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Não é muito agradável ouvir dizer de
alguém: "é um egoísta!". Porquanto, que é o egoísmo senão um falso
amor-próprio? O amor-próprio, bem compreendido, é ordenado por Deus. E
um instinto que ele depositou em nós, instinto este que faz subsistir o
indivíduo, ... que nos leva a evitar tudo o que nos possa prejudicar. E
o egoísmo não é mais que a caricatura do amor-próprio bem compreendido.
O rapaz egoísta julga-se o centro do mundo; está persuadido de que tudo
o mais foi criado para ele e que a única razão de ser da humanidade
terrestre é servir os seus mil caprichos. Avalia apenas os
acontecimentos históricos pelo proveito que deles pode tirar.
A criança quanto mais pequena é, tanto mais
está sujeita à influência dos sentidos, que dizer - mais egoísta é.
Bastará observar uma criança de quatro ou cinco anos. Quer possuir tudo
o que vê. Junta todos os brinquedos que encontra no quarto e dispõe-os à
sua frente, só para que nenhum fique para os outros. Nunca é demasiado
cedo para começar a habituar uma criança ao desinteresse: mas também é
verdade que é necessário usar de indulgência para com um bebê. É
tolerável ainda que um menino recém-chegado ao colégio escreva à sua
Mamãe, nos fins de Outubro:
"Tenho já três amigos
no colégio; Júlio para o latim, Tiago para a aritmética e Paulo para a
gramática." Mas quanto a ti, meu
filho, cujo espírito se desenvolve cada vez mais, é conveniente
reconhecer, à medida que vais crescendo, que o mundo não foi criado só
para ti, que a tua pessoa não é precisamente a mais importante de todas,
e que, à tua volta, vivem milhões de homens aos quais deves
consideração. É preciso que o reconheças por ti próprio, como se a
educação familiar não to tivesse ensinado... Chamamos egoísta ao que não
quer compreender isto.
O que é singular é que os jovens são
particularmente egoístas durante os anos da puberdade, - quer dizer,
justamente, no tempo em que se sentem mais orgulhosos do seu espírito e
saber. Hoje, se um rapaz de 13 a 17 anos é insuportável e irascível em
casa, se arrelia continuamente os pais, irmãos e irmãs, se fecha com
força as portas, se está sempre de mau humor, sempre insatisfeito, sem
consideração por quem quer que seja, dizem: "é nervoso, o pobre
rapaz!" Estão muito enganados. É egoísta "o pobre rapaz"! e
está tudo dito! Se um jovem rico se vangloria, perante os colegas
pobres, das magníficas viagens que fez durante as férias, é egoísmo.
Deixar que a porta se feche quando se sabe que alguém vem atrás, é
egoísmo. Rir junto de pessoas vítimas de um recente acontecimento
triste, é egoísmo. Troçar dos outros e humilhar s que nos rodeiam, é
ainda egoísmo. Esta enumeração poderia não mais acabar!
Começa a exercitar-te na renúncia durante a
tua mocidade. Aquele que só procura exaltar-se na vida, o que está
sempre pronto a calcar aos pés os interesses dos outros, prova um
egoísmo muito vil. Mas como chegou a isso? Talvez tivesse começado,
durante a infância, por coisas fúteis. Quando procurava amoras com os
amigos, is à frente e largava para trás os braços das silvas, pouco lhe
importando que lhes ferissem a cara! Era o primeiro... só isso lhe
interessava!
Ao invés, que honroso não é para um jovem
dizer-se dele: "É um nobre coração"! Um nobre coração é o
contrário do egoísta... Se uma infelicidade atingiu o teu colega,
procura consolá-lo com palavras de carinho: é próprio de um coração
nobre. Se foi feliz em qualquer coisa, alegra-te com ele: é ainda
próprio de um nobre coração. O egoísta, esse roer-se-á de inveja...
Podes ainda praticar a abnegação partilhando a tua merenda com um colega
pobre, ajudando um amigo a fazer o seu exercício, esforçando-te por ser
agradável a outrem, falando corretamente aos criados, apanhando o chapéu
que um estranho deixou cair, etc., etc. Já vês quanta alma, quantos
pensamentos nobres e amor do próximo se podem pôr nos acontecimentos
mais insignificantes da vida de estudante! |