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Tudo isto, concordo, é admiravelmente
belo. E também eu quero possuir um caráter forte. Levar uma vida
ideal é exatamente o meu desejo.
Mas... não poderia encontrar-se um meio
mais fácil de lá chegar? Não haverá, positivamente, outros meios?
Não poderá obter-se um caráter irrepreensível, mais comodamente -
sem sacrifícios? - Não, meu amigo. Neste ponto, é impossível
tergiversar. "Aquele que quer vir após mim, renegue-se a si
mesmo, tome a sua cruz e siga-me" - disse Jesus Cristo. Quem
quiser estar junto dEle no reino dos Céus, não pode mais abandoná-LO
no caminho pedregoso do Calvário...
De mais, dize-me, meu filho, que é que
se dá gratuitamente neste mundo em que vivemos? Nada, absolutamente
nada. Olha como os homens se afadigam noite e dia no trabalho, a
quantas canseiras se sujeitam para adquirir os bens efêmeros da vida
terrestre! Como querias então procurar-te este tesouro incomparável
- um bom caráter - sem lhe pagar o preço?
"Oh! como ele é feliz!" -
suspira tu, talvez, ao veres um amigo teu divertir-se. "Como deve
ser bom viver assim à vontade, distrair-se a seu belo prazer!".
Como te iludes, meu filho, como te
enganas! Se pudesses penetrar naquele coração que nada mais faz que
sonhar com os gozos da terra, que julgas tu verias lá? - "Alegria
e contentamento" - dirás. Ah! não. Não encontrarias lá mais que
um grande vazio e um sorriso forçado.
Razão tem a Sagrada Escritura para
dizer: "O ímpio assemelha-se ao mar em tempestade" (Is.
XXVII, 20). O ímpio é fustigado pela tempestade das paixões, e,
quando a tempestade amaina um pouco, balouça-se num sonho amargo.
Ouve o parecer do grande filósofo
inglês John Stuart Mill: "Não se pode esperar de um homem
que nunca se recusa uma coisa permitida, que ele renuncie a todas as
coisas proibidas. Tempo virá, disso não tenho dúvida, em que as
crianças e os jovens serão levados ao ascetismo e à abnegação, e em
que lhes será ensinado, como nos tempos antigos, a renunciar aos
seus desejos, a fazer frente aos perigos, e a impor-se sofrimentos
voluntários".
É por este mesmo motivo que o
Catolicismo prescreve a abnegação, o ascetismo e a formação da
vontade.
"Ascetismo?... Brrr!..." -
pensarás talvez, porque te repetiram muitas vezes que, para praticar
o ascetismo, era necessário martirizar-se a si próprio, renunciar a
todos os prazeres e a todas as alegrias da vida.
Ora atende um pouco: o significado
original da palavra grega de que esta expressão deriva é este:
"trabalho delicado, minucioso" - e os gregos queriam significar
com isto o treino e a sobriedade a que se sujeitavam os concorrentes
que se preparavam para a luta a fim de porem em ação, chegado o dia
próprio, o máximo das forças latentes dos seus corpos.
Também o caráter é o resultado de
muitas lutas e de um longo treino. Jamais conseguiremos fazer
"trabalho delicado" em nós mesmos, se não nos exercitamos nisso,
e são precisamente exercícios de abnegação que a nossa religião
santa nos prescreve para nos ajudar na formação do caráter.
Todos os grandes triunfos terrestres
exigem renúncia e sacrifícios. - E tu querias obter o maior dos
triunfos - a nobreza de caráter - assentado sobre fofa almofada!
Bem sabes, meu filho, que, se alguém
quiser preparar-se para um concurso, o seu treino deve incidir sobre
dois pontos bem diferentes. De um lado, deve exercitar diariamente
os músculos. Suponhamos que se trata de um concurso de remadores. O
concorrente levanta-se cedo e dirige-se a pé para o porto da
associação. Salta para o barquinho e põe-se a remar. Três horas
depois, regressa, todo banhado em suor, tostado do sol, a cair de
fadiga. No dia seguinte recomeça, no outro dia também, e isto
durante semanas, meses.
- Por outro lado, vive também o mais
sobriamente possível, e priva-se dos prazeres que amolecem. Tem
cuidado com a alimentação, para não aumentar de peso, abstém-se de
fumar; do álcool também e por maioria de razão. Deita-se cedo e
sempre à mesma hora, etc. Para que todas estas renúncias?
Por uma medalhinha de prata, pela
gloria de chegar primeiro... - E parece-te a luta demasiado dura
quando se trata de ganhar um caráter!
Repara ainda no que vou dizer-te:
Na vida toda a gente faz sacrifícios -
este por uma coisa, aquele por outra. Olha o avaro: priva-se de todo
o bem-estar e impõe-se uma vida de miséria. Come mal e só usa roupas
velhas e quase rasgadas. Nunca passeia, para não gastar os sapatos.
Refreia os mais pequenos e legítimos desejos. Vive sem alegrias e
sem amigos. E para que tudo isto? Para amontoar riquezas. O avaro
sacrifica a sua personalidade, a sua dignidade, mesmo a própria
honra, ao dinheiro. São privações de mais, não é verdade?... - E
objetivos cem vezes mais elevados e mais sublimes não mereceriam
também alguns sacrifícios?
Sim, o avaro afadiga-se, dia e noite,
sem pausa nem descanso, para adquirir uma fortuna - a maior fortuna
possível. O vaidoso está pronto para arriscar a vida para granjear
um nome. O jovem, em busca de prazeres, sacrifica o sono para correr
de baile em baile; sua e agita-se noites seguidas... - Fariam eles
metade que fosse de todos estes incômodos para ajudar o próximo?
"Um Santo e um malfeitor escondem-se
em todo ser humano" - dizia Lacordaire, grande orador francês. O
malfeitor, em ti, meu filho, não tem necessidade de ser bem
tratado - cresce por si. Mas é-te necessário um treino perpétuo e,
por vezes, penoso para assegurar o reino do Santo na tua
alma.
Isto, com efeito, não pode fazer-se sem
luta. O escultor que quiser produzir uma obra-prima tem de trabalhar
o mármore bruto com indizível paciência; - aquele que quiser tornar
a sua alma perfeita deve trabalhá-la do mesmo modo. Uma estátua
perfeita exige tempo e trabalho árduo, devendo o artista ter sempre
o ideal diante dos olhos. Quanto mais não exige o caráter!
Aconselho-te, meu filho, que adotes a máxima de Carlos V: "Plus!
Ultra!". Mais! Mais além!
Quando perguntaram a Zeuxis
porque trabalhava os seus quadros com tanta minúcia, respondeu:
"porque trabalho para a eternidade!" É exatamente, meu filho, o
que tu deves fazer. Deves trabalhar para a eternidade. Poderia um
tal trabalho ser pago demasiadamente caro? |