|
Retirado do
Catecismo Maior de São Pio X
Editora
Permanência;
Editora
Santo Tomás.
1.
Deus, sapientíssimo criador de todas as
coisas, ordenou-as todas a Si, como fim último; isto é, para que Lhe
dessem glória manifestando as perfeições divinas que Ele lhes comunicou.
O homem, criatura principal deste mundo visível, devia também promover e
realizar este fim, conforme sua natureza racional, com os atos livres de
sua vontade, conhecendo, amando e servindo a Deus, para alcançar depois,
deste modo, o prêmio que do mesmo Senhor havia de receber. Este vínculo
moral ou lei universal, pelo qual o homem se acha naturalmente ligado a
Deus, chama-se Religião natural.
2.
Mas, tendo a bondade divina preparado para o homem uma recompensa muito
superior a quanto ele pudesse pensar ou desejar, isto é, querendo fazê-lo
participante de sua própria bem-aventurança, como não bastasse já para
fim tão elevado a Religião natural, foi preciso que o próprio Deus o
instruísse nos deveres religiosos. De onde se segue que a Religião, desde
o princípio, tivesse de ser revelada, isto é, manifestada por Deus ao
homem.
3.
De fato foi assim que Deus revelou a
Religião a Adão e aos primeiros Patriarcas, os quais, sucedendo-se uns
aos outros e vivendo juntos muitíssimo tempo, a podiam transmitir
facilmente uns aos outros, até que Deus Nosso Senhor formou para si um
povo que a guardasse até a vinda de Jesus Cristo, nosso Salvador, Verbo
de Deus encarnado, que não a aboliu, senão que a cumpriu, aperfeiçoou e
confiou à custódia da Igreja, por todos os séculos.
Tudo isto pode
ser demonstrado pela História da Religião, a qual, podemos dizer, se
confunde coma História da humanidade. Donde é coisa manifesta que todas
as que se proclamam religiões, fora da única verdadeira revelada por
Deus, de que falamos, são invenções dos homens e desvios da Verdade, da
qual algumas conservam uma parte, misturada porém com muitas mentias e
absurdos.
4.
Quanto às seitas ou divisões que se
fizeram da Igreja Católica, Apostólica, Romana, foram elas suscitadas
e promovidas por homens presunçosos, que abandonaram o sentir da Igreja
universal, para irem voluntária e obstinadamente atrás de algum erro
próprio ou alheio contra a fé, e são os hereges; ou, então, homens
orgulhosos e ávidos de mando, que, tendo-se por mais iluminados que a
Santa Igreja, lhe arrancam uma parte de seus filhos, dilacerando, contra
a palavra de Jesus Cristo, a unidade católica, separando-se do Papa e do
Episcopado a ele unido, e estes são os cismáticos.
Enquanto isso,
o fiel católico – que inclina sua razão à palavra de Deus – pregada em
nome da Santa Igreja pelos legítimos Pastores, e cumpre fielmente a santa
lei divina – caminha com segurança pela estrada que o conduz a seu último
fim e, quanto mais se instrui na Religião, mais é levado a ver quanto é
racional a santa Fé.
5.
O modo estabelecido cabalmente por Deus
para a perpétua tradição da Religião foi, pois, o seguinte: a sucessiva e
contínua comunicação dos homens entre si, de modo que a verdade ensinada
pelos mais velhos se transmitisse do mesmo modo aos descendentes; o que
durou mesmo depois que no decurso do tempo o Espírito Santo moveu
diversos escritores a registrar em livros compostos sob Sua inspiração
uma parte da lei divina.
Estes livros
escritos com a inspiração de Deus chamam-se Sagrada Escritura, Livros
Santos ou Bíblia Sagrada. Chamam livros do Antigo Testamento o que foram
escritos antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo; os que foram
escritos depois constituem o Novo Testamento.
6.
A palavra Testamento significa, aqui,
Aliança ou Pacto feito por Deus com os homens, a saber: de salvá-los por
meio de um Redentor prometido, com a condição de que prestassem fé à sua
palavra e obediência a suas leis.
A Antiga
Aliança, Deus a Fez primeiro com Adão e Noé, e depois mais especialmente
com Abraão e sua descendência; esse pacto exigia a fé no futuro Redentor
ou Messias e a guarda da Lei dada no princípio por Deus e promulgada mais
tarde para seu povo por meio de Moisés.
A Nova
Aliança, depois da vinda e Jesus Cristo, nosso Redentor e Salvador, Deus
a estabelece com todos os que recebem o sinal que Ele instituiu, o
Batismo, e guardam a Lei que o próprio Cristo veio aperfeiçoar e
completar, pregando-a em pessoa e ensinando-a de viva voz aos Apóstolos.
Estes
receberam de seu divino Mestre a orem de pregar por todas as partes o
Santo Evangelho, e o pregaram realmente de viva voz, antes que fosse
escrito por inspiração divina, como depois o foi. Porém nem todos os
Apóstolos escreveram, e é certo que nem uns nem outros escreveram tudo o
que haviam visto e ouvido.
7.
Pelo o que acabamos de dizer, e pelo que
indicamos atrás (número 5), compreende-se a suma importância da Tradição
divina, que é a própria palavra de Deus, declarada por Ele mesmo de viva
voz a seus primeiro ministros e transmitida deles até nós por uma
contínua sucessão. Donde nela também se estriba justamente nossa Fé, como
em solidíssimo fundamento.
8.
Esta Tradição Divina, junto com a
Sagrada Escritura, ou seja, toda a palavra de Deus, escrita e transmitida
de viva voz, foi confiada por Nosso Senhor Jesus Cristo, a um Depositário
público, perpétuo, infalível, a saber, a Santa Igreja Católica e
Apostólica.
Essa Igreja –
fundada precisamente naquela divina Tradição, apoiada na autoridade que
Deus lhe deu, e reforçada com a promessa da assistência e direção do
Espírito Santo – define quais são os livros que contêm a Revelação
divina, interpreta as Escrituras, fixa o sentido nas dúvidas que surgem a
respeito delas, decide sobre as coisas que se referem à Fé e aos
costumes, e julga com sentenças inapeláveis sobre todas as questões que
nestes pontos de suprema importância possam de algum modo extraviar a
inteligência e o coração dos fiéis.
9.
Mas advirta-se que este julgamento
compete àquela parte escolhida da Igreja que se chama docente ou
ensinante, formada primeiramente pelos Apóstolos, e depois pelos seus
sucessores, os Bispos, com o Papa, que é o Romano Pontífice, sucessor de
São Pedro, à sua cabeça.
O Sumo
Pontífice – dotado por Nosso Senhor Jesus Cristo da mesma infalibilidade
de que está adornada a Igreja, e que é necessária para conservar a
unidade e a pureza da doutrina, pode quando fala ex cathedra, isto é,
como Pastor e Doutor de todos os cristãos promulgar os mesmos decretos e
pronunciar os mesmos julgamentos que a Igreja, no que toca à Fé e aos
costumes. E ninguém pode recusar essas sentenças sem prejuízo de sua fé.
Além disso, o Papa pode exercer sempre o supremo poder em todo o
concernente à disciplina e bom governo da Igreja, e todos os fiéis devem
obedecer-lhe com sincero obséquio da mente e do coração.
Na obediência
a esta suprema autoridade da Igreja e do Sumo Pontífice – por cuja
autoridade nos são propostas as verdades da Fé, nos são impostas as leis
da Igreja e nos é mandado tudo o que quanto ao bom governo dela é
necessário – consiste a regra de nossa Fé. |