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A tua alma, com o tempo, está sujeita a
variações. Umas vezes, é inundada de sol, e tu sentes-te alegre como um
pássaro. Outras vezes, ao contrário, e sem tu lhe saberes a razão, é
envolvida por espesso nevoeiro úmido. Há dias em que estás de bom humor,
e então o trabalho parece-te fácil. Outros há em que o tempo chuvoso, um
desgosto, uma dor de cabeça, etc., entristecem-te a ponto de te
encrencares com toda a gente.
"Levantou-se com o pé esquerdo" -
dizem de ti, nesses dias. Tu, por tua vez, dizes: "Parece que estou
em dia de azar!..."
Estes estados não dependem de nós; não
somos, portanto, responsáveis por isso. Mas depende de nós que nos
esforcemos por nos tornarmos senhores destas más disposições e por
não nos deixarmos andar de um lado para outro, ao sabor do nosso
capricho, no cumprimento dos nossos deveres. Quando estamos de bom
humor, aproveitemo-lo quanto pudermos; nessas horas, o trabalho rende
mil vezes mais. Mas, se nós só estudarmos quando estamos bem dispostos,
nunca faremos coisa que se veja. E, sobretudo, que viremos nós a ser,
mais tarde, se desprezarmos os deveres de estado quando o trabalho nos
repugna?...
Meu filho, quando não estiveres disposto
para um trabalho que tens obrigação de fazer, procura fazê-lo, apesar de
tudo. Entrega-te ao trabalho, seja ou não do teu agrado. Dize-te a ti
mesmo: "Não importa! é o meu dever - fá-lo-ei".
- "Um trabalho assim não valerá muito"
- dirás. Enganas-te. Terá a imensa vantagem de te habituar ao
cumprimento do dever, a não obedeceres a teus caprichos, a dominá-los.
De mais, não é somente no trabalho que nos é necessário saber dominar o
humor; é-o também em nossas relações sociais e em toda a nossa conduta!
Se estás de mau humor, é necessário que o não faças sentir à tua família
por mais modos, respostas secas ou uma cara engelhada. Quantas vezes
temos a lamentar palavras ofensivas e atos irrefletidos para os quais
nos deixamos ir sob a influência da má disposição! Quantas vezes ainda,
depois de ter falado com precipitação, sem pensar em ofender alguém,
nós, verificando que fizemos mal, exclamamos: "Meu Deus! eu não
queria isso! Não o disse por mal!". Mas... veio demasiado tarde o
arrependimento! A verdadeira grandeza da alma revela-se na adversidade,
nas horas de perigo ou de revés.
Permanecer confiante nos dias sombrios,
arrastar com o infortúnio sem embicar, não se deixar esmagar por uma
fatalidade - é essa a virtude dos carvalhos, dos rochedos - das grandes
almas! E é também a daqueles que sabem vencer o seu mau humor.
Nas profundezas do mar, onde nunca chegam
os raios do sol, onde a natureza já não tem cores, onde a temperatura se
mantém invariavelmente à volta do zero, onde se rarefaz o pouco ar que o
oceano contém, onde o peso desmedido das águas deveria esmagar tudo,
neste mistério obscuro das ondas - oh! maravilha! - vivem peixes
luminosos. Nada lá chega da energia radiante do sol, desta fonte única
de luz terrestre; uma obscuridade acabrunhadora e gelada se estende sob
as ondas; mas a sabedoria do Criador não esqueceu estes lugares
sombrios, e criou peixes, semelhantes a lanternas vivas, que vivem e
giram nestas densas trevas. Alguns têm sobre as ilhargas glândulas que
brilham como pérolas; outros têm, à frente, no cimo da cabeça, como que
uma pequena lente que recebe a luz destas mesmas glândulas,
intensifica-se e projeta-a para a frente, como faria um refletor. Ora,
meu filho, se as profundezas do oceano escondem uma vida assim radiosa,
não tens tu razão alguma, se a boa ordem reina em tua alma, para te
deixares oprimir por ideias negras; nenhuma razão para te "levantares
com o pé esquerdo"... Sim, esforça-te por seres alegre como as aves,
que a força luminosa da tua alma vencerá o teu mau humor. Sê sempre, em
casa, uma fonte de vida, de alegria, de jovialidade e de luz, sobretudo
nas horas em que o véu sombrio da tristeza, das preocupações materiais e
dos múltiplos males da vida cobre a alma de teus pais.
"Post tenebras spero lucem!" (Jó,
XVIII, 12). Depois da obscuridade vem a luz; depois da chuva, o bom
tempo! |