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Noutros tempos, antes da guerra de 1914, um
estudante dispunha de muito pouco dinheiro. Seus pais davam-lhe, quando
muito, alguns reais para trazer no bolso e que ele podia gastar à sua
vontade. E contentava-se com isso. Hoje, porém, neste tempo anormal em
que vivemos, a sede do dinheiro, o auri sacra fames, perturba
muitas almas de rapaz. Não é raro vê-los especular, jogar na Bolsa. Há
muito bem pouco tempo, não se suicidava um rapaz de dezessete anos
porque não podia fazer face às perdas que acabava de sofrer nesse jogo?
Que horrível tragédia! Não será, por isso, inútil falar aqui um pouco
deste assunto.
Eu queria, meu filho, que tivesses noções
bem claras sobre o valor do dinheiro. Decerto, não se pode viver sem
dinheiro; mas é igualmente certo que viver somente para o dinheiro é
indigno de um homem. Correr atrás do dinheiro não pode ser um fim
digno de uma existência humana; o dinheiro não passa de um meio para se
procurarem os bens mais necessários à vida. E se, infelizmente! o
bezerro de ouro tem ainda tantos adoradores como outrora, no tempo em
que os Judeus se prostravam diante dele no Deserto, - se, ainda hoje, se
avaliam, muitas vezes, as pessoas pelo seu automóvel ou por suas
propriedades, - peço-te instantemente a ti, meu filho, que as não
julgues senão pela sua honra!
Um dia, um homem extremamente rico declarou
à beira da morte: "Durante quarenta anos, trabalhei como um escravo
para arranjar a minha fortuna; o resto da minha vida gastei-o a
guardá-la como um detetive; e que recebi eu por tudo isto? O alimento, a
habitação e o vestuário... nada mais!" São Bernardo disse com razão:
"Junta-se a fortuna com o trabalho, guarda-se com inquietação, e
perde-se com dor".
O poder não dá a
felicidade,
Nem o luxo ou grandeza
no viver;
Também o mar, na sua
imensidade,
Não vale a fonte para
quem quer beber.
(Reviczky)
Não será então permitido arranjar fortuna,
mesmo por meios legítimos? Evidentemente que é. Somente, a riqueza tem
as suas obrigações, e o homem rico que não cuida fazer todo o bem que
pode peca gravemente. Segundo a sublime doutrina de Nosso Senhor Jesus
Cristo, não é permitido amontoar riquezas senão para serem empregadas a
fazer o bem. Ah! é necessário repelir o comunismo e defender o direito
de propriedade; mas não é menos necessário reconhecer que as enormes
fortunas particulares que existem ainda hoje não foram arranjadas só
pelos seus proprietários, que centenas de trabalhadores as regaram com o
suor do seu rosto, - e que, por consequência, estas fortunas, pelo menos
em parte, devem ser utilizadas para o bem de toda a humanidade.
"Noblesse oblige" - a nobreza obriga
- diz uma bem conhecida divisa. Mas a riqueza obriga também! Obriga a
auxiliar os que precisam, a fazer caridade... Não esqueças nunca as
graves palavras de Constantino Magno: "Ser imperador, é uma
questão de sorte; mas, se a sorte te pôs no trono, procura desempenhar
bem as tuas funções!" - Peço-te, meu filho, mormente se Deus te deu
pais ricos, que cultives em ti o sentido social da riqueza, e que cedo
te deixes penetrar da concepção cristã da caridade. "A riqueza
endurece o coração" - disse Börne. Se és filho de um
industrial ou de um negociante, pensa um pouco na quantidade de mineiros
que suam e penam nas entranhas da terra à luz de uma lanterna
bruxoleante, - no número de operários que trabalham junto de fráguas
ardentes e de locomotivas movidas a vapor, - na quantidade dos acidentes
de que todos podem ser vítimas no seu penoso trabalho. É tudo isso - não
o esqueças - que traz ao cofre de teu pai enormes receitas. Todos estes
pobres têm uma família: mulher, filhos - filhos como tu - que, muitas
vezes, não têm o que comer!... Se estes pensamentos encontrarem albergue
em teu coração, saberás auxiliar os pobres, consoante os teus recursos.
E, o que é mais importante ainda, conservarás vivo outro pensamento,
infelizmente tão desconhecido de tantas pessoas ricas: Deus emprestou-te
somente a sua grande fortuna, e, no teu último dia, terás de dar-lhe
conta exata do seu emprego. Crê-me: se todas as pessoas ricas vivessem
assim - e é isso que a religião cristã lhes pede que façam - a questão
social que esconde tantos perigos e que ameaça o mundo com um abalo
profundo, poderia ser resolvida num só dia. "A tua riqueza e os teus
grandes rendimentos serão para ti uma bênção, se te servirem para dares
mais" - disse Kazinezy.
Sim, dá ao teu próximo, dá à tua pátria!...
Perguntaram, um dia, a alguém, tornado poderosamente rico depois de ter
sido extremamente pobre, o que é que ele tinha feito para juntar tão
grande fortuna. "Meu pai - respondeu - ensinou-me a nunca ir
divertir-me antes de ter acabado o meu trabalho, e a não gastar nunca o
dinheiro antes de o ter ganho". Estas palavras tão simples encerram
grande sabedoria. Não gastar levianamente o dinheiro que outros
ganharam! Não se é independente, não se é homem, enquanto se gastar o
dinheiro dos outros... E, mesmo para um estudante, é esta a norma - não
poderia ser doutro modo. É natural, sem dúvida, que ele gaste o dinheiro
de seus pais. Mas que se abstenha de gastar em superfluidades um centavo
que seja!... E ainda, que nada compre a crédito; quer dizer, que ele não
gaste dinheiro de que não terá a posse senão no dia seguinte ou depois!
Gasta sempre menos do que tens. Quantos
estão descontentes com a sorte, não porque lhes faltem recursos, mas
porque se julgam na impossibilidade de reduzir as despesas! Quantos
grandes proprietários, senhores de verdadeiros latifúndios, caíram na
pobreza por não terem obedecido a esta regra! Não quiseram acreditar o
que Walter Scott faz dizer a um de seus heróis históricos:
"mais almas foram levadas à morte pelo dinheiro, que corpos pelos fios
das espadas". - Ao contrário, pessoas de medianos rendimentos,
fazendo economias, vivem tranquilas e sem preocupações.
Muitos rapazes não sabem gastar dinheiro.
Falo daqueles que são incapazes de passar diante de uma confeitaria, uma
casa de objetos fotográficos ou desportivos, uma exposição de selos ou
um cinema, cada um conforme as suas preferências, sem lá entrar
imediatamente, se trazem uns centavos no bolso. Estes rapazes, embora
disponham de imensos rendimentos quando forem homens, nunca estarão
satisfeitos; nem mesmo virão a ser ricos, porque a fortuna fundir-se-á
em suas mãos como a neve ao sol. |