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Pio XII
 
Pio XII, uma pequena biografia

 

O texto a seguir é uma livre tradução do artigo "Pío XII, un Papa Romano" de Baltazar Andrés Grosso, retirado da Iesus Christus nº 118, revista do Distrito da América do Sul da FSSPX.

Pio XII, um Papa Romano

Os primeiros anos

Sucede com freqüência que para entender a vida de um homem, primeiro há que entender sua morte: Pio XII morreu como os grandes santos, com Cristo na boca e o Rosário na mão. Esta santa morte tem um princípio de piedosa vida. Ela começou para Eugenio Pacelli em 2 de março de 1876, no terceiro andar do palácio Pedicone, situado no bairro romano da Ponte, perto do rio Tiber. No mesmo dia de seu nascimento foi levado à vizinha igreja de São Celso, onde seu tio o batizou dando-lhe os nomes de Eugenio Maria Giuseppe Giovanni. Seus pais desejaram que o pequeno estivera debaixo da proteção de Santa Maria, São José e São João, sem saber que mais tarde se converteria no CCLXIº sucessor de São Pedro.

Sua família provinha da pequena aristocracia camponesa da província de Viterbo. Seu pai, Filippo Pacelli, que era advogado e chegou a ser Deão do Consistório de advogados do Vaticano, desposou a honorável Virginia Grazioni, que descendia das antigas famílias patrícias de Roma. Sua união foi abençoada com dois filhos e duas filhas, sendo Eugenio o segundo dos varões.

Filippo Pacelli, que teve que assumir em pessoa a educação de seus filhos diante do precoce desaparecimento de sua esposa, o enviou à escola gramatical Visconti, na qual completou seus estudos com todas as honras e recebeu uma medalha de ouro por seus conhecimentos em história.

Concluída sua primeira formação pediu e obteve autorização para entrar no seminário Capranica. Contudo, tempos depois teve que abandoná-lo pela fragilidade de sua saúde. Aconselhando-lhe os médicos a residir em sua casa, depois de uma leve melhora, as autoridades eclesiásticas consentiram que concorresse diariamente aos cursos do seminário e seguisse em sua casa as práticas às que estaria sujeito como aluno interno. Reposta sua saúde, prosseguiu sua formação no seminário São Apolinário da Universidade Gregoriana, recebendo a ordenação sacerdotal de mãos do Patriarca de Antioquia em 2 de abril de 1899.

Seu maior desejo era converter-se em um sacerdote de paróquia. Sem embargo, a Providência lhe tinha reservado outros destinos. Por volta de 1901, encontrando-se um dia em sua casa tocando o violino em companhia de uma irmã que interpretava o piano, vem a visitá-lo Dom Gasparri, então Secretário da Congregação para Assuntos Eclesiásticos Extraordinários, quem o queria para si como colaborador. Desse modo, integrou-se neste dicastério vaticano como minutante, escalando progressivamente até o cargo de Subsecretário.

Como aproveitou os intervalos para completar seus estudos em direito eclesiástico e civil, no ano de 1904 foi nomeado Secretário da comissão criada por São Pio X par aa revisão das leis canônicas. Ao tempo em que junto a seletos quarenta juristas preparava o código que se sancionaria em 1917, ditava aulas de Diplomacia Eclesiástica e Lei Internacional na Pontifícia Academia de Nobres Eclesiásticos, da qual também foi nomeado Secretário e posteriormente Prefeito.

Apesar de sua apertadíssima agenda, suas preferências continuavam inclinando-se ao humilde trabalho de cura de paróquia. Sempre que podia pregava e ouvia confissões na igreja na que costumava celebrar Missa durante sua juventude, no mesmo tempo que dava aulas de catecismo dominical.

Arcebispo de Sardes e Núncio Apostólico

Em 13 de maio de 1917, no mesmo dia e na mesma hora da primeira aparição da Santíssima Virgem em Fátima, o Papa Bento XV em pessoa o consagra Arcebispo titular de Sardes na Capela Sistina. Sua nomeação tinha um objetivo pontual: convertê-lo em Núncio Apostólico em Munique, capital do reino da católica Baviera, e representante ao mesmo tempo com o governo da Prússia protestante, em uma Alemanha que então ainda não estava unificada.

Uma vez apresentadas suas cartas credenciais diante do Rei da Baviera, se dirigiu imediatamente a Berlim para arrumar os detalhes de sua primeira entrevista com o Kaiser. Ela teve lugar em 19 de julho de 1917 no quartel de Kreuznach. Durante a mesma entregou a Guilherme II uma carta manuscrita de Bento XV, na que o Papa insistia que o Kaiser prestasse sua colaboração para a paz. O imperador explicou a Dom Pacelli que o Papa nada tinha a temer, ainda que deixou escapar que convinha que se transformassem os Palácios Vaticanos em verdadeiras fortalezas. Guilherme II guardou sempre uma alta consideração pelo Núncio Pacelli, a quem descreve em suas recordações como homem de aparência distinguida e simpática, de grande inteligência e conduta impecável: em uma palavra, o protótipo de um Príncipe da Igreja.

Produzida a unificação alemã, em 1920 foi nomeado Núncio concorrente em Berlim. Continuou residindo em Munique, a pesar de que a Nunciatura possuía uma sede em Berlim, lugar no qual passou a residir somente a partir de 1925.

Na década dos anos 20 estalou na capital da Baviera uma verdadeira revolução comunista, a mais feroz de toda a Alemanha. Armados e atrincheirados nas barricadas armadas nas ruas, os vermelhos chegaram ao extremo de tomar a residência do Rei. Todos os membros do corpo diplomático fugiram a Bamberg, exceto Dom Pacelli. Certo dia recebe uma chamada telefônica anunciando-lhe que seria executado; o Prelado, na altura de 43 anos, responde ao desconhecido interlocutor: "Sereis bem-vindos". Nesse mesmo ínterim treze aristocratas bávaros foram fuzilados a sangue frio.

Residindo já na capital do Reich, afrontou complicadas negociações para a elaboração de uma concordata, aceito finalmente em 1929 pelo Parlamento Alemão e posteriormente ratificado. Agora bem, teve que deixar Berlim a pouco de selado o acordo, já que Pio XI tinha tornado pública sua intenção de conceder-lhe o cardinalato, com o posterior objetivo de elevá-lo ao cargo de Secretário de Estado. Assim, pois, recebeu o barrete roxo em 16 de dezembro de 1929 e em 9 de fevereiro de 1930 assumiu como Secretário de Estado da Cidade do Vaticano.

Cinco anos mais tarde, por sua vez, Pio XI o designou Camerlengo da Igreja, o cargo temporal mais importante durante a vacância da Sede Apostólica pela morte do Sumo Pontifice.

Pio XI encontrou em seu Secretário de Estado um extraordinário colaborador e servidor; a confiança mútua que existia entre ambos foi um forte estímulo para que o então Cardeal Pacelli pudesse realizar um trabalho efetivo e humilde pelo bem da Igreja.

Graças a sua experiência e perícia diplomática, as negociações com Alemanha e Áustria concluíram na assinatura de ambas concordatas em 1933.

Um ano mais tarde viajou à Argentina como Legado Papal para encabeçar o XXXIIº Congresso Eucarístico Internacional. Nas primeiras palavras que pronunciou ao descer do transatlântico Conte Grande, afirmou: "Enquanto o mundo inteiro volta os olhos a Buenos Aires, onde a humanidade redimida celebra um novo triunfo de seu Divino Rei, vivo e presente na Santíssima Eucaristia, me é grato transmiti-los por minha humilde pessoa, a aprovação, a bênção e a participação do Sumo Pontífice Pio XI, Vigário de Cristo na terra".

Uma vez finalizado o Congresso Eucarístico, depois da multitudinária Missa que se desenvolveu em Palermo, regressou à Itália fazendo previamente duas escalas. A primeira em Montevidéu, onde se reuniu com o Presidente Gabriel Terra; a segunda no Rio de Janeiro, onde se dirigiu com um impecável português aos deputados do Brasil reunidos no Congresso e à Suprema Corte em seção extraordinária.

Dois anos mais tarde aproveitaria suas férias anuais para visitar os Estados Unidos, com ocasião do qual se entrevistou com o Presidente Roosevelt.

Em 1935 o Papa Pio XI enviou o Cardeal Eugenio Pacelli à França para representá-lo como Legado Especial no Solene Tríduo na gruta de Lourdes. Apenas alguns anos depois voltaria ao mesmo país com o fim de consagrar a Basílica de Santa Teresinha de Lisieux.

Em 1936 viajou ao Congresso Eucarístico Internacional que se celebrava em Budapeste, Hungria. Chegado o trem às 10:20 horas, depois de todos os cumprimentos protocolares, foi transladado ao Palácio Real, onde logo após o meio-dia pôde celebrar a Santa Missa na capela palaciega. Conforme a lei canônica então vigente, o Cardeal Pacelli tinha permanecido em jejum desde a meia-noite encarou com imperturbável inteireza as fadigosas cerimônias daquela longa manhã.

Eugenio Pacelli, Romanus

O testemunho de seu exemplar serviço à Igreja e adesão ao Santo Padre ficou gravado nos corações de um grupo de cardeais a quem Pio XI reuniu em um consistório pouco antes de morrer, aos que confiou essas palavras: "Sei como nenhum outro o que sua Eminência - referindo-se ao Cardeal Pacelli - faz por mim e pela Igreja, e os senhores devem saber o que Nós devemos a nosso Secretario de Estado. Tenham-no em conta quando já não esteja aqui".

Morte Pio XI em 19 de fevereiro de 1939 e após os solenes funerais, sessenta e dois cardeais de todo o mundo se reuniram em conclave para eleger a um novo Sucessor de Pedro. A 24 horas de iniciado, em 2 de março às 17:30 horas, o escrutínio tinha conseguido os votos necessários para ungir ao novo Papa.

Eugenio Cardeal Pacelli, que esse mesmo dia cumpria 63 anos de idade, era designado Sumo Pontífice da Igreja Católica. Produzida a votação, o Cardeal Decano se aproximou ao Cardeal Pacelli para perguntar-lhe se aceitava a eleição. Sua Eminência, com rosto lívido e voz quase imperceptível, respondeu: "Já que parece ser a vontade de Deus, aceito e tomo o nome de Pio XII".

Assim se dava início a um pontificado de quase vinte anos, assinalado por angustiosos momentos para o mundo inteiro. De fato, os distúrbios sociais, econômicos e políticos de envergadura estava em pauta no mundo inteiro. Pio XII subia ao Trono de Pedro nas vésperas da Segunda Guerra Mundial. Isto é o que explica que, citando o seu predecessor, afirmasse por então: "Agradeço a Deus todos os dias que me fez viver nestes tempos, e respondendo a Ele, elejo como escudo uma pomba segurando em seu bico um ramo de oliveira com a divisa: Opus Justitiae Pax, isto é, A paz é obra da justiça".

Apelou a todos os meios ao seu alcance para conter a guerra que pairava sobre o mundo. Recebeu diariamente embaixadores e ministros, chamou a seus próprios núncios e enviou legados privados, e não perdeu ocasião de falar em público para evitar.

Assim, por exemplo, em uma transmissão radiofônica de agosto de 1939 assinalou: "CoNosco, toda a humanidade anseia justiça, paz e liberdade, e não o aço que mata e destrói. CoNosco está Cristo, que nos ordenou somente 'ama a teu irmão', verdadeira substância de sua religião e promessa de salvação para os indivíduos e as nações".

Não podendo evitar o conflito, a Igreja e seu Pontífice permaneceram, como deviam, neutros e imparciais; contudo, Pio XII se ocupou pessoalmente de instrumentar os canais necessários para socorrer as vítimas, especialmente os prisioneiros de guerra.

O Papa da Pós-Guerra

Culminada a conflagração mundial, Pio XII aproveitou um de seus discursos de Natal para assinalar ao mundo inteiro quais tinham sido as causas profundas da instabilidade bélica: "Um liberalismo antiquado quis criar uma unidade sem a Igreja e contra a Igreja apelando a uma cultura laica e a um humanismo secularizado. E eis que, como fruto de sua ação dissolvente, ao mesmo tempo em oposição consigo mesmo, lhe sucedeu o totalitarismo. Em suma: qual foi o resultado depois de pouco mais de um século de todos estes esforços sem, e contra, a Igreja? A tumba da sã liberdade humana, das organizações forçosas, e um mundo que pela brutalidade e pela barbárie, pela destruição e pelas ruínas, mas sobretudo pela desunião e pela falta de segurança, não tinha conhecido nada igual".

É impossível brindar aqui uma crônica detalhada de todo seu trabalho como Sumo Pontífice, sobretudo nos anos posteriores à guerra, que foram os mais prolíficos fora do campo das questões sociais e políticas mundiais. Sem embargo, podemos dizer que seu pontificado assinalou-se, entre muitos outros, na liturgia com a publicação da encíclica "Mediator Dei", em eclesiologia com "Mystici Corporis", nos estudos bíblicos com "Divino afflante Spiritu", em doutrina com "Humani generis", sobre a santidade sacerdotal com "menti nostrae", no culto da Santíssima Virgem com a proclamação do dogma da Assunção com a bula "Munificentissimus Deus", na promoção do culto ao Sagrado Coração de Jesus com "Haurietis aquas", etc.

Durante seu pontificado canonizou a trinta e três servos de Deus, entre eles a seu próprio antecessor, o Papa São Pio X, dando um impulso definitivo a seu processo, e contra o qual se levantaram não poucas objeções pela conduta que tinha observado na condenação do modernismo, seus fautores notórios e seus partidários mais ou menos ocultos no seio da Igreja.

Pio XII, um Papa que - como mostram várias de suas encíclicas - foi um Pontífice eminentemente mariano, teve o singular privilégio de que, nos dias da definição do dogma da Assunção e estando nos Jardins do Vaticano, se reproduzisse diante de seus olhos o "milagre do sol" que no ano anterior tinha-se produzido em Fátima. Este Papa, em cuja pessoa refletia-se o mais excelente das virtudes evangélicas, foi o meio escolhido por Deus para que o Grande Rabino de Roma, Eugenio Zolli, se convertesse ao catolicismo, adotando em sua honra o nome de Eugenio como nome de cristão.

Depois de dezenove anos e meio de reinado e com 82 anos de idade, estando no Castelo Gandolfo, foi chamado à presença de Deus durante a madrugada de 9 de outubro de 1958 e foi enterrado quatro dias mais tarde nas Grutas Vaticanas.

Baltazar Andrés Grosso

 

Oração para obter a beatificação de Pio XII

Oh Jesus, Pontífice eterno, que os dignastes elevar a vosso servidor fiel, Pio XII, à suprema dignidade de Vigário vosso na terra, e lhe concedestes a graça de ser um intrépido defensor da fé, um valoroso propulsor da justiça e da paz, um zeloso glorificador de vossa Santíssima Mãe e um exemplo luminoso de caridade e de todas as virtudes, dignai-vos, em virtude de seus méritos, conceder-nos as graças que pedimos, a fim de que, confiados em sua eficaz intercessão diante de Vós, possamos vê-lo um dia elevado à glória dos altares. Amém.

Imprimatur: V. Petrus Canisius
Vic. Gen. Civit. Vatic.
die 8 Decembris 1958

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