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    Homilia de Mons. Bernard Fellay - Extratos

18 de fevereiro de 2007

 

 

O MOTU PROPRIO SOBRE A MISSA TRADICIONAL

E O ESTADO DE NECESSIDADE NA IGREJA

 

Sumário: No Domingo, 18 de Fevereiro de 2007, Mons. Bernard Fellay celebrou Missa Pontifical, em ação de graças pelos 30 anos da restituição ao culto católico tradicional da Igreja de Saint-Nicolas-du-Chardonnet em Paris. Nessa ocasião, o Superior Geral da Fraternidade São Pio X estabeleceu um paralelo entre o estado de necessidade na Igreja em 1977 e o de hoje, e depois – à luz do estado de necessidade persistente – evocou o esperado Motu proprio sobre a liberalização da Missa Tridentina.

 

Extratos da Homilia de Mons. Bernard Fellay, nos trinta anos

de Saint-Nicolas-du-Chardonnet

 

Celebramos, hoje, uma Missa em ação de graças pelos trinta anos da restituição ao culto católico romano desta igreja de Saint-Nicolas-du-Chardonnet e, evidentemente, esta ação de graças eleva-se em primeiro lugar a Deus. Deus, que permitiu este acontecimento surpreendente. Deus que, manifestamente, o abençoou…

 

É bom lembrar o estado de espírito dos homens da Igreja que decidiram, um dia, tomar uma igreja. Era uma ação heróica que perturbaria toda a disciplina, que inverteria, pelo menos exteriormente, o princípio de obediência. Ora, quando consideramos essas figuras sacerdotais, cada um desses padres tomava a peito a submissão à autoridade, esse exercício de obediência tão necessário ao cristão. (…) É verdadeiramente em estado de necessidade, após ter esgotado os meios habituais, que eles se decidiram. Mons. Ducaud-Bourget foi pedir ao Cardeal Marty uma igreja, procurou as autoridades civis: nada, nada, nada! Situação inaudita, em que os próprios pastores se transformam em perseguidores. (…)

 Foi bem forçados pela realidade dos fatos que somos obrigados a ver a situação tal como era. O que estava mal ainda há 50 anos é, de repente, abençoado; e os que tentam continuar o que era abençoado há 50 anos, são hoje malditos, excomungados. Foi precisa uma notável coragem para se erguer e resistir à pressão de todo um grupo. E não um qualquer grupo: «Estais contra 2.500 bispos, estais contra o Papa». E estes bispos, estes pastores, depois do concílio, asfixiam a vida católica…

O estado de necessidade: é precisamente o do homem que, para atingir seus fins mais elevados – a sua sobrevivência – é obrigado a sair do caminho habitual, normal. Não pode proceder de outra maneira. E, tal estado, encontramo-lo na situação jurídica da Igreja. Isto não quer dizer que nós queremos esse estado. Nós não queremos estar fora da lei. Mas, porque a autoridade eclesiástica não quer mudar a situação, encontramo-nos, forçosamente, em estado de necessidade. E não penseis que essa aparente desobediência só seja nossa. Toda a alma que, hoje, quer viver fielmente, que quer servir Deus como a Igreja sempre fez, como o Bom Deus pede no Evangelho, encontra-se na necessidade de escolher um caminho diferente daquele que é imposto pelas autoridades eclesiásticas. Assim, atuamos para permanecer na comunhão da Igreja, que implica a comunhão através dos tempos. Sim, queremos estar unidos a São Pedro, a São Paulo, aos Apóstolos, a todos os santos de todos os tempos.

E, amanhã, que será Saint-Nicolas?

Diz-se, e pode-se pensar, que Bento XVI quer voltar a dar à Igreja o culto tradicional. Apesar de muitas hesitações, apesar das oposições selvagens, não abandonou o seu projeto que deveria, um dia, ser-nos comunicado sob a forma de motu proprio. Quando chegará? Não sabemos. Quais as disposições de seu texto? Nada sabemos. Segundo o que nos dizem, poder-se-ia esperar e encontrar a igualdade de direito entre a antiga e a nova Missa. Evidentemente, não é bastante. Mas é um primeiro passo. E, provavelmente, humanamente falando, um passo necessário.

Se acontecer, não penso que se possa esperar um movimento de massas de regresso á antiga Missa. É, em primeiro lugar, uma situação de direito que é restabelecida, e que deveria permitir aos que na Igreja o desejem, ter um acesso mais fácil a essa Missa. Mas, para que chegue a impor-se à atual obstrução dos bispos, seria necessária uma energia indomável que não se viu, até aqui, em Roma. Em compensação, quem sabe se tal energia não se encontrará entre os beneficiados – entre os fiéis, entre os padres – que desejem essa Missa. Quem sabe se, pouco a pouco, tendo retomado o gosto pela antiga Missa, os padres não aumentarão em número e, finalmente – Deus sabe quantos anos depois! – ver-se-á o antigo rito a suplantar o novo, encontrar o seu verdadeiro lugar na Igreja. Não creio que isso se faça num dia. É preciso desconfiar das ilusões.

Por outro lado, ainda menos pensamos que o que descrevemos como estado de necessidade se limite somente à questão da Missa. A nova Missa não é toda a crise da Igreja. É mais, sobretudo, a conseqüência e, em certos pontos, o instrumento: difunde as idéias modernas, que são o irenismo, o ecumenismo – segundo o qual toda a gente é boa, toda a gente vai para ao Céu – a também a liberdade religiosa e a colegialidade, essa demolição da autoridade hierárquica pessoal na Igreja. É a nova Missa que difunde tais idéias, mas não é sua causa.

Também, meus caríssimos irmãos, não vos admireis que a Fraternidade, praticamente, não se mexa, quando cheguem convites de Roma para uma nova reconciliação, após a aparição de tal motu proprio. Porque isso leva tempo. É todo um estado de espírito na Igreja que é preciso mudar e, mais ainda do que um estado de espírito, são princípios. É preciso que a autoridade reconheça estes princípios mortíferos, que paralisam a Igreja desde há quarenta anos. Enquanto isso não for feito, é bem difícil pensar num acordo prático. E porquê? Porque, quando são estes princípios que regem a vida da Igreja, desde que surja o mínimo conflito, este será regulado em nome e por esses maus princípios. Isto quer dizer que um acordo prático, nestas circunstâncias, está antecipadamente fracassado. É pôr em causa todo o combate que hoje celebramos, seria uma contradição verdadeiramente total com o que dissemos até agora. Não é isso que queremos; queremos, evidentemente, o estado normal das coisas. Mas isso não depende de nós. Se nos encontramos nesta situação não é porque a quisemos. Uma vez mais: é por necessidade. E tal necessidade continua.

Resumimo-la ao Papa numa pequeníssima frase, no decurso da audiência de Agosto de 2005: «A vida católica normal tradicional na Igreja, hoje é impossível». E demos-lhe o exemplo de padres, de religiosos, de religiosas, de fiéis que ainda hoje vêm à Fraternidade, vêm à Tradição, dizendo: «Não agüento mais. Em consciência, não posso continuar a obedecer. Cada vez que tento fazer alguma coisa, arrasam-na». Isto significa que o que temos de fazer – e, provavelmente, durante muito tempo – é, muito simplesmente, continuar nesta linha, seguindo os passos traçados pelos nossos predecessores, por Mons. Lefebvre, Mons. Ducaud-Bourget, Sr. Padre Coache, Sr. Padre Serralda, todos eles padres corajosos. Nós não temos grande mérito, poderemos dizer que mantemos essa coragem, com a ajuda de Deus.

Esta Missa é uma Missa votiva da Santíssima Virgem, porque se agüentamos, se resistimos, em que somos melhores do que os outros? Mas é que muito beneficiamos de uma proteção especial. Pedimo-la e é preciso pedi-la. É a proteção da Santíssima Virgem Maria, e não há dúvida de que a época da Igreja que vivemos – época muito tormentosa – Deus a colocou sob a proteção da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus. As suas aparições, Lourdes, La Salette, Fátima, indicam, certamente, que estamos no tempo de Maria. Decerto, o que nos interessaria era ver a sua vitória! Esta chegará. Mas, desde as aparições, pode-se dizer que estamos num tempo muito particular da Igreja.

Em Fátima, ouvimos que Deus quer salvar o mundo, as almas, pela devoção ao Coração Imaculado de Maria. A Santíssima Virgem dá-nos, como meios, a penitência e a oração; muito particularmente, indica-nos o Terço. Uma intervenção extraordinária em toda a História da Igreja: um meio muito preciso. Porque não acreditar? Meus caríssimos irmãos, se aqui estais, é porque acreditais. Convidamo-vos a conservar essa devoção, que ela cumpra em vós, verdadeiramente, uma união cada vez mais íntima com a Santíssima Virgem. Que Nossa Senhora seja, verdadeiramente, nossa mãe. Mãe que protege os seus filhos e que tem esse poder, que lhe foi dado por Deus: Mãe medianeira de todas as graças! E é essa proteção que pedimos para este lugar e para todos que aqui vêm, para que tenham a força de viver como verdadeiros católicos em cada dia, no mundo de hoje. Que Deus nos conceda as graças de verdadeira devoção à Santíssima Virgem Maria, a fim de que, por Ela, cheguemos sempre mais à união a Deus, para conseguir a salvação da nossa alma e da do nosso próximo. Assim seja!

10/3/2007

[DICI.org]