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Discurso na inauguração
do VII Ano Pontifício da Academia das Ciências, 22 de fevereiro, 1943.
O MUNDO DE HOJE
O SISTEMA DAS LEIS NATURAIS
Eis, só para citar, no macrocosmo dos
fenômenos puramente físico‑químicos, as numerosas e particulares leis da
mecânica dos corpos sólidos, líquidos e gasosos; as leis da acústica e
do calor, da eletricidade, do magnetismo e da luz; as leis do andamento,
da reação e do equilíbrio químico na química inorgânica e orgânica; leis
particulares que muitas vezes se elevam como normas mais alevantadas e
gerais, de modo a fazer compreender e reconhecer, em grande número,
grupos de fenômenos naturais, que antes pareciam desprovidos de qualquer
interna relação, como conseqüência de lei superior. Eis as leis do
movimento dos planetas a chegarem até a lei universal da gravitação. As
célebres equações de Maxwell não lançaram porventura uma ponte entre os
fenômenos da óptica e da eletricidade, e todos os fenômenos naturais do
mundo inorgânico, não estão submetidos à lei da constância e da
entropia?
Se até há não muito tempo conheciam‑se
duas leis constantes: a da conservação da massa e a da
conservação da energia, as mais recentes pesquisas provaram com fatos e
argumentos sempre mais convincentes que toda massa é equivalente a uma
determinada quantidade de energia e vice‑versa. Portanto as duas antigas
leis de conservação são em rigor aplicações especiais de uma lei
superior mais geral, que diz: em um sistema fechado, não obstante todas
as mudanças, sempre onde se encontra uma notável transformação de massa
em energia ou vice‑versa, a soma de ambas permanece constante. Esta lei
superior de constância é uma das chaves, das quais hoje se serve o
físico do átomo para penetrar nos mistérios do núcleo atômico.
Tal sistema científico, ricamente conexo e
organizado, do macrocosmo, contém, fora de toda dúvida, muitas leis de
estática, as quais porém, considerada a multidão dos elementos: átomos,
moléculas, elétrons, fótons, etc., não são, por segurança e exatidão,
notavelmente inferiores às leis estritamente dinâmicas. Em todo o caso
estão fundadas e quase ancoradas nas leis rigidamente dinâmicas do
microcosmo, se bem que as leis micro-cósmicas nos sejam, em seus
particulares, ainda quase totalmente desconhecidas, embora as novas e
ousadas pesquisas tenham feito esforços poderosos para penetrar na
atividade misteriosa do átomo, em seu interior. De pouco em pouco, ao
caírem estes véus, desaparecerá então o caráter aparentemente não causal
dos fenômenos micro-cósmicos: um novo maravilhoso reino de ordem, e de
ordem até nas partículas mínimas, será descoberto.
É realmente surpreendente como se nos
apresentam estes íntimos processos de investigação do átomo, não somente
porque abrem diante de nosso olhar o conhecimento e um mundo antes
desconhecido, cuja riqueza, multiplicidade e regularidade pareciam de
algum modo competir com as sublimes grandezas do firmamento, mas também
para os efeitos imprevisíveis, grandiosos, que a técnica pode esperar. A
tal respeito não podemos abster-nos de mencionar um admirável fenômeno,
do qual o Nestor da Física teórica, Max Planck, nosso acadêmico,
escreveu em um seu recente artigo "Sinn und Grenzen der exakten
Wissenschaft". A singular transformação do átomo, por longos anos
ocupou somente os que perscrutavam a ciência pura. Por sem dúvida era
surpreendente a grandeza da energia que por vezes aí se desenvolvia;
mas, como os átomos são extremamente pequenos, não se pensava seriamente
que pudessem jamais adquirir uma importância também na ordem prática.
Hoje, pelo contrário, tal questão tomou um aspecto inesperado, depois
dos resultados da radioatividade artificial. Estabeleceu‑se de fato que
na desagregação que um átomo de urânio sofre, se for bombardeado por um
nêutron, tornam‑se livres dois ou três nêutrons, cada um dos quais se
lança sozinho e pode encontrar e fraturar outro átomo de urânio. De modo
que se multiplicam os efeitos, e pode acontecer que o choque
continuamente em crescimento dos nêutrons sobre átomos de urânio, faça
aumentar em breve tempo o número de nêutrons tornados livres, e
proporcionalmente a soma de energia que deles se desenvolve, até a uma
medida enorme e apenas imaginável. De um cálculo especial resultou que
de tal modo em um metro cúbico de pó de óxido de urânio, em menos de um
centésimo de segundo desenvolve‑se uma energia suficiente para elevar a
27 mil metros um peso de um milhão de toneladas: uma soma de energia
que poderia substituir, por muitos anos, a ação de todas as grandes
centrais elétricas de todo o mundo. Planck termina observando que, se
bem que não se possa ainda pensar em colocar tecnicamente em proveito
dos povos um tão tempestuoso processo, todavia, está aberto o caminho
para importantes possibilidades, de maneira que o pensamento da
construção de uma máquina de urânio não pode ser estimado como mera
utopia. Sobretudo seria importante que não se deixasse efetuar tal
processo em modo de explosão, mas que se freasse o curso com adaptados e
especiais meios químicos. De outro modo poderia disto surgir não só no
próprio lugar de experiência, mas também para todo o nosso planeta, uma
perigosa catástrofe.
* * *
Se agora, dos intermináveis campos do
inorgânico nos elevamos até a esfera da vida vegetativa e sensitiva, aí
encontramos um novo mundo de leis na propriedade, na multidão, na
variedade, na beleza, na ordem, na qualidade e na utilidade da natureza,
que enchem o orbe terráqueo. Ao lado de muitas leis do mundo inorgânico,
encontramos também leis especialmente superiores, leis próprias da vida,
que não podem ser reduzidas às puramente físico‑químicas, porque não se
podem considerar seres viventes como se fossem apenas uma soma de
elementos físico‑químicos. É novo e maravilhoso horizonte que a natureza
nos apresenta: e basta que, como exemplo, recordemos: as leis do
desenvolvimento dos organismos, as leis das sensações externas e
internas, e sobre todas as coisas a fundamental lei psicofísica. Também
a vida superior espiritual é regulada pela lei da natureza, pelo menos
assim qualificada, que o defini‑Ia com precisão torna‑se tanto mais
difícil quanto mais elevadas estão na ordem do ser.
* * *
Este admirável e ordenado sistema de leis
qualitativas e quantitativas, particulares e gerais, do macrocosmo e do
microcosmo, hoje está diante dos olhos do cientista em seu entrelaçado,
já em grande parte desvendado e descoberto. E por que dizemos
descobertos? Porque não é nem projetado, nem construído por nós, na
natureza, estipêndio de uma pretensão, inata forma subjetiva da
consciência ou do intelecto humano, ou artefato em vantagem e uso da
economia do pensamento e do estudo, para tomar por nós conhecidas as
coisas mais recônditas; nem mesmo é o fruto ou a conclusão de
entendimentos ou convenções de sábios investigadores da natureza. As
leis naturais existem por assim dizer, encarnadas e ocultamente
operantes no íntimo da natureza, e nós com observação e experiências
procuramos descobri-las.
Não se pode dizer que a matéria não é uma
realidade, mas uma abstração forjada pela Física, que a natureza em si é
incognoscível, que o nosso mundo sensível é outro mundo "a se",
onde o fenômeno, que é aparência do mundo exterior, nos faz sonhar a
realidade das coisas ocultas. Não: a natureza em si é realidade, e
realidade cognoscível. Se as coisas aparecem e são mudas, têm porém uma
linguagem que fala a nós, que sai do seu seio, como a água de uma fonte
perene. A sua linguagem é a sua causalidade que chega aos nossos
sentidos com a visão das cores e do movimento, com o som dos metais, das
turbinas e dos animais, com a doçura e a amargura do mel e do fel, com o
perfume das flores, com a duração, o peso e o calor de suas matérias,
imprimindo em nós uma imagem ou semelhança, que é meio para o nosso
intelecto para reconduzir‑nos à realidade das coisas. Onde não se fala
de imagem ou semelhança do nosso intelecto, mas trata‑se das próprias
coisas em si; e sabe‑se distinguir o fenômeno do mundo sensível, da
substância das coisas, a aparência do ouro, do próprio ouro, como a
aparência do pão, do próprio pão, de cuja substância faz‑se o alimento
para assimilá‑lo e apropriá‑lo à substância do corpo. 0 movimento das
coisas causa em nós uma semelhança; sem semelhança não pode existir
conformidade do nosso intelecto com as coisas reais, e sem semelhança
torna‑se impossível o conhecimento; e nós não podemos dizer verdadeira
coisa alguma, se não há uma adequação do intelecto a ela, e dela ao
nosso intelecto. As coisas (das quais nossa inteligência haure a
ciência) medem a nossa mente e as leis que nelas encontramos e que delas
recebemos; são por sua vez medidas por aquele Intelecto Eterno e Divino,
no qual estão todas as coisas criadas, como na mente do artífice está
toda obra de sua arte. Que faz a mão e o engenho do cientista?
Descobre‑as, desvenda‑as, distingue e classifica, não como alguém que
segue apenas um vôo de pássaros no céu, mas como quem está de posse dos
mesmos, e procura a natureza e as propriedades intrínsecas deles. Quando
Lothar Meyer e Mendelejew em 1869 ordenaram os elementos químicos
naquele simples esquema, hoje indicado como o sistema natural dos
elementos, estavam profundamente convencidos de ter encontrado uma
ordem regular, fundada sobre suas propriedades e tendências internas,
uma classificação sugerida pela natureza, cujo progressivo
desenvolvimento prometia as mais extraordinárias descobertas sobre a
constituição e o próprio ser da matéria. De fato, daquele ponto tomou
movimento a investigação atômica moderna. No tempo da descoberta, a
assim chamada economia mental não era tomada em consideração, pois que o
primitivo esquema mostrava ainda muitas lacunas; nem se podia tratar de
convenção, pois que a qualidade da matéria impunha tal ordem. Este é só
um exemplo, entre muitos, donde os mais geniais cientistas do passado e
do presente procederam, com a nobre persuasão de serem arautos de uma
verdade, idêntica e a mesma para todos os povos e estirpes que calcam o
solo do globo e olham para o céu; uma verdade, apoiando‑se em sua
essência sobre uma "Adaequatio rei et intellectus", que outra
coisa não é senão a conformidade adquirida, mais ou menos perfeita, mais
ou menos completa, do nosso intelecto à realidade objetiva das coisas
naturais, em que consiste a verdade do nosso saber.
Mas não se deslumbre, como aqueles
filósofos e cientistas que estimaram que as nossas faculdades
cognoscitivas não conhecem senão as próprias mudanças e sensações já que
disseram que o nosso intelecto chegaria a ter a ciência só das
semelhanças recebidas das coisas, e por isto só as imagens das coisas, e
não as coisas mesmas, seriam o objeto de nossa ciência e das leis que
formulamos a respeito da natureza. Manifesto erro. A ciência, que exalta
um Copérnico e um Galileu, um Kepler e um Newton, um Volta e um Marconi,
e outros famosos e beneméritos investigadores do mundo físico que nos
circunda, mundo externo, seria um belo sonho da mente acordada; um belo
fantasma do saber físico; a aparência substituiria a realidade e a
verdade das coisas; e outro tanto verdadeiro seria afirmar‑se ou
negar‑se uma mesma coisa, sob o mesmo aspecto. Não; a ciência não é dos
sonhos, nem das semelhanças das coisas; mas das próprias coisas através
das imagens que delas recolhemos, porque, como depois de Aristóteles,
ensinou o Angélico Doutor, a pedra não pode estar em nossa alma, mas
somente a imagem ou a figura da pedra, que, semelhante a ela, se produz
em nossos sentidos e depois em nosso intelecto, a fim de que por tal
semelhança possa estar e de fato esteja em nossa alma, em nosso estudo e
nos faça retornar a ela, reconduzindo‑nos à realidade. Também as
recentes pesquisas da Psicologia experimental atestam, ou melhor,
confirmam, que esta semelhança não é mero produto de uma atividade
subjetiva autônoma, mas são reações psíquicas a estímulos independentes
do sujeito, provenientes das coisas; reações conforme as diversas
qualidades e propriedades das coisas; e que variam, variando o
estímulo.
As imagens, portanto, que as coisas
naturais, ou por meio da luz e do calor, ou por via do som, do sabor, e
do odor, imprimem em nossos órgãos dos sentidos e através dos sentidos
internos chegam ao nosso intelecto, não são senão instrumento que nos
fornece a natureza, nossa primeira mestra do saber, para fazer‑se
conhecer por nós; mas não é menos verdadeiro que nós podemos examinar,
estudar, indagar de tal instrumento e refletir sobre estas imagens e
sobre quanto elas nos apresentam da natureza e sobre a via pela qual se
tornam nossa fonte de conhecimento no mundo que nos cerca. Do ato pelo
qual nosso intelecto entende a pedra, nós passamos ao ato de entender
como o nosso intelecto entende a pedra: ato que secunda o primeiro,
porque o homem, nascendo sem idéias inatas, sem sonhos de uma vida
anterior, entra virgem de imagens e de ciência no mundo nascido feito ‑
como já recordamos ‑ para "aprender somente sentindo aquilo que depois
faz do intelecto digno".
Admirai, ó investigadores da natureza e
das leis que a governam, no centro do universo material, a grandeza do
homem, em cujo primeiro encontro com a luz, por ele saudada com gemido
infantil, Deus abriu o teatro da terra e do firmamento, com todas as
maravilhas que o encantam e atraem seus olhos inocentes! Este teatro,
que é senão o fundamental e primeiro objeto de todo conhecimento humano,
que dali se inicia com mil e mil interrogações que a natureza mestra
volve e revolve na avidez de nossos sentidos? Vós vos maravilhais em vós
mesmos; escrutai vossos atos interiores, inclinai‑vos sobre vós mesmos,
procurando as fontes, e as encontrais naqueles sentidos internos,
naquelas potências e faculdades, feitas objeto de uma nova ciência de
vós mesmos, da vossa íntima natureza racional, do vosso sentido, de
vosso intelecto e de vossa vontade. Eis a ciência do homem e de suas
leis corpóreas e psíquicas, eis a Anatomia, a Fisiologia, a Medicina, a
Psicologia, a Ética, a Política e aquela soma de ciências que, mesmo no
meio de seus erros, é um hino a Deus, que, plasmando o homem, lhe
inspirou um espírito de vida superior ao dos outros seres viventes,
feito à imagem e semelhança sua. O macrocosmo extrínseco material diz
assim de si uma grande palavra ao microcosmo intrínseco espiritual: um e
outro, em sua força operosa, são soberanamente regulados pelo Autor das
leis da matéria e do espírito, do qual, como do supremo governo de Deus
no mundo, para não entreter longamente a vossa atenção, Nos reservamos
de discorrer, se assim agradar ao Senhor, em outra ocasião; mas as
mudanças do espírito, que escuta a voz e as maravilhas do universo, por
vezes são terríveis, e lhe dão vertigens, por vezes o exaltam e o fazem
dar passos, até no caminho da ciência mais gigantesca dos movimentos
regulares dos planetas e das constelações dos céus, até a sublimá‑lo,
do mundo físico material do seu estudo, ao mundo espiritual além do
criado para louvar "o Amor que move o sol e as demais estrelas".
Este amor, que criou, move e governa o
universo, governa e rege também a História e o progresso da humanidade
inteira, e tudo dirige para um fim, oculto ao nosso pensamento na
caligem dos anos, mas fixado pelo eterno para aquela glória que dele
narram os céus e que Ele espera do amor dos homens, aos quais concedeu
encher a terra e sujeitá‑la com o seu trabalho. Possa este amor comover
e voltar o desejo e a boa vontade dos poderosos e de todos os homens a
se irmanarem, para operarem na paz e na justiça, para se inflamarem no
fogo da imensa e benéfica caridade de Deus, e cessem de inundar de
sangue e semear de ruínas e prantos esta terra onde todos, sob qualquer
céu, fomos colocados para militar como filhos de Deus, para uma vida
eternamente feliz! |