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Discurso aos esposos, 2
de fevereiro de 1941 e 17 de abril de 1942
Grande virtude é a devoção, salvaguarda de
todas as demais virtudes! Mas o seu ato mais belo e ordinário é a
oração, que para o homem, que é corpo e espírito, é o alimento cotidiano
do espírito, como o pão material é o nutrimento cotidiano do corpo.
Certamente, Nós bem sabemos que conversar
com Deus na contemplação das criaturas não está ao alcance de todos os
homens. Por isto foi dado outro meio, fácil e familiar, para
apresentar-lhe as suas súplicas e escutar suas palavras. Esta audiência
divina é a simples oração.
A oração pessoal e íntima, antes de tudo.
Orar é, em primeiro lugar, recolher-se diante do Senhor. Para procurar a
Deus, para encontrá-lo, basta entrardes em vós mesmos, de manhã, à
tarde, ou em qualquer momento do dia. No íntimo de vossa alma, se estais
felizmente em estado de graça, vereis, com os olhos da fé, Deus sempre
presente como um Pai imensamente bom, pronto para acolher os vossos
pedidos e a vos dar também aquilo que espera de vós. Se tiverdes pelo
contrário, desventuradamente perdido a graça, entrai então lealmente em
vós mesmo, aí encontrareis Deus presente como um juiz, mas juiz
misericordioso e pronto para perdoar; ou, melhor ainda, como o pai do
filho pródigo, que vos abrirá os braços e o coração, contato que vos
prosterneis arrependidos, confessando: "Pai, pequei contra o céu e
contra ti". Quantas almas se salvaram da obstinação no pecado, do
endurecimento e da eterna perdição com um breve exame de consciência
cada tarde! Quantas devem a sua salvação à oração cotidiana!
O Apostolado da Oração dá o meio, com a
oferta da manhã. Como a varinha mágica nas histórias de fadas, que muda
em ouro tudo quanto toca, assim esta oferta feita entre os cristãos em
estado de graça com a qual endereça a Deus todas suas obras para as
grandes necessidades da Igreja e das almas, pode levantar a atos
sobrenaturais de apostolado também as menores e mais modestas ações. O
camponês com o seu arado, o empregado do comércio, no seu escritório, o
comerciante no seu balcão, a dona de casa em sua cozinha podem
tornar-se, já o dissemos, os colaboradores de Deus.
E quando cai a noite, e termina a dura
tarefa diária, finalmente vos reunis entre as paredes domésticas na
alegria de gozar um pouco um a presença do outro e comunicar mutuamente
os acontecimentos da jornada; naqueles momentos de intimidade e de
repouso tão doces e preciosos, dai o lugar devido a Deus. Não temais:
Deus não virá importunar e perturbar o vosso confiante e delicioso
colóquio; ao contrário, Ele, que já vos escuta e no seu coração vos
preparou e conseguiu aqueles instantes, torná-los-á, sob o seu olhar de
Pai, mais suaves e confortáveis. Procurai conservar intata esta bela
tradição das famílias cristãs, a oração da noite, em comum, que recolhe
no fim de cada dia, para implorar a bênção de Deus e honrar a Virgem
Imaculada com o Rosário de suas laudes, todos aqueles que irão adormecer
sob o mesmo teto.
Tal exercício de devoção cristã não é
transformar a casa em uma igreja ou em um oratório; é um sagrado impulso
de almas que sentem em si a força e a vida de fé. Mesmo na antiga Roma
pagã a habitação familiar tinha a edícula e a ara dedicada aos seus
deuses. Lares que, especialmente nos dias festivos, eram adornados com
guirlandas de flores e onde se ofereciam súplicas e sacrifícios. Era um
culto maculado pelo erro politeísta; mas em cuja recordação, quantos e
quantos cristãos deveriam envergonhar-se, cristãos que com o batismo na
fronte, não encontram nem lugar em seus lares para aí colocar a imagem
do verdadeiro Deus, nem tempo entre as vinte e quatro horas do dia para
se recolherem ao redor dela e prestar-lhe a homenagem da família!
Nada ajuda tanto a oração com confiança
quanto a experiência pessoalmente feita da eficácia da oração, a que a
amorosa Providência correspondeu, dando largamente, plenamente, aquilo
que se pedia.
E a alguns, que desde muito oram, as
divinas graças parecem tardar demasiadamente. Aquilo que pedem parece
para eles útil, bom, necessário, e bom não somente para o corpo, mas
também para suas almas, para as almas daqueles que lhes são caros; oram
com fervor por semanas, por meses, e ainda nada obtiveram. A saúde
necessária para aquela mãe. Aquele filho, aquela filha, cuja conduta
coloca em perigo a salvação eterna dos mesmos, infelizmente ainda não
começaram a sentir diversamente. Aquela dificuldade material, em meio à
qual os pais se agitam e se afanam para assegurar um pedaço de pão aos
filhos, não se suavizam, mas, pelo contrário, tornam-se mais duras e
ameaçadoras. A Igreja toda, com todos os povos, multiplica as suas
orações para obter o fim das calamidades que magoam a grande família
humana; e pelo contrário tarda ainda em avizinhar-se aquela paz segundo
a justiça, augurada, invocada, suspirada com tão viva instância, que
parece tão necessária para o bem de todos e para o próprio bem das
almas.
Sob o peso de tais pensamentos, muitos
olham surpresos para os altares sagrados, diante dos quais se ora, e
talvez permanecem escandalizados e perplexos ouvindo a liturgia sagrada
incessantemente recordar e proclamar as promessas do Salvador divino: "Tudo
aquilo que pedirdes na oração, crendo, obtereis". "Pedi e
recebereis... Todo aquele que pede, recebe". "Tudo o que pedirdes
ao Pai em meu nome, eu o farei". "Em verdade, em verdade eu vos
digo, tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, vo-lo concederá". As
promessas do Salvador deveriam talvez ser mais explícitas, mais claras,
mais solenes? Não serão alguns porventura tentados ver quase que uma
amarga irrisão, diante do silêncio de Deus para com os seus pedidos?
Mas Deus não mente nem pode mentir; aquilo
que prometeu, manterá; aquilo que disse, fará.
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Discurso em Audiência
Geral, 2 de julho de 1941
Nosso Senhor em nenhum lugar prometeu
tornar-nos infalivelmente felizes neste mundo; Ele nos prometeu, leiamos
o Evangelho, de escutar-nos como o pai que ao seu filho não dará, ainda
que lhe pedisse, por alimento uma pedra, nem uma serpente, nem um
escorpião, mas o pão, o peixe, os ovos, que o nutrirão e o farão viver e
crescer. Aquilo que Jesus, nosso Salvador, se empenhou de nos dar
infalivelmente como fruto de nossa oração, não são aqueles favores que
os homens pedem muitas vezes por ignorância daquilo que realmente serve
para a sua salvação, mas aquele "bom espírito", aquele pão dos dons
sobrenaturais necessários ou úteis para a nossa alma; aquele peixe por
ele preparado que, futuro símbolo, Cristo ressurgido deu em alimento aos
apóstolos sobre as praias do Lago de Tiberíades; aqueles ovos, alimento
para os pequenos da piedade e devoção, que os homens muitas vezes não
distinguem das pedras danosíssimas para a saúde espiritual, a eles
oferecidas por Satanás tentador.
Os homens muitas vezes são como crianças
ignaras daquilo que é bom para elas e lhes convêm pedir; ineptas são
muitas vezes as orações que dirigem ao Pai Celeste. Mas o Espírito
Santo, o qual com a sua graça age em nossas almas e inspira os nossos
gemidos, sabe muito bem dar a elas um verdadeiro sentido e um valor
real; e o Pai, que lê no fundo dos corações, à luz do sol vê aquilo que
através de nossas orações e de nossos desejos, o seu divino Espírito
para nós e em nós pede, e tais pedidos do Espírito, profundamente
íntimos em nós, Ele, fora de qualquer dúvida, ouve.
A oração, portanto, quer ser um pedido
daquilo que é bom para a alma, um pedido com perseverança, mas também
pedido piedoso.
A oração piedosa! Qual é? Não é a oração do
som de palavras somente, com a mente e o coração vagando, com os olhos
desviando para todos os lados; mas é a oração recolhida que diante de
Deus se anima de confiança filial, ilumina-se de viva fé, impregna-se de
amor para com Ele e para com os irmãos; é a oração sempre feita na graça
de Deus, sempre meritória de vida eterna, sempre humilde em sua própria
confiança; é a oração que, quando vós vos ajoelhais diante do altar ou
diante da imagem do Crucifixo, da Virgem Santíssima em vossa casa, não
conhece a arrogância do fariseu, que se vangloria achando-se melhor do
que os demais homens, mas, semelhante ao pobre publicano, vos faz sentir
no coração que tudo o que recebestes não é senão pura misericórdia de
Deus para convosco.
O pão da divina doutrina é verdadeiramente
um pão cotidiano, é o pão da oração.
Se volvemos um olhar para a história dos
séculos passados, Roma, já nos albores da fé, nos parece como uma cidade
orando, não nos templos dos falsos deuses do gentilismo, mas ao único
verdadeiro Deus, nas casas particulares dos primeiros seguidores de
Cristo, ou em momentos de maior perigo nas catacumbas, pois, desde o
terceiro século, em edifícios ao aberto, verdadeiras igrejas, como as
nossas, e finalmente na magnífica e dourada basílica, porque a oração
foi desde então para ela potentíssima arma de vitória e de triunfo para
permanecer nas perseguições, para manter-se forte nos tribunais e nos
suplícios, a morrer mártir de Cristo sob o ferro dos carnífices. Arma de
sua defesa e de sua esperança era a oração: baluarte e rocha de fé as
suas basílicas e os seus altares de elevação a Deus; as aras dos
mártires, santuários e tumbas, onde a piedade chamava, desde distantes
regiões e além dos mares também, devotos e coroados príncipes para se
inclinarem na oração e escolherem para si, naqueles lugares venerandos,
o repouso de seus despojos mortais. Que se não são de se atenuar as
deficiências da vida religiosa através da Idade Média, e as idades
seguintes, toda a vida pública porém, em toda classe social, era
acompanhada, animada e crescia e mantinha-se na oração da própria
sociedade.
A oração é um bem, que não humilha e
abaixa, mas exalta e faz grande o homem. Os mais excelentes artistas,
estes mestres da Psicologia figurada, não criaram nada que mais subjugue
o ânimo quanto a representação do homem em oração. Nesta atitude de
orante ele demonstra a sua mais alta nobreza, tal que se afirmou
plasticamente que o "homem é grande, somente quando está de joelhos". |