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Discurso aos esposos, 13 de agosto, 1941.
Quantas vezes ouvistes repetir que "a vida
do homem sobre a terra é uma luta"! Se a vida do homem sobre a terra é
uma luta, porque o homem é composto de espírito e de corpo, existem dois
campos de luta e de combate: um de combate corpóreo sobre o terreno
material; outro de combate espiritual no íntimo de seu espírito. Todo
combate e todo campo têm seus perigos, as suas disputas, as suas
virtudes, os seus heróis e atos heróicos, seus heróicos triunfos e
coroas.
As lutas corpóreas são abertas e claras;
batalhas, vitórias e coroas ocultas, só de Deus conhecidas e por Ele
premiadas. A Ele somente são plenamente óbvios os méritos e as disputas
que exaltam e elevam sobre os altares os heróis da virtude.
Sobre os campos de batalha, no céu e nos
mares, quantos heroísmos resplandecem aquela fortaleza de ânimo que
afronta os perigos de morte! Heroísmos manifestos de jovens militares e
de intrépidos capitães, de coortes e de legiões, de sacerdotes que no
meio do furor das lutas confortam feridos e moribundos, de enfermeiros e
de enfermeiras que curam as doenças e as chagas. Pois, se toda guerra,
que se alastra entre os povos, faz sofrer e causa horror a todo coração
nobre, no qual a caridade de Cristo, que abraça amigos e adversários
vive e tudo urge e inflama, não se pode porém negar que tão ferozes e
cruéis turbilhões, com as austeras obrigações que impõem aos combatentes
e aos não combatentes, suscitem horas e momentos de provas luminosas,
nas quais se revelam as grandezas, muitas vezes insuspeitadas e
inesperadas, de almas heróicas, sacrificando tudo, até a própria vida,
para o cumprimento daqueles deveres, que lhes dita a consciência cristã.
Mas estaria bastante errado quem
acreditasse que a grandeza de alma e heroísmos sejam virtudes
reservadas, quase como flores extraordinárias, só para os campos
cruentos, para os tempos de guerra, de catástrofes, de cruéis
perseguições, de bruscas mudanças sociais e políticas. Ao lado destes
heroísmos mais visíveis, desta magnanimidade e destes arrojos fúlgidos,
surgem e crescem nos recessos dos vales e dos campos, nas estradas e nas
sombras das cidades, velados pelo melancólico fluir da vida cotidiana,
muitos atos não menos heróicos, brotando secretos competidores dos mais
belos fatos propostos à admiração comum.
Não é porventura heróico o homem de
negócios, o patrão de uma grande indústria, o qual, vendo-se reduzido
aos extremos e quase à ruína, por acontecimentos adversos, imprevistos,
enquanto a via fácil de salvação seria para ele recorrer a um dos
expedientes que o mundo leviano escusa e absolve, quando leva ao
sucesso, mas que a moral cristã não admite, - entra em si mesmo e
interrogada a própria consciência, não desobedece à resposta que ela lhe
fornece, mas como fiel cristão, rejeita um meio que lese a justiça, e
prefere ruína e miséria a uma ofensa de Deus e do próximo?
Não é heróica a jovem pobre, que mal pode
dar um pedaço de pão à velha mãe e aos irmãos órfãos com o escasso
salário que recebe, mas afasta toda fácil condescendência e guarda
energicamente a sua honra e o seu coração, intrépida em rejeitar o favor
de um imoral doador de trabalho, desprezando abundantes e mal adquiridos
ganhos, que poderiam retirá-la de sua penúria?
Não é heróica a menina, mártir de seu
candor, que oferece a Deus, impurpurado pelo próprio sangue, o lírio de
sua virginal virtude?
São estes heroísmos de justiça, heroísmo de
cristã dignidade feminina, heroísmo digno dos anjos: heroísmos secretos,
que sobressaem juntamente com os heroísmos da fé, da confiança em Deus,
da paciência, da caridade nos hospitais civis e de guerra, ao longo dos
caminhos dos arautos de Cristo nas terras dos infiéis, onde quer que a
fortaleza de alma se ajunte ao amor de Deus e do próximo.
Não há de que se surpreender que também na
sombra das paredes domésticas se esconda o heroísmo da família, e que a
vida dos esposos cristãos tenha, ela também, seus heroísmos escondidos;
heroísmos extraordinários em situações duramente trágicas e muitas vezes
ignoradas pelo mundo; heroísmos cotidianos na farta sucessão de
sacrifícios a cada hora renovada; heroísmos do pai, heroísmos da mãe,
heroísmos de ambos juntamente.
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Discurso aos esposos, 2 de agosto, 1941
Como nos primeiros séculos do cristianismo,
assim nos tempos modernos, nos países do mundo, onde a perseguição
religiosa aqui e ali se enfurece, abertas e sutis, mas não menos duras,
os mais humildes fieis podem de um momento para outro encontrar-se
diante da dramática necessidade de escolher entre a própria fé, que tem
o dever de conservar inata, e a liberdade, os meios para sustentar a
vida, a própria vida. Mas também nas épocas normais, nas vicissitudes e
nas condições ordinárias da família cristã, sucede de vez em quando que
as almas se encontrem bruscamente colocadas na alternativa de violar um
imprescindível dever ou de expor-se a sacrifícios e riscos dolorosos e
duros, na saúde, nos bens, na posição familiar e social, colocadas
portanto na necessidade de ser e demonstrar-se heróicas, se querem
permanecer fieis às suas obrigações e permanecer na graça de Deus.
Quando os Nossos predecessores de veneranda
memória e particularmente o Sumo Pontífice Pio XI na Carta Encíclica "Casti
connubii", chamaram a atenção e recordaram as santas e inamovíveis
leis da vida matrimonial, ponderavam e tinham perfeitamente consciência
de que em não poucos casos, aos esposos cristãos pede-se um verdadeiro
heroísmo para observar inviolavelmente as suas leis. Trata-se de
respeitar os fins do matrimônio desejados por Deus; ou de resistir aos
incentivos ardentes e lisonjeiros das paixões e de solicitações, que a
um coração inquieto insinuam que vá procurar fora o que, na legítima
união não encontram ou crêem não ter encontrado tão plenamente como
haviam esperado; ou que, para não quebrar ou diminuir o vínculo das
almas, e do mútuo amor, sobrevenha a hora de saber perdoar, de esquecer
um litígio, uma ofensa, um aborrecimento, talvez grave; quantos dramas
íntimos nascem, desenvolvem suas amarguras e peripécias atrás do véu da
vida cotidiana! Quantos heróicos sacrifícios escondidos! quantas
angústias do espírito para conviver e manter-se cristãmente constante no
próprio dever e no próprio cargo!
E esta mesma vida cotidiana, qual força de
alma não pede muitas vezes: quando toda manhã se deve voltar aos mesmos
trabalhos, talvez rudes e fastidiosos em sua monotonia; quando é melhor
suportar com sorriso nos lábios, amavelmente, alegremente os defeitos
recíprocos, os jamais vencidos contrastes, as pequenas divergências de
gosto, de hábitos, de ideias, que a vida em comum traz, quando, em meio
de mínimas dificuldades e incidentes, muitas vezes inevitáveis, não deve
perturbar-se e diminuir a calma e o bom-humor; quando, em um encontro
frio, é urgente saber calar, parar a tempo o lamento, mudar e adoçar a
palavra que, lançada fora, daria desafogo aos nervos irritados, mas
difundiria uma nuvem opaca na atmosfera das paredes domésticas! Mil
particulares ínfimos, mil fugazes momentos da vida cotidiana, cada qual
deles é bem pouca coisa, é quase um nada, mas que a continuidade e o
adicionar-se terminam tornando tão pesados, e pelos quais, entretanto,
por uma tão considerável parte é entrelaçada e concatenada, no mútuo
sofrimento, a paz e a alegria de um lar.
Não procureis em outros lugares a fonte de
tais heroísmos. Nas dificuldades da vida familiar, como em todas as
circunstâncias da vida humana, o heroísmo tem sua raiz essencial no
sentimento profundo e dominador do dever, daquele dever, com o qual não
é possível transigir ou pactuar, que deve prevalecer em tudo e sobre
todos; sentimento do dever, que para o cristão é consciência e
reconhecimento do domínio soberano de Deus sobre nós, de sua soberana
autoridade, de sua soberana bondade; sentimento que quando se apresenta
como a vontade de Deus claramente manifestada não é passível de
discussão, e a todos impõe inclinar-se; sentimento que além de tudo nos
faz compreender que a vontade divina é a voz de um infinito amor para
conosco; sentimento, em uma palavra, não de um dever abstrato ou de uma
lei prepotente e inexorável, hostil e esmagadora da liberdade humana, do
dever e do agir, mas que corresponde e se inclina às exigências de um
amor, de uma amizade infinitamente generosa, transcendente e que rege as
multiformes vicissitudes do nosso viver aqui embaixo. |