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Discurso ao
Congresso do 50º aniversário da Convenção Marconiana de Rádio, 3 de
outubro 1947
Pelo grau de
perfeição a que chegou, o rádio é uma obra‑prima do espírito inventivo
do homem, uma maravilha da técnica, um prodígio da criação artística.
Possui ela o
privilégio de ser como que desvencilhada e livre das condições de espaço
e de tempo, que impediam ou retardavam todos os demais meios de
comunicação entre os homens.
Com uma asa
infinitamente mais veloz que o som, rápido como a luz, leva, em um
instante, superando toda fronteira, as mensagens que lhe são confiadas.
Ela as leva a todos e em toda parte, aos pequenos, como aos grandes, às
casas perdidas sobre as montanhas, como às populosas cidades
cosmopolitas, às solidões glaciais, onde a recebe o ouvido de um
missionário ou de um explorador, como às massas dos mais densos
aglomerados industriais.
Muito mais, a palavra,
uma vez pronunciada, esta palavra em si fugaz, que sugere o ditado
"verba volant", pode ser ouvida, à vontade, pode repetir‑se quantas
vezes tivermos desejo ou necessidade dela.
Que vantagens
incomparáveis, ela, se bem guiada e dirigida traz à ação prática e ao
progresso intelectual, à atividade social e à vida religiosa! Através do
rádio o homem de estado e os dirigentes de povos lançam suas idéias,
seus programas, suas diretrizes; os doutos e os investigadores mantêm o
mundo informado de suas descobertas; o artista e o educador cultivam e
refinam os espíritos. Graças a ela as naves em perigo podem esperar
socorro e salvação, ou ao menos, antes de submergir nas ondas, os
náufragos podem fazer chegar aos seus caríssimos distantes o último
adeus. E que multiplicidade de adaptações para dirigir‑se a todos! À
criança e à mulher, ao empregado e ao homem de negócios, ao médico e ao
agricultor; ela dedica horas especiais ao ensinamento, à técnica, à
música; reserva o seu tempo para a oração comum. Não há voz, som ou
palavra que não possa chegar mediante o rádio em todo ângulo da terra,
ao ouvido dos ouvintes e penetrar em suas almas. Quando Davi, exaltando a
muda eloqüência da natureza cantava: "In omnem terram exit sonus eorum
et usque ad fines orbis eloquia eorum: Por toda a terra corre a sua voz,
e até o extremo do mundo vai sua palavra". Deus, que falava pela boca do
profeta, sabia em sua ciência e em sua sabedoria infinita que as forças
físicas, escondidas por sua onipotência no seio dos elementos, e as leis
misteriosas, que regem o complexo da atividade cósmica na harmonia
daqueles mesmos elementos, seriam progressivamente descobertas e teriam
sempre aplicações mais numerosas, úteis e fecundas.
Admiramos nisto a
prodigiosa penetração da inteligência humana e sua engenhosidade. Mas
sobretudo louvamos a soberana liberalidade do Criador, que tendo dotado
sua criatura desta inteligência, dignou‑se fazer do homem seu
colaborador.
O rádio pode ser um
dos mais potentes meios para difundir a verdadeira civilização e
cultura. Ele presta hoje serviços tornados quase indispensáveis à
educação do sentimento de solidariedade entre os homens, à vida do
estado e à do povo; ele pode exercer uma viva força de coesão nos povos
e entre os povos. Ele pode dar diante de todo o mundo
testemunho da verdade e glória a Deus, promover a vitória do Direito,
trazer luz, consolação, esperança, reconciliação, amor ao mundo,
avizinhar uns aos outros os homens e as nações. Ele pode fazer
penetrar a voz de Cristo, a verdade do Evangelho, o
espírito do Evangelho, a caridade do Evangelho, até as extremidades da
terra. A todos nós, e até a Nós próprio, Pai comum dos fiéis,
proporcionanos a alegria de ao mesmo tempo estar presente a todos
os Nossos filhos do mundo inteiro, toda vez que dirigimos a eles as
Nossas mensagens e lhes damos a Nossa bênção.
Tudo isto pode o rádio. Mas pode ainda, nas mãos dos homens cegos e perversos,
colocar‑se à disposição do erro e da mentira, das vis paixões, da
sensualidade, do orgulho, da cupidez, do ódio; pode transformar‑se
naquele sepulcro aberto, cheio de maldição e de
amargura, do qual fala S. Paulo, que engole as virtudes cristãs, a sã
civilização e também a paz e a felicidade humana.
O rádio é
semelhante ao fogo, que, para usar a bela imagem de Schiller em
seu célebre "Lied von der Glocke", é uma força celeste nas mãos do homem
que sabe contê‑lo e vigiá‑lo; mas se se desvencilha de suas cadeias,
leva às cidades e aos campos devastações e ruínas.
Ao serviço da
dignidade da vida e da moralidade cristã: faz que seja sagrada a
inocência da criança, a pureza do adolescente, a santa castidade do
matrimônio e a felicidade da vida de família fundada sobre o
temor e sobre o amor de Deus.
Ao serviço da justiça:
que sejam sagrados os intangíveis direitos da pessoa humana, não
menos que o direito dos poderes públicos de exigirem dos
indivíduos em particular e da comunidade o cumprimento das
obrigações exigidas pelo bem comum; o direito dos povos,
sobretudo dos mais débeis, à vida, como o direito da grande
família das nações de pedir os sacrifícios necessários para a paz
do mundo; o direito da Igreja de levar com plena liberdade a
todos os homens e a todas as gentes as riquezas da graça e da paz
de Cristo.
A serviço do amor:
É
o dever da hora presente. É preciso a todo custo abater o ódio altaneiro e profundo, do qual também o rádio se
tornou, muitas vezes, agente e instrumento. Possa ele, por toda parte,
fazer servir ao nobre ideal da caridade cristã a sua vasta e válida
capacidade de ação!
Estes pensamentos
devem sustentar na árdua empresa de reparação e de reconstrução.
Não queremos
finalmente deixar sob silêncio a compreensão das verdadeiras
necessidades da humanidade e de sua espiritualidade, da qual o
rádio foi chamado a dar prova mediante as transmissões musicais. Nós não
pretendemos aqui falar daquelas audições nas quais será dificílimo
encontrar-se mérito artístico, virtude educativa e sobretudo
correspondência com as dolorosas conjunturas do momento presente; mas
referimo‑nos, antes, às execuções de música sagrada, como ao
cuidado de tornar acessível ao público as composições mesmo profanas dos
grandes mestres antigos e modernos, cujas obras‑primas difundem nos
espíritos, nos corações, nas almas, as elevações sentimentais, da qual
elas mesmas foram animadas.
Seria para se
fazer, ao lado da história geral da música, também a de sua influência
sobre a humanidade. Sem recorrer à mitologia, cujas fabulosas
lendas de Orfeu e de Anfion apóiam‑se sobre um fundo de verdade, a
Sagrada Escritura não mostra talvez a potência da música de Davi sobre a
tétrica e feroz melancolia de Saul? Que lugar tinham os salmos nas
cerimônias do Antigo Testamento! E quais têm eles na liturgia católica!
Discurso aos Locutores de Rádio, 22 de abril, 1948
A responsabilidade
do criminoso, que faz do rádio um instrumento de corrupção intelectual ou
moral, não cria apenas um problema: impõe um cunho de infâmia. A da
indiferença, do apático, do cético; grave problema pelas conseqüências
muitas vezes imperceptíveis, de si faz surgir outro problema: coloca‑nos
diante da dificuldade, não propriamente um problema, o de
fazer compreender que estão fazendo mal.
O problema nasce
quando se trata de apresentar, com intenções retas e muitas vezes
louváveis, alguns argumentos, acontecimentos, ou questões úteis e
legitimamente interessantes do ponto de vista literário, artístico,
psicológico, moral ou social. E eis então o que nos deixa perplexos: é
preciso calar quando é oportuno e até necessário falar? Ou falar e
correr o risco de alarmar alguns ouvidos, perturbar algumas almas,
contaminar sobretudo o candor dos corações infantis? Os adultos deviam
reprovar somente a si mesmos a própria curiosidade indiscreta ou
imprudente; mas as crianças que, aturdidas, sem grave malícia, sobre
este ponto iludem com tanta facilidade a vigilância dos progenitores!? É
dever do locutor, na enunciação daquilo que deve dizer, fazer uso
daquela delicadeza, daquela nobreza de linguagem que lhe permita ser
compreendido pelos grandes, sem acordar a imaginação ou perturbar a
simplicidade dos pequenos.
Discurso à Conferência Internacional de Radiodifusão, 5 de maio, 1950
Ouvem‑se muitas
vezes deplorar as coisas torpes do rádio e o seu concurso na perversão
dos espíritos e dos costumes. Mas por causa da malícia de alguns abusos
dos dons de Deus e das descobertas do homem, dever‑se‑ia privar dos
benefícios que constituem o fim providencial dos mesmos? Sem dúvida é
preciso descobrir e condenar os abusos e, melhor ainda, tomar as
providências mais eficazes para reprimi‑las. As conquistas, das quais
toda geração se enriquece, é preciso pelo contrário valorizar, e fazer
de modo que o bem delas derivante, graças à ação dos homens de ciência e
de consciência, sobrepuje e neutralize o mal perpetrado por indignos
especuladores.
Incalculável é este
bem em todo o campo. Mesmo naquele essencialmente prático, quem poderá
louvar suficientemente os imensos serviços prestados pelo rádio em
urgentes necessidades e extremos perigos? Quem poderá dizer da utilidade
social das informações nas recíprocas trocas de notícias entre todos os
membros da grande família humana? Quem poderá valorizar a contribuição
dada à cultura geral pela possibilidade de fazer ouvir as conferências e
as lições mais variadas e fazer degustar os encantos sublimes da bela
erudição, e da bela música?
A Igreja, dizíamos,
interessa‑se por tudo isto. Há nisto algo de se estranhar? Ela está
acima das diversidades nacionais, é universal. No rádio vê um elemento
singularmente precioso para o cumprimento de sua própria missão. É verdade
que escutar pelo rádio uma missa não é a mesma coisa que assistir
pessoalmente ao divino sacrifício. O rádio não substitui completamente
os contatos pessoais, mas que vantagem não traz ao Chefe Supremo da
Cristandade e aos outros pastores de almas, consentindo‑lhes falar
diretamente aos próprios filhos e filhas espirituais e orar com eles!
Que força íntima e
que estímulo religioso pode trazer o microfone, que para muitos é muitas
vezes o único conforto, o único sustentáculo que provém do exterior!
Pensai em milhares de doentes imobilizados nos próprios leitos; as
populações que não têm igreja nem sacerdote. Através do rádio eles podem
pelo menos comunicar‑se ainda com as fontes da fé e da graça.
Justamente o rádio
pode considerar‑se revestido de uma missão educadora, contanto que não
descure, cumprindo‑a, aquilo que dela é o fim principal. Imagem de Deus,
o homem tem o dever de aperfeiçoar esta divina semelhança no seu modo de
pensar, de querer, de agir. Toda forma de educação deve tender a ajudá‑lo
nisto. O corpo do homem, a sua vida temporal e material, muitas vezes
recordamos, devem ser objeto de respeito e de cuidado. Mas a sua alma e
a sua vida intelectual e espiritual são incomparavelmente mais dignas de
solicitude: é, em realidade, a única e suprema razão de Toda instrução e
de Toda educação. Como poderia, por isto, o rádio excluir da lista dos
deveres e das finalidades que persegue, a formação religiosa?
Partes 1 da Encíclica "Miranda prorsus", 8 de setembro, 1957
Deveres do Radiouvinte
Portanto, o
primeiro dever do radiouvinte é a apurada escolha dos programas. A
transmissão radiofônica não deve ser um intruso, mas um amigo que entra
no lar, mediante convite consciente e livre. Ai daquele que não sabe
escolher os amigos que introduz no santuário da família! As transmissões
admitidas em nossa casa “deverão ser apenas as portadoras da verdade e
do bem, as que não desviam, antes ajudam os membros da família no
cumprimento dos próprios deveres pessoais e sociais, e as que, se trata
de jovens e crianças, longe de prejudicar, revigoram e prolongam a obra
educativa dos pais e da escola”.
Os organismos
católicos nacionais do rádio, dos quais já falamos, procurarão, com a
ajuda da imprensa católica informar antecipadamente os fiéis acerca do
valor das transmissões. Semelhantes indicações preventivas não serão
porém, em Toda parte, possíveis, e muitas vezes terão apenas valor
indicativo, porque a determinação de realizar certos programas não pode
ser facilmente conhecida com antecipação.
Os pastores de
almas lembrarão por isso aos fiéis que a lei de Deus proíbe ouvir
transmissões prejudiciais para a sua fé ou para a sua vida moral, e
exortarão os que têm cuidado da juventude à vigilância e à sapiente
educação do sentido das responsabilidades, perante o uso do aparelho
receptor admitido no lar.
Além disso, os
bispos têm o dever de precaver os fiéis contra as estações emissoras que
notoriamente propugnam princípios contrários à fé católica.
0 segundo dever do
radiouvinte é o de dar a conhecer aos responsáveis dos programas os seus
legítimos desejos e as justas objeções. Este dever decorre claramente da
natureza mesma do rádio, que pode facilmente criar uma relação de
sentido único, de quem transmite para quem escuta.
Os métodos modernos
de sondagem da opinião pública ao permitirem medir o grau de interesse
que suscitou cada uma das transmissões, são decerto grande auxílio para
os responsáveis dos programas; mas o interesse, mais ou menos vivo
despertado no público, pode ser multas vezes devido a causas
transitórias ou a impulsos não racionais, e, portanto, não pode ser
considerado índice seguro do reto critério de agir.
Os radiouvintes
devem, portanto, colaborar na formação duma opinião pública esclarecida
que permita exprimir, nas devidas formas, aprovações, encorajamentos e
objeções, e contribuir para que o rádio, conforme a sua missão
educativa, se ponha "ao serviço da verdade, da moralidade, da justiça e
do amor".
Semelhante tarefa
toca a todas as associações católicas que hão de procurar defender
eficazmente os interesses dos fiéis neste campo. Nos países onde as
circunstâncias o aconselhem, poderão, além disso, promover‑se
associações especiais de radiouvintes e de espectadores, em coligação
com os organismos nacionais.
Finalmente é dever
dos radiouvintes apoiar as boas transmissões, e, acima de tudo, as que
levam Deus até aos corações humanos. Hoje, quando, através das ondas do
rádio, se agitam violentamente doutrinas errôneas, quando, com
interferências propositadas e ruídos perturbadores, se cria no éter uma
sonora "cortina de ferro", com o fim de não permitir que por este meio
penetre a verdade que poderia sacudir e abalar a tirania do materialismo
ateu, quando milhões de homens esperam ainda pela alvorada da boa nova
ou por mais vasta instrução acerca da própria fé, quando os doentes ou
os impossibilitados por qualquer outro motivo esperam ansiosamente unir-se às orações da comunidade cristã e ao sacrifício de Cristo, como
poderiam os fiéis, mas sobretudo os que conhecem as vantagens do rádio
por experiência cotidiana, não se mostrarem generosos em favorecer
semelhantes programas?
Os programas religiosos
Sabemos quanto se
tem feito e quanto se faz, nos vários países, para desenvolver programas
católicos no rádio. São numerosos, graças a Deus, os eclesiásticos e
leigos, que se tornaram pioneiros neste campo, assegurando para as
transmissões sacras o lugar que corresponde ao primado dos valores
religiosos sobre o resto das coisas humanas.
Considerando, no
entanto, atentamente, as possibilidades que nos oferece o rádio para o
apostolado, e impelidos pelo mandato do Divino Redentor "Indo por todo o
mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura", rogamos que se aumentem e
aperfeiçoem ainda mais, segundo as necessidades e possibilidades de cada
lugar, as transmissões religiosas.
E como, no rádio, a
apresentação digna das funções sagradas, das verdades da fé e das
informações acerca da vida da Igreja, requer, além da vigilância devida,
talento e competências particulares, haverá que preparar, com especial
cuidado, os sacerdotes e leigos destinados a esta importante atividade.
Para este fim,
serão oportunamente promovidos, nos países em que os católicos disponham
de meios modernos e de mais vasta experiência, cursos apropriados de
adestramento que permitam aos candidatos, mesmo de outras nações,
alcançar a competência profissional necessária para assegurar às
emissões religiosas alto nível artístico e técnico.
Os organismos
nacionais tomem providências no respeitante ao desenvolvimento e
coordenação dos programas religiosos no próprio país, e colaborem,
quanto possível, com os responsáveis das várias estações emissoras.
Velando atentamente pela moralidade dos programas.
Quanto à
participação, nas transmissões radiofônicas e televisoras, de
eclesiásticos, mesmo que sejam religiosos isentos, os bispos poderão
promulgar normas oportunas, confiando a sua execução aos organismos
nacionais respectivos.
Emissoras católicas
Queremos dirigir
especiais palavras de encorajamento e apoio às emissoras católicas de
radiodifusão. Embora conhecendo as numerosas dificuldades que têm de
enfrentar , confiamos que hão de prosseguir corajosamente, em
colaboração recíproca, na sua apostólica ação, que Nós tanto apreciamos.
Os responsáveis pelos programas
Além disso, de bom
grado dirigimos a todos os responsáveis pelos programas radiofônicos o
Nosso agradecimento pela compreensão que muitos deles têm demonstrado,
colocando de boa vontade à disposição da Palavra de Deus o tempo
oportuno e os necessários meios técnicos. Agindo assim, participam nos
méritos do apostolado, que se opera através das ondas das suas
emissoras, segundo a promessa do Senhor: "Quem recebe ao profeta em nome
do profeta, receberá o galardão do profeta".
Hoje, as emissões
de qualidade exigem o emprego duma verdadeira arte. Por isso os
diretores de programas, e todos os que tomam parte na preparação e
execução dos mesmos, precisam de vasta cultura. A eles, pois, se dirige
também a Nossa advertência, análoga à feita aos profissionais do cinema,
a saber, que aproveitem amplamente as riquezas da cultura cristã.
Finalmente. Os
bispos deverão recordar às autoridades estatais o dever que estas têm de
garantir, nas formas devidas, a difusão das emissões religiosas, tendo
em conta particularmente o caráter sagrado dos dias festivos , de
preceito, e também as cotidianas necessidades espirituais dos fiéis.
Parte 2 da Encíclica "Miranda prorsus", 8 de setembro, 1957
Embora sem dispor
da riqueza de elementos espetaculares e das vantagens das condições do
ambiente, que proporciona o cinema, o rádio possui outras grandes
possibilidades ainda não de todo exploradas.
Aperfeiçoado dia a
dia por novos progressos, o rádio presta inestimáveis serviços nos
variados campos da técnica, permitindo até dirigir à distância, para
objetivos pré‑estabelecidos, engenhos sem piloto. Nós, contudo,
consideramos que o mais nobre serviço a que ele é chamado é o de
ilustrar e educar o homem, dirigindo‑lhe a mente e o coração para
esferas do espírito cada vez mais altas.
Poder ouvir homens
e seguir acontecimentos longínquos sem sair das paredes domésticas, e
assistir à distância às mais variadas manifestações da vida social e
cultural, corresponde a profundo anseio humano.
Não é, pois, de
maravilhar que tantas casas se tenham munido rapidamente de aparelhos
radiofônicos, que permitem abrir misteriosa janela sobre o vasto mundo,
do qual chegam dia e noite ecos da vida trepidante das várias culturas,
línguas e nações, sob forma de inumeráveis programas, ricos de notícias,
de entrevistas, de conferências, de comunicações, de atualidade e de
arte, de transmissões de canto e música.
É coisa ótima que
os fiéis aproveitem deste privilégio do nosso século, e gozem das
riquezas da instrução, do divertimento, da arte e da própria palavra de
Deus que o rádio pode trazer, para dilatar as suas consciências e os
seus corações.
Todos sabem quão
grande virtude educativa podem ter as boas transmissões; mas ao mesmo
tempo, o uso do rádio importa em responsabilidades, porque também ele,
como as outras técnicas, pode ser empregado para o bem e para o mal.
Pode‑se aplicar ao rádio a palavra da Escritura: "Nela bendizemos a Deus
e o Pai: e nela amaldiçoamos os homens, que foram feitos à imagem de
Deus. Da mesma boca procede à bênção e a maldição".
Carta Apostólica, 1 de janeiro, 1954
Os rápidos
progressos aos quais se endereça, já, em muitos países, a televisão,
mantêm sempre mais ágil a Nossa atenção sobre este maravilhoso meio
oferecido pela ciência e pela técnica à humanidade, precioso e perigoso
a um mesmo tempo, pelos profundos reflexos que ele está destinado a
exercer sobre a vida pública e privada das nações.
Reconhecemos
plenamente o valor desta luminosa conquista da ciência, sendo uma nova
manifestação das admiráveis grandezas de Deus, o qual "deu aos homens a
ciência com o escopo de ser honrado em suas maravilhas". Também a
televisão, portanto, impõe a nós todos o dever de reconhecimento, que a
Igreja não se cansa jamais de recordar aos seus filhos todo dia, no
santo sacrifício do altar, quando os adverte que: "é coisa
verdadeiramente digna e justa, reta e salutar agradecer sempre e em toda
parte", a Deus pelos seus dons. De resto, não é difícil perceber as
inumeráveis vantagens da televisão, quando ela for colocada a serviço do
homem, para sua perfeição.
Enquanto, nestes
últimos tempos, o cinema, o esporte, e as duras necessidades de trabalho
cotidiano tendem a afastar sempre mais da casa os membros da família,
perturbando de tal modo o natural desenvolvimento da vida doméstica,
como não nos alegrar em ver a televisão contribuir eficazmente para
reconstruir este equilíbrio, oferecendo à família inteira possibilidade
de tomar, reunida, honesto descanso, longe dos perigos das companhias e
lugares malsãos?
Nem podemos
permanecer indiferentes diante da benéfica influência que a televisão
está apta a exercitar sob o aspecto social, em relação à cultura, à
educação popular, ao ensinamento escolástico e à própria vida dos povos,
os quais, mediante este instrumento, serão certamente ajudados a melhor
conhecer‑se e compreender‑se, e a elevar‑se à união cordial e a uma
maior colaboração recíproca.
Tais considerações
não devem, entretanto, fazer esquecer outro aspecto deste delicado e
importante argumento. Se, realmente a televisão bem regulada pode
constituir um meio eficaz de sábia e cristã educação, é além disto
verdade que a mesma não está dissociada de perigos, pelos abusos e pelas
profanações a que poderia ser conduzida pela debilidade e pela malícia
humana; tais perigos são tanto mais graves quanto maior é a potência
sugestiva deste instrumento e quanto mais vasto e indiscriminado é o
público ao qual se dirige. Diferente do teatro e do cinema, que limitam
os seus espetáculos a quantos aí vão por espontânea escolha, a televisão
dirige‑se sobretudo a grupos familiares, compostos de pessoas de toda
idade e sexo, de cultura e preparação moral diferentes, e leva o jornal,
a notícia variada, o espetáculo. Como o rádio, ela pode entrar em toda
casa e lugar, a qualquer hora, levando não somente os sons e palavras,
mas também a concretização, a mobilidade das imagens; o que lhe confere
maior capacidade emotiva, sobretudo para os jovens.
Adicione‑se a isto
que os programas das transmissões televisoras são formados em grande
parte pelas películas cinematográficas e representações teatrais, que,
como a experiência ensina, em número não ainda limitado, não estão
capacitadas a satisfazer plenamente as exigências da moral natural
e cristã. Deve‑se relevar, finalmente, que a televisão encontra o
seu público mais ávido e mais atento entre as crianças e os
adolescentes, que, em virtude da idade, são os mais sujeitos ao fascínio
da mesma, e também, em transformar, consciente ou inconscientemente, em
realidade vivente as imagens absorvidas pela visão animada da tela.
É necessário
compreender como a televisão interessa proximamente, mais que nunca, à
educação dos jovens e à própria salvação do lar.
Ora, quando se
pensa no inestimável valor da família, que é a célula da sociedade, e se
reflete que entre as paredes domésticas deve iniciar‑se e desenvolver‑se
o progresso não só corporal, mas também espiritual da criança, esperança
preciosa da Igreja e da Pátria, não podemos senão proclamar, a todos
aqueles que compartilham das responsabilidades da televisão, que
gravíssimos são os deveres e as responsabilidades que lhes incumbe
diante de Deus, e da sociedade. As autoridades públicas, sobretudo, cabe
tomar toda cautela, afim de que de modo algum seja ofendida ou
perturbada aquela aura de pureza e de reserva que deve circundar o lar.
Diante de nossa
mente não cessa de estar presente o quadro doloroso da potência maléfica
e subversiva dos espetáculos cinematográficos. Mas como não se
horrorizar com o pensamento que, mediante a televisão, pode‑se
introduzir entre as próprias paredes domésticas aquela atmosfera que
envenena de materialismo, de fatuidade de hedonismo, respirada
freqüentemente em muitas salas cinematográficas? Verdadeiramente não se
poderia imaginar coisa mais fatal para as forças espirituais da nação,
se diante de tantas almas inocentes, no seio da própria família,
devessem repetir‑se àquelas impressionantes revelações do prazer, das
paixões e do mal que podem sacudir e fazer arruinar para sempre toda uma
construção de pureza, de bondade e de sã educação individual e social,
Por estes motivos,
Nós acreditamos oportuno observar que a normal vigilância que cumpre à
autoridade responsável pelos espetáculos públicos não é suficiente para
as transmissões televisoras; a fim de conseguir um serviço eficaz sob o
ponto de vista moral, é necessário um critério diverso de valorização,
tratando‑se de representações que devem penetrar no santuário da
família. Salienta‑se, portanto, sobretudo neste campo, como são
infundados os Pretendidos direitos da indiscriminada liberdade da arte,
ou do recurso ao pretexto da liberdade de informação e de pensamento,
estando em jogo superiores valores a serem protegidos, cujos violadores
não poderiam fugir à severa sanção anunciada pelo Divino Salvador: "Ai
do mundo pelos escândalos!... Ai do homem por cuja culpa vem o
escândalo!"
Nós nutrimos
profunda confiança em que o alto sentido de responsabilidade daqueles
que presidem à vida pública virá impedir as tristes ocorrências que
acima mencionamos.
Preferimos esperar
que, por quanto diz respeito aos programas dos espetáculos, oportunas
normas serão emanadas, com o fim de fazer que a televisão sirva para uma
sadia distração dos homens, e contribua eficazmente, em todas as
circunstâncias, para a educação e elevação moral dos cidadãos. E para
que tais providências sejam plenamente aplicadas, exige‑se da parte de
todos operosa e atenta vigilância. E para que tal escopo seja atingido,
avalia‑se quanto é necessário que os programas televisores sejam bem
preparados.
Igualmente, é mais
que nunca necessário e urgente formar fiéis com uma consciência reta dos
deveres cristãos acerca do uso da televisão: uma consciência que saiba
perceber eventuais perigos, e se aferre aos juízos da autoridade
eclesiástica sobre a moralidade das representações teletransmitidas.
Sejam iluminados em
primeiro lugar os progenitores e os educadores, a fim de que não tenham
de chorar, quando não for mais possível remediar, chorar sobre ruínas
espirituais de inocências perdidas.
Parte 3 da
Encíclica "Miranda prorsus",
8 de setembro, 1957
Os programas religiosos
Temos conhecimento do
interesse com que um vasto público segue as transmissões católicas na
televisão. É óbvio que a assistência à santa missa pela televisão ‑ como
há alguns anos dissemos ‑ não é a mesma coisa que a assistência física
ao sacrifício divino requerida para cumprir o preceito dos dias
festivos. Todavia, os frutos copiosos que, para o incremento da fé e
santificação das almas, provêm das transmissões televisoras das
cerimônias litúrgicas, para aqueles que não podem, com presença normal,
assistir a elas, induzem-nos a encorajar estas transmissões.
Será da competência
dos bispos de cada país julgar da oportunidade das várias transmissões
religiosas, e confiar a sua execução ao competente organismo nacional,
que, como nos precedentes setores, desenvolverá conveniente atividade
informativa, educativa, de coordenação e de vigilância sobre a
moralidade dos programas.
Problemas específicos da televisão
A televisão, além
dos aspectos comuns com as duas precedentes técnicas de difusão, possui
também características próprias. Permite, com efeito, assistir, de forma
simultaneamente auditiva e visual, a acontecimentos ocorridos, à
distância e no próprio instante em que acontecem, com aquela
sugestibilidade que se aproxima do contato pessoal e cuja feição e forma
imediata é aumentada pela sensação de intimidade e confiança própria da
vida familiar.
Na maior
consideração se deve ter, portanto, este caráter de sugestibilidade das
transmissões televisoras na intimidade do santuário da família, onde
será incalculável sua influência na formação da vida espiritual,
intelectual e moral dos membros da mesma, e, sobretudo, dos filhos, que
hão de ser dominados, inevitavelmente, pela fascinação da nova técnica.
Com a grande
vantagem de entreter mais facilmente, dentro das paredes domésticas,
grandes e pequenos, a televisão pode contribuir para reforçar os liames
do amor e da fidelidade na família, mas sempre com a condição de não vir
a prejudicar as mesmas virtudes da fidelidade, da pureza e do amor.
Não falta, todavia,
quem julgue impossível, ao menos na hora presente. A satisfação de tão
nobres exigências. O compromisso tomado com os espectadores ‑ dizem eles
‑ requer que se preencha, seja como for o tempo estabelecido para as
transmissões. A necessidade de ter à disposição uma seleção vasta de
programas obriga a recorrer também àqueles espetáculos que , de início,
eram destinados às salas públicas. A televisão, finalmente, não é só
para jovens, mas também para adultos.
As dificuldades são
reais, mas a solução delas não pode ser adiada para período ulterior,
quando a falta de discrição e de prudência no uso da televisão já tiver
causado gravíssimos danos individuais e sociais ‑ hoje, talvez, ainda
dificilmente avaliáveis.
Para que essa
solução se possa obter ao mesmo tempo em que se vai introduzindo em cada
país a televisão, será preciso, primeiro que tudo, levar a cabo esforço
intenso na preparação de programas que correspondam às exigências
morais, psicológicas e técnicas. Convidamos, por isso, os homens
católicos de cultura, ciência e arte, e, em primeiro lugar, o clero e as
ordens e congregações religiosas, a procurar dominar a nova técnica e
prestar a sua colaboração a fim de que a televisão possa aproveitar as
riquezas espirituais do passado e as de todo o autêntico progresso.
Será, além disso,
preciso que os responsáveis pelos programas, não só respeitem os
princípios religiosos e morais, mas tenham em conta o perigo que
transmissões destinadas a adultos podem oferecer aos jovens. Noutros
campos, como por exemplo sucede no cinema e no teatro, os jovens, na
maioria dos países civilizados, estão protegidos com especiais medidas
preventivas contra os espetáculos inconvenientes. Logicamente, e com
maior razão, devem também ser asseguradas às vantagens de uma apurada
vigilância no respeitante à televisão.
Quando não se
excluam das transmissões, como aliás tem sido louvavelmente feito
nalguns lugares, espetáculos vedados a menores, serão pelo menos
indispensáveis medidas preventivas de precaução.
Todavia, nem mesmo
a boa vontade e a conscienciosa atividade profissional de quem transmite
são suficientes para assegurar o pleno proveito da maravilhosa técnica
da pequena tela dum aparelho televisor, nem suficientes também para
afastar todo o perigo. A vigilância prudente e avisada de quem recebe em
sua casa a transmissão é insubstituível. A moderação no uso da
televisão, a admissão prudente dos filhos a presenciar programas
adequados a sua idade, a formação do Caráter e do reto juízo acerca dos
espetáculos vistos, e, finalmente, o afastá‑los dos programas
inconvenientes, incumbem, como grave dever de consciência, aos pais e
aos educadores. Bem sabemos que, especialmente este último ponto, poderá
criar situações delicadas e difíceis, e o sentido pedagógico muitas
vezes exigirá dos pais darem bom exemplo também com o sacrifício pessoal
em renunciar a determinados programas. Mas seria porventura demasiado
pedir aos pais um sacrifício, quando está em jogo o bem supremo dos
filhos?
Será, portanto,
"mais que necessário e urgente ‑ como escrevemos aos bispos da Itália ‑
formar nos fiéis uma consciência reta dos deveres cristãos acerca do uso
da televisão", para que esta não sirva nunca para difundir o erro e o
mal, mas se torne "instrumento de informação, de formação e de
transformação".
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