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Já sabes agora, meu filho, de quem se
pode dizer: eis um caráter bem formado! Não pode tratar-se
senão de um jovem que tem nobres princípios, um ideal elevado, e que
sabe ser-lhe fiel. Sim, permanecer fiel àquilo que reconheceu ser a
verdade, mesmo se mais ninguém a professa, mesmo se todos os que o
rodeiam são indiferentes e apáticos... Permanecer-lhes fiel, apesar
de mil exemplos contrários, permanecer-lhes fiel em qualquer
circunstâncias!
Ai! como isto é difícil e penoso, por
vezes!
Quando rapazes indelicados e atrevidos
se divertem, há já meia hora, a amesquinhar o companheiro um tanto
desajeitado, e que este, qual infeliz cordeirinho perseguido por
cães de caça, implora em vão socorro com um olhar suplicante, -
desviar então a atenção desses traquinas para que eles terminem as
suas diabruras - eis um ato de ternura, de coragem, de fidelidade
aos princípios! Uma vontade forte!
Quando alguns estudantes, mais ou menos
céticos, começam a troçar, rindo-se grosseiramente das mais sagradas
verdades da religião e procuram deitar por terra os ensinamentos do
padre com "argumentos" extraídos de velhos livros encontrados não
sei onde - levantar a voz em favor da verdade religiosa ultrajada,
denunciar claramente os erros e os sofismas destes "argumentos", e
isso decididamente, mas sem ferir ninguém - eis um caráter heróico!
Uma vontade forte!
Quando os risos chocarreiros dos
colegas te chegam pela janela aberta e te dão vontade de deixar o
aborrecido problema de álgebra que deverias fazer, para correres com
eles para o recreio - permanecer fiel ao dever e dizer simplesmente
"não", é ainda sinal de um caráter firme, de uma vontade forte!
Durante as perseguições sangrentas dos
primeiros séculos do Cristianismo, um pobre camponês foi preso e
conduzido junto da estátua de Júpiter. "Deita incenso no fogo e
sacrifica aos nossos deuses!" - lhe disseram. "Não!" -
respondeu simplesmente...
Começam a torturá-lo; não se queixa.
Levantam-lhe o braço de modo que a mão fique precisamente por cima
das chamas, e metem-lhe dentro incenso. - "Deixa cair o incenso e
serás livre!" - "Não" - responde de novo Barlaam. E fica
lá imóvel, com o braço estendido... A chama sobe mais alto, começa a
queimar-se; já o incenso fumega; mas o homem não se mexe... a mão é
queimada com o incenso, mas Barlaam prefere o martírio a negar o seu
Deus. Uma vontade forte!
Oh! meu querido filho, como hoje são
raros, entre nós, estes caráteres de martírio! Destes caráteres que
já o poeta pagão cantava:
Justum ac tenacem propositi virum
Si fractus illabatur orbis
Impavidum ferient ruinae
Eis outro exemplo: aquele soldado de
Pompeia que a erupção do Vesúvio encontrou no seu posto. Tudo à sua
volta é reduzido a cinzas pela lava ardente; tudo se desmoronou; o
mundo parece ter acabado... mas ele fica ali, imóvel, fiel até à
morte, no posto em que o dever o colocou. Vês, meu filho, é esta
retidão, esta fidelidade aos princípios, é a esta fronte erguida que
nós chamamos caráter!
Ai! lançando um olhar sobre a juventude
contemporânea, vejo tipos tão diferentes! Oh! tão, tão diferentes!
Vejo estudantes perfumados, de todo preocupados com a moda. Vejo
alguns que saem de um cinema para entrar logo noutro, que não
procuram senão distrações mundanas, que só têm uma preocupação: a do
seu monóculo ou dos seus cigarros, que só vivem para o esporte.
Vejo-os preguiçosos. Sim, vejo muitos, muitos estudantes que não
estudam... Um paradoxo! |