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Conheço rapazes, de um singular
temperamento, que trabalham todo o dia, que mexem em tudo, e que
são, apesar dos seus esforços, vítimas lamentáveis de sua falta de
vontade. São incapazes de se ocupar da mesma coisa durante mais de
dez minutos. No fundo, nada mais fazem do que dissimular, com
incomparável habilidade, a sua preguiça, dando a aparência de uma
atividade febril.
Repara um pouco no que é a tarde de um
tal estudante: depois de jantar, começa a procurar palavras de latim
no dicionário. Três minutos depois, reproduz uma figura de desenho.
Em breve, estendido no divã, lê em voz alta as campanhas de
Napoleão. De repente, fecha o livro: lembrou-se de que umas provas
de fotografia estavam ao sol desde o meio-dia, corre a retirar os
quadros. Toma, depois, um romance, lê dezoito páginas e abandona-o
para ir resolver um problema de física. Mal começou o trabalho, vem
uma mosca pousar no seu caderno. Agarra-a com incrível habilidade,
arranca-lhe uma asa e observa-a ao seu pequeno microscópio... A
tarde passou. Vem a mãezinha lastimá-lo: "Meu querido filho, como
tens trabalhado!" - Ela engana-se: o seu filho somente fingiu
que trabalhava.
Conta a história que o imperador
Domiciano encerrava-se, muitas vezes, no quarto sob o pretexto
de estudar os mais importantes negócios de Estado, proibindo que o
fossem perturbar. Mas, na realidade, era para se divertir a apanhar
moscas para as picar com alfinetes... tal como o estudante, em
presença da mãe, se conserva sentado, com a gravidade de um juiz,
diante do seu Res Romanae e que, logo que a mamã se afasta,
abre "O Esporte" e faz dele a sua distração.
É bom notar que um trabalho desprovido
de continuidade e de método é muito mais fatigante que um estudo
seguido; além disso, tal trabalho não tem valor algum, porque o
espírito do homem é incapaz de se fixar com atenção em muitas coisas
ao mesmo tempo. Não é, pois, de admirar que o estudante que mexe em
tudo, mudando continuamente de assunto, não possa obter senão
resultados medíocres. Tal rapaz, ainda que estude, nada
aprende a fundo, e nada retém das coisas sérias. Vale muito mais
estudar atentamente três horas, para ir brincar depois, com a
consciência tranquila, outras três horas, do que ficar sentado
diante dos livros durante seis horas, de cotovelos sobre a mesa,
sonhando e bocejando, sem brincar nem aprender. Levantar-se-á
aborrecido, como sempre se fica após um trabalho feito a meias. O
melhor estudante, aquele que, um dia, virá a ser útil ao seu país, é
aquele que, durante o tempo de estudo, esquece quem o rodeia, o
tempo e até as preocupações - numa palavra, todo o mundo - para
concentrar toda a atenção no trabalho que tem diante de si.
Deixa-me supor que não me vais censurar
de eu afirmar que, se alguém se põe a meditar numa tese de Carnot
enquanto dança a quadrilha, arrisca-se a escorregar e cair no chão.
Como queres, então, que aquele que pensou na lição de dança da noite
todo o tempo que deveria ter dedicado aos seus exercícios escolares,
não apanhe uma nota má de aritmética?
Tu, meu filho, não te intrometas em
tudo, e não faças senão uma coisa em cada tempo. O que começaste
leva-o até ao fim e fá-lo de boa vontade. "Age quod agis" - o
que fazes, fá-lo bem.
Uma opinião, tão moderna como errônea,
chama às pessoas que saltam de um trabalho para outro, como almas
penadas, - "homens ativos", "espíritos criadores". Que
monstruosidade! As grandes descobertas e as grandes invenções, as
que marcaram verdadeiro progresso da humanidade no campo da cultura
espiritual ou técnica, nasceram todas de estudos laboriosos feitos
no silêncio fértil dos laboratórios, das bibliotecas, dos
escritórios particulares. Os grandes mestres da história, da
ciência, da literatura, da arte ou da indústria, todos devem os
respectivos triunfos à aplicação aturada que um longo trabalho
concentrado nunca logrou enfraquecer. Se fosse possível atingir as
alturas com um salto heróico, muitos jovens estariam prontos para o
dar; mas é somente após centenas e milhares de pequenos passos, após
esforços incansáveis, que lá se chega. Antes de lá chegar, é preciso
evitar muitos obstáculos, escalar muitos rochedos, levantar-se nos
picos... descê-los, às vezes. É, sobretudo, necessário trabalhar
sempre. Acredita-me, meu filho, não é o homem que é capaz de agir
audaciosamente, quando a ocasião se apresenta, que merece o nome de
herói, mas aquele que sabe executar fielmente todas as pequenas
ações de sua vida. Quando, depois do jantar, o repouso se te
apresenta doce, e tu, em lugar de cederes ao sono, pegas no teu
livro de álgebra, dás uma prova de coragem! Quando, de manhã, seria
tão agradável ficar mais um pouco "no vale de lençóis", e tu,
chegada a hora de levantar, saltas imediatamente da cama abaixo, dás
provas de coragem! Quando o sol de Maio te sorri lá fora e te
convida a sair para te divertires, se tu, por não teres ainda
acabado os teus exercícios escolares, teimas em ficar junto do
livro, isso representa ainda coragem! Quando te não agrada fazer uma
coisa e, não obstante isso, a fazes de boa vontade porque é um
preceito do Senhor, isso é sempre coragem, sempre heroísmo! |