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Sinto-me sempre comovido quando vejo a luta
quase sobre-humana que alguns jovens têm de sustentar para poderem
continuar seus estudos. Lembro-me de um cujos pais, pobríssimos, viviam
no campo e eram incapazes de o auxiliar eficazmente neste ponto. O rapaz
aprendia bem; era muito aplicado. Levantava-se cedo para ter tempo de
fazer os seus exercícios escolares e de ensinar ainda um colega mais
novo. Nunca tomava o pequeno almoço e, ao meio-dia, tomava a refeição em
casa de uma família que tinha dó dele. Trazia a comida remendada. No
Inverno, não tinha aquecimento no quarto. Era seu companheiro de
carteira um estudante elegante e perfumado. Este tinha uma gola de pele
no casaco de Inverno, e, durante o recreio das dez horas, comia, com
fastio, indolentemente, sentado num canapé, um pãozinho com presunto e
manteiga. O meu pobre amiguinho via-o fazer isto quase com as lágrimas
nos olhos. "Meus Deus, meu Deus, porque tenho eu de lutar tão
amargamente" - dizia ele. Escuta-me, meu filho: se és um destes
estudantes pobres, desejaria consolar-te. A pobreza não é vergonha. Além
disso, os anos de estudo passados na luta têm um imenso valor
educativo. O teu colega rico, que cresce no bem-estar, gastará
facilmente o tempo precioso da juventude, que não mais voltará, em
divertimentos, prazeres, distrações contínuas - em desportes levados ao
excesso, o que seria ainda o menor mal. Para ele, o liceu perturba as
suas habituais distrações, ao passo que para o pobre o estudo é um
prazer, um conforto, uma consolação - a esperança de um futuro melhor.
Conheço muitos rapazes para quem a falta de ideias sérias e a ausência
de gosto pelo trabalho são justamente motivadas por um expressivo
bem-estar. Rodeados de amigos igualmente levianos, perdem o tempo a
jogar partidas de bilhar, a passear nas ruas elegantes, a dançar, a
fazer flirt. Oh! não quero negar que a pobreza pode dar-nos
muitos momentos amargos, pode cortar as asas a muitos talentos! Mas
estou igualmente certo de que é maio o número de talentos e de
caracteres que naufragaram no bem-estar. O jovem muito rico não sente
razão alguma para trabalhar. Inversamente, para o pobre o mundo é como
que um grande armazém, onde, graças ao seu trabalho, ele poderá comprar
o que quiser. Chegado à idade madura, se, pelo seu trabalho conseguiu
uma boa posição, saberá então apreciar quanto deve às privações da
juventude.
O jovem rico - mesmo quando bem
intencionado - nos seus estudos só procura um diploma; o estudante pobre
adquire, além disso, sofrendo fome e frio no decurso dos anos do liceu,
confiança em si mesmo, firmeza, prontidão nas decisões, e a faculdade de
se dominar em todas as situações. Muitos talentos se perdem, sem dúvida,
no alforge da pobreza, mas perdem-se muitos mais ainda no bem-estar que
a riqueza traz.
"Os deuses vendem todas as suas
mercadorias pela moeda do trabalho" - diz um provérbio grego. André
Carnégie, conhecido milionário, dá-nos uma boa lista de grandes
industriais americanos que começaram a sua vida como simples operários
ou caixeiros sem capital: Wanamaker, Claflin, Lord, Field, Barr,
Rockefeller, Gould, Seligmam, Wilson, etc. Garfield que, mais tardem
veio a ser presidente dos Estados Unidos, era tão pobre na sua juventude
que, na idade de 16 anos, quando resolveu embarcar, teve de
apresentar-se como ceifeiro a um pequeno lavrador para ganhar dinheiro
para a viagem. O lavrador recusou-se a aceitá-lo, dizendo que para
aquele trabalho precisava de homens, não de moços.
"E se o moço puder fazer trabalho de
homem, não valerá tanto como ele?" - perguntou-lhe Garfield em tom
respeitoso, mas firme. A resposta agradou tanto ao patrão que
imediatamente contratou o rapaz.
No dia seguinte, o patrão mandou-o ceifar
com quatro homens em pleno vigor da idade, os quais, depois de terem
troçado do novo ceifeiro, pegaram com ardor no trabalho, supondo que o
jovem companheiro depressa perderia o fôlego. Enganaram-se. Este
acompanhou-os tão bem que os quatro, ao meio-dia, já desejavam bem o
repouso. As mãos de Garfield estavam cheias de "borregas" (ampolas), mas
não se queixava. Depois do jantar, pediu aos companheiros que o
deixassem dirigir o trabalho: queria mostrar ao patrão que sabia
trabalhar como um homem. Os ceifeiros consentiram nisso, mas em breve se
arrependeram, porque Garfield conduziu o trabalho com ardor tal que os
quatro homens, que não queriam ficar atrás, quando chegou a tarde,
estavam exaustos. De seu lado, Garfield não parecia muito fatigado; e
quando os outros se foram deitar, pediu ainda ao patrão uma candeia. -
"Para que?" - perguntou o patrão admirado. - "Ainda queria estudar um
pouco - respondeu Garfield - porque, durante o dia, não tive tempo".
- "Mas, meu rapaz, tu hoje trabalhaste por
três, tens necessidade de repouso. Ora dize-me lá como te chamas?" -
"Chamo-me James Abraham Garfield" - respondeu-lhe pegando na candeia.
Foi para o quarto e estudou durante boa parte da noite. Este pobre
estudante veio a ser Presidente dos Estados Unidos!
Poderia escrever-te páginas e páginas de
histórias semelhantes a esta. A vida é cheia de exemplos animadores. |