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Quando falo de grandes almas, não penso nos
heróis cuja ação maravilhou o mundo, cujo nome ressoa por toda a parte e
que figuram em todos os jornais. A maior parte dos homens não tem uma
ocasião sequer, no decurso de toda a sua vida, de praticar um ato de
heroísmo. Os novos entusiasmam-se com facilidade. Contam com calor o que
fariam numa expedição ao pólo Sul, afirmam que morreriam de boa vontade
pela sua fé, que gostariam de dar a sua vida por Cristo nas missões, que
estão prontos a derramar o seu sangue pela pátria... e muitas outras
coisas semelhantes. De fato, este entusiasmo é muito bonito; mas, se não
passar de um sonho, se não for amadurecido, ele não vale grande coisa na
vida simples de cada dia. Porque semelhante sacrifício nunca será,
provavelmente, pedido a estes rapazes.
O que é necessário, é procurar utilizar a
força deste ardente entusiasmo aplicando-se aos deveres de cada dia.
Desta forma, tal entusiasmo representará já uma energia motriz
considerável. Se quiseres fazer um pequeno trajeto em carro elétrico,
uma nota de mil escudos de nada te servirá. Se não tiveres trocos, o
condutor depressa te obrigará a descer; não te trocos para quantia tão
elevada. Pois bem, o mesmo se dá com a vida moral. Se não trocares por
miúdos o teu ideal de patriotismo ou teu desejo de martírio, não poderás
cumprir cabalmente os mandamentos da nossa religião, nem os teus deveres
patrióticos - todos, até aos mais insignificantes, - com uma
perseverança invencível. Hoje podes praticar a tua religião sem receio
de martírio e, provavelmente, não terás ocasião de morrer como um
herói pela pátria. Mas o que a religião e a nação esperam de ti, é, a
partir de hoje, uma vida heróica! E isto é mais difícil. Tu bem
sabes, pelo exemplo dos infelizes suicidas, que, muitas vezes, é
necessária mais coragem para viver que para morrer.
Durante a guerra de 1914, foi preciso
vacinar os soldados contra a cólera. E sabes o que então vi, com grande
surpresa minha, no hospital da retaguarda onde prestei serviços? Aqueles
homens robustos, que nada recearam sob uma chuva de metralha, começaram
a tremer perante a pequena seringa de injeção! Já vês que o entusiasmo
heróico não existe na vida cotidiana.
Conheço homens cuja coragem é mais
leviandade e vaidade que virtude. É possível que estes homens não
receiem a morte, mas o que temem certamente são os sofrimentos que a
vida lhes pode reservar; e este receio torna-os fracos e pecadores. É a
tremer que o público do circo admira os saltos perigosos dos acrobatas;
mas acreditas que os que assim expõem a sua vida tão levianamente são
incapazes, por exemplo, de vencer a mentira quando esta os pode livrar
de dificuldades em circunstâncias de reduzida importância? É preciso
menos coragem para tomar banho em julho*, num rio gelado, que permanecer
fiel aos princípios de pureza moral numa sociedade desorientada.**
A coragem de dizer sempre a verdade! A
coragem de permanecer honesto! A coragem de nunca abandonar os bons
princípios! - Eis o que faz as grandes almas.
* No original está "janeiro". Acontece que
no hemisfério norte, onde o livro foi escrito, o inverno acontece em
janeiro.
** Grifo nosso. |