|
Versão para download - pdf
CARTA ENCÍCLICA DO PAPA
PIO XII
AD CAELI REGINAM
SOBRE A REALEZA DE MARIA
E A INSTITUIÇÃO DA SUA FESTA
Aos veneráveis irmãos Patriarcas, Primazes,
Arcebispos e bispos e outros Ordinários do lugar,
em paz e comunhão com a Sé Apostólica
INTRODUÇÃO
1. Desde os primeiros séculos da Igreja católica, elevou o povo cristão
orações e cânticos de louvor e de devoção à Rainha do céu tanto nos
momentos de alegria, como sobretudo quando se via ameaçado por graves
perigos; e nunca foi frustrada a esperança posta na Mãe do Rei divino,
Jesus Cristo, nem se enfraqueceu a fé, que nos ensina reinar com materno
coração no universo inteiro a Virgem Maria, Mãe de Deus, assim como está
coroada de glória na bem-aventurança celeste.
2. Ora, depois das grandes calamidades que, mesmo à nossa vista,
destruíram horrivelmente florescentes cidades, vilas e aldeias; diante
do doloroso espetáculo de tantos e tão grandes males morais, que
transbordam em temeroso aluvião; quando vacila às vezes a justiça e
triunfa com freqüência a corrupção; neste incerto e temeroso estado de
coisas, sentimos nós a maior dor; mas ao mesmo tempo recorremos
confiantes à nossa rainha, Maria santíssima, e patenteamos-lhe não só os
nossos devotos sentimentos mas também os de todos os fiéis cristãos.
3. É grato e útil recordar que nós próprios - no dia 1° de novembro do
ano santo de 1950, diante de grande multidão formada de cardeais,
bispos, sacerdotes e simples cristãos, vindos de toda a parte do mundo -
definimos o dogma da assunção da bem-aventurada virgem Maria ao céu
(Cf. Const. apostólica Munificentissimus Deus:
AAS 42(1950), p. 753ss.), a qual presente em alma e corpo, reina entre
os coros dos anjos e santos, juntamente com o seu unigênito Filho. Além
disso - ocorrendo o primeiro centenário da definição dogmática do nosso
predecessor de imortal memória Pio IX, que proclamou ter sido a Mãe de
Deus concebida sem qualquer mancha do pecado original - promulgamos,
(Cf. Carta enc. Fulgens corona.: AAS 45(1953), p. 577ss.) com
grande alegria do nosso coração paterno, o presente ano mariano; e vemos
com satisfação que não só nesta augusta cidade - especialmente na
Basílica Liberiana, onde inumeráveis multidões vão testemunhando bem
claramente a sua fé e ardente amor a Mãe do céu - mas em todas as partes
do mundo a devoção à virgem Mãe de Deus refloresce cada vez mais,
ocorrendo grandes peregrinações aos principais santuários de Maria.
4. Todos
sabem que nós, na medida do possível - quando em audiências falamos aos
nossos filhos, ou quando, por meio das ondas radiofônicas, dirigimos
mensagens ao longe - não deixamos de recomendar, a quantos nos ouviam
que amassem, com amor terno e filial, tão boa e poderosa Mãe. A esse
propósito, recordamos em especial a radiomensagem que endereçamos ao
povo português, por motivo da coroação da prodigiosa imagem de nossa
Senhora de Fátima (Cf. AAS 38(1946), p. 264ss.), que chamamos
radiomensagem da "realeza" de Maria (Cf. L'Osservatore Romano, de
19 de maio, de 1946.).
5.
Portanto, como coroamento de tantos testemunhos deste nosso amor filial,
a que o povo cristão correspondeu com tanto ardor, para encerrar com
alegria e fruto o ano mariano que se aproxima do fim, e para satisfazer
aos insistentes pedidos, que nos chegaram de toda a parte, resolvemos
instituir a festa litúrgica da bem-aventurada rainha virgem Maria.
6. Não é
verdade nova que propomos à crença do povo cristão, porque o fundamento
e as razões da dignidade régia de Maria encontram-se bem expressos em
todas as idades, e constam dos documentos antigos da Igreja e dos livros
da sagrada liturgia.
7.
Queremos recordá-los na presente encíclica, para renovar os louvores da
nossa Mãe do céu e avivar proveitosamente na alma de todos a devoção
para com ela.
I
A REALEZA DE MARIA NOS TEXTOS DA TRADIÇÃO...
8. Com
razão acreditou sempre o povo fiel, já nos séculos passados, que a
mulher, de quem nasceu o Filho do Altíssimo - o qual "reinará
eternamente na casa de Jacó" (Lc 1,32.), (será) "Príncipe da Paz"
(Is 9,6.), "Rei dos Reis e Senhor dos senhores" (Ap 19,16.)-, recebeu
mais que todas as outras criaturas singulares privilégios de graça. E
considerando que há estreita relação entre uma mãe e o seu filho, sem
dificuldade reconheceu na Mãe de Deus a dignidade real sobre todas as
coisas.
9. Assim, baseando-se nas palavras do arcanjo Gabriel, que predisse o
reino eterno do Filho de Maria, (Cf. Lc 1,32-33.) e nas de Isabel, que
se inclinou diante dela e a saudou como "Mãe do meu Senhor", (Lc 1,43.)
compreende-se que já os antigos escritores eclesiásticos chamassem a
Maria "mãe do Rei" e "Mãe do Senhor", dando claramente a entender que da
realeza do Filho derivara para a Mãe certa elevação e preeminência.
10. Santo Efrém, com grande inspiração poética, põe estas palavras na
boca de Maria: "Erga-me o firmamento nos seus braços, porque eu estou
mais honrada do que ele. O céu não foi tua mãe, e fizeste dele teu
trono. Ora, quanto mais se deve honrar e venerar a mãe do Rei, do que o
seu trono!"(
S. Ephraem. Hymni de B. Maria, ed. Th. J. Lamy, t. II,
Mechiniae,1886 Hymn.
XIX p.
624.) Em outro passo, assim invoca a Maria santíssima: "...Virgem
augusta e protetora, rainha e senhora, protege-me à tua sombra,
guarda-me, para que Satanás, que semeia ruínas, não me ataque, nem
triunfe de mim o iníquo adversário" (Idem,
Oratio and Ss.mam Dei Matrem; Opera omnia, Ed. Assemani, t. III
(graece), Romae,1747, p. 546.).
11. A Maria chama s. Gregório Nazianzeno "Mãe do Rei de todo o
universo", "Mãe virgem, [que] deu à luz o Rei do todo o mundo".(
S. Gregorio Naz., Poemata dogmatica, XVIII, v. 58: P G. XXXVII,
485.) Prudêncio diz que a Mãe
se maravilha "de ter gerado a Deus não só como homem mas também como
sumo rei" (Prudêncio, Dittochoeum, XVII; PL 60,102A.).
12. E afirmam claramente a dignidade real de Maria aqueles que a chamam
"senhora", "dominadora" e "rainha".
13. Já numa homilia atribuída a Orígenes, Maria é chamada por Isabel não
só "Mãe do meu Senhor" mas também "Tu, minha Senhora"
(Hom. ins. Lucam, hom. VII; ed. Rauer, Origenes Werke,
t. IX, p. 48 (ex catem Macarii Chrysocephali). Cf. PG 13,1902 D.).
14. O mesmo conceito se pode deduzir dum texto de s. Jerônimo, que expõe
o próprio parecer acerca das várias interpretações do nome de Maria:
"Saiba-se que Maria, na língua siríaca, significa Senhora"
(S. Jeronimo, Liber de nominibus hebraeis: PL 23, 886.).
Igualmente e com mais decisão, se exprime depois s. Pedro Crisólogo: "O
nome hebraico Maria traduz-se por "Domina" em latim: "portanto o anjo
chama-lhe Senhora para livrar do temor de escrava a mãe do Dominador, a
qual nasce e se chama Senhora pelo poder do Filho" (S.
Pedro Chrisólogo, Sermo 142, De Annuntiatlone B.M.V.: PL
52, 579 C; cf. também 582B; 584A: "Regina totius exstitit castitatis".).
15. Santo Epifânio, bispo de Constantinopla, escreve ao papa Hormisdas
pedindo a conservação da unidade da Igreja "mediante a graça da Trindade
una e santa e por intercessão de nossa Senhora, a santa e gloriosa
virgem Maria, Mãe de Deus" (Relatio Epiphanii
Ep. Constantin.: PL 63, 498D.).
16. Um autor do mesmo tempo dirige-se a Maria santíssima, sentada à
direita de Deus, invocando-a solenemente como "Senhora dos mortais,
santíssima Mãe de Deus" (Encomium in
Dormitionem Ss.mae Deiparae (inter opera s. Modesti): PG 86,
3306B.).
17. Santo André Cretense atribui muitas vezes a dignidade real à virgem
Maria; escreve, por exemplo: "Leva [Jesus Cristo] neste dia da morada
terrestre [para o céu], como rainha do gênero humano, a sua Mãe sempre
virgem, em cujo seio, permanecendo Deus, tomou a carne humana"
(S. Andreas Cretensis, Homilia II in Dormitionem Ss.mae Deiparae:
PG 97, 1079B.). E noutro lugar: "Rainha de todo o gênero humano,
porque, fiel à significação do seu nome, se encontra acima de tudo
quanto não é Deus" (Id., Homilla III in
Dormitionem Ss.mae Deiparae: I PG 98, 303A.).
18. Do mesmo modo se dirige s. Germano à humildade da Virgem: "Senta-te,
ó Senhora; sendo tu Rainha e mais eminente que todos os reis,
pertence-te estar sentada no lugar mais nobre" (S.
Germano, In Praesentationem Ss.mae Deiparae, I: PG 98
303A.); e chama-lhe: "Senhora de todos aqueles que habitam a terra"
(Id., In Praesentationem Ss.mae Deiparae, II: PG 98,
315C.).
19. São João Damasceno proclama-a "rainha, protetora e senhora"
(S. João Damasceno, Homilia I in Dormitionem B.M.V: PG
96, 719A.) e também: "senhora de todas as criaturas" (Id.,
De fide orthodoxa, I, IV, c.14: PG 44,1158B.); e um antigo
escritor da Igreja ocidental chama-lhe: "ditosa rainha", "rainha eterna
junto do Filho Rei", e diz que ela tem a "nívea cabeça ornada com um
diadema de ouro" (De laudibus Mariae (inter
opera Venantii Fortunati): PL 88 282B e 283A.).
20. Finalmente, s. Ildefonso de Toledo resume-lhe quase todos os títulos
de honra nesta saudação: "Ó minha senhora, minha dominadora: tu dominas
em mim, ó mãe do meu Senhor... Senhora entre as escravas, rainha entre
as irmãs" (Ildefonso Toledano, De virginitate
perpetua B.M.V.: PL 96, 58AD.).
21. Recolhendo a lição desses e outros inumeráveis testemunhos antigos,
chamaram os teólogos a santíssima Virgem, rainha de todas as coisas
criadas, rainha do mundo e senhora do universo.
22. Por sua vez, os sumos pastores da Igreja julgavam obrigação sua
aprovar e promover a devoção à celeste Mãe e Rainha com exortação e
louvores. Pondo de parte os documentos dos papas recentes, recordamos
que já no século VII o nosso predecessor s. Martinho I chamou a Maria
"gloriosa Senhora nossa, sempre virgem" (S.
Martinho I, Epist. XIV PL 87,199-200A.); Sto. Agatão, na
carta sinodal enviada aos padres do sexto concílio ecumênico, chamou-a
"Senhora nossa, verdadeiramente e com propriedade Mãe de Deus"
(Sto. Agatão: PL 87,1221A.); e no século VIII, Gregório II,
em carta ao patriarca s. Germano, que foi lida entre as aclamações dos
padres do sétimo concílio ecumênico, proclamava Maria "Senhora de todos
e verdadeira Mãe de Deus" e "Senhora de todos os
cristãos" (Hardouin, Acta Conciliorum, IV, 234 e 238: PL
LXXXIX89 508B.).
23. Apraz-nos recordar também que o nosso predecessor de imortal memória
Sixto IV, querendo favorecer a doutrina da imaculada conceição da
santíssima Virgem, começa a carta apostólica Cum praeexcelsa
(Xisto IV, Bulla Cum praeexcelsa, de 28 de
Fevereiro de 1476.) chamando precisamente a Maria "rainha sempre
vigilante, a interceder junto ao Rei, que ela gerou". Do mesmo modo
Bento XIV, na carta apostólica Gloriosae Dominae
(Bento XIV, Bulla Gloriosae Dominae, de 27
de setembro de 1748.), chama a Maria "rainha do céu e da terra",
afirmando que o sumo Rei lhe contou, em certo modo, o seu próprio
império.
24. Por isso, Sto. Afonso de Ligório, tendo presente todos os
testemunhos dos séculos precedentes, pôde escrever com a maior devoção:
"Porque a virgem Maria foi elevada até ser Mãe do Rei dos reis, com
justa razão a distingue a Igreja com o título de Rainha"
(Sto.
Afonso, Le glorie di Maria, p. I, c. I, § 1.).
II
NA LITURGIA E NA ARTE
25. A sagrada liturgia, espelho fel da doutrina transmitida pelos santos
padres e da crença do povo cristão, cantou por todo o decurso dos
séculos e canta ainda sem cessar, tanto no oriente como no ocidente, as
glórias da celestial Rainha.
26. Vozes entusiásticas ressoam do oriente: "Ó Mãe de Deus, hoje és
transferida para o céu sobre os carros dos querubins, os serafins estão
às tuas ordens, e os exércitos da milícia celeste prostram-se diante de
ti" (Da liturgia dos Armenos: na festa da
Assunção, hino do Matutino.).
27. E mais ainda: "Ó justo, felicíssimo [José], pela tua origem real
foste escolhido entre todos para esposo da Rainha imaculada, que dará à
luz de modo inefável a Jesus Rei".(Ex Menaeo
(bizantino): Domingo depois do Natal, no Cânon, no Matutino.) E depois:
"Vou elevar um hino à rainha e Mãe de quem, ao celebrar, me aproximarei
com alegria, para cantar com exultação alegremente as suas glórias... Ó
Senhora, nossa língua não te pode louvar dignamente, porque tu, que
deste à luz a Cristo nosso Rei, foste exaltada acima dos serafins...
Salve, rainha do mundo, salve, ó Maria, senhora de todos nós"
(Officio, hino Akátistos,no rito bizantino).
28. Lê-se no Missal etíope: "Ó Maria, centro do mundo todo,... Tu és
maior que os querubins de olhar penetrante, e que os serafins de seis
asas... O céu e a terra estão cheios da santidade da tua glória"
(Missale Aethiopicum, Anáfora Dominae noetrae Mariae, Matris
Dei.).
29. O mesmo canta a liturgia da Igreja latina com a antiga e dulcíssima
oração "Salve, rainha", as alegres antífonas "Ave, ó rainha dos céus",
"Rainha do céu, alegrai-vos, aleluia", e outras que se costumam rezar em
várias festas de nossa Senhora: "Colocou-se como rainha à tua direita,
com vestido dourado e circundada de vários ornamentos"
(Brev. Rom., Versículo do sesto Respons.); "A terra e o povo
cantam o teu poder, ó rainha" (Festa da Assunção;
hino ad Laudes.); "Hoje a virgem Maria sobe ao céu: alegrai-vos, porque
reina com Cristo para sempre" (Ibidem, ao
Magnificat, II Vésp.).
30. A esse e outros cânticos devem juntar-se as Ladainhas lauretanas,
que levam o povo cristão a invocar todos os dias nossa Senhora como
rainha; e no santo rosário, que se pode chamar coroa mística da celeste
rainha, já há muitos séculos os fiéis contemplam, do quinto mistério
glorioso, o reino de Maria, que abraça o céu e a terra.
31. Finalmente a arte cristã, intérprete natural da espontânea e pura
devoção do povo, desde o concílio de Éfeso que representa Maria como
rainha e imperatriz, sentada num trono e adornada com as insígnias
reais, de coroa na cabeça, rodeada da corte dos anjos e santos, como
quem domina não só as forças da natureza, mas também os malignos
assaltos de Satanás. A iconografia da virgem Maria como rainha
enriqueceu-se em todos os séculos com obras de arte de alto mérito,
chegando até a figurar o divino Redentor no ato de cingir com brilhante
coroa a cabeça da própria Mãe.
32. Os pontífices romanos não deixaram de favorecer esta devoção
coroando pessoalmente ou por meio de legados as imagens da virgem Mãe de
Deus, que eram objeto de especial veneração.
III
OS ARGUMENTOS TEOLÓGICOS
A maternidade divina de Maria
33. Como acima apontamos, veneráveis irmãos, segundo a tradição e a
sagrada liturgia, o principal argumento em que se funda a dignidade
régia de Maria é sem dúvida a maternidade divina. Na verdade, do Filho
que será dado à luz pela Virgem, afirma-se na Sagrada Escritura:
"chamar-se-á Filho do Altíssimo e o Senhor Deus dar-lhe-á o trono de
Davi, seu pai; reinará na casa de Jacó eternamente, e o seu reino não
terá fim" (Lc 1, 32, 33.); ao mesmo tempo que
Maria é proclamada "a Mãe do Senhor" (Ibid.1,43.).
Daqui se segue logicamente que Maria é rainha, por ter dado a vida a um
Filho, que no próprio instante da sua concepção, mesmo como homem, era
rei e senhor de todas as coisas, pela união hipostática da natureza
humana com o Verbo. Por isso muito bem escreveu s. João Damasceno:
"Tornou-se verdadeiramente senhora de toda a criação, no momento em que
se tornou Mãe do Criador" (S. João Damas., De
fide orthodoxa, 1. IV, c.14, PG 94,1158s.B.). E assim o
arcanjo Gabriel pode ser chamado o primeiro arauto da dignidade real de
Maria.
34. Contudo, nossa Senhora deve proclamar-se Rainha, não só pela sua
maternidade divina, mas ainda pela parte singular que Deus queria ter na
obra da salvação. "Que pode haver - escrevia nosso predecessor de feliz
memória, Pio XI - mais doce e suave do que pensar que Cristo é nosso
Rei, não só por direito de natureza, mas ainda por direito adquirido,
isto é, pela redenção? Repensem todos os homens, esquecidos do quanto
custamos ao nosso Redentor e recordem todos: “Não fostes remidos com
ouro ou prata, bens corruptíveis..., mas pelo precioso sangue de Cristo,
cordeiro imaculado e incontaminado” (1Pd
1,18,19.). “Não pertencemos portanto a nós mesmos, pois Cristo “a alto
preço” ( 1Cor 6,20.), “nos comprou”
(Pio XI, Carta enc. Quas primas: AAS 17(1925), p.599.).
Sua cooperação na redenção
35. Ora, ao realizar-se a obra da redenção, Maria santíssima foi
intimamente associada a Cristo, e por isso justamente se canta na
sagrada liturgia: "Santa Maria, rainha do céu e senhora do mundo, estava
traspassada de dor, ao pé da cruz de nosso Senhor Jesus Cristo"
(Festa aeptem dolorum B. Mariae Virg., Tractus.). E um piedosíssimo
discípulo de s. Anselmo podia escrever na Idade Média: "Como... Deus,
criando todas as coisas pelo seu poder, é Pai e Senhor de tudo, assim
Maria, reparando todas as coisas com os seus méritos, é mãe e senhora de
tudo: Deus é senhor de todas as coisas, constituindo cada uma delas na
sua própria natureza pela voz do seu poder, e Maria é Senhora de todas
as coisas, reconstituindo-as na sua dignidade primitiva pela graça, que
lhes mereceu" (Eadmero, De excellentia Virginis
Mariae, c. 11: PL 159, 308AB.). De fato "como Cristo, pelo
título particular da redenção, é nosso senhor e nosso rei, assim a
bem-aventurada Virgem [é senhora nossa] pelo singular concurso, prestado
à nossa redenção, subministrando a sua substância e oferecendo
voluntariamente por nós o Filho Jesus, desejando, pedindo e procurando
de modo singular a nossa salvação" (E Suárez,
De mysteriis vitae Christi, disp. XXII, sect. II (ed. Vivès. XIX,
327).).
36. Dessas premissas se pode argumentar: Se Maria, na obra da salvação
espiritual, foi associada por vontade de Deus a Jesus Cristo, princípio
de salvação, e o foi quase como Eva foi associada a Adão, princípio de
morte, podendo-se afirmar que a nossa redenção se realizou segundo uma
certa "recapitulação" (Sto. Irineu, Adv. haer.,
V,19,1: PG 9,1175B.), pela qual o gênero humano, sujeito à morte
por causa duma virgem, salva-se também por meio duma virgem; se, além
disso, pode-se dizer igualmente que esta gloriosíssima Senhora foi
escolhida para Mãe de Cristo "para lhe ser associada na redenção do
gênero humano" (Pio XI, Epist. Auspicatus
profecto: AAS 25(1933), p. 80.), e se realmente "foi ela que -
isenta de qualquer culpa pessoal ou hereditária, e sempre estreitamente
unida a seu Filho - o ofereceu no Gólgota ao eterno Pai, sacrificando
juntamente, qual nova Eva, os direitos e o amor de mãe em benefício de
toda a posteridade de Adão, manchada pela sua desventurada queda"
(Pio XII, Carta enc. Mystici Corporis: AAS 35(1943), p. 247.)
poder-se-á legitimamente concluir que, assim como Cristo, o novo Adão,
deve-se chamar rei não só porque é Filho de Deus mas também porque é
nosso redentor, assim, segundo certa analogia, pode-se afirmar também
que a bem-aventurada virgem Maria é rainha, não só porque é Mãe de Deus
mas ainda porque, como nova Eva, foi associada ao novo Adão.
Sua sublime dignidade
37. E certo que no sentido pleno, próprio e absoluto, somente Jesus
Cristo, Deus e homem, é rei; mas também Maria - de maneira limitada e
analógica, como Mãe de Cristo-Deus e como associada à obra do divino
Redentor, à sua luta contra os inimigos e ao triunfo deles obtido
participa da dignidade real. De fato, dessa união com Cristo-Rei deriva
para ela tão esplendente sublimidade, que supera a excelência de todas
as coisas criadas: dessa mesma união com Cristo nasce aquele poder real,
pelo qual ela pode dispensar os tesouros do reino do Redentor divino;
finalmente, da mesma união com Cristo se origina a inexaurível eficácia
da sua intercessão junto do Filho e do Pai.
38. Portanto, não há dúvida alguma que Maria santíssima se avantaja em
dignidade a todas as coisas criadas e tem sobre todas o primado, a
seguir ao seu Filho. "Tu finalmente, canta S. Sofrônio, superaste em
muito todas as criaturas... Que poderá existir mais sublime que tal
alegria, ó Virgem Mãe? Que pode existir mais elevado que tal graça, a
qual por divina vontade só tu tiveste em sorte?" (S.
Sofrônio, In Annuntiationem Beatae Mariae Virg.: PG 87, 3238D e
3242A.). A esses louvores acrescenta S. Germano: "A tua honra e
dignidade colocam-te acima de toda a criação: a tua sublimidade faz-te
superior aos anjos" (S. Germano, Hom. II in
Dormitionem Beatae Mariae Virginis: PG 98, 354B.). João Damasceno
chega a escrever o seguinte: "É infinita a diferença entre os servos de
Deus e a sua Mãe" (S. João Damas. Hom. I. in
Dormitionem Beatae Mariae Virginis: PG 96, 715A.).
39. Para melhor compreendermos a sublime dignidade, que a Mãe de Deus
atingiu acima de todas as criaturas, podemos considerar que a santíssima
Virgem, desde o primeiro instante da sua conceição, foi enriquecida de
tal abundância de graças, que supera a graça de todos os santos. Por
isso, como escreveu na carta apostólica Ineffabilis Deus o nosso
predecessor, de feliz memória, Pio IX, Deus "fez a maravilha de a
enriquecer, acima de todos os anjos e santos, de tal abundância de todas
as graças celestiais hauridas dos tesouros da divindade, que ela - imune
de toda a mancha do pecado, e toda bela apresenta tal plenitude de
inocência e santidade, que não se pode conceber maior abaixo de Deus,
nem ninguém a pode compreender plenamente senão Deus"
(Pio IX, Bula Ineffabilis Deus: Acta Pii IX, I, p. 597-598.).
Com Cristo, ela reina nas mentes e vontades dos homens
40. Nem a bem-aventurada virgem Maria teve apenas, ao seguir a Cristo, o
supremo grau de excelência e perfeição, mas também participou ainda
daquela eficácia pela qual justamente se afirma que o seu divino Filho e
nosso Redentor reina na mente e na vontade dos homens. Se, de fato, o
Verbo de Deus opera milagres e infunde a graça por meio da humanidade
que assumiu - e se utiliza dos sacramentos e dos seus santos, como
instrumentos, para salvar as almas; por que não há de servir-se do múnus
e ação de sua Mãe santíssima para nos distribuir os frutos da redenção?
"Com ânimo verdadeiramente materno para conosco - como diz o mesmo
predecessor nosso, de feliz memória, Pio IX - e ocupando-se da nossa
salvação, ela, que pelo Senhor foi constituída rainha do céu e da terra,
toma cuidado de todo o gênero humano, e - tendo sido exaltada sobre
todos os coros dos anjos e as hierarquias dos santos do céu, e estando à
direita do seu unigênito Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor - com as suas
súplicas maternas impetra com eficácia, obtém quanto pede, nem pode
deixar de ser ouvida" (Ibid., p. 618.). A esse
propósito, outro nosso predecessor, de feliz memória, Leão XIII,
declarou que foi concedido à bem-aventurada virgem Maria um poder "quase
ilimitado" (Leão XIII, Carta enc. Adiutricem
populi: AAS 28(1895-96), p.130.) na distribuição das graças; s. Pio
X acrescenta que Maria desempenha esta missão "como por direito materno"
(Pio X, Carta enc.
Ad diem illum:
AAS 36(1903-1904), p. 455.).
Duplo erro a ser evitado
41. Gloriem-se, portanto, todos os féis cristãos de estar submetidos ao
império da virgem Mãe de Deus, que tem poder régio e se abrasa de amor
materno.
42. Porém, nessas e noutras questões que dizem respeito à bem-aventurada
virgem Maria, procurem os teólogos e pregadores evitar certos desvios,
para não caírem em duplo erro: acautelem-se de opiniões sem fundamento e
que ultrapassam com exageros os limites da verdade; e evitem, por outro
lado, a excessiva estreiteza ao considerarem a singular, sublime, e
mesmo quase divina dignidade da Mãe de Deus, que o doutor angélico nos
ensina a atribuir-lhe "em razão do bem infinito, que é Deus"
(S. Tomás, Summa Theol., I, q. 25, a. 6, ad
4.).
43. Mas, nesse, como em todos os outros capítulos da doutrina cristã, "a
norma próxima e universal" é para todos o magistério vivo da Igreja,
instituído por Cristo "também para esclarecer e explicar aquelas coisas
que só de modo obscuro e como que implícito estão contidas no depósito
da fé" (Pio XII, Carta enc. Humani generis: AAS, 42(1950), p.
569.).
IV
A FESTA DE MARIA RAINHA
44. Dos
testemunhos da antiguidade cristã, das orações da liturgia, da inata
devoção do povo cristão, das obras artísticas, de toda a parte
recolhemos expressões que nos mostram que a virgem Mãe de Deus se
distingue pela sua dignidade real; mostramos também que as razões,
deduzidas pela sagrada teologia do tesouro da fé divina, confirmam
plenamente essa verdade. De tantos testemunhos referidos forma-se uma
espécie de concerto harmonioso que exalta a incomparável dignidade real
da Mãe de Deus e dos homens, a qual domina todas as coisas criadas e foi
elevada aos reinos celestes, acima dos coros dos anjos (Do Brev. Rom.:
Festa da Assunção de Maria virgem).
45.
Depois de atentas e ponderadas reflexões, tendo chegado à convicção de
que seriam grandes as vantagens para a Igreja, se essa verdade
solidamente demonstrada resplandecesse com maior evidência diante de
todos como luz que brilha mais, quando posta no candelabro, - com a
nossa autoridade apostólica decretamos e instituímos a festa de Maria
rainha, para ser celebrada cada ano em todo o mundo no dia 31 de maio.
Ordenamos igualmente que no mesmo dia se renove a consagração do gênero
humano ao seu coração imaculado. Tudo isso nos incute grande esperança
de que há de surgir nova era, iluminada pela paz cristã e pelo triunfo
da religião.
Exortação à devoção mariana
46.
Procurem pois todos, e agora com mais confiança, aproximar-se do trono
da misericórdia e da graça, para pedir à nossa Rainha e Mãe socorro na
adversidade, luz nas trevas, conforto na dor e no pranto; e, o que é
mais, esforcem-se por se libertar da escravidão do pecado, e prestem ao
cetro régio de tão poderosa Mãe a homenagem duradoura da devoção dial.
Freqüentem as multidões de fiéis os seus templos e celebrem-lhe as
festas; ande nas mãos de todos a piedosa coroa do terço; e reúna a
recitação dele - nas igrejas, nas casas, nos hospitais e nas prisões -
ora pequenos grupos, ora grandes assembléias, para cantarem as glórias
de Maria. Honra-se o mais possível o seu nome, mais doce do que o néctar
e mais valioso que toda a pedra preciosa; ninguém ouse o que seria prova
de alma vil - pronunciar ímpias blasfêmias contra este nome santíssimo,
ornado de tanta majestade e venerável pelo carinho próprio de mãe; nem
se atreva ninguém a dizer nada que seja irreverente.
47. Com
vivo e diligente cuidado todos se esforcem por copiar nos sentimentos e
nos atos, segundo a própria condição, as altas virtudes da Rainha do céu
e nossa Mãe amantíssima. Donde resultará que os féis, venerando e
imitando tão grande Rainha e Mãe, virão se sentir verdadeiros irmãos
entre si, desprezarão a inveja e a cobiça das riquezas, e hão de
promover a caridade social, respeitar os direitos dos fracos e fomentar
a paz. Nem presuma alguém ser filho de Maria, digno de se acolher à sua
poderosíssima proteção, se à exemplo dela não é justo, manso e casto, e
não mostra verdadeira fraternidade, evitando ferir e prejudicar, e
procurando socorrer e dar ânimo.
A Igreja do silêncio
48. Em
algumas regiões da terra, não falta quem seja injustamente perseguido
por causa do nome cristão e se veja privado dos direitos divinos e
humanos da liberdade. Para afastar tais males, nada conseguiram até hoje
justificados pedidos e reiterados protestos. A esses filhos inocentes e
atormentados volva os seus olhos de misericórdia, cuja luz dissipa
nuvens e serena tempestades, a poderosa Senhora dos acontecimentos e dos
tempos, que sabe vencer a maldade com o seu pé virginal. Conceda-lhes
poderem em breve gozar a devida liberdade e cumprir publicamente os
deveres religiosos. E, servindo a causa do Evangelho - com o seu esforço
concorde e egrégias virtudes, de que no meio de tantas dificuldades dão
exemplo - concorram para o fortalecimento e progresso das sociedades
terrestres.
Maria, Rainha e Medianeira da paz
49. A
festa - instituída pela presente carta encíclica, a fim de que todos
reconheçam mais claramente e melhor honrem o clemente e materno império
da Mãe de Deus pensamos que poderá contribuir para que se conserve,
consolide e torne perene a paz dos povos, ameaçada quase todos os dias
por acontecimentos que enchem de ansiedade. Não é ela acaso o arco-íris
que se eleva para Deus, como sinal de pacífica aliança?
(Cf. Gn 9,13.) "Contempla o arco-íris e bendize aquele que o fez; é
muito belo no seu esplendor; abraça o céu na sua órbita radiosa, e foram
as mãos do Altíssimo que o traçaram" (Eccl.
43,12-13). Todo aquele que honra a Senhora dos anjos e dos homens - e
ninguém se julgue isento deste tributo de reconhecimento e amor -
invoque esta rainha, medianeira da paz; respeite e defenda a paz, que
não é maldade impune nem liberdade desenfreada, mas concórdia bem
ordenada sob o signo e comando da divina vontade: tendem a protegê-la e
aumentá-la as maternas exortações e ordens de Maria.
50.
Desejando ardentemente que a Rainha e Mãe do povo cristão acolha estes
nossos votos, alegre com a sua paz as terras sacudidas pelo ódio, e a
todos nós, depois deste exílio, mostre a Jesus, que será na eternidade a
nossa paz e alegria; a vós, veneráveis irmãos, e aos vossos rebanhos,
concedemos de todo o coração a bênção apostólica, como penhor do auxílio
de Deus onipotente e testemunho do nosso paternal afeto.
Dado
em Roma, junto de São Pedro, na festa da maternidade de Nossa Senhora,
no dia 11 de outubro do ano de 1954, XVI do nosso pontificado.
PIO PP. XII
II
DISCURSO NO SOLENE
RITO MARIANO DE 1 DE NOVEMBRO DE 1954.
As provas de homenagem e devoção à
Mãe de Deus, que o Mundo católico multiplicou nos meses passados,
demonstraram esplendidamente, tanto nas públicas manifestações, como nas
mais modestas iniciativas da piedade particular, o seu amor à Virgem
Maria e a fé nos seus privilégios incomparáveis. Mas para coroar todas
essas manifestações com uma solenidade particularmente significativa do
Ano Mariano quisemos instituir e celebrar a Festa da Realeza de Maria.
Nenhum de vós, queridos filhos e filhas, há de ficar maravilhado ou
pensar que se tenha tratado de decretar à Virgem um novo título. Não
repetem acaso os fiéis cristãos já há séculos nas Ladainhas lauretanas
as invocações que saúdam Maria com o nome de Rainha? E a reza do Santo
Rosário, propondo como meditação a memória das alegrias, das dores e das
glórias da Mãe de Deus, não termina acaso com a recordação jubilosa de
Maria recebida no céu pelo seu Filho e por Ele ornada como diadema real?
Não foi, portanto, Nossa intenção introduzir novidade alguma, mas
antes fazer brilhar aos olhos do mundo, nas circunstâncias atuais, uma
verdade apta a levar remédio para os seus males, a libertá-lo das suas
angústias e a orientá-lo para o caminho da salvação, que ele
ardentemente procura.
Menos ainda do que a do seu Filho, a realeza de Maria não deve ser
considerada em analogia com as realidades da vida política moderna. É
verdade que não se podem representar maravilhas do céu senão através das
palavras e expressões muito imperfeitas da linguagem humana; mas isso
não significa de forma alguma que para honrar Maria, se deva aderir a
uma determinada forma de governo ou a uma particular estrutura política.
A realeza de Maria é uma realidade ultraterrena, que ao mesmo tempo,
porém, penetra até ao mais íntimo dos corações e os toca na sua essência
profunda, no que eles têm de espiritual e imortal.
A origem das glórias de Maria, o momento solene que ilumina toda a sua
pessoa e missão, é aquele, em que, cheia de graça, dirigiu ao Arcanjo
Gabriel o Fiat, que exprimia o seu assentimento à disposição
divina; Ela tornava-se assim a Mãe de Deus e Rainha, e recebia o ofício
real de velar sobre a unidade e paz do gênero humano. Por meio d’Ela
temos a firme esperança de que a humanidade se há de encaminhar pouco a
pouco nesta senda da salvação; Ela há de guiar os chefes das nações e os
corações dos povos para a concórdia e caridade.
Que poderiam, portanto, fazer os cristãos na hora atual, em que a
unidade e paz do mundo, e até as próprias fontes de vida, estão em
perigo, se não volverem o olhar para Aquela, que se lhes apresenta
revestida do poder real? Assim como Ela envolveu já no seu manto o
divino Menino, primogênito de todas as criaturas e de toda a criação
(cf. Col. 1, 15), assim também digne-se agora envolver todos os homens e
todos os povos com a sua vigilante ternura, digne-se, como Sede da
Sabedoria, fazer brilhar a verdade das palavras inspiradas, que a Igreja
Lhe aplica: “Per me reges regnant, et legum conditores iusta decernunt;
per me príncipes imperant, et potentes decernunt iustitiam” (Prov. 8,
15-16; Brev. Rom. in Comm. Fest. B. Maria Virg., I Noct Lect. 1). – Por
meio de mim reinam todos os reis, e os magistrados administram a
justiça; por meio de mim mandam os príncipes e os soberanos governam com
retidão. – Se o mundo hoje combate sem tréguas para conquistar a sua
unidade e para assegurar a pa a invocação do reino de Maria é, para além
de todos os meios terrenos e de todos os desígnios humanos de qualquer
maneira sempre defeituosos, o grito da fé e da esperança cristã, firmes
e fortes nas promessas divinas e nos auxílios inesgotáveis, que este
império de Maria difundiu para a salvação da humanidade.
Todavia, da inexaurível bondade da Virgem Santíssima, que hoje
invocamos como a real Mãe do Senhor, Nós esperamos ainda outros
benefícios não menos preciosos. Ela não só deve aniquilar os planos
obscuros e as obras iníquas dos inimigos de uma humanidade unida e
cristã, mas ainda tem que comunicar aos homens de hoje alguma coisa do
seu espírito. Entendemos com isso a vontade corajosa e até audaz que,
nas circunstâncias difíceis, perante os perigos e obstáculos, sabe tomar
sem hesitações as resoluções que se impõem, e executá-las com energia
indefectível, de maneira que arraste no seu exemplo os fracos, os
cansados, os indecisos e os que não crêem mais na justiça e nobreza da
causa que devem defender. Quem não vê como Maria realizou em si mesma em
alto grau este espírito e mereceu os louvores devidos à “mulher forte”?
O seu “Magnificat”, esse cântico de alegria e de esperança invencível no
poder divino, cujas obras Ela começa a realizar, enche-a de santa
audácia e de uma força desconhecida à natureza.
Como quereríamos que todos aqueles, que hoje têm a responsabilidade do
bom e reto andamento dos negócios públicos, imitassem este luminoso
exemplo de sentimento real! Pelo contrário, não se nota acaso às vezes
até nas suas fileiras uma espécie de canseira, de resignação e
passividade, que lhes impede de arrastar como firmeza e perseverança os
árduos problemas da hora atual? Não deixam alguns porventura às vezes os
acontecimentos irem à deriva, em vez de dominá-los com uma ação salutar
e construtiva?
Não é, portanto, urgente mobilizar todos as forças vivas agora em
reserva, e estimular aqueles que ainda não têm plena consciência da
perigosa depressão psicológica em que caíram? Se a realeza de Maria
encontra um símbolo muito apropriado na acies ordinata, no
exército em pé de guerra (Off. in Assumptione B. M. V. passim),
evidentemente ninguém há de pensar em qualquer intenção
belicosa, mas unicamente na força do ânimo, que admiramos em
grau heróico na Virgem, e que deriva da consciência de trabalhar
validamente para a ordem de Deus no mundo.
Que a Nossa invocação à realeza da Mãe de Deus alcance para os homens
cuidadosos das suas responsabilidades a graça de vencer o abatimento e a
indolência, numa hora em que ninguém se pode permitir um instante de
repouso, quando em tantas regiões a justa liberdade é oprimida, a
verdade ofuscada pelo intenso trabalho duma propaganda mendaz, e as
forças do mal parecem como que desencadeadas sobre a terra!
Se a realeza de Maria pode sugerir aos governantes das nações atitudes
e conselhos que correspondem às exigências do tempo, Ela não deixa de
derramar sobre todos os povos da terra e sobre todas as classes sociais
a abundância das suas graças. Depois do espetáculo atroz da Paixão aos
pés da Cruz, onde oferecera o mais duro dos sacrifícios que se possam
pedir a uma Mãe, Ela continuou a prodigalizar aos primeiros cristãos,
seus filhos de adoção, as suas atenções maternais. Rainha mais do que
nenhuma outra pela elevação da sua alma e excelência dos dons divinos,
Ela não cessa de distribuir à pobre humanidade todos os tesouros da sua
afeição e das suas ternas solicitudes. Longe de ser fundado sobre as
exigências dos seus direitos e a vontade de altivo domínio, o reino de
Maria conhece uma só aspiração: o dom completo de si na sua mais alta e
total generosidade.
Assim, portanto, Maria exerce a sua realeza: aceita as nossas
homenagens e não desdenhando atender até às mais humildes e imperfeitas
orações. Por isso, desejando interpretar os sentimentos de todo o povo
cristão, Nós dirigimos à Virgem Santíssima esta ardente súplica:
Das entranhas desta terra de lágrimas, onde a humanidade, que sofre, a
custo se arrasta; no meio das ondas deste nosso mar incessantemente
agitado pelo vento das paixões, levantamos os olhos para vós, ó Maria,
Mãe estremecida, para reconfortar-nos na contemplação da vossa glória, e
para aclamar-vos Rainha e Senhora dos céus e da terra, Rainha e Senhora
nossa.
A vossa realeza, queremos exaltá-la como legítimo orgulho de filhos e
reconhecê-la como devida à suma excelência de todo o vosso ser, ó
suavíssima e verdadeira Mãe d’Aquele que é Rei por direito próprio, por
herança, por conquista.
Reinai, ó Mãe e Senhora, mostrando-nos o caminho da santidade,
dirigindo-nos e assistindo-nos para que dele nunca nos afastemos.
Assim como no alto dos céus exerceis a vossa realeza sobre os coros
dos Anjos, que vos aclamam sua Soberana; sobre as legiões dos Santos,
que se contemplam na contemplação da vossa fúlgida beleza; assim também
reinai sobre todo o gênero humano, sobretudo abrindo os atalhos da fé a
quantos ainda não conhecem o vosso divino Filho.
Reinai sobre a Igreja, que festeja e professa o vosso suave domínio e
a vós recorre como a seguro refúgio no meio das calamidades dos nossos
tempos. Mas reinai especialmente sobre aquela porção da Igreja, que é
perseguida e oprimida, dando-lhes a fortaleza para suportar as
adversidades, a constância para que não ceda sob as injustas pressões, a
luz para que não caia nas emboscadas do inimigo, a firmeza para resistir
aos ataques abertos, e em cada momento a inabalável fidelidade ao vosso
Reino.
Reinai sobre as inteligências, para que não procurem senão a verdade;
sobre as vontades para que sigam somente no bem; sobre os corações para
que amem unicamente o que vós mesma amais.
Reinai sobre os indivíduos e famílias, como sobre as sociedades e
nações; sobre as assembléias dos poderosos, sobre os conselhos dos
sábios como sobre as simples aspirações dos humildes.
Reinai nas ruas e praças, nas cidades e aldeias, nos vales e montes,
no ar, na terra e no mar; e acolhei a piedosa oração de quantos sabem
que o vosso Reino é um reino de misericórdia, onde toda a súplica é
atendida, toda a dor confortada, toda a infelicidade suavizada, toda a
enfermidade sarada, e onde, como que a um aceno das vossas mãos
suavíssimas, a vida ressurge sorridente da própria morte.
Concedei-nos que aqueles, que agora em todas as partes do mundo, vos
aclamam e reconhecem Rainha e Senhora, possam um dia no céu gozar a
plenitude do vosso Reino, na visão do vosso divino Filho, o qual com o
Pai e com o Espírito Santo vive e reina nos séculos dos séculos. Assim
seja!
III
RADIOMENSAGEM NA
CONCLUSÃO DAS FESTAS JUBILARES DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA
(31 de outubro de 1942)
Veneráveis Irmãos e amados Filhos. “Benedicite Deum cæli, et coram
omnibus viventibus confitemini ei, quia fecit vobiscum misericordiam
suas” (Tob. 12, 6).
“Bendizei ao Deus do céu e glorificai-o no conspecto de todos os
viventes, porque Ele usou convosco das suas misericórdias”.
Mais de uma vez neste ano de graças, subistes em devota romaria à
montanha santa de Fátima, levando convosco os corações de todo o
Portugal crente, para aí, nesse oásis embalsamado de fé e piedade,
depositardes aos pés do vosso amor acrisolado a homenagem da vossa
gratidão pelos imensos benefícios ultimamente recebidos, a súplica
confiada de que se digne continuar o seu patrocínio sobre a vossa Pátria
d’aquém e d’alem mar, e estendê-lo à grande tribulação que atormenta o
mundo.
Nós, que, como Pai comum dos fiéis, fazemos Nossas tanto as tristezas
como as alegrias de Nossos filhos, com todo o afeto da Nossa alma Nos
unimos convosco para louvar e engrandecer ao Senhor, doador de todos os
bens; para bendizer e dar graças Àquele por cujas mãos e munificência
divina nos comunica torrentes de graças.
E tanto mais gostosamente o fazemos, porque vós, com delicadeza
filial, quisestes associar nas mesmas solenidades eucarísticas e
impetratórias o jubileu de Nossa Senhora de Fátima e o vigésimo quinto
aniversário de Nossa Sagração Episcopal: a Virgem Santa Maria e o
Vigário de Cristo na terra, duas devoções profundamente portuguesas e
sempre unidas no afeto de Portugal fidelíssimo, desde os primeiros
alvores da nacionalidade, desde quando as primeiras terras
reconquistadas núcleo da futura nação foram consagradas à Mãe de Deus
como Terra de Santa Maria, e o reino, apenas constituído, foi
posto sob a égide de São Pedro.
Gratidão
“O primeiro e maior dever do homem é o da gratidão” (S. Ambros. De
excessu fratris sui S at. L. I, n. 44 – Migne P. L. t. 16 col.
1361). “Nada há tão aceito a Deus, como a alma reconhecida, que dá
graças pelos benefícios recebidos” (Cf. S. Ioannis Chrys. Hom. 52 in
Gen. – Minge P. G. t. 54 col. 460).
E vós tendes uma grande dívida para com a Virgem, Senhora e Padroeira
da vossa Pátria.
Numa hora trágica de trevas e desvairamento, quando a nau do Estado
Português, perdido o rumo das suas mais gloriosas tradições, desgarrada
pela tormenta anticristã e antinacional, parecia correr a seguro
naufrágio, inconsciente dos perigos presentes e mais inconsciente dos
futuros, - cuja gravidade, aliás, nenhuma prudência humana, por
clarividente que fosse, podia então prever, - o céu que via uns e previa
os outros, interveio piedoso, e das trevas brilhou a luz, do caos surgiu
a ordem, a tempestade amainou em bonança, e Portugal pôde encontrar e
reatar o perdido fio das suas mais belas tradições de Nação fidelíssima,
para continuar, - como nos dias em que “na pequena casa Lusitana não
faltavam Cristãos atrevimentos”, para “a lei da vida eterna dilatar”
(Camões, Lusíadas, canto VII, oitavas 3 e 14), - na sua rota de
glória de povo cruzado e missionário.
Honra aos beneméritos, que foram instrumento da Providência para tão
grande empresa!
Mas primeiro glória, benção, ação de graças à Virgem Senhora, Rainha e
Mãe da sua Terra de S. Maria, que tem salvado mil vezes, que sempre lhe
acudiu nas horas trágicas, e que nesta talvez a mais trágica, o fez tão
manifestamente, que já em 1934 Nosso Predecessor Pio XI de imortal
memória, na Carta Apostólica Ex officiosis litteris, atestava “os
extraordinários benefícios com que a Virgem Mãe de Deus acabava de
favorecer a vossa Pátria” (Acta Ap. Sedis, a. XXVI 1934 p. 628).
E ainda àquela data não se pensava no Voto de Maio de 1936 – contra o
perigo vermelho, tão temerosamente próximo e tão inesperadamente
conjurado.
Ainda não era um fato a maravilhosa paz de que apesar de tudo,
Portugal continua gozando; e que com todos os sacrifícios que exige,
sempre é imensamente menos ruinosa, do que essa guerra de extermínio que
vai assolando o mundo.
Hoje, que a tantos benefícios acresceram mais estes, hoje a atmosfera
de milagre que bafeja Portugal se desentranha em prodígios físicos e em
maiores e mais numerosos prodígios de graças e conversões, e floresce
nessa primavera perfumada de vida católica, prometedora dos melhores
frutos, hoje com bem mais razão devemos confessar que a Mãe de Deus vos
cumulou de benefícios realmente extraordinários; e a vós incumbe o
sagrado dever de lhe renderdes infinitas graças.
E vós tendes agradecido durante este ano, bem o sabemos.
Ao céu devem ter sido gratas as homenagens oficiais; mas devem-no ter
comovido os sacrifícios das criancinhas, a oração e a penitência sincera
dos humildes.
Ao vosso ativo estão consignadas nos livros de Deus:
a apoteose da Virgem Nossa Senhora na sua romaria do Santuário de
Fátima à Capital do Império, durante as memorandas jornadas de oito a
doze de abril passando, talvez a maior demonstração de fé da história
oito vezes secular da vossa Pátria;
a peregrinação nacional de treze de maio, “jornada heróica de
sacrifício”, que, por frios e chuvas e enormes distâncias percorridas a
pé, concentrou em Fátima, a orar, a agradecer, a desagravar, centenas de
milhares de peregrinos, entre os quais se destaca, cintilante de beleza
renovadora, o exemplo da briosa Juventude católica;
as paradas infantis da Cruzada Eucarística, em que as criancinhas tão
mimosas de Jesus, com a confiança filial da inocência, podiam protestar
à Mãe de Deus que “tinham feito tudo quanto Ela pedira: orações,
comunhões, sacrifícios... aos milhares!” e por isso suplicavam: “Nossa
Senhora de Fátima, agora é só convosco; dizei ao vosso divino Filho uma
só palavra, e o mundo será salvo e Portugal livre inteiramente do
flagelo da guerra”;
a precisa coroa, feita de ouro e pedrarias, e, mais ainda, de
puríssimo amor e generosos sacrifícios, que a treze do corrente no
Santuário de Fátima oferecestes à vossa augusta Padroeira, como símbolo
e monumento perene de eterno reconhecimento.
Estas e outras belíssimas demonstrações de piedade, de que, sob a
zelosa atuação do Episcopado, tem sido fértil em todas as dioceses e
paróquias este ano jubilar, mostram bem como o fiel povo português
reconhece agradecido e quer satisfazer a sua imensa dívida para com a
sua celeste Rainha e Mãe.
Confiança
A gratidão pelo passado é penhor de confiança para o futuro. “Deus
exige de nós que lhe rendamos graças pelos benefícios recebidos”, não
porque precise dos nossos agradecimentos, mas “para que estes o
provoquem a conceder-nos benefícios ainda maiores” (cf. S. Ioannis
Chrys.
Hom. 52 in Gen.
– Migne P. G. t. 54 col. 460).
Por isso, é justo confiar que também
a Mãe de Deus, aceitando o vosso rendimento de graças, não deixará
incompleta a sua obra e vos continuará indefectível o patrocínio até
hoje dispensado, preservando-vos de mais graves calamidades.
Mas para que a confiança não seja presumida, é preciso que todos,
conscientes das próprias responsabilidades, se esforcem por não
desmerecer o singular favor da Virgem Mãe, antes, como bons filhos,
agradecidos e amantes, conciliem cada vez mais o seu terno carinho, - é
preciso que, escutando o conselho materno que Ela dava nas bodas de
Cana, façamos tudo o que Jesus nos diz (cf. Jo. 2, 5); e Ele diz a todos
que façam penitência, poenitentiam agite (Mt. 4, 17); que emendem
a vida e fujam do pecado, que é a causa principal dos grandes castigos
com que a Justiça do Eterno penitencia o mundo; que em meio deste mundo
materializado e paganizante, em que toda a carne corrompeu os seus
caminhos (Gen. 6 ,12), sejam o sol e a luz que preserva e ilumina;
cultivem esmeradamente a pureza, reflitam nos seus costumes e
austeridade santa do Evangelho, e desassombradamente e a todo o custo,
como protestava a Juventude católica em Fátima, “vivam como católicos
sinceros e convictos a cem por cem”! Mais ainda: que, cheios de Cristo,
difundam em torno de si ao perto e ao longe o perfume de Cristo, e com a
prece assídua, particularmente com o Terço cotidiano, e com os
sacrifícios que o zelo generoso inspira, procurem às almas pecadoras a
vida da graça e a vida eterna.
Então, invocareis confiadamente o Senhor e Ele vos ouvirá, chamareis
pela Mãe de Deus e Ela responderá: eis-me aqui! (cf. Is. 58, 9). Então
não vigiará debalde o que defende a cidade, porque o Senhor velará com
ele e a defenderá; nem será mal segura a casa reconstruída sobre os
alicerces de uma ordem nova, porque o Senhor a cimentará (cf. Sl. 126,
1-2). Feliz do povo cujo Senhor é Deus, cuja Rainha é a Mãe de Deus. Ela
intercederá e Deus abençoará o seu povo com a paz, compêndio de todos os
bens: Dominus benedicet populo suo in pace (Sl. 28, 11).
Súplica
Mas vós não vos desinteressais (quem pode desinteressar-se?) da imensa
tragédia que atormenta o mundo. Antes quanto mais assinaladas são as
mercês que agradeceis a Nossa Senhora de Fátima, quanto mais segura é a
confiança que n’Ela depositais relativamente ao futuro, quanto mais
perto de vós a sentis, protegendo-vos com seu manto de luz, tanto mais
trágica aparece, pelo contraste, a sorte de tantas nações dilaceradas
pela maior calamidade da história.
Temerosa manifestação da Justiça divina! Adoremo-la tremendo; mas não
duvidemos da divina Misericórdia, porque o Pai, que está nos céus, não a
esquece nem sequer nos dias da sua ira: Cum iratus fueris,
misericórdia recordaberis (Heb. 3, 2).
Hoje, o quarto ano de guerra amanheceu mais sombrio ainda, num
sinistro alastrar do conflito, hoje mais que nunca só nos resta a
confiança em Deus e, como Medianeira perante o trono divino, Aquela que
um Nosso Predecessor, no primeiro conflito mundial, mandou invocar como
Rainha da Paz.
Invoquemo-la mais uma vez, que só Ela nos pode valer! Ela, cujo
Coração materno se comoveu perante as ruínas que se amontoavam na vossa
Pátria e tão maravilhosamente a socorreu; Ela que condoída na previsão
desta imensa desventura, com que a Justiça de Deus penitencia o mundo,
já de antemão apontava na oração e na penitência o caminho da salvação,
Ela não nos há de negar a sua ternura materna e a eficácia do seu
patrocínio.
Rainha do Santíssimo Rosário, auxílio dos cristãos, refúgio do gênero
humano, vencedora de todas as grandes batalhas de Deus! Ao vosso trono
súplice nos prostramos, seguros de conseguir misericórdia e de encontrar
graça e auxílio oportuno nas presentes calamidades, não pelos nossos
méritos, de que não presumimos, mas unicamente pela imensa bondade do
vosso Coração materno.
A Vós, ao vosso Coração Imaculado, Nós como Pai comum da grande
família cristã, como Vigário d’Aquele a quem foi dado o poder no céu e
na terra (Mt. 28, 18), e de quem recebemos a solicitude de quantas almas
remidas com o seu sangue povoam o mundo universo, - a Vós, ao vosso
Coração Imaculado, nesta hora trágica da história humana, confiamos,
entregamos, consagramos não só a Santa Igreja, corpo místico de vosso
Jesus, que pena e sangra em tantas partes e por tantos modos atribulada,
mas também todo o mundo, dilacerado por exiciais discórdias, abrasado em
incêndios de ódio, vítima de suas próprias iniqüidades.
Comovam-Vos tantas ruínas materiais e morais; tantas dores, tantas
agonias dos pais, das mães, dos esposos, dos irmãos, das criancinhas
inocentes; tantas vidas ceifadas em flor; tantos corpos despedaçados
numa horrenda carnificina; tantas almas torturadas e agonizantes, tantas
em perigo de se perderem eternamente.
Vós, Mãe de misericórdia, impetrai-nos de Deus a paz! E primeiro as
graças que podem num momento converter os humanos corações, as graças
que preparam, conciliam, asseguram a paz! Rainha da paz, rogai por nós e
daí ao mundo em guerra a paz por que os povos suspiram, a paz na
verdade, na justiça, na caridade de Cristo. Dai-lhe a paz das armas e
das almas, para que na tranqüilidade da ordem se dilate o Reino de Deus.
Estendei a vossa proteção aos infiéis e a quantos jazem ainda nas
sombras da morte; dai-lhes a paz e fazei que lhes raie o Sol da verdade,
e possam conosco, diante do único Salvador do mundo, repetir: Glória a
Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade! (Lc. 2, 14).
Aos povos pelo erro ou pela discórdia separados, nomeadamente àqueles
que Vos professam singular devoção, onde não havia casa que não
ostentasse a vossa veneranda ícone (hoje talvez escondida e reservada
para melhores dias), dai-lhes a paz e reconduzi-os ao único redil de
Cristo, sob o único e verdadeiro Pastor.
Obtende paz e liberdade completa à Igreja santa de Deus; sustai o
dilúvio inundante de neopaganismos, toda matéria; e fomentai aos fiéis o
amor da pureza, a prática da vida cristã e o zelo apostólico, para que o
povo dos que servem a Deus aumente em mérito e em número.
Enfim, como ao Coração do vosso Jesus foram consagrados a Igreja e
todo o gênero humano, para que, colocando n’Ele todas as suas
esperanças, lhes fosse sinal e penhor de vitória e salvação (cf. Litt.
Enc. Annum Sacrum: Acta Leonis XIII vol. 19), assim desde hoje
Vos sejam perpetuamente consagrados a Vós e ao vosso Coração Imaculado,
ó Mãe nossa e Rainha o mundo: para que o vosso amor e patrocínio apresse
o triunfo do Reino de Deus, e todas as gerações humanas, pacificadas
entre si e com Deus, a Vós proclamem bem-aventurada, e convosco entoem,
de um pólo ao outro da terra, o eterno Magnificat de glória, amor,
reconhecimento ao Coração de Jesus, onde só podem encontrar a Verdade, a
Vida e a Paz.
Na esperança de que estas Nossas súplicas e votos sejam favoravelmente
acolhidas pela divina Bondade, a vós, dileto Cardeal Patriarca e
veneráveis Irmãos, e ao vosso Clero, para que a graça do alto fecunde
cada vez mais o vosso zelo; ao Exmo. Presidente da República, ao ilustre
Chefe e aos membros do Governo e mais Autoridades civis, para que o Céu
nesta hora singularmente grave e difícil continue a assisti-los na sua
atividade em prol do bem comum e da paz; a todos os Nossos amados Filhos
de Portugal continental, insular e ultramarino, para que a Virgem
Senhora confirme o bem que em vós se há dignado operar; a todos e cada
um dos Portugueses, como penhor das graças celestes, damos com todo o
amor e carinho paterno a Benção Apostólica.
IV
RADIOMENSAGEM NA
COROAÇÃO DA IMAGEM TAUMATURGA DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA
(13 de maio de 1946)
Veneráveis Irmãos e amados Filhos.
“Bendito seja o Senhor, Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pai
das misericórdias e Deus de toda a consolação, que nos consola em todas
as nossas tribulações” (2 Cor. 1, 3-4): e com o Senhor seja bendita
Aquela que Ele constituiu Mãe de misericórdia, e Rainha e Advogada nossa
amorosíssima, Medianeira de suas graças, Dispensadora dos seus tesouros!
Quando, há quatro anos, em pleno rumorejar pela mais funesta guerra
que viu a história, convosco pela primeira vez subimos em espírito a
este monte santo, para convosco agradecermos à Virgem Senhora de Fátima
os benefícios imensos, com que recentemente vos tinha agraciado, ao
comum Magnificat juntávamos o grito de filial confiança, para que
a Imaculada Rainha e Padroeira de Portugal completasse o que tão
maravilhosamente tinha começado.
A vossa presença hoje neste Santuário, em multidão tão imensa que
ninguém a pode contar, está atestado que a Virgem Senhora, a Imaculada
Rainha, cujo Coração materno e compassivo fez o prodígio de Fátima,
ouviu superabundantemente as nossas súplicas.
O amor ardente e reconhecido vos trouxe: e vós quisestes dar-lhe uma
expressão sensível condensando-o e simbolizando-o naquela coroa
preciosa, fruto de tantas generosidades e tantos sacrifícios, com que,
por mão do Nosso Cardeal Legado, acabamos de coroar a Imagem taumaturga.
Símbolo expressivo, que, se aos olhos da celeste Rainha atesta o vosso
filial amor e gratidão, primeiro vos recorda a vós o amor imenso,
expressivo em benefícios sem conta, que a Virgem Mãe tem desparzido
sobre a sua “Terra de S. Maria”. Oito séculos de benefícios! Os cinco
primeiros sob a signa de S. Maria de Alcobaça, de S. Maria da Vitória,
de S. Maria de Belém, nas lutas épicas contra o Crescente pela
constituição da nacionalidade, em todos os heroísmos aventurosos dos
descobrimentos de novas ilhas e novos continentes, por onde vossos
maiores andaram plantando com as Quinas a Cruz de Cristo. Estes três
últimos séculos sob a especial proteção da Imaculada, a quem o Monarca
restaurador com toda a Nação reunida em Cortes aclamou Padroeira de seus
Reinos e Senhorios, consagrando-lhe a coroa, com especial tributo de
vassalagem e com juramento de defender, até dar a vida, o privilégio de
sua Conceição Imaculada: “esperando com grande confiança na infinita
misericórdia de Nosso Senhor, que por meio desta Senhora, Padroeira e
Protetora de nossos Reinos e Senhorios, de quem por honra nossa nos
confessamos e reconhecemos vassalos e tributários, nos ampare e defenda
de nossos inimigos, com grandes acrescentamentos destes Reinos, para a
glória de Cristo nosso Deus e exaltação de nossa Santa Fé Católica
Romana, conversão dos Gentios e redução dos Hereges” (Auto de
aclamação de N. Senhora da Conceição como Padroeira de Portugal
pelas Cortes de Lisboa, em 1646).
E a Virgem fidelíssima não confundiu a esperança que n’Ela se
depositava. Basta refletir nestes três últimos decênios, pelas crises
atravessadas e pelos benefícios recebidos equivalentes a séculos; basta
abrir os olhos e ver esta Cova da Iria transformada em manancial de
graças soberanas, de prodígios físicos e muito mais de milagres morais,
que as torrentes daqui se derramam sobre todo o Portugal, e de lá,
rompendo pelas fronteiras, se vão espraiando por toda a Igreja e por
todo o mundo.
Como não agradecer? Ou antes, como agradecer condignamente? Há
trezentos anos o Monarca da restauração, em sinal do amor e
reconhecimento seu e do seu povo, depôs a coroa real aos pés da
Imaculada, proclamada Rainha e Padroeira. Hoje vós todos, todo o povo da
Terra de Santa Maria, com os Pastores de suas almas, com o seu Governo,
às preces ardentes, aos sacrifícios generosos, às solenidades
eucarísticas, às mil homenagens que vos ditou o amor filial e
reconhecido, juntastes aquela preciosa coroa e com ela cingistes a
fronte de Nossa Senhora de Fátima, aqui neste oásis bendito, impregnado
de sobrenatural, onde mais sensível se experimenta o seu prodigioso
patrocínio, onde todos sentis mais perto o seu Coração Imaculado a
pulsar de imensa ternura e solicitude materna por vós e pelo mundo.
Coroa preciosa, símbolo expressivo de amor e gratidão!
Senão que o osso mesmo concurso imenso, o fervor de vossas preces, o
troar das vossas aclamações, todo o santo entusiasmo que em vós vibra
incoercível, e, depois, o sagrado rito, que se acaba de realizar nesta
hora de incomparável triunfo da Mãe Santíssima, evocam ao Nosso espírito
outras multidões bem mais inumeráveis, outras aclamações bem mais,
ardentes, outros triunfos bem mais divinos, outra hora – eternamente
solene – no dia sem ocaso da eternidade: quando a Virgem gloriosa,
entrando triunfalmente na pátria celeste, foi através das hierarquias
bem-aventuradas e dos coros angélicos sublimada até ao trono da Trindade
beatíssima, que, cingindo-lhe a fronte de um tríplice diadema de glória,
A apresentou à Corte celestial, assentada à direita do Rei imortal dos
séculos e coroada Rainha do universo.
E o Empíreo viu que Ela era realmente digna de receber a honra, a
glória, o império, - porque mais cheia de graça, mais santa, mais
formosa, mais endeusada, incomparavelmente mais, que os maiores Santos e
os Anjos mais sublimes, ou separados ou juntos; - porque misteriosamente
aparentada na ordem da União hipostática com toda a Trindade beatíssima,
com Aquele que só é por essência a Majestade infinita, Rei dos reis e
Senhor dos senhores, qual Filha primogênita do Pai e Mãe estremosa do
Verbo e Esposa predileta do Espírito Santo; - porque Mãe do Rei divino,
d’Aquele a quem desde o seio materno deu o Senhor Deus o trono de David
e a realeza eterna na casa de Jacó (Lc. 1, 32-33), e que de si mesmo
proclamou ter-lhe sido dado todo o poder nos céus e na terra (Mt. 28,
18): Ele, o Filho Deus, reflete sobre a celeste Mãe a glória, a
majestade, o império da sua realeza; - porque associada, como Mãe e
Ministra, ao Rei dos mártires na obra inefável da humana Redenção, lhe é
para sempre associada, com um poder quase imenso na distribuição das
graças que da Redenção derivam (cf. Leonis XIII, Enc. Adiutricem,
5 septembris 1895; Acta vol. XV, p. 303).
Jesus é Rei dos séculos eternos por natureza e por conquista; por Ele,
com Ele, subordinadamente a Ele, Maria é Rainha por graça, por
parentesco divino, por conquista, por singular eleição. E o seu reino é
vasto como o de seu Filho e Deus, pois que de seu domínio nada se
exclui.
Por isso a Igreja a saúda Senhora e Rainha dos Anjos e dos Santos, dos
Patriarcas e dos Profetas, dos Apóstolos e dos Mártires, dos Confessores
e das Virgens; por isso a aclama Rainha dos céus e da terra, gloriosa,
digníssima Rainha do universo: Regina cælorum (Brev. Rom.
2º Ant. final. B. Maria Virg.), gloriosa Regina mundi (Off.
parv.
B. Maria Virg., Ant. ad Magnif. per annum), Regina mundi dignissima
(Missal Rom.
Comm. in Commem. B. Mariæ Virg. De Monte Carmelo): e nos ensina a
invocá-la de dia e de noite entre os gemidos e lágrimas de que é fecundo
este exílio: Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança
nossa.
É que a sua realeza é essencialmente materna, exclusivamente benéfica.
E não é precisamente essa realeza que vós tendes experimentado? Não
são os infindos benefícios, os carinhos inumeráveis com que vos tem
mimoseado o Coração materno da augusta Rainha, que vós hoje aqui
proclamais e agradeceis? A mais tremenda guerra que nunca assolou o
mundo por quatro longos anos andou rondando às vossas fronteiras, mas
não as ultrapassou, graças sobretudo a Nossa Senhora, que deste seu
trono de misericórdia, como de sublime atalaia, colocada aqui no centro
do país, velava por vós e por vossos governantes; nem permitiu que a
guerra vos tocasse, senão o bastante para melhor avaliardes as inauditas
calamidades de que a sua proteção vos preservara.
Coroai-a Vós Rainha da paz e do mundo, para que o ajude a encontrar a
paz e a ressurgir das suas ruínas.
E assim aquela coroa, símbolo de amor e gratidão pelo passado, de fé e
de vassalagem no presente, torna-se ainda, para o futuro, coroa de
lealdade e esperança.
Vós, coroando a imagem de Nossa Senhora, assinastes, com o atestado de
fé na sua realeza, o de uma submissão à sua autoridade, de uma
correspondência filial e constante ao seu amor. Fizestes mais ainda:
alistaste-vos Cruzados para a conquista ou reconquista do seu Reino, que
é o Reino de Deus. Quer dizer: obrigastes-vos a trabalhar para que Ela
seja amada, venerada, servida à volta de vós, na família, na sociedade
do mundo.
É que nesta hora decisiva da história, como o reino do mal com
infernal estratégia emprega todos os meios e empenha todas as forças
para destruir a fé, a moral, o Reino de Deus, assim os filhos da luz e
filhos de Deus têm de empenhar tudo e empenhar-se todos para o defender,
se não se quer ver uma ruína imensamente maior e mais desastrosa que
todas as ruínas materiais acumuladas pela guerra.
Nesta luta não pode haver neutros, nem indecisos. É preciso um
catolicismo iluminado, convicto, desassombrado, de fé e de mandamentos,
de sentimentos e de obras, em particular e em público. O lema que há
quatro anos proclamava em Fátima a briosa juventude católica: “Católicos
a cem por cem!”.
Na esperança de que os Nossos votos sejam favoravelmente acolhidos
pelo Coração Imaculado de Maria e apressem a hora do seu triunfo e do
triunfo do Reino de Deus, - como penhor das graças celestes, a vós,
Veneráveis Irmãos, e a todo o vosso Clero, ao Exmo. Presidente da
República, ao ilustre Chefe e aos Membros do Governo, às mais
Autoridades civis e militares, a todos vós, amados Filhos e Filhas,
devotos peregrinos de Nossa Senhora de Fátima, e a quantas convosco
estão unidos em espírito por todo o Portugal continental, insular e
ultramarino, damos com todo o amor e carinho paterno a Benção
Apostólica.
V
CONSAGRAÇÃO AO
IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA
Rainha do Santíssimo Rosário, auxílio dos cristãos, refúgio do gênero
humano, vencedora de todas as batalhas de Deus! Ao vosso trono súplices
nos prostramos, seguros de conseguir misericórdia e de encontrar graça e
auxílio oportuno nas presentes calamidades, não pelos nossos méritos, de
que não presumimos, mas unicamente pela imensa bondade do vosso Coração
materno.
A Vós, ao vosso Coração Imaculado, nesta hora trágica da história
humana, nos confiamos, e consagramos, não só em união com a Santa
Igreja, corpo místico de vosso Jesus, que pena e sangra em tantas
partes, e por tantos modos atribulada, mas também com todo o mundo,
dilacerado por exiciais discórdias, abrasado em incêndios de ódio,
vítima de suas próprias iniqüidades.
Comovam-Vos tantas ruínas materiais e morais; tantas dores, tantas
agonias dos pais, das mães, dos esposos, dos irmãos, das criancinhas
inocentes; tantas vidas ceifadas em flor; tantos corpos despedaçados
numa horrenda carnificina; tantas almas torturadas e agonizantes, tantas
em perigo de se perderem eternamente!
Vós, Mãe de misericórdia, impetrai-nos de Deus a paz; e primeiro as
graças que podem, num momento, converter os humanos corações, as graças
que preparam, conciliam, asseguram a paz! Rainha da paz, rogai por nós e
dai ao mundo em guerra a paz por que os povos suspiram, a paz na
verdade, na justiça, na caridade de Cristo. Dai-lhe a paz das armas e
das almas, para que na tranqüilidade da ordem se dilate o Reino de Deus.
Estendei a vossa proteção aos infiéis e a quantos jazem ainda nas
sombras da morte; dai-lhes a paz e fazei que lhes raie o Sol da verdade,
e possam conosco, diante do único Salvador do mundo, repetir: Glória a
Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade! (Lc. 2, 14).
Aos povos separados pelo erro ou pela discórdia, nomeadamente àqueles
que Vos professam singular devoção, onde não havia casa que não
ostentasse a vossa veneranda imagem (hoje talvez escondida e reservada
para melhores dias), dai-lhes a paz e reconduzi-os ao único redil de
Cristo, sob o único e verdadeiro Pastor.
Obtende paz e liberdade completa à Igreja santa de Deus; sustai o
dilúvio inundante do neopaganismo; e fomentai nos fiéis o amor da
pureza, a prática da vida cristã e o zelo apostólico, para que o povo
dos que servem a Deus aumente em mérito e em número.
Enfim, como ao Coração do vosso Jesus foram consagrados a Igreja
e todo o gênero humano, para que, colocando n’Ele todas as suas
esperanças, lhes fosse sinal e penhor de vitória e salvação, assim nós
também nos consagramos perpetuamente a vós, ao vosso Coração Imaculado,
ó Mãe nossa e Rainha o mundo; para que o vosso amor e patrocínio
apressem o triunfo do Reino de Deus, e todas as nações, pacificadas
entre si e com Deus, a vós proclamem bem-aventurada, e convosco entoem,
de um extremo ao outro da terra, o eterno Magnificat de glória, amor,
reconhecimento ao Coração de Jesus, onde só podem encontrar a Verdade, a
Vida e a Paz.
|