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Bem sei que o bom êxito é um grande
estímulo para o homem, que ajuda a perseverar nos seus esforços, e que
depressa nos desmoralizamos quando nada nos sai bem. Também compreendo
perfeitamente que os êxitos e os elogios dão satisfação a um jovem. E,
todavia, meu filho, eu desejaria exortar-te a nunca te deixares seduzir
por estas vantagens. Porque, se é verdade que o inêxito pode, por vezes,
quebrar a energia, também acontece com frequência que os louvores
recebidos demasiado depressa ou mesmo só imaginados ocasionam a ruína
dos talentos mais sérios.
Um rapaz começa, por exemplo, a tocar
violino ou a dedicar-se à pintura. Em jantar de festa, os seus pais e
amigos aplaudem-no como um novo Mozart ou um novo Munkesy. Nada mais lhe
é preciso: julga-se imediatamente um gênio capaz de abalar o mundo, um
"super-homem", e começa a conduzir-se como se imagina que convém a um
senhor. Torna-se pedante, original. Nada lhe faz já impressão. Critica à
direita e à esquerda. E, sobretudo, não mais estuda. "É o meu talento
que me fará viver" - diz ele.
Ignoro se já correste o perigo dos elogios
abusivos, se já te saudaram como o grande pianista ou o grande pintor do
futuro. Mas, peço-te instantemente, meu filho, que, se Deus te deu
realmente algum talento artístico, o cultives o melhor que puderes, mas
sem por isso perderes o sentido das proporções, o bom equilíbrio. Não
julgues facilmente que virás a ser um poeta célebre ou um músico de
renome, e que, por esta razão, não precisas de estudar outras matérias.
Certamente, deves aproveitar o talento que Deus te deu, mas isso não há
de impedir-te de obter um diploma ou de aprender um ofício que poderá
garantir-te a existência. Seria um grande erro querer alguém fiar-se nas
suas competências. Uma vez chegado a adulto, verificarás que o mercado
dos talentos está cheio de talentos medíocres, e que aqueles que
fundaram todas as suas esperanças em suas obras artísticas, quase nunca
chegam a ser nada na vida. Além disso - confessa-o ainda - é-se mais
útil à humanidade confeccionando um par de botas bem feitas, do que
escrevendo um grande volume de versos confusos ou borrando alguns
quadros sem gosto. |