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Discurso, Jovem de Ação
Católica, 10 de novembro, 1940
Tudo o que fala de exercícios físicos, de
jogos, de competições, de esporte, interessa e atrai a juventude de
hoje. Os jovens cristãos sabem, porém, que os movimentos do espírito, e
especialmente a corrida para a luz intelectual, a avançada sobre o
terreno misterioso e por vezes árduo da revelação, o impulso para a
bondade e a santidade, são tanto mais belos e mais nobres e
apaixonantes, quanto o saber e a virtude de ânimo sobrepujam e superam a
força dos músculos e a caduca desenvoltura e agilidade dos membros.
O vigor do corpo, que acompanha e embeleza
o florescer da juventude, não permanece diminuído, nem rebaixado, mas,
pelo contrário, exaltado e nobilitado pelo estudo da cultura religiosa e
da virtude que domina as paixões. Na juventude brilha tanta força de
energia no corpo, como de virtude no ânimo, quando no fundo do coração
germina aquela vontade que no temor de Deus encontra o princípio da
sabedoria iluminadora do caminho da vida.
A juventude inclinada sempre a nada temer,
muitas vezes, porém, teme e se apavora por não aparecer suficientemente
moderna, de não aparecer à altura do seu tempo, ou como dizem alguns "à
la page". Mas o verdadeiro cristão encontra-se sempre à altura do
tempo.
Discurso, Jovens de
Ação Católica, 20 de maio, 1945
Tão longe da verdade está o que reprova à
Igreja de não cuidar dos corpos e da cultura física, quanto quem
pretenda restringir a sua competência e ação às coisas "puramente
religiosas", "exclusivamente espirituais". Como se o corpo,
criatura de Deus, do mesmo modo que a alma, à qual está unido, não
devesse ter sua parte na homenagem a ser prestada ao Criador! "Seja
comendo - escrevia o Apóstolo das Gentes aos Coríntios -, seja
que bebais, seja que façais qualquer outra coisa, tudo fazei para a
glória de Deus". São Paulo fala aqui da atividade física; o cuidado
do corpo, o esporte, bem se encaixa nas palavras: "seja que façais
qualquer outra coisa". Antes Paulo discorre muitas vezes
explicitamente; fala de corridas, de lutas, não com expressões de
crítica, ou de repreensão, mas como conhecedor que eleva e nobilita o
conceito cristão das mesmas.
Afinal, que coisa é o esporte, senão uma
das formas de educação do corpo? Ora esta educação está em estreita
relação com a moral. Como poderia, portanto, a Igreja dela
desinteressar-se?
Em realidade a Igreja sempre teve para com
o corpo humano uma solicitude e uma atenção, quais o materialismo, no
seu culto idolátrico, não manifestou jamais. E é muito natural, pois que
este não vê e não conhece do corpo senão a carne material, cujo vigor e
cuja beleza nascem e florescem para depois conhecerem a podridão e a
morte, como a erva do campo que termina nas cinzas e no lodo.
Conseguintemente, é bem diverso disto o conceito cristão. O corpo humano
é, em si mesmo, a obra-prima de Deus na ordem da criação visível. O
Senhor o havia destinado a florescer, aqui embaixo, para que, imortal,
desabroche nas glórias do céu. Uniu-o ao espírito na unidade da natureza
humana, para fazer que a alma saboreasse o encanto das obras de Deus,
para ajudá-la a remirar neste espelho o seu Criador comum, para
conhecê-lo, adorá-lo, amá-lo! Não foi Deus que fez mortal o corpo
humano, mas sim o pecado; só por causa do pecado, o corpo, tirado do pó,
deve um dia a ele retornar. Deste pó, entretanto, o Senhor irá tirá-lo
novamente para chamá-lo à vida. Ainda que reduzidos a pó, a Igreja
respeita e honra os corpos, mortos para depois ressurgirem.
Mas à visão ainda mais alta conduz-nos o
Apóstolo São Paulo: "Não sabeis, diz ele, que o vosso corpo é templo
do Espírito Santo, que está em vós, que vos foi dado por Deus e que não
pertence a vós mesmos? Pois que fostes comprados por caro preço.
Glorificai portanto a Deus no vosso corpo".
Ora, qual é, em primeiro lugar, o ofício e
o fim do esporte, sã e cristãmente entendido, senão exatamente o de
cultivar a dignidade e harmonia do corpo humano, de desenvolver a saúde,
o vigor, a agilidade e a graça do mesmo.
Nem se reprove a São Paulo sua enérgica
expressão: "Castigo corpus meum et in servitutem redigo":
"trato duramente o meu corpo e o reduzo à servidão", pois que ele,
no mesmo trecho, se apóia no exemplo dos fervorosos cultores do esporte.
O esporte moderno, conscienciosamente exercitado, fortifica o corpo,
torna-o são, forte e cheio de vida para executar esta função educativa;
o esporte submete o corpo a uma disciplina rigorosa e por vezes dura,
que o domina e o retém verdadeiramente em servidão: treino para a
fadiga, resistência à dor, hábitos de continência e de temperança
severa, condições todas indispensáveis para quem quer conseguir a
vitória. O esporte é eficaz antídoto contra a moleza e a vida cômoda,
acorda o sentido de ordem e educa ao exame e ao domínio de si, ao
desprezo do perigo sem jactância nem pusilanimidade. Assim ele
ultrapassa a robustez física para conduzir à força e à grandeza moral.
Do país natal do esporte teve origem o proverbial "fair play",
aquela emulação cavalheiresca e cortês, que eleva os espíritos acima das
mesquinhezas das fraudes, dos ardis de uma vaidade obscura e vingativa,
e os preserva dos excessos de um fechado e intransigente nacionalismo. O
esporte é uma escola de lealdade, de coragem, de resistência, de
resolução, de fraternidade universal, todas estas virtudes naturais, mas
que fornecem à virtude sobrenatural um fundamento sólido e preparam para
sustentar sem debilidades o peso das mais graves responsabilidades.
Fatigar sãmente o corpo para repousar a
mente e dispô-la para novos trabalhos, afinar os sentidos para adquirir
uma intensidade maior de penetração das faculdades intelectuais,
exercitar os músculos e habituar-se ao esforço para temperar o caráter e
formar-se uma vontade forte e elástica como o aço: tal era a idéia que o
sacerdote alpinista havia feito do esporte.
Como esta idéia está, pois, distante do
grosseiro materialismo, para o qual o corpo é todo o homem! Mas como
está também distante daquela loucura do orgulho, que não se contenta em
arruinar com um desprezo malsão as forças e a saúde do esportista, para
conquistar a palma da vitória, em uma luta pugilística ou competição de
velocidade e o expõe, por vezes, temerariamente até à morte! O esporte
digno deste nome torna o homem corajoso diante do perigo presente, mas
não o autoriza a desafiar sem uma razão proporcionalmente grave, um
risco sério. Isto seria moralmente ilícito.
Assim entendido, o esporte não é um fim,
mas um meio; como tal, deve ser e permanecer ordenado ao fim, que
consiste na formação e educação perfeita e equilibrada do homem por
inteiro, para o qual o esporte é um auxílio no cumprimento pronto e
alegre do dever, quer na vida de trabalho, como na familiar.
Com uma mudança lamentável da ordem
natural, alguns jovens dedicam-se apaixonadamente, com todo seu
interesse e toda sua atividade, às reuniões e manifestações esportivas,
aos exercícios de treinamento e às disputas, colocando todo seu ideal na
conquista de um campeonato, mas às inadiáveis e importantes exigências
do estudo e da profissão, dão apenas consideração distraída e abúlica. O
lar, nada mais é para eles senão um hotel, onde param de passagem, quase
como estrangeiros.
A serviço da vida sã, robusta, ardente, a
serviço de uma atividade mais fecunda no cumprimento dos deveres do
próprio estado, o esporte pode e deve estar também a serviço de Deus.
Para este fim, realmente, ele inclina os ânimos porque dirijam as forças
físicas e as virtudes morais, que desenvolve; mas enquanto o pagão se
submetia ao severo regime esportivo para obter somente uma coroa caduca,
o cristão a ele se submete por um escopo mais alto, para um prêmio
imortal.
De que serviria realmente a coragem física
e a energia do caráter, se o cristão delas usasse somente para fins
terrenos, para ganhar uma "copa", ou para dar-se ares de super-homem? Se
não soubesse, quando é necessário, reduzir de meio hora o tempo do sono
ou retardar um encontro no estádio, antes do que deixar de assistir à
Santa Missa no domingo; se não conseguisse vencer o respeito humano para
praticar a religião e defendê-la; se não fosse capaz de sua prontidão e
de sua autoridade para reprimir com o olhar, com a voz, com o gesto, uma
blasfêmia, um turpilóquio, uma desonestidade, para proteger os mais
jovens e os mais débeis contra as provocações, as assiduidades
suspeitas; se não se acostumasse a concluir os seus felizes sucessos
esportivos com um louvor a Deus, Criador e Senhor da natureza e de todas
as suas forças? Não vos esqueçais que o mais alto destino do corpo, e
sua mais elevada honra, é ser habitação de uma alma, que refulge de
pureza moral se for santificada pela graça divina.
Discurso ao Congresso
Científico Italiano de Desporto e Educação Física, 8 de novembro, 1952
Prestai em primeiro lugar a Deus a honra
que lhe é devida, e, sobretudo, santificai o dia do Senhor, pois que o
desporto não dispensa dos deveres religiosos. "Eu sou o Senhor teu
Deus", dizia o Altíssimo do Decálogo; "não tenhas outro Deus fora
de mim", isto é, nem sequer o próprio corpo nos exercícios físicos e
no desporto: seria quase um regresso ao paganismo. De igual modo, o
quarto mandamento, expressão e tutela da harmonia que o Criador quis no
seio da família, recorda a fidelidade às obrigações familiares, que se
devem preferir às supostas exigências do desporto e das associações
desportivas.
Pelos mandamentos divinos é também
protegida a vida própria e a alheia, a saúde própria e a alheia, as
quais não é lícito expor imprudentemente a sério perigo com a ginástica
e o desporto.
Deles recebem força também aquelas leis, já
conhecidas dos atletas do paganismo, que os desportistas verdadeiros
observam justamente como leis invioláveis no jogo e nos desafios, e são
outros tantos pontos de honra: franqueza, lealdade, espírito
cavalheiresco, pelas quais detestam, como mancha desonrosa, o emprego da
astúcia e do engano; estimam e respeitam o bom nome e a honra do
adversário tanto como o próprio.
O exercício físico torna-se assim como que
uma ascese de virtudes humanas e cristãs, ou melhor, devem tornar-se e
serem tal, por mais duro que seja o esforço exigido, para que o
exercício do desporto se supere a si mesmo, atinja um dos seus objetivos
morais, e seja preservado de desvios materialistas, que lhe diminuiriam
o valor e a nobreza.
Eis em poucas palavras o que significa a
fórmula: Quereis agir retamente na ginástica, no jogo e no desporto?
Observai os mandamentos - os mandamentos no seu sentido objetivo,
simples e claro.
CONCLUSÃO
Quando se respeita com cuidado o teor
religioso e moral do desporto, ele deve entrar na vida do homem como
elemento de equilíbrio, de harmonia e de perfeição, e como ajuda eficaz
para o cumprimento dos outros deveres. Baseai portanto a vossa alegria
na prática correta da ginástica e do desporto. Levai mesmo para o meio
do povo a sua benéfica corrente para que prospere cada vez mais a saúde
física e psíquica e se fortifiquem os corpos ao serviço do espírito;
sobretudo, enfim, não esqueçais, no meio da agitada e inebriante
atividade gímnico-esportiva, aquilo que na vida vale mais do que todo o
resto: a alma, a consciência e, no vértice supremo: Deus. |