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Aqui te deixo algumas páginas do diário de
um estudante de 15 anos. Dar-te-ão a conhecer dois tipos muito
diferentes de rapazes: um que se deixa arrastar pela corrente da
indolência e da leviandade, e outro que sabe dizer não com
intransigente firmeza.
"Ontem fui visitar Fernando; mas não
voltarei lá tão cedo. De mais, eu não tinha interesse algum em lá ir;
foi Ricardo que quase me forçou a aceitar os instantes convites deste
rapaz para o qual eu tinha uma estranha antipatia desde que o vi, e,
sobretudo, depois da famosa lição de moral no fim da qual ele nos disse
com uma voz cínica:
"A religião? Isto é bom para meninos,
não para rapazes!".
Mas eu começo pelo princípio... Toco a
campainha, e um criado abre a porta. "O senhor Fernando está estudando
no quarto" - diz ele - "tenha a bondade de me seguir".
Atravesso uma sala luxuosa cheia de
quadros e tapeçarias do Oriente, e bato à porta do "Senhor Fernando".
Deve ter tapado os ouvidos para estudar melhor, porque ele não responde.
Entro sem fazer barulho. Está sentado junto da mesa com os cotovelos
sobre um jornal ilustrado; mas dorme profundamente. Sob o jornal está
aberta a gramática latina. No caso de o pai vir a ver o que ele faz, com
um movimento rápido pô-la-ia por cima... Se o pai tivesse vindo em meu
lugar... o rapaz teria ficado bem pouco contente!
Antes de acordar o laborioso estudante,
olho à minha volta. Oh! este quarto! Nunca em minha vida tinha visto
semelhante desordem: dir-se-ia uma "casa de orates"!
Sobre a mesa de trabalho viam-se em
desordem os seguintes objetos: o couro esburacado de uma bola de futebol
manchado de tinta, uma sovela, pedaços de madeira, uma bomba de
bicicleta, uma luva. Mais ao lado, uma régua milimétrica, uma borracha,
uma dúzia de botões de tamanho diferente - é engraçado fazê-los saltar -
e o caderno de aritmética. Do outro lado, uma pistola de alarme, um
saca-rolhas, uma caixa de fósforos, metade de um dicionário latino - a
outra metade está debaixo da mesa; um pedaço de mata-borrão, 40 a 45
selos estrangeiros, uma chave de patins, um punho de camisa - estes
últimos objetos em volta da pequena lâmpada elétrica. Livros...
encontram-se por todos os lados: a maior parte romances duvidosos. Aqui,
o manual de álgebra, acolá, o livro de leitura de inglês quase
escondido, debaixo das revistas ilustradas; um pedaço de lápis tornado
informe, à força de ser roído; quatro bilhetes de bonde, já usados,
completam o quadro. E, no meio deste caos, Fernando dorme
tranquilamente... Se este rapaz é tão desordenado por dentro como por
fora... é um herói - pensei eu imediatamente.
Neste momento, "o Senhor Fernando"
acordou. Com um movimento instintivo pega na revista para a meter
debaixo da gramática latina; mas quando reconheceu que não era o pai que
acabava de entrar, mas que era eu, estendeu-me a mão com uma indolência
que queria ser elegante.
"Ah! és tu! Bom dia, bom dia! Senta-te,
meu amigo... Vou oferecer-te um cigarro do Egito: são excelentes,
estes!..."
Abriu uma gaveta e remexeu-a até às
profundezas mais secretas para de lá tirar um punhado de cigarros.
- "Obrigado, não fumo. Mas tu podes
fumar! Onde arranjastes estes cigarros!"
- "Tomei-os do papai... quer dizer,
deu-mos ele..., enfim, eu é que os procurei... Tu ainda não fumas?
Fazes-te santo!...
Os "meninos" não ousam fazer o que lhes
é proibido".
Senti a cólera subir dentro de mim, mas
contive-me e respondi tranquilamente:
"É verdade que eu nunca faço o que os
meus pais me proíbem. Até hoje reconheci sempre que tinham razão. Mas,
se eu não fumo, não é somente por obediência, é também por princípio. E
eu não tenho por hábito ceder nestas coisas."
Em seguida, Fernando falou-me
demoradamente das suas férias que acabava de passar na praia: depois, da
sua motocicleta. Contou-me ainda uma série interminável de
futilidades... e abordou o campo das frivolidades.
Eu já não ria: estava incomodado.
Depressa, vangloriando-se das suas conquistas, quis mostrar-me
fotografias representando atrizes semi-nuas. Mas levantei-me
imediatamente e saí. A minha cólera, contida durante tanto tempo, ia
arrebentar, e tive que fazer um grande esforço para lhe dizer apenas
isto: "julgava que me tinhas convidado para uma conversa digna de um
homem".
Saindo de sua casa, dirigi-me para a
margem da ribeira. Necessitava, a todo o custo, de ar puro! Era numa
bela noite de Inverno e as estrelas cintilavam com um brilho
incomparável. Passeava sozinho e a minha alma agitada elevou-se ao céu.
"Oh! estrelas! exclamei com fervor - sois tão puras, tão brilhantes, e
tão longe de tudo o que vos poderia macular! Oh, como a terra é suja, e
como as almas se mancham cá em baixo!... Ajudai-me a assemelhar-me a
vós!..." Durante muito tempo me entretive junto da margem, deixando os
meus pensamentos mergulharem-se na pureza das coisas eternas.
Tal foi a minha primeira visita a casa
de Fernando - a primeira e a última. |