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Eis a apresentação dum
santo que merece toda a nossa atenção por dois motivos: um por causa
de ser um modelo de virtude cristã e o segundo por combater a
falsificação e deturpação que foi feito da devoção popular a este
santo. São Nicolau foi substituído pelo Papai Natal, imagem duma
bondade falsa ao serviço do mercantilismo que quer converter o tempo
sagrado do advento e do Natal num momento de alto negócio. O mundo
cristão, ao convite do Papai Noel, é desviado para as lojas em vez de
seguir o exemplo de São Nicolau e encher as igrejas. São Nicolau nos
ensina pelo seu exemplo como a bondade e a beneficência, como a
paciência na pobreza e nas injustiças, como o bem-estar virtuoso do
homem na terra depende muito da penitencia e da piedade. O grande
exemplo deste santo bispo alimentando a sua bondade e a sua coragem a
defender a fé ao pé dos altares, animou muitas gerações de homens e
foi a ilustração perfeita desta palavra do Evangelho “Cuidais
primeiro do reino de Deus e todo o resto vos será dado em acréscimo”.
O advento sendo um tempo de regeneração espiritual para merecer um
ano novo profícuo para as almas e para a sociedade, deve permitir
meditar na vida deste santo e não nos dissipar afastando-nos do
recolhimento e da piedade seguindo todos estes papais Noel e Mamães
Noel inventados pelos inimigos da civilização cristã.
São Nicolau, bispo de Mira, tão famoso
em todo o universo pelo brilho das suas virtudes, pelo número dos
seus milagres e pela confiança dos povos na sua intercessão, nasceu
na segunda metade do século III em Patara, cidade de Lycia na Ásia
Menor (Turquia), e faleceu no dia 6 de dezembro de 342.
Os seus pais foram muito ricos mas ainda mais piedosos. Eles tinham
perdido a esperança de ter filhos quando a mãe encontrou-se grávida.
Isso foi considerado como um dom do céu e fruto das grandes esmolas
dos seus pais, que eram chamados os pais dos pobres. Deus dotou S.
Nicolau de grandes bênçãos desde o nascimento. O seu tio Nicolau,
Bispo de Mira, que lhe conferiu o se nome, tendo ido para a Igreja
para agradecer a Deus, teve durante a oração a revelação de que esta
criança, concedida pelo céu, ia ser um astro luminoso que pela sua
virtude iluminaria a terra.
Tantos augúrios da futura santidade do jovem Nicolau empenharam os
seus virtuosos pais a redobrar em cuidados para dispensar uma
educação muito cristã. O natural bem disposto da abençoada criança
facilitou o zelo deles e abreviou as aulas. A piedade tinha
antecipado a idade da razão. Os divertimentos mais ordinários não
eram do seu gosto e se se queria lhe proporcionar um prazer, era
necessário conduzi-lo à igreja para rezar a Deus.

Muito cedo, foi iniciado ao estudo das
ciências. Ele aproveitou muito e fez muito progresso; mas virando
cientista, mais ainda tornou-se santo. A sua doçura, a sua
docilidade, sua modéstia distinguiam-no tanto que era considerado por
todos como modelo. Cada um admirava a sua regularidade, a sua terna
devoção, a sua sabedoria numa idade em que ordinariamente a
vivacidade e o amor dos prazeres dominam, e as paixões são os grandes
motivos das ações. Ainda muito novo, perdeu os seus pais; sentiu
muito esta perda mas continuou sem falha no caminho da virtude. A
morte duma mãe e dum pai que ele amava muito e que o criou herdeiro
de muitos bens, servi-lhe unicamente a tornar-se mais piedoso, mais
recolhido e mais caridoso. Tendo ouvido a notícia de que um pobre
homem da cidade estava a ponto de deixar as suas três filhas se
prostituírem, porque ele não tinha o suficiente para casá-las segundo
a sua condição, Nicolau encheu de moedas de ouro uma bolsa e, muito
secretamente, de noite, foi jogá-la pela janela dentro do quarto do
pai desesperado. Aquele pai, agradavelmente surpreendido de encontrar
assim uma quantia considerável de dinheiro para conseguir dotar a sua
filha mais velha, casou-a imediatamente, esperando que Deus
providenciasse uma situação às suas duas outras filhas. De fato o
Santo, na mesma noite, procedeu da mesma maneira e jogou pela janela
dentro do quarto uma bolsa que serviu a casar a segunda filha: mas o
pai que não duvidava que o protagonista desta dupla caridade fizesse
ainda uma tal ação, quis ter a satisfação de conhecer este tal
benfeitor. O pai portanto pôs-se de atalaia e logo que viu o Santo,
que estava a aproveitar da obscuridade da noite para lançar pela
janela dentro do quarto a sua esmola, correu atrás dele para
abraçá-lo e lhe agradecer mil vezes por esta relevante beneficência.
O Santo, tanto mortificado como apanhado de surpresa por ter sido
descoberto, pediu-lhe instantemente de manter segredo esta esmola. O
homem prometeu-lhe, mas não conseguiu respeitar a sua promessa. No
dia seguinte já toda a cidade estava encantada pela notícia deste ato
de caridade tão liberal; Apenas São Nicolau sofreu desta
manifestação.
Uma virtude tão brilhante não condizia
com o mundo e já o Santo tinha a idéia de fugir dele. Deus escolheu-o
para fazer dele um dos melhores monumentos da Igreja e foi com a
aprovação de todos que o santo entrou no clero. O bispo de Mirra
conhecia a sua alta piedade e a sua ciência; apressou-se a ordená-lo
sacerdote. O sacerdócio encontrando uma alma tão virtuosa e pura
neste santo lhe comunicou um novo brilho às virtudes e um novo vigor
a seu zelo.
O seu tio, tendo realizado uma
peregrinação à Terra Santa, deixou ao santo o cuidado da sua diocese.
Ele governou-a com tanta sabedoria e de maneira tão edificante, que
cada diocesano queria tê-lo de uma vez por bispo. O tio poucos dias
após o seu regresso faleceu. O Santo, temendo nada tanto quanto o
episcopado, afastou-se de sua terra e viajou para a Palestina. Mal
embarcara, profetizou ao Navegador uma tempestade furiosa. Não
demorou muito tempo para vê-la chegar; foi tão horrível que toda a
tripulação ficou como que perdida. Recorreram ao Santo. Mal ele
começou a rezar, a tempestade parou e o mar se acalmou. Como São
Nicolau realizou este milagre varias vezes durante a sua vida e que
depois da sua morte também o mesmo resultado foi obtido pela sua
intercessão, os marinheiros tomaram-no por Padroeiro, e passaram a
invocá-lo em todas as tempestades.

Depois de ter visitado os lugares
santos, retirou-se numa gruta em que outrora, segundo uma tradição, a
Sagrada Família passara uma noite durante a viagem de fuga para o
Egito. O santo tinha o desígnio de ficar lá até o fim de sua vida;
mas Deus revelou-lhe que devia regressar para Mira. Ao regresso,
retirou-se num mosteiro, decidido a viver no silêncio, na obscuridade
nos exercícios mais austeros da penitência. No entanto o Bispo João
que sucedeu seu Tio morreu e os bispos da província constituíram-se
em assembléia em Mira, para eleger o bispo desta igreja. Não
conseguiram entender-se sobre a escolha, um deles aconselhou: "O
Senhor deve Ele mesmo nos indicar a pessoa certa. Assim, irmãos,
vamos rezar, jejuar e esperar pelo escolhido de Deus." E ao mais
venerável da assembléia, por uma inspiração do Espírito Santo, foi
revelado que a primeira pessoa a entrar na igreja após a abertura das
portas devia ser o eleito para ser o bispo daquela sede. São Nicolau
foi este eleito porque, sem saber de nada, como de costume chegou à
igreja ao alvorecer para fazer suas orações. Foram agradavelmente
surpreendidos ao ver que era o sacerdote Nicolau. Por mais que e
quisesse fugir, foi detido e no meio das aclamações públicas do povo
e de todo o clero foi consagrado Bispo. Ao fim da cerimônia, uma
mulher abrindo-se num caminho naquela multidão veio lançar-se ao pé
do novo bispo, apresentando–lhe uma criança que caindo no fogo foi
sufocado pelas chamas. O novo bispo fez o sinal da cruz sobre a
criança morta, e ressuscitou-o na presença de toda a assembléia.
Após a sua ordenação, São Nicolau
resolveu: "Até agora pude viver para mim mesmo e para a salvação de
minha própria alma, mas daqui em diante, todo o tempo da minha vida
deve ser dedicado aos outros." E, esquecendo-se de si mesmo, abriu a
porta de sua casa a todos, tornando-se o verdadeiro pai dos órfãos e
pobres, defensor dos oprimidos e benfeitor de todos. Conforme
testemunho de seus contemporâneos, ele era humilde, pacífico,
vestia-se com simplicidade, alimentava-se com o estritamente
necessário e uma única vez por dia, à noite.
Elevado de fato ao trono episcopal,
estudou para desempenhar bem a sua nova função com todos os seus
deveres, e para adquirir as virtudes dum bispo em toda a perfeição.
Passava quase toda a noite ao pé dos altares, rezando por ele e pelo
povo. Nunca celebrava a santa missa sem que o seu rosto fosse
iluminado pelo fogo sagrado com que o seu coração ardia. O seu fervor
crescia sem cessar e a sua solicitude pastoral pairava sobre todas as
necessidades do seu povo. Os seus estipêndios só serviam para ajudar
os pobres. Só encontrava-o na igreja, nas prisões a visitar
prisioneiros, nos hospitais junto aos doentes. Encarregado a
distribuir o pão da palavra de Deus ao seu povo, fazia-o com tanto
sucesso, que em menos de um ano toda a diocese mudou de aspecto. As
suas austeridades cresciam com os seus trabalhos; desde o início da
sua vida jejuava duas vezes na semana, tendo acrescentado um terceiro
dia na sua mocidade, mas desde que ele era bispo jejuava todos os
dias da semana.
O imperador Licinius renovando a
perseguição de Diocleciano, enviou oficiais em Mira para restabelecer
a idolatria. São Nicolau demonstrou que um santo não é tão grande
quanto nos combates em favor da religião. O seu zelo brilhou em todas
as necessidades do seu povo, e o desejo que tinha do martírio lhe fez
desprezar as ameaças dos oficiais pagãos. Ao cabo ele foi enviado em
exílio, acorrentado por Jesus Cristo; sofreu todas as espécies de
maltratos, e cada dia era açoitado até o sangue. Regressou triunfante
na sua igreja depois da derrota de Licinius contra Constantino, e a
sua viagem de regresso foi uma sequência de insígnias conversões e
milagres.
Manifestou tanto zelo contra os
idólatras como também contra os arianos. Assistiu ao primeiro
Concílio de Nicéia; brilhou aí como um dos mais generosos confessores
de Jesus Cristo, e como um dos maiores prelados da Igreja. O número
dos milagres que Deus operou pela sua intercessão é prodigioso: é com
razão que foi chamado o Taumaturgo do seu século. São Boaventura
atesta que ele ressuscitou dois alunos da escola que foram
assassinados. Operou o mesmo milagre em favor de três crianças que
foram cruelmente degoladas, e cujos corpos foram encerrados numa cuba
do açougueiro, é o que os pintores pretendem representar quando
pintam o santo junto com três crianças ao seu lado.

A sua caridade pelos desgraçados era
extrema, e nada podia fazê-lo parar quando era questão de ser útil
aos seus irmãos. Estando na companhia de três oficiais à porta da
cidade, a notícia lhe chegou aos ouvidos que três burgueses inocentes
iam ser executados. Foi a toda a pressa para o lugar de execução,
encontra os três pacientes já na forca, com os olhos já enfaixados e
o algoz pronto a degolá-los. Prestamente tira-lhe o sabre com a
ousadia que só a santidade pode inspirar, e fez entender ao juiz que
ele conhecia a inocência destas pobres vítimas das suas avarezas,
concussões (crimes de desvio de dinheiro), ameaça-o da justiça da
parte do Imperador, e pôs em liberdade os três homens. Os oficiais
que foram testemunhas de tudo o que aconteceu, mal chegaram a
Constantinopla, foram acusados das mais negras urdiduras contra o
Estado, e condenados, como criminosos de lesa-majestade, a perder a
vida. Num perigo tão premente, lembrando do que viram em Mira,
invocaram o Santo, malgrado a sua ausência e antes de invocar a Deus,
colocam nele toda a sua confiança. Na noite antes do dia da execução,
São Nicolau apareceu em sonho ao Imperador Constantino e ameaça-o da
ira de Deus se logo não revocasse a sentença que ele fulminou contra
os três oficiais inocentes. No mesmo momento, Ablavio, o primeiro
ministro do imperador, teve a mesma visão e ouvia a mesma ameaça.
Logo ao alvorecer, o Imperador mandou levar os três oficiais no seu
Palácio, declara-lhes o que ele viu e absolveu-os do pretenso crime.
Tantas maravilhas tornou o nome do santo famoso por todo universo. O
senhor quis assim recompensar as virtudes e os trabalhos dele;
revelou-lhe o dia e a hora da sua morte. Esta revelação cumulou-o de
alegria. Depois de ter-se despachado do seu povo, no fim da Missa
pontifical, retirou-se no Mosteiro de Sion, onde, depois duma breve
doença, recebeu os últimos sacramentos, e exalou a sua alma nas mãos
de Deus. Esta morte preciosa ocorreu no dia 6 de Dezembro do ano 327;
não se sabe exatamente em que idade. Foi enterrado na igreja do
mosteiro num túmulo de mármore; e desde então, dimanou do seu túmulo
um licor milagroso que curava todas as espécies de doenças. O
imperador Justiniano edificou em honra dele uma igreja magnífica que
Basílio reformou com magnificência no ano 1087.
Quando, em 1087 a província de Lycia foi
devastada, o Santo apareceu em sonho a um padre em Bari, na Itália
pedindo que suas relíquias fossem trasladadas para aquela cidade.
Esta ordem do Santo foi rapidamente atendida e, desde aquela época,
suas relíquias repousam na igreja de Bari. Delas vertem bálsamo que
cura os doentes. Este acontecimento é comemorado em 22 de maio de
cada ano (9 de maio no antigo calendário). |