso “quê” divino. E considero tal
sentimento essencial, porque
é ele que, “...de certa maneira,
une o homem
com
Deus. É
precisamente
a este
sentimento
que os modernistas dão o nome de fé e
tem-no como
princípio
de religião.” Pascendi
O que é a
Revelação, Deus que se revela, para o modernismo?
Para o
modernismo a Revelação é o divino manifestado. Mas, manifestado
adentro do homem. Segundo a encíclica Pascendi, a “Revelação”
modernista, ou ao menos o seu princípio, é “aquele sentimento
religioso, que se manifesta na consciência” (que chamam “fé”:
assentimento da consciência à necessidade subconsciente do divino),
ou “também o mesmo Deus a manifestar-se às almas”
pelo meio desta fé.
A Revelação não é
mais externa ao homem, assim como o ensina o catolicismo (A
Revelação tem duas fontes: a Tradição e a Sagrada Escritura), mas
interna, imediata, direta, sem intermediário.
“...sendo Deus ao
mesmo tempo objeto e causa da fé, essa revelação é de Deus como
objeto e também provém de Deus como causa; isto é, tem a Deus ao
mesmo tempo como revelante e revelado. Segue-se daqui, Veneráveis
Irmãos, a absurda afirmação dos modernistas, segundo a qual toda a
religião, sob diverso aspecto, é igualmente natural e sobrenatural.”
Pascendi
O natural pode ser
ao mesmo tempo o sobrenatural! É contraditório.
Há uma grave
confusão e, logicamente, graves conseqüências: “Segue-se daqui a
promíscua significação que dão aos termos consciência e revelação.
Daqui a lei que dá a consciência religiosa, a par com a revelação,
como regra universal, à qual todos se devem sujeitar, inclusive a
própria autoridade da Igreja, seja quando ensina seja quando legisla
em matéria de culto ou de disciplina.” Pascendi.
A lei deve
erigir a consciência religiosa como regra universal do agir.
Desse ponto se segue que a liberdade de consciência e a liberdade
religiosa não podem ter limites. Toda consciência humana é
divinizada. Isto explica todo o concílio Vaticano II e o
magistério pós-conciliar!
“O sentimento
religioso, que por imanência vital surge dos esconderijos da
subconsciência, é pois o gérmen de toda a religião e a razão de tudo
o que tem havido e haverá ainda em qualquer religião.” Pascendi.
“(...) Fica-se
pasmo em se ouvindo afirmações tão audaciosas e sacrílegas!
Entretanto, Veneráveis Irmãos, não é esta linguagem usada
temerariamente só pelos incrédulos. Homens católicos, até muitos
sacerdotes [E essa encíclica tem 100 anos!...],
afirmaram estas coisas publicamente, e com delírios tais se
vangloriam de reformar a Igreja. Já não se trata aqui do velho erro,
que à natureza humana atribuía um quase direito à ordem
sobrenatural. Vai-se muito mais longe ainda; chega-se até a
afirmar que a nossa santíssima religião, no homem Jesus Cristo assim
como em nós, é fruto inteiramente espontâneo da natureza. Nada
pode vir mais a propósito para dar cabo de toda a ordem
sobrenatural.” Pascendi.
O que é a
religião neste sistema?
A religião é o
testemunho da resposta da consciência humana ao sentimento do divino
em nós. Todas as religiões são eflorescências dessa
necessidade do divino. E como há uma diversidade de expressões há
também diversas religiões.
"Temos, pois, assim a origem de toda a religião, até mesmo da
sobrenatural; e estas não passam de meras explicações do sentimento
religioso. Nem se pense que a católica é excetuada; está no mesmo
nível das outras, pois não nasceu senão pelo processo de imanência
vital na consciência de Cristo, homem de natureza extremamente
privilegiada, como outro não houve nem haverá" Pascendi.
E o que é o
dogma?
Quando a
inteligência vai pensar e analisar esses sentimentos religiosos do
homem, ela irá traduzir “em representações mentais os fenômenos
de vida, que nele aparecem, e depois os manifesta com expressões
verbais”. Pascendi.
Em uma primeira
etapa, a inteligência exprime esses sentimentos com proposições
simples, mas “depois, com reflexão e penetração mais íntima, ou,
como dizem, elaborando o seu pensamento, exprime o que pensou com
proposições secundárias, derivadas certamente da primeira, porém,
mais polidas e distintas. Estas proposições secundárias, se forem
finalmente sancionadas pelo supremo magistério da Igreja,
constituirão o dogma”. Pascendi
O dogma é útil ao
crente para que possa dar razão a sua fé. A inteligência do crente
analisa a sua fé, a consciência do divino, e encontra fórmulas para
determiná-lo. Porém, segundo a definição da fé modernista, a
consciência do divino de ontem, de hoje e de amanhã, corresponde a
diferentes experiências e percepções do sentimento religioso. O
verdadeiro dogma modernista é necessariamente vivo e adaptado à
expressão vital do religioso em mim! Ou seja, o dogma na sua
formulação muda segundo as experiências variadas ou repetidas.
Assim, a Encíclica
Pascendi mostra que tal dogma tem duas funções para o crente.
Primeira, ser símbolo do divino intrínseco, mas símbolo
sempre incompleto porque não se pode definir o que são as coisas. As
fórmulas dogmáticas “são expressões inadequadas” do objeto do
dogma. Segunda função, o dogma é também instrumento do homem
para falar do divino aos outros.
Agora, como todo
conhecimento está limitado aos fenômenos sensíveis e a fé depende
deles, na medida em que o dogma é a expressão desta fé, então o
dogma deve variar tanto como as várias sensações religiosas do
crente. Caso contrário não seria mais símbolo verdadeiro do divino!
E enquanto
instrumento, pelo dogma, o homem deverá falar de maneira
infinitamente variada do que está vivendo, do seu “vivido”. Em
hipótese contrária seria a morte da religião!
Daí surge uma
nova “tradição”
O princípio da
experiência religiosa é transmitido à Tradição. Ela é comunicação e
transmissão da fé, ou seja, transmissão da experiência religiosa.
A nova tradição é a
transmissão das experiências sensíveis vividas. E, enquanto vividas,
pertencem imediatamente ao âmbito da religião. As experiências
fixas, ao contrário, não são expressões da religião.
Tal tradição tem,
portanto, uma virtude sugestiva. Provoca uma reação sensível, faz
tomar consciência do vivido do homem.
Vemos, assim, por
exemplo, como é justo dizer que o “carismatismo” é um modernismo
organizado.
Com efeito, o
modernista crente explica assim a presença da realidade divina na
sua alma: “Se, porém, procurarmos saber que fundamento tem esta
asserção do crente, respondem os modernistas: é a experiência
individual. — Com esta afirmação, enquanto na verdade discordam dos
racionalistas, caem na opinião dos protestantes e dos
pseudo-místicos.” Pascendi.
Os sacramentos
São sinais
sensíveis que produzem (eles mesmos) uma “graça”, uma virtude
sugestiva, que provoca uma reação sensível, que desperta o
sentimento. O cristão é “interpelado” pelos ritos, pelos gestos,
pelas palavras e pelos sinais.
Mas, para não perder
a sua força sugestiva, o sacramento deve seguir interpelando o
crente. Por isso a necessidade de poder variar os gestos, as
palavras...e de reformar as reformas litúrgicas!
“Do culto não
haveria muito que dizer, se debaixo deste nome não se achassem
também os Sacramentos, a respeito dos quais muito erram os
modernistas. Pretendem que o culto resulta de um duplo impulso; pois
que, como vimos, pelo seu sistema, tudo se deve atribuir a íntimos
impulsos. O primeiro é dar à religião, alguma coisa de sensível; o
segundo é a necessidade de propagá-la, coisa esta que se não poderia
realizar sem uma certa forma sensível e sem atos santificantes, que
se chamam Sacramentos. Os modernistas, porém, consideram os
Sacramentos como meros símbolos ou sinais, bem que não destituídos
de eficácia. E para indicar essa eficácia, servem-lhes de
exemplo certas palavras que facilmente vingam, por terem conseguido
a força de divulgar certas idéias de grande eficácia, que muito
impressionam os ânimos. E assim como aquelas palavras são destinadas
a despertar as referidas idéias, assim também o são os Sacramentos
com relação ao sentimento religioso; nada mais do que isto. Falariam
mais claro afirmando logo que os Sacramentos foram só instituídos
para nutrirem a fé. Mas esta proposição é condenada pelo Concílio de
Trento (Sess. VII, de Sacramentis in genere, cân.5): Se alguém
disser que estes Sacramentos foram só instituídos para nutrirem a
fé, seja anátema.” (Pascendi – o modernista teólogo).
A Igreja
A Igreja nasce
de duas necessidades:
- Necessidade de
comunicar sua fé aos outros
- Necessidade de
organizar-se quando a fé é comum a vários, quando se torna coletiva,
a fim de conservar e propagar esse tesouro.
A Igreja, portanto,
é o fruto da consciência religiosa coletiva, a reunião de todas as
reações individuais. Um conjunto de pessoas que se juntam porque
fazem experiências semelhantes do divino e que se organizam para
proteger, desenvolver e dar a conhecer esse bem.
Assim, uma igreja é
também um grupo de consciências que consta de uma mesma origem
vital. Para os católicos, Jesus Cristo. Para os muçulmanos, Maomé,
para certos protestantes, Lutero, para outros, Calvino, etc...
Constituem-se
grupos, faz-se “igreja” que é a consciência universal. E, é enquanto
há “posta em comum”, que se constitui a Igreja.
"Cumpre, entretanto, desde já, notar que, posta esta doutrina da
experiência unida à outra do simbolismo, toda religião, não
executada sequer a dos idólatras, deve ser tida por verdadeira.
E na verdade, porque não fora possível o se acharem tais
experiências em qualquer religião? E não poucos presumem que de fato
já se as tenha encontrado. Com que direito, pois, os modernistas
negarão a verdade a uma experiência afirmada, por exemplo, por um
maometano? Com que direito reivindicarão experiências verdadeiras só
para os católicos? E os modernistas de fato não negam, ao contrário,
concedem, uns confusa e outros manifestamente, que todas as
religiões são verdadeiras. É claro, porém, que eles não poderiam
pensar de outro modo. Em verdade, postos os seus princípios, em que
se poderiam porventura fundar para atribuir falsidade a uma religião
qualquer? Sem dúvida seria por algum destes dois princípios: ou por
falsidade do sentimento religioso, ou por falsidade da fórmula
proferida pela inteligência. Ora, o sentimento religioso, ainda que
às vezes menos perfeito, é sempre o mesmo; e a fórmula intelectual
para ser verdadeira basta que corresponda ao sentimento religioso e
ao crente, seja qual for a força do engenho deste. Quando muito,
no conflito entre as diversas religiões, os
modernistas poderão sustentar que a católica tem mais verdade,
porque é mais viva, e merece mais o título de cristã, porque
mais completamente corresponde às origens do cristianismo.
- A ninguém pode parecer absurdo que estas conseqüências todas
dimanem daquelas premissas. Absurdíssimo é, porém, que
católicos e sacerdotes que, como preferimos crer, têm horror a tão
monstruosas afirmações, se ponham quase em condição de admiti-las."
Pascendi - O modernista crente.
A autoridade
Como qualquer
organização, essa igreja vai precisar de um chefe. Mas essa
autoridade deverá estar, sobretudo, atenta às experiências, ouvindo
essas experiências individuais de cada um para não desfigurar a
consciência coletiva do grupo, estar ao serviço de cada um para
nutrir seus sentimentos religiosos.
Por exemplo:
Encontrar o rito que melhor convém a cada um, mas conservando ao
mesmo tempo a unidade do grupo.
Para que o grupo
fique unido, para evitar uma dissociação que diminui a força do
sentimento coletivo, essa autoridade pode e deve condenar o que
representa um perigo para esta unidade coletiva a fim de preservar a
consciência universal que é a fé.
Por exemplo: A
autoridade dará um golpe contra a teologia da libertação quando
considera que exagera no progressismo, e outro golpe contra Dom
Lefebvre que exageraria na sua fidelidade (“fixista”) à Igreja de
sempre! Assim, a autoridade não passa de um simples serviço vital de
organização e de controle. O Papa só toma o “pulso” universal do
grupo a fim de prever e evitar abusos mortais à consciência coletiva
e preservar sua identidade.
Assim, no
modernismo, o chefe religioso é um ‘organizador de
compartilhamento’. Não há mais autoridade propriamente dita. A
autoridade não vem mais de Deus imediatamente. “Assim como a
Igreja emanou da coletividade das consciências, a autoridade emana
virtualmente da mesma Igreja. A autoridade, portanto, da mesma sorte
que a Igreja, nasce da consciência religiosa, e por esta razão
fica dependente da mesma”. Pascendi.
Se a autoridade
esquece ou parece desprezar essa consciência religiosa estará
legitimamente declarada tirânica, retrógrada ou ultra conservadora!
Quanto às
relações da Igreja com as sociedades temporais, os estados
temporais, elas estão inevitáveis.
A regra de atuar
nesta matéria deverá considerar a natureza e o fim de cada uma
destas sociedades. Quanto à natureza, os modernistas recusam seguir
a doutrina multissecular da Igreja, que ensina que Ela é instituída
diretamente por Deus. Para eles, a Igreja e o Estado são sociedades
feitas pelo homem e que respondem essencialmente a diferentes
necessidades do homem. Ora, mesmo assim, observam que os fins e
objetivos de cada uma delas são essencialmente distintos. Fim
espiritual para a Igreja, fim temporal para o Estado.
Como conseqüência,
temos, segundo os modernistas, duas sociedades existindo e
necessitadas pelo bem do ‘homem total’ e cujos objetivos são
efetivamente e absolutamente distintos. Daí, Deus estando afastado
das suas constituições essenciais, não se pode falar da
superioridade de uma sobre a outra. Cada uma deverá certamente
respeitar a outra, mas não será mais admitido ensinar que o temporal
possa ser subordinado ao espiritual.
“Falava-se
outrora do temporal sujeito ao espiritual, de questões mistas, em
que a Igreja intervinha qual senhora e rainha, porque então se tinha
a Igreja como instituída imediatamente por Deus, enquanto autor da
ordem sobrenatural. Mas estas crenças já não são admitidas pela
filosofia, nem pela história. Deve, portanto, a Igreja separar-se do
Estado, e assim também o católico do cidadão.” Pascendi.
Reclamando então a
separação da Igreja e do Estado, os modernistas reclamam
necessariamente também a separação do católico e do cidadão, do
católico na sua vida privada e do católico na vida pública. Mas esta
separação e aparente igualdade de tratamento levam necessariamente à
submissão do espiritual ao temporal!
Com efeito, a cada
instante o católico dará a impressão de entrar no terreno do outro!
Ser católico unicamente na vida privada significa ser invisível na
vida pública! E isto não se consegue sem esconder as necessárias
conseqüências visíveis da religião! Mas como é absolutamente
impossível evitar toda manifestação pública exterior da religião, a
Igreja deverá aceitar submeter-se ao Estado nestas circunstâncias!
Culto, sacramentos (matrimônio!), atividades eclesiásticas, questões
morais, todas essas manifestações exteriores da religião entram
também no âmbito temporal das sociedades. O Estado separado da
Igreja reclamará então a submissão da Igreja à suas decisões nestas
matérias públicas! Lógica fria! Mas lógica!
“No entanto, à
escola dos modernistas não basta que o Estado seja separado da
Igreja. Assim como a fé deve subordinar-se à ciência, quanto aos
elementos fenomênicos, assim também nas coisas temporais a Igreja
tem que sujeitar-se ao Estado. Isto não afirmam talvez muito
abertamente; mas por força de raciocínio são obrigados a admiti-lo.
Em verdade, admitido que o Estado tenha absoluta soberania em tudo o
que é temporal, se suceder que o crente, não satisfeito com a
religião do espírito, se manifeste em atos exteriores, como, por
exemplo, em administrar ou receber os Sacramentos, isto já deve
necessariamente cair sob o domínio do Estado. Postas as coisas neste
pé, para que servirá a autoridade eclesiástica? Visto que esta não
tem razão de ser sem os atos externos, estará em tudo e por tudo
sujeita ao poder civil. É esta inelutável conseqüência que leva
muitos dentre os protestantes liberais a desembaraçar-se de todo o
culto externo e até de toda a sociedade religiosa externa,
procurando pôr em voga uma religião, que chamam individual. — E se
os modernistas, desde já, não se atiram francamente a esses
extremos, insistem pelo menos em que a Igreja se deixe
espontaneamente conduzir por eles até onde pretendem levá-la e se
amolde às formas civis.” Pascendi.
E o ‘modernista reformador’ insiste: “Deve mudar-se a
atitude da autoridade eclesiástica nas questões políticas e sociais,
de tal sorte que não se intrometa nas disposições civis, mas procure
amoldar-se a elas, para penetrá-las no seu espírito. » Pascendi.
A encíclica denuncia claramente essas idéias que, infelizmente,
triunfaram nos anos sessenta no concílio Vaticano II. Hoje, a
hierarquia modernista de nosso século nascente chora e se lamenta
frente à invasão planetária do aborto e de tantos outros males
públicos, mas não quer enxergar as causas que ela mesma promoveu e
edificou!
O princípio
radical do modernismo: A evolução de tudo
Como vimos,
o modernismo tem um quadro e certos limites, mas o seu fundamento
seguro é o âmbito do sensível, os fenômenos. Ora, o sensível é
variável. Logo, o modernismo reclamará, como uma necessidade e uma
condição absoluta, uma religião evolutiva.
“Têm eles por
princípio geral que numa religião viva, tudo deve ser mutável e
mudar-se de fato. Por aqui abrem caminho para uma das suas
principais doutrinas, que é a evolução. O dogma, pois, a Igreja, o
culto, os livros sagrados e até mesmo a fé, se não forem coisas
mortas, devem sujeitar-se às leis da evolução. Quem se lembrar de
tudo o que os modernistas ensinam sobre cada um desses assuntos, já
não ouvirá com pasmo a afirmação deste princípio. Posta a lei da
evolução, os próprios modernistas passam a descrever-nos o modo como
ela se efetua. E começam pela fé. Dizem que a forma primitiva da fé
foi rudimentar e indistintamente comum a todos os homens; porque se
originava da própria natureza e vida do homem. Progrediu por
evolução vital; quer dizer, não pelo acréscimo de novas formas,
vindas de fora, mas por uma crescente penetração do sentimento
religioso na consciência.”. Pascendi.
Esta evolução é
considerada boa porque é o resultado de uma oposição frutuosa entre
uma força conservadora e outra progressista.
“Estudando,
pois, mais a fundo o pensar dos modernistas, deve-se dizer que a
evolução é como o resultado de duas forças que se combatem, sendo
uma delas progressiva e outra conservadora. A força conservadora
está na Igreja e é a tradição. O exercício desta é próprio da
autoridade religiosa, quer de direito, pois que é de natureza de
toda autoridade adstringir-se o mais possível à tradição; quer de
fato, pois que, retraída das contingências da vida, pouco ou talvez
nada sente dos estímulos que impelem ao progresso. Ao contrário, a
força que, correspondendo às necessidades, arrasta ao progresso,
oculta-se e trabalha nas consciências individuais, principalmente
naquelas que, como eles dizem, se acham mais em contato com a vida.
— Neste ponto, Veneráveis Irmãos, já se percebe o despontar daquela
perniciosíssima doutrina que introduz na Igreja o laicato como fator
de progresso. De uma espécie de convenção entre as forças de
conservação e de progresso, isto é, entre a autoridade e as
consciências individuais, nascem as transformações e os progressos.
As consciências individuais, ou pelo menos algumas delas, fazem
pressão sobre a consciência coletiva; e esta, por sua vez, sobre a
autoridade, obrigando-a a capitular e pactuar.” Pascendi.
O progresso vem dos
compromissos e das transações entre as duas forças! A base pressiona
a autoridade que pode assim colecionar as reações individuais. Se a
pressão se desenvolve e se torna mais viva, a autoridade deverá
tomar conta dela e, assim, modificar as posições do momento presente
para outras, novas e mais adaptadas à consciência coletiva.
É um equilíbrio
sempre instável, não perdura, o seu destino é mudar sempre.
Neste contexto,
quando um pseudo-teólogo, modernista ou progressista demais, está
publicamente repreendido, ele é imediatamente considerado pelos
colegas como vítima necessária do progresso. Ele mesmo proclama não
poder entender que a Igreja o condena quando favorece o seu bem, o
seu progresso!
“Traçado
este caminho, eles continuam; continuam, com desprezo das
repreensões e condenações, ocultando audácia inaudita com o véu de
aparente humildade. Simulam finalmente curvar a cabeça; mas, no
entanto a mão e o pensamento prosseguem o seu trabalho com ousadia
ainda maior. E assim avançam com toda a reflexão e prudência, tanto
porque estão persuadidos de que a autoridade deve ser estimulada e
não destruída, como também porque precisam de permanecer no seio da
Igreja, para conseguirem pouco a pouco assenhorear-se da consciência
coletiva, transformando-a; mal percebem porém, quando assim se
exprimem, que estão confessando que a consciência coletiva diverge
dos seus sentimentos, e que portanto não têm direito de declarar-se
intérpretes da mesma.” Pascendi.
O sistema modernista
está então claramente apoiado sobre princípios determinados:
agnosticismo, imanência vital, evolucionismo. Mas a conseqüência
concreta destes princípios desastrosos e caóticos é necessariamente
confusa e nebulosa. Daí a impressão que têm os católicos de que o
modernismo não tem bases claras e sólidas. Mas não é assim.
Imaginemos encontrar
um homem jogando pela janela, um atrás do outro, todos os livros da
sua biblioteca. “Perdeu a cabeça”, dizem os sensatos! “Deve estar
todo confuso!” “Não se dá mais conta do que está fazendo!” Mas ele
poderia responder no seu interior: “Confuso? Eu? Não! Estou apenas
procurando uma citação de alguém que possa exprimir o sentimento que
sinto vibrar agora dentro de mim! O resto não vale mais nada!”
Até o novo
direito humano: o direito de contradizer Deus
A última
conseqüência do sistema modernista será a legitimação necessária de
afirmações contraditórias. A religião do sentimento divino imanente
leva necessariamente a sentir hoje o que não sentia assim ontem. Mas
os dois sentimentos são válidos no seu contexto, no seu tempo!
“(...) Posto
isto, que será dos dogmas da Igreja? Também estes estão cheios de
evidentes contradições; mas, além de serem aceitos pela lógica da
vida, não se acham em oposição com a verdade simbólica; pois, neles
se trata do infinito, que tem infinitos aspectos.
Enfim, tanto eles aprovam e defendem essas teorias, que não põem
dúvida em declarar que se não pode render ao Infinito maior preito
de homenagens, do que afirmando acerca do mesmo coisas
contraditórias! E admitindo-se a contradição, que é o que se não
admitirá?”.
Pascendi
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