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Será imperfeita e mesmo
prejudicial qualquer consideração filosófica, pedagógica ou esportiva
que não considere o homem na sua realidade completa, na sua dimensão
corporal e espiritual. Espírito e matéria, corpo e alma, assim Deus nos
criou, e nos quer sadios corporal e espiritualmente. Se a alma é mais
importante, nem por isso podemos descurar a saúde do corpo: “Mens
sana in corpore sano”, alma sã num corpo sadio, já diziam os
romanos. E a palavra de Deus na Bíblia Sagrada mostra como não lhe
agrada um corpo frouxo e como um corpo vigoroso e saudável colabora
imensamente para a sanidade espiritual: “A saúde e a boa compleição
valem mais que todo o ouro da terra. E um corpo vigoroso é preferível a
uma imensa fortuna”. (Ecli XXX, 15).
São Paulo Apóstolo,
partilhou a admiração das multidões helenas pelas proezas dos atletas
nos Jogos Olímpicos. A agilidade dos corredores, estimulada no estádio
pelo triunfo, pela perspectiva de uma coroa de oliveira, sugeria-lhe a
beleza moral do combate espiritual, onde se trata também de desenvolver
todas as energias para alcançar uma coroa incorruptível no Reino dos
Céus.
E essa é a finalidade do
verdadeiro esporte: tornar o corpo sadio e dócil para que paralelamente
a alma possa se robustecer e enobrecer.
Assim compreendemos como
o espírito cristão é altamente eficaz para dar ao esporte o seu
verdadeiro sentido e finalidade.
Na alta Idade Média, - a
verdadeira, e não a falsa que muitas vezes historiadores superficiais
tentam nos impingir, - época em que a “filosofia do Evangelho
governava os povos” (Leão XIII), houve uma florescência ideal do
verdadeiro desporto cristão.
Pedro de Coubertin, o
renovador dos Jogos Olímpicos, assim escreve: “A Idade Média conheceu
um espírito desportivo de intensidade e vigor provavelmente superiores
aos que conheceu a própria antigüidade grega”. E ele atribui isso à
influência primordial da religião que criou uma atmosfera das mais
favoráveis a eclosão e desenvolvimento do espírito cavalheiresco que
consiste na “lealdade praticada sem hesitação” (Pierre de
Coubertin, La Pédagogie Sportive).
Esta sadia e nobre
concepção influenciava favoravelmente os torneios de então. Só homens de
honra aí eram tolerados; os relaxados, os perjuros, os alteadores,
caluniadores, os que tinham faltado respeito às damas, eram
implacavelmente afastados. Mesmo no ardor da luta não se podia conceber,
e ainda menos tolerar, que um cavaleiro ousasse violar as regras do
combate leal.
Esse era o verdadeiro
jogo limpo, o “fair-play”, como dizem os ingleses. O cristianismo
conseguira assim disciplinar e adoçar os costumes de guerreiros
belicosos que, sem ele, teriam feito lei de sua força física e cedido
aos instintos desenfreados da violência.
Foi isso infelizmente o
que ocorreu quando a religião cessou de fazer parte da vida. Quando a
cavalaria entrou em decadência por falta do verdadeiro espírito cristão,
os cavaleiros esqueciam o seu juramento de honradez e logo os torneios
se aviltavam, dominados por instintos de brutalidade.
Com a progressiva
decadência, chegamos à Renascença, onde a repugnância pelo esforço
físico acompanhava naturalmente a negligência própria da vida fácil, a
maré alta dos costumes dissolutos que caracterizavam esta época.
Fica patente que o
esporte, sem a salutar dependência das diretivas da religião e das
regras morais está fadado à decadência. Esquecendo-se a nobre finalidade
do esporte cai-se no embrutecimento e no mercantilismo. Os profissionais
tornam-se vulgar mercadoria de negócio, sujeitos à compra de quem mais
oferece. As transações e intrigas de bastidores põem em perigo a
personalidade do atleta. Toda a idéia educativa, todo o objetivo moral,
todo o ideal superior ao do ganho imediato ficam esquecidos. Aí então o
esporte deixa de ser esporte; torna-se batalha, espetáculo, comércio. O
jogador deixa de ser esportista para ser mercenário, acrobata, qualquer
coisa parecida com um gladiador hipócrita.
Quem vê nos noticiários
as loucuras do esporte moderno, as falcatruas, a deslealdade, a falta de
nobreza dos atletas, a ausência total de fraternidade cristã, o
mercenarismo, as trapaças, a violência e brutalidade das torcidas etc.,
tem uma idéia de como o esporte se degrada quando se desprezam os
valores morais.
Para vergonha de nossa
época “civilizada”, vai ficar na história do esporte o triste espetáculo
ocorrido em 29 de Maio de 1985, no Estádio Heysel de Bruxelas, poucos
minutos antes do início da decisão da Copa Européia de Clubes Campeões
(Liverpool X Juventus): os “hooligans” (torcedores fanáticos do
Liverpool) foram os autores do massacre. Além dos 39 mortos (34
italianos, dois belgas, dois franceses e um inglês), 450 pessoas ficaram
feridas e algumas delas sofrem ainda hoje as seqüelas físicas e morais
daquela noite de horror.
Que todos, especialmente
os jovens, tenham sempre presente o princípio de que o esporte é meio e
não fim, meio para se alcançar a saúde do corpo e da alma, e não fim ao
qual se deva sacrificar a saúde do corpo e os valores da alma.
Já dizia o filósofo grego
Platão (República): “Nos exercícios do corpo os jovens propor-se-ão
sobretudo aumentar a sua força moral, de preferência a desenvolver o seu
vigor físico”.
Assim entendido, o
esporte será um meio poderoso de restabelecimento moral da juventude,
segundo a afirmação de Borotra, famoso campeão francês de tênis, quando
foi Ministro dos Desportos.
O Papa Pio XII propõe
esta máxima sadia: “Cuidado do corpo, robustecimento do corpo, sim;
culto do corpo, divinização do corpo, não”. São Pio X já havia dito:
“Os jovens devem amar o esporte; faz-lhes bem ao corpo e à alma; nós
mesmos nos sentimos remoçar, quando os vemos correr, saltar e
recrear-se”.
Num discurso ao Centro
Desportivo Italiano, em 09/10/1955, o Papa Pio XII enumera as virtudes
próprias que a educação desportiva deve formar nos jovens atletas:
“Essas são, entre outras, a lealdade que proíbe recorrer a subterfúgios,
a docilidade e obediência às sensatas ordens de quem dirige um exercício
de equipe, o espírito de renúncia quando é preciso esconder-se a favor
das próprias cores, a fidelidade aos compromissos, a modéstia nos
triunfos, a generosidade para com os vencidos, a serenidade na derrota,
a paciência para com o público nem sempre moderado, a justiça se a
competição esportiva está ligada a interesses financeiros livremente
pactuados e, em geral, a castidade e a temperança já recomendadas pelos
antigos. Todas estas virtudes, embora tenham como objetivo uma atividade
física e exterior, são genuínas virtudes cristãs, que não podem
adquirir-se e exercitar-se em grau exímio sem um íntimo espírito
religioso e, acrescentemos, sem o freqüente recurso à oração”.
Já dizia o nosso Didi
(Waldir Pereira, do Fluminense, do Botafogo e da Seleção):
“A vida
moral e disciplinada favorece muitíssimo o rendimento do jogador. Na
minha opinião, é o fator principal na vida do jogador que se preza... O
primeiro objeto do meu pensamento é Deus. Recorro a Ele e confio Nele”.
Gostaria de encerrar com
uma história real, ilustrativa e exemplar:
Em certa prova de
ciclismo, correm os dois grandes campeões italianos: Gino Bartali e
Fausto Coppi.
Fausto procura crescer em
velocidade e Bartali persegue-o, ficando muito para trás o pelotão.
Em correria louca, os
dois vão galgando quilômetros e quilômetros de estrada, descendo vales e
subindo íngremes ladeiras.
Aproximam-se da meta os
dois campeoníssimos, banhados em suor, pelo esforço dispendido ao longo
da caminhada.
Coppi arde em sede, e já
não tem gota de água para os lábios ressequidos, pois se lhe esgotaram
as provisões.
Dilema terrível se lhe
põe ao espírito: ocultar a Gino o estado que se encontra e ir perdendo
terreno, ou recorrer ao adversário e expor-se a que ele se aproveite de
tal...
Fausto Coppi, a arder em
sede, aproxima-se do Monge Voador, Gino, e segreda-lhe com os lábios
secos, muito secos:
- Gino, tenho sede.
Deixas-me beber da tua água?
E Gino responde,
perguntando:
- Já não tens nenhuma
água, Fausto?
- Nenhuma, Gino, diz
Fausto com voz sumida.
- Então, dá-me a tua
“bottiglia” – acrescenta o companheiro.
E, em plena estrada, o
grande Gino Bartalli divide generosamente com o seu rival a pequena
porção de água de que ainda dispõe e diz:
- Olha, Fausto, se
precisares mais, pede-me...
- Obrigado, Gino, -
responde Fausto, cheio de gratidão.
Este sofregamente se
refresca, e eis que ambos partem velozes para o final da tirada.
Os dois gigantes da
estrada embalam vigorosamente. E Fausto, com as forças renovadas pela
água que bebera, vence a corrida.
A multidão aclama-o com
indescritível entusiasmo. Fausto, porém, logo que salta da bicicleta,
corre a abraçar o generoso adversário e lhe diz:
- Obrigado, Gino. Tu és
um grande Desportista.
- Tenho a certeza de que
tu farias o mesmo, Fausto, murmura Gino Bartalli.
A beleza espiritual desta
cena maravilhosa, desenrolada em plena estrada, demonstra como o
verdadeiro esporte enobrece o homem.
Para que todos saibam,
Gino Bartalli, ciclista italiano de renome mundial, foi várias vezes
campeão de ciclismo, e é considerado o maior ciclista de todos os
tempos.
Onde estava a força deste
jovem campeão? Deixemos que ele mesmo nos conte:
“Só com as qualidades
técnicas e físicas, e mesmo atléticas, não se dura muito e não se avança
com continuidade. São necessárias as qualidades morais, que podem ser
inatas, mas também se adquirem e que, num e noutro caso, só pela vontade
se conservam. A par do vigor muscular, é mister possuir a força do
espírito, o conhecimento do valor do sacrifício, a generosidade, o amor
do desporto, o respeito pelo público. E sobretudo a Fé... Os princípios
cristãos valeram-me na vida desportiva como na vida privada. A moral
cristã indicou-me uma conduta que, além do seu valor espiritual, possui
também um valor prático. E é o melhor, acreditai. Finalmente, devo dizer
que a vida da Graça ajuda verdadeiramente o homem a ser desportista
integral. Sempre comecei as minhas competições com o sinal da Cruz e,
quando podia com a Comunhão. Ao passar junto de qualquer santuário de
Nossa Senhora ou perto de algum Cruzeiro, sempre me benzia ou lhes
dirigia uma saudação e ficava mais fortalecido e amparado no meio dos
muitos perigos que corri”.
Que a nossa mocidade,
vibrante e sadia, saiba copiar os bons exemplos. Avante! Alma sã num
corpo sadio!
Pe Fernando Arêas Rifan,
Quer agrade Quer desagrade |