|
Muitos rapazes desperdiçam assim uma
verdadeiro tesouro a perder o tempo durante os sete anos tão importantes
dos estudos secundários de que aproveitam muito pouco. Não vão às aulas
senão porque a isso são obrigados, e metade do coração e da alma, os
olhos e ouvidos estão sempre cá fora. Escutam muito distraidamente as
explicações do professor: estão quase totalmente no jogo de futebol a
que irão entregar-se logo que saiam da aula. Voltam, de vez em quando, à
realidade - à aula - mas somente por alguns minutos: em breve estão
absorvidos nas "Aventuras maravilhosas de M. Hércules" que lêem
por baixo da carteira...
Sim, lastimo-os porque o que fazem não tem
valor algum. Podem eles pretender ser capazes de fazer as duas coisas -
prestar, ao mesmo tempo, atenção ao ensino que se lhes dá e à leitura do
seu romance, - mas a psicologia desmente a sua afirmação. O tempo passa
para eles como passa para os alunos aplicados; mas, enquanto estes, após
a explicação do professor, ficam já sabendo a lição, aqueles, uma vez
chegados a casa, apressam-se a pôr de lado os livros, porque não
percebem nada do que fora explicado na aula.
Num belo dia de Outono, um bando de grous
passava no céu por cima de nossas cabeças. Formavam em - V - e pareciam
cortar o ar com o seu voo majestoso e seguro. Mas, atrás delas, a certa
distância, batia desesperadamente as asas uma pobre retardatária. Esta
tinha perdido as penas da longa cauda que antes lhe serviam de leme;
apesar de bater as asas duas vezes mais que as companheiras, não
conseguia acompanhá-las. O estudante de que venho falando parece-se com
este grou que perdeu a cauda: trabalha, mas não faz progressos.
Ibsen, em "Peer Gynt" descreve o
estado de um tal rapaz. Dirigiu-lhe censuras pelos talentos e horas que
ele desperdiçou: "Nós somos os pensamentos que tu deverias ter
pensado - dizem-lhe eles. Nós somos os cânticos que deverias ter
cantado. Nós somos as lágrimas que deverias ter derramado. Nós somos as
ações que deverias ter feito".
Eu desejaria que todos os jovens se dessem
ao cuidado de copiar as graves palavras que um negociante rico fez
gravar na sua pedra sepulcral - faria até bem se as pusessem num quadro
a colocar, bem à vista sobre a mesa de trabalho:
"Nunca esqueças que o trabalho é um dos
deveres mais importantes da vida.
- O tempo é dinheiro; não gastes um
minuto sequer em extravagâncias.
- Faze sempre ao próximo o que
desejarias que ele te fizesse.
- Não guardes para o amanhã o que podes
fazer hoje.
- Não mandes fazer a outrem o que tu
podes fazer.
- Não cobices nunca o que é de outrem.
- Liga importância às mais pequenas
coisas.
- Não gastes o que não ganhaste ainda.
- Não deixes diminuir os teus
rendimentos, esforça-te antes por aumentá-los.
- Todas as ações devem ser
cuidadosamente ordenadas.
- Tem a preocupação de fazer o maior bem
que puderes durante a vida.
- Não te prives das comodidades da
existência; mas leva uma vida simples, honesta e econômica.
- E, para realizar tudo isto, não deixes
de trabalhar até o último dia da tua existência".
Se gostas de mel, não te deixes desanimar
com as abelhas. |