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O auto-domínio é a base de todas as
virtudes. Logo que nos tornamos escravos das paixões ou dos instintos,
perdemos a principal garantia da vida moral: o comando do "eu".
Aquele que, sem resistência alguma, cede aos seus desejos sensuais não é
um homem de caráter; não merece mesmo já o nome de homem, porque ser
homem significa que se sabe imperar e resistir às exigências grosseiras
do corpo. Na vida, ficamos, muitas vezes, consternados por ver quanto,
não só as crianças, em que a atração dos sentidos é quase natural, como
também os adultos agem sob a influência do primeiro momento em que o
auto-domínio é tão fraco. Seria no entanto, este domínio que os levaria,
antes de agir, a perguntar-se se a sua ação é justa e reta, conforme ao
fim intentado, e quais as suas consequências. As repentinas vagas de
cólera, de orgulho ferido e de sensualismo levam-nos a praticar atos
que, 5 minutos depois, lamentamos.
Um número considerável de pecados deste
mundo nunca seriam cometidos, se os homens se exercitassem seriamente
nesta virtude:saber dominar-se a si próprios.
No tempo do paganismo, o pintor Nicodromus
deu, um dia, uma brutal bofetada ao filósofo Crates. Pois, sabes com
Crates se vingou? "Pagou-lhe na mesma moeda!" - pensarás tu.
Enganas-te. Procedeu assim: na face inchada colocou um bilhete com esta
inscrição: "Foi Nicodromus que me fez isto". E toda a cidade
ficou sabendo assim que o pintor tinha um fraco caráter, porque não
sabia dominar os ímpetos da sua cólera.
Quem brinca com a vida
bem não acabará;
o que não se domina
escravo seu será.
(Goethe)
Um dos meus alunos, num caso semelhante,
agiu, um dia, de uma maneira muito diferente. Tinha, sem querer,
empurrado um colega. Este, colérico, volta-se para ele: "Olha! és um
grande animal!". E sabes o que o meu amigo lhe respondeu, com voz
calma e polida? "Mas, por favor, ainda só agora o sabes?..."
É inegável que, hoje, a maior parte dos
homens tem uma maneira de pensar demasiadamente materialista. É um fato
bem triste. Acontece, porém, que estas pessoas, presas na lama, têm uma
admiração profunda pelo homem em quem o espírito triunfou da matéria.
Com que entusiasmo o mundo inteiro não acolheu, há alguns anos, a boa
notícia de que Amundsen, o explorador intrépido que sofrera
tantas privações, tinha enfim atingido o pólo Sul! E como foi sincera e
unânime a compaixão quando se soube que Shakleton morrera de frio
a algumas léguas do seu destino! Ora, o que é que a humanidade honra
assim nestes exploradores - que não descobriram nem minas de diamantes,
nem construíram máquinas novas - senão a vitória do espírito, da alma,
sobre o corpo, a matéria, as forças da natureza?
Um dia, numa pequena cidade da província,
encontrei um rapazinho banhado em lágrimas. Chorava porque o seu
"papagaio" que levou dias inteiros a fazer e a ornamentar e que
acabava de lançar no espaço, tinha ficado preso nos fios telefônicos. A
cada sopro de vento o magnífico "papagaio" agitava-se cada vez
mais, e a criança, qu e via de minuto a minuto rasgar-se sempre
mais, soluçava desesperadamente. Nada podia, absolutamente nada, para
impedir a ruína da bela obra que tinha feito com tanto carinho.
Nos jovens a alma está sempre pronta a voar
para as alturas; mas, ai! prende-se muitas vezes nos bandos de areia dos
sofismas, nos rochedos da moral ou nas redes das paixões; e é em vão que
ela depois se debate para recuperar a liberdade. O pobre rapazinho
lamentava-se vendo o seu "papagaio" destruir-se nos fios que o
tinham captado no seu primeiro voo.
Tem cuidado, meu filho, não vá a tua alma,
no seu voo para as alturas, ser igualmente retida pelas garras das
paixões ou emaranhada na floresta das tuas forças instintivas! |