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Discurso às Delegações
Juventude Feminina de Ação Católica, 22 de maio de 1941
O movimento da moda não tem em si nada de
mau: brota espontaneamente da sociabilidade humana, segundo o impulso
que inclina a encontrar‑se em harmonia com os próprios semelhantes e com
a prática usada pelas pessoas no meio em que se vive. Deus não pede que
se viva fora do tempo, descurando as exigências da moda até tornar‑se
ridículo, vestindo ao oposto dos gostos e dos usos comuns
contemporâneos, sem se preocupar jamais com o que lhes agrada. Eis
porque mesmo o Angélico Santo Tomás afirma que nas coisas exteriores,
que o homem usa, não há vício algum, mas o vício vem da parte do homem
que imoderadamente as usa, ou em confronto do costume daqueles com os
quais vive, fazendo‑se estranhamente parte discorde dos outros por si
mesmo: ou usando das coisas, segundo o costume ou além do costume dos
outros, com desordenado afeto, por superabundância de vestes
soberbamente ornamentadas ou complacentemente procuradas com cuidado,
enquanto que a humildade e a simplicidade seriam suficientes para
satisfazer o necessário decoro. E o mesmo Santo Doutor chega até a dizer
que na ornamentação feminina pode existir ato meritório de virtude,
quando for conforme ao mundo, à medida da pessoa, à boa intenção, desde
que as mulheres usem ornamentos decentes segundo o estado e a dignidade
delas, e sejam moderadas naquilo que fazem de acordo com o costume da
pátria: então também o ornar‑se será um ato daquela virtude da modéstia,
a qual põe regra no caminhar, no estar, no hábito e em todos os
movimentos exteriores.
Mesmo seguindo a moda, a virtude está no
meio. Aquilo que Deus pede é recordar sempre que a moda não é, nem pode
ser a regra suprema da conduta; que acima da moda e de suas exigências
existem leis mais altas e imperiosas, princípios superiores e imutáveis,
que em nenhum caso podem ser sacrificados ao talante do prazer ou do
capricho, e diante dos quais o ídolo da moda deve saber inclinar a sua
fugaz onipotência. Estes princípios foram proclamados por Deus, pela
Igreja, pelos santos e pelas santas, pela razão e pela moral cristãs,
assinalados limites, além dos quais não florescem lírios e rosas, nem
pairam nuvens de perfumes da pureza, da modéstia, do decoro e da honra
feminina, mas aspira‑se e domina um ar malsão de leviandade, de
linguagem dúbia, de vaidade audaz, de vanglória, não menos de espírito
que de traje. São aqueles princípios que Santo Tomás mostra para
ornamento feminino e recorda, quando ensina qual deve ser a ordem de
nossa caridade, de nossas afeições: o bem da própria alma deve preceder
o do nosso corpo, e à vantagem de nosso próprio corpo devemos preferir o
bem da alma de nosso próximo. Não se vê portanto que há um limite que
nenhuma idealizadora de modas pode fazer ultrapassar, a saber, aquele
além do qual a moda se torna mãe de ruína para a alma própria e dos
outros?
Alguns jovens dirão talvez que uma
determinada forma de vestido é mais cômoda, e também mais higiênica;
mas, se constitui para a saúde da alma um perigo grave e próximo, não é
certamente higiênica para o espírito: tem‑se o dever de renunciar. A
salvação da alma fez heroínas as mártires como Inês e Cecília, em
meio dos tormentos e lacerações de seus corpos virginais.
Se, por um simples prazer próprio, não se
tem o direito de colocar em perigo a saúde física dos outros, não é
talvez ainda menos lícito comprometer a saúde, até a própria vida de
suas almas? Se, como pretendem alguns, uma moda audaz não faz sobre elas
impressão alguma, que sabem da impressão que os outros terão? Quem lhes
assegura que outros não tenham disto um incentivo mau? Não se conhece o
fundo da fragilidade humana, nem de que sangue de corrupção sangram as
feridas deixadas na natureza humana pela culpa de Adão com a ignorância
no intelecto, com a malícia na vontade, com a ânsia do prazer e a
debilidade para o bem, árduo nas paixões dos sentidos a tal ponto que o
homem, como cera amoldável ao mal, "vê o melhor e o aprova, e ao pior se
apega", por causa daquele peso que sempre, como chumbo, o arrasta para o
fundo. Sobre isso justamente se observou que, se algumas cristãs
suspeitassem as tentações e quedas que causam em outros com vestes e
familiaridades a que, em suas leviandades, dão tão pouca importância,
teriam pavor de suas responsabilidades. Ao que Nós não duvidamos de
acrescentar: oh mães cristãs, se soubésseis que futuro de perigos e
íntimos desgostos, de dúvidas e irreprimível rubor preparais para vossas
filhas e filhos, com imprudência em acostuma‑los a viver apenas
cobertos, fazendo deles desaparecer o sentido ingênuo da modéstia, vós
mesmas enrubesceríeis, e vos horrorizaríeis pela vergonha que causareis
a vós mesmas e o dano que ocasionareis aos filhos que vos foram
confiados pelo céu, para que crescessem cristãmente. E aquilo que
dizemos para as mães, repetimo-lo a não poucas senhoras crentes, e mesmo
piedosas, que aceitam seguir esta ou aquela moda arrojada, e com o seu
exemplo, fazem cair as últimas hesitações que retêm uma turba de suas
irmãs que estão longe daquela moda, a qual poderá tornar‑se para elas
fonte de ruína espiritual. Até certos provocadores ornamentos permanecem
triste privilégio de mulheres de reputação duvidosa e quase sinal que as
faz reconhecer; não se ousará, pois, usá-los para si; mas no dia em que
aparecerem como ornamentos de pessoas superiores a qualquer suspeitas,
não se duvidará mais de seguir tal corrente, corrente que arrastará
talvez para dolorosas quedas. |