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Reflexões morais
sobre o uso da Internet

A difusão da Internet já é um fato que
salta aos olhos de todos. Os lares tradicionais não estão isentos,
nem ainda os priorados... Estimo que chegou o momento de falar sobre
o emprego da Internet.
Deixo expressamente de lado o aspecto
ligado às obscenidades de que este instrumento pode ser meio.
Recordo somente aos pais que deixar a seus filhos acesso livre à
Internet é uma imprudência colossal: se em casa deve existir uma
conexão, o computador tem que estar num ambiente comum, e portanto,
nunca nos quartos dos filhos.
Neste artigo desejo considerar o
emprego da Internet sob outra perspectiva, moral também, mas de
outro gênero. Refiro-me aos distintos foros e outras listas de
discussão que agoniam nossos correios eletrônicos.
Todos somos teólogos
A Internet, além de todas as vantagens
que todos conhecem, oferece uma digna de atenção: o fato de se
encontrar detrás de uma tela, e mais ainda se alguém se esconde
detrás de um pseudônimo (ou código que oculte a verdadeira
identidade), faz com que se converta imediatamente em... um teólogo!
Coisa extraordinária, mas é assim.

Há pessoas que passam anos estudando
para conseguir um diploma em teologia; outros, ao contrário, se
registram em qualquer foro ou em alguma lista de discussão, e eis aí
prontos para difundir seus juízos radiantes entre os internautas
sedentos de verdade. Dedicam-se a dissertar uns mais que outros,
apoiando-se com citações de ilustres teólogos, seja sobre a
infalibilidade papal, as canonizações, a validez dos sacramentos, a
liturgia ou sobre o magistério ordinário universal. E isto,
evidentemente, infringindo muitos anátemas àqueles que se atrevem a
pôr em dúvidas seus ensinamentos. Anathema... clic!
Assombra ver como se multiplicam esses
teólogos, que aventuram-se em regiões onde outros, manifestamente
menos dotados que eles, jamais se arriscariam.
Pois bem, deixando de lado toda ironia,
queria fazer uma reflexão: a teologia é algo sério; tão sério, que
não pode acometer atrás de uma tela. A teologia é o cume do saber.
Se é certo que a metafísica é a mais altas das ciências humanas - ou
seja, das ciências que explicam a realidade à luz da razão natural
-, a teologia é mais alta ainda porque a luz que a ilumina é a mesma
luz de Deus.

Deus Nosso Senhor pode ser conhecido
mediante o emprego das forças naturais da razão, através das
criaturas, como autor da ordem natural.
Mas existe também uma "ciência de Deus"
que não se pode adquirir através da simples razão, já que pressupõe
que o mesmo Deus se deu a conhecer aos homens mediante a revelação.
Essa é a teologia em sentido estrito.
Compreende-se, pois, que o teólogo deve
possuir perfeitamente tanto a teologia como os dados da revelação,
tal como ambas as coisas são propostas pelo magistério, afim de
realizar essa síntese - convenientemente alimentada pela oração -,
que é o que distingue a verdadeira teologia da discussão de café...
Antes de mais nada, o teólogo deve ser
humilde. Logo, deve ser dócil às inspirações de Deus, já que o que
estuda é o objeto mais elevado e o mais sublime. Da união da
humildade e da docilidade nasce o dom da sabedoria.
Tudo isso está absolutamente ausente
dos foros e listas de discussão e desafio a qualquer um que me prove
o contrário.
Guiado pelo dom da sabedoria, uma
teologia do calibre de Santo Tomás de Aquino, tendo que
resolver um problema particularmente difícil, não atinava a fazer
outra coisa que ajoelhar-se diante do Santíssimo Sacramento.
O Santíssimo Sacramento... e não uma
tela de computador!
Copiar e colar, ou copiar e aumentar
Outra das grandes vantagens da Internet
em relação aos outros meios de comunicação é o fato de poder
difundir a Boa Nova com vertiginosa rapidez, sem esforço e de graça.

No entanto, com a mesma facilidade - e
com consequências cem mil vezes mais importantes - também se pode
difundir o erro, ou ao menos a imprecisão, a calúnia, o descrédito
sobre uma pessoa, a difamação, etc.
Esta simples comprovação teria que
fazer refletir o internauta antes de apertar o botão e difundir uma
notícia, um juízo, etc. E isso vale mais ainda para quem não faz
nenhum enfoque moral. Mas o internauta católico sempre deve provocar
uma reflexão moral antes de fazer um "clic".
Uma simples passagem, "por cima", sobre
os foros católicos que se referem à Tradição nos leva a descobrir
com horror que estes últimos pululam difundindo maldades, difamações
e insinuações gratuitas. Pode-se perguntar se realmente quem escreve
ou difunde essas coisas pensam seriamente sobre o que lhes concerne
com respeito ao Oitavo Mandamento "Não levantarás falso
testemunho".
Julgo, logo existo
O que podemos dizer diante da
proliferação de comentários? Sorrindo e escrevendo com um teclado,
alguns se convertem em colunistas, cronistas e sábios inspirados,
que crêem que seu pensamento leva à pobre humanidade essa luz que
até então lhe faltava.
Então, inclusive sem que alguém tenha
pedido, difundem amplamente pelo e-mail suas opiniões sobre todos
os temas: a atualidade, a política, a vida eclesiástica, etc. Não
existe coisa nem pessoa alguma que escape a seu juízo, inclusive se
se tratasse de um juízo temerário...
Se é verdade que a operação intelectual
"juízo" é própria do homem em quanto ser racional, não existe
obrigação de julgar sobre tudo e todos, ainda mais se tal coisa não
foi solicitada, e sobretudo se não se conhecem os fatos. "Não
julgueis e não sereis julgados (...) porque com a mesma medida com
que julgais, sereis julgados" (São Lucas, 6, 37).
Orientações úteis para todos
Todos recordarão a especial penitência
que São Felipe Neri pôs a uma mulher que veio se confessar
por ter o costume de falar mal do próximo. Para lhe fazer
compreender os terríveis efeitos deste pecado, o Santo lhe mandou
depenar uma galinha caminhando pelas ruas de Roma, e depois voltar
para vê-lo. Assim o fez a mulher, que na volta à presença do Santo,
lhe perguntou o que mais teria de fazer.
- "Agora, voltará por todas as ruas
pelas quais caminhou e recolherá uma a uma as penas da galinha, sem
deixar uma sequer".
- "Mas, Padre, o senhor me pede uma
coisa impossível!", exclamou desesperada a pobre penitente.
"Tinha tanto vento que nunca poderei recolher todas as penas!"
- "Eu sei - disse o Santo -,
mas com isso a quero fazer entender que sua maledicência se parece
com essas penas".
Teria que voltar a aparecer outro São
Felipe Neri para inventar uma penitência proporcional, destinada a
todos os que difundem toneladas de maledicências e de pérfidos
juízos...
Efeito transparência
Por fim, a Internet permite
compartilhar com os outros os próprios conhecimentos, experiências
pessoais, etc. Não somente entre amigos, senão também com
desconhecidos. Acabou-se a época do diário íntimo, longe dos olhares
curiosos. Agora existe o blog, no qual se difundem por toda
parte os próprios vícios e virtudes... Há sites na web para
tudo... As discussões de caráter público adquirem dimensões
planetárias: é muito mais saboroso discutir on-line com um painel de
participantes conectados. Como essas lindas disputas entre vizinhos:
duas pessoas discutem acaloradamente de um balcão ao outro, e a
vizinhança aproveita para inteirar-se de um montão de coisas
interessantes sobre os dois protagonistas e suas respectivas mães...

Muito bem! A vantagem da Internet é que
o vizinho que intervém pode estar constituído por várias dezenas de
participantes selecionados como "enviar com cópia", que enviam e
reenviam correios eletrônicos de respostas em um crescendo
wagneriano. Edificante! Muito, muito católico!
O tempo passa e o homem não se dá
conta
(Dante, Divina Comédia, Purg. 4,
9)
Para concluir, queria agora sublinhar
outro aspecto. O computador nos acostumou a raciocinar, agir,
comunicar-nos, etc... com uma rapidez inimaginável. Tudo se mede em
nano segundos, ou seja, em apenas milionésimos de segundos. De fato,
passam alguns milhares sem que você tenha tido tempo de terminar de
escrever uma palavra. O processador do computador, ao contrário,
emprega bem o tempo: não perde sequer um nano segundo.
Quanto tempo (mas não em frações de
segundos senão em horas de sessenta minutos) dedicam os homens a
escrever comentários em foros, ou melhor para escrever e-mails
intermináveis? Você se pergunta de onde tiram tanto tempo...
Repararam, por exemplo, na hora do dia em que se enviam certos
e-mails ou se registram certos comentários? Meia-noite, às duas da
madrugada, às quatro e meia da manhã... E no dia seguinte, o que
fazem na escola ou no trabalho?
Isso não me parece que seja uma boa
forma de "redimir" o tempo, como diz São Paulo, quem
agrega que "os dias são maus" (Efésios, 5, 16). Precisamente,
porque são maus, devem ser aproveitados para fazer o bem, cumprindo
com diligência o dever de estado e sem desperdiçar o tempo
inutilmente.
"Serva tempus", isto é,
"Aproveite o tempo", costumavam escrever os antigos nos relógios
de sol. Uma mensagem que teria que voltar a ser escrita também nas
telas (desligadas) dos computadores.
Artigo retirado do
"Corrier de Rome", janeiro de 2009.
Pe. Luigi Moncalero
Artigo "Navigare necesse est:
reflexões morais sobre o uso da Internet", escrito pelo Rev. Pe. Luigi Moncalero
e publicado na revista Guarde a Fé! nº 44 da Fraternidade Sacerdotal São Pio X
no Brasil.
Obs.: Imagens adicionadas pelo MJCB.
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