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Demóstenes tinha apenas sete anos
quando lhe morreu o pai. O seu tutor, pouco escrupuloso,
esbanjou-lhe a fortuna... Encontrando-se, um dia, no Palácio da
Justiça, por ocasião de uma audiência, ficou entusiasmado com o
discurso de um advogado: e, vendo o povo levar o advogado em
triunfo, concebeu a ideia de também ele vir a ser orador.
A partir deste momento, não mais
teve outra preocupação no seu espírito... Os seus primeiros
ensaios não foram, porém, felizes. O seu primeiro discurso foi
abafado pelos gritos e gargalhadas do auditório; nem sequer pôde
chegar ao fim. Desanimado, vagueava pelas ruas, havia já semanas,
quando um velho, reanimando a sua energia, o levou a retomar os
exercícios. Demóstenes deu-se ao trabalho com novo ardor, e quando
os adversários zombavam dele, não lhes dava atenção. De vez em
quando, retirava-se completamente do convívio do mundo e passava
dias inteiros a falar diante das paredes de alguma gruta
subterrânea. Como gaguejava um pouco, metia uma pedrinha debaixo da
língua para melhor a dobrar. Durante os longos passeios que, só,
dava à beira-mar exercitava-se a gritar em alta voz - tinha os
pulmões fracos - e a declamar assim, ao ar livre, versos e
discursos. Cada vez que presenciava uma grave disputa, retirava-se
imediatamente para o quarto, e, ali, pesava e tornava a pesar os
argumentos dos dois adversários, procurando ver bem qual tinha
razão. Graças a estes contínuos e infatigáveis esforços de vontade,
triunfou de todas as suas fraquezas e veio a ser o mestre de
eloquência cujos discursos, ainda hoje - dois mil e trezentos anos
após a sua morte - são lidos com interesse e proveito por quantos
pretendem êxitos oratórios. Que belo exemplo nos dá o órfãozinho
gago! E que maravilhosas forças se encontram escondidas no fundo
da alma humana! Por vezes, são os mais atrozes sofrimentos corpóreos
que nos mostram o que o homem é capaz de sofrer.
Durante os primeiros meses da guerra de
1914, servir eu na frente, na Sérvia. Um dia trouxeram-nos um
hussard que tinham encontrado num pântano. A sua companhia, caída
nas mãos do inimigo, tinha desaparecido toda debaixo da metralha. Só
ele tinha escapado às balas, escondendo-se nas águas lamacentas de
um pântano. Mas teve de manter-se escondido no charco durante muito
tempo, porque os soldados sérvios, em cima das árvores vizinhas,
tinham continuado, durante muitos dias, a inspecionar os arredores.
Só depois de os sérvios terem partido é que os nossos encontraram
este pobre hussard, extremamente enfraquecido, e no-lo trouxeram.
Havia sete dias que não comia senão ervas! Do que um homem é capaz!
É possível que já tenhas ouvido contar
casos de moribundos a que só a vontade forte de viver retinha a alma
no corpo quase desfeito... porque eles queriam ver, ainda uma vez
mais, por exemplo, a esposa ou um filho ausentes e que vinham a toda
a pressa para junto dele. Sim, uma vontade forte é a melhor das
medicinas para um corpo doente; e, por isso, meu filho, não te
deixes abater pela tristeza, ainda que a Providência te tenha dado
um corpo fraco e doente!
Um fidalgo húngaro, o conde Géza
Zichv, falecido há anos, tinha perdido um braço na caça, quando
jovem. Com uma só mão veio a ser, todavia, um dos mais afamados
artistas de piano do seu tempo... Quantos jovens teriam sucumbido
para sempre sob um semblante desastre! Perder um braço em plena
juventude! Vê, pois, quanto pode a força de vontade, mesmo num corpo
mutilado!
Tu serias, meu filho, bem mais
agradecido à divina Providência pelas tuas mais pequenas qualidades,
se quisesses recordar-te de que os maiores homens de todos os
séculos tiveram, muitas vezes, de lutar contra pequeninos defeitos,
contra as calamidades, até mesmo contra doenças hereditárias!
Wallenstein, célebre chefe do exército alemão durante a guerra
dos trinta anos, tinha os nervos de tal modo doentes que não podia
sequer ouvir cantar um galo. Richelieu, eminente estadista
francês, empalidecia de pavor à simples vista de um esqueleto.
Bayle não podia ouvir a água cair às gotas. O cheiro do peixe
causava febre a Erasmo de Roterdão. Scaliger punha-se
a tremer todo quando via leite. Goethe sofria horrivelmente
com o fumo do tabaco.
Eis ainda alguns casos mais
surpreendentes.
A história conservou o nome de muitos
homens que albergaram uma alma de gênio num corpo fraco e doente.
Helmholz, físico célebre, tinha a cabeça enorme, como os
imbecis. O filósofo Spinosa e o poeta clássico Schiller
eram tuberculosos. Descartes, Kant, Milton, tinham uma saúde
raquítica; o último até era cego. Não obstante, que nome brilhante
adquiriram pelo trabalho!
Aqui está o que pode uma vontade forte!
Sim, a alma é certamente capaz de remediar, ao menos em parte, a
fraqueza do corpo.
Acontece, às vezes, que jovens doentes
se lamentam vendo os seus companheiros de opulenta saúde. Se for
esse o teu caso, meu filho, não te aflijas. Se, quando nasceste,
recebeste um corpo débil e fraca saúde, não é culpa tua. Aliás, isso
não poderá impedir-te de levares uma vida útil e verdadeiramente
bela. |