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O caminho da alma assemelha-se ao gelo que,
no Inverno, cobre os nossos tanques e sobre o qual os estudantes se
divertem a patinar. Este gelo, a princípio, é áspero; mas, depois de
cada escorregada, torna-se mais liso; e, em breve, os jovens patinadores
podem atravessar o tanque com um só impulso. Acontece o mesmo com as
nossas ações. Quanto mais vezes repetimos uma boa ou má ação, tanto mais
fácil ela se nos torna.
Conheces a história de Gulliver, não é
verdade? No país dos anões, que gigante ele era! E todavia, os
Liliputianos conseguiram enforcá-lo. Ele que, até então, partia todas as
suas cordas com um esticão, foi numa noite, durante o sono, ligado com
milhares de pequenos fios que, quando despertou, não foi capaz de
quebrar.
Isto far-te-á compreender, meu filho, o
motivo porque os homens prudentes procuram corrigir até os seus mais
pequenos defeitos. Aquele que cede às suas inclinações desordenadas em
coisas, na aparência pouco importantes, não pedirá, em breve, conselho à
sua consciência nem mesmo nas coisas de grande importância.
Ficamos feridos de espanto diante de muitos
jovens que deram as melhores esperanças durante os anos da sua
adolescência, e que, mais tarde, se encontram arrastados para o pecado,
só porque foram negligentes e fracos nas pequenas coisas. Oh! também
crescem estes jovens e tornam-se homens; mas, para dizer a verdade,
nunca passarão de uma caricatura do verdadeiro homem: farão lembrar o
"boneco de neve", que também tem olhos, boca e um boné na cabeça. -
Faltar-lhe-á sempre o caráter, uma vontade firme - a personalidade.
Já muitas vezes tenho exclamado, cheio de
tristeza, ao ver o quarto ou a mesa de trabalho de alguns alunos meus:
"Meu Deus e Senhor! Como seria de lamentar se este jovem tivesse em
sua alma uma semelhante desordem!..." A escova de calçado, o
dicionário latino, uma bola de futebol, o caderno de matemática, botões
velhos, uma régua, um bocado de pão seco, a pasta de dente, etc. - tudo
isto misturado, umas coisas sobre outras...
Habitua-te, meu filho, a ter ordem na tua
mesa, no teu guarda-roupa, no teu quarto. Primeiramente, porque a ordem
exterior não é somente a expressão do recolhimento interior, mas é ainda
o melhor meio de o estimular; aquele que tem as suas coisas em boa ordem
saberá ordenar melhor que qualquer outro os seus pensamentos. Depois,
porque só o homem ordenado pode ser exato e pontual: aquele que não o é,
perde muito tempo procurando aquilo de que precisa em determinado
momento, o que o leva, quase sempre, a ser mais retardatário. - Tu não
és assim, pois não? Mas confessa que conheces mais de um estudante que,
só dez minutos antes da aula, verificam com susto que o seu caderno de
latim desapareceu. Põem-se então a procurá-lo. Mexem e remexem todos os
objetos que lhes caem debaixo das mãos no caos indescritível que reina
no seu quarto, sem conseguirem encontrá-lo... até que, enfim, lá dão com
ele debaixo da mesa, ao pé da caixa do calçado, debaixo de uma caixa
cheia de pregos velhos... Mas já só faltam cinco minutos para a aula, é
preciso correr... Chegar tarde é uma nota má - eis o resultado da
desordem. - E, desta vez, ainda passa, porque enfim, chegaram tarde mas
assistiram à aula. Mas quando se tratar do lugar a que os chamam os mais
importantes deveres de estado? Se são médicos, causarão a morte a muitos
doentes, por se esquecerem de notar na receita uma pequena dose de certo
medicamento; se são farmacêuticos, preparam mal a mistura por não terem
lido com a devida atenção a receita apresentada...
E que dizer dos cadernos de exercícios? Que
garranchos! As linhas tortas, as letras sobrepostas... manchas de tinta
por toda a parte. E os livros repletos de caricaturas feitas a lápis?...
Diz-se que, quando um comerciante abre falência, a verificação de seus
livros prova quase sempre a negligência e mau método de suas contas. Sob
este aspecto não deixaria também de ter interesse examinar os livros dos
estudantes falhados!
Toma cuidado, meu filho, para não deixares
que o teu caráter se enforque por si próprio com os fios de
pequenos maus hábitos, de pequenas negligências, de pequenas
leviandades!
Para isso, procura ter sempre em ordem os
teus negócios materiais e espirituais, tanto as pequenas coisas como as
grandes. Que o teu lápis esteja sempre apontado; não deixes nunca que a
régua esteja suja de tinta; não tenhas sobre a mesa de trabalho senão o
necessário, aquilo que precisas para estudar, e, quando muito, um ou
dois objetos decorativos. Cada livro, cada caderno, a caneta, o lápis,
etc., tenham o seu lugar, para que, mesmo às escuras, possas
encontrá-los imediatamente. Acerta o relógio todas as manhãs. Tem
especial cuidado com os objetos que te emprestarem: livros, dicionário,
compasso, etc. Não os emprestes nunca a outros. Não esperar que tos
peçam, mas restitui-os, logo que os não precises. |