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Filosofia


Da moda em filosofia
Michel Villey

Da Existência de Deus
Pe. Garrigou-Lagrange, O.P.

Existência e imortalidade da alma humana

 

Da Existência de Deus

As provas da existência de Deus (Resumo)

Santo Tomás de Aquino

Primeiro motor
O Ser necessário
A primeira Causa
A Perfeição
Os graus de perfeição dos seres...
O Ordenador e Governador
Do universo, dos animais...

Provas Particulares

A Vida
A vida apareceu na terra depois da matéria inorgânica que não pode dar o que não tem: a vida
A resposta às aspirações humanas
Felicidade, justiça...
A Fonte da obrigação moral
A voz da consciência: existe um Autor da obrigação moral e da sanção

Contraprova

Feito sociológico universal
Em todos os povos...
Reconhecido pelos sábios

 

"Dixit insipiens in corde suo: non est Deus"

(Disse o não sábio em seu coração: não existe Deus)

Fonte: de um professor de seminário

 

Texto traduzido do livro "La Providencia y la Confianza en Dios - Fidelidad y Abandono", P. Réginald Garrigou-Lagrange, O.P.

 

Primeira Parte

Existência de Deus e da Providência

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

Deus, primeiro motor dos corpos e dos espíritos

 

"In ipso vivimus, movemur et sumus". At. 17, 28. Em Deus temos a vida, o movimento e o ser.

 

Antes que declaremos o sentido e o alcance das provas da existência de Deus e da Providência, será bom indicar um argumento geral que virtualmente os compreende a todos. E é como segue: O mais não sai do menos, o mais perfeito não pode vir do menos perfeito, que não é capaz de produzir nada que lhe supere.

Pois bem, existindo no mundo seres viventes e dotados de razão, que chegam à existência e logo desaparecem, segue-se que os tais, sejam de agora ou de tempos pretéritos, no existem por si mesmos.

Logo, esses seres que dizemos requerem uma causa existente por si mesma. É, pois, necessário que ab aeterno, de toda a eternidade, existe um Primeiro Ser, que a ninguém lhe deva o ser, senão a si mesmo, e seja poderoso para dar-lo a outros, um Primeiro Vivente, uma Primeira Inteligência, uma Primeira Bondade e Santidade. De outra maneira, jamais existido a vida, a inteligência, a bondade e a santidade que neste mundo admiramos.

Tão simples argumento, acessível à razão natural, pode tratar-se à maneira própria dos filósofos; que não se encontrara defeito nele.

O mais não pode sair do menos, como de sua causa plenamente suficiente e eficaz; se isso fosse possível, esse mais de perfeição careceria de causa, de razão de ser, seria em absoluto ininteligível. Grande absurdo é buscar a origem da inteligência ou da bondade de Jesus Cristo e dos santos, de um São João, de um São Paulo, ou de um Santo Agostinho, na matéria vazia de inteligência, na fatalidade material e cega.

Esta prova geral que acabamos de assinalar especifica-se e declara mediante outras provas particulares, das quais a primeira está tomada da consideração do movimento dos corpos e dos espíritos, pelo qual se demonstra ser Deus o motor primeiro de todos os seres, assim espirituais como materiais.

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Tratou já em seu tempo esta prova tirada do movimento o filósofo Aristóteles, e a expõe o Doutor Angélico, Santo Tomás, na Iª, q. 2, a. 3 da Suma Teológica, na forma que a seguir se declara.

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Em todos os seres do mundo há movimento, desde os inferiores até os mais elevados

O ponto de partida da argumentação de Santo Tomás é o fato certo e comprovado da existência do movimento no mundo: movimento local dos corpos inanimados; movimento qualitativo do calor que aumenta ou diminui; movimento evolutivo das plantas; movimento do animal que apetece o alimento e atrás dele corre; movimento da inteligência humana que passa da ignorância ao ato de entender, primeiro de uma maneira confusa, e por fim distintamente; movimento de nossa vontade espiritual, que, não querendo primeiro um objeto, logo o apetece, e o deseja com ardor; movimento de nossa vontade, a qual, querendo o fim, quer logo os meios que a ele conduzem.

Estamos diante de um fato universal; há movimento nos seres do mundo, desde a pedra lançada no espaço, até nosso espírito e nossa vontade. E podemos adicionar que aqui na terra tudo está submetido ao movimento ou à mudança, não somente os indivíduos, mas também as nações, os povos, as instituições. E quando um movimento chega ao limite, vem outro a lhe suceder, como uma onde do mar é seguida por outra, como uma geração substitui a outra: o qual os antigos significaram na roda da fortuna, que abate uns para exaltar outros. Será talvez que tudo passa e nada permanece? que a inconsistência é lei sem exceção? ou temos de dizer que nada há de estável e de absolutamente fixo?

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Todo movimento exige um motor

Como explicar o fato do movimento, seja corpóreo, seja espiritual?

Se explicará acaso por si mesmo? Estará por ventura nele mesmo sua razão ou causa? Para responder a esta questão é antes de tudo necessário notar duas coisas: 1ª no movimento aparece algo novo que exige explicação. De onde vem esse algo novo que antes não existia? E não há por que distinguir os movimentos passados dos atuais. 2ª O movimento somente existe num móvel que se move, e tal movimento é individual por ser movimento de tal móvel. Não há movimento local sem um corpo que mude de lugar, nem fluxo sem fluído, nem corrente sem água; não há vôo sem ave, nem sonho sem sonhador, nem movimento voluntário sem um ser inteligente.

Mas se não há movimento sem um móvel, poderá este ao menos mover-se ele mesmo e de por si só sem causa alguma?

Pode a pedra de por si pôr-se em movimento, sem que alguém a lance no espaço, ou sem que outro corpo a atraia? Pode o metal frio de por si adquirir temperatura mais elevada, sem um foco de calor que efetue dita transformação térmica?

O ser vivente, me direis, tem a propriedade de mover-se por si mesmo. Certo. Mas não já no ser vivente uma parte móvel e outra motriz? Se o sangue corre pelas artérias do animal, não é acaso porque a faz circular o coração com suas contrações?

E vindo ao homem, se se move a mão, não é porventura a vontade quem a move? E se por sua vez a vontade se move, se passa da indeterminação à determinação, não será indispensável que seja movida por algo, por algum bem? Bastará talvez para ele que o tal bem lhe seja apresentado? Não será necessário que ela vá, ou seja levada, até dito bem? De fato a vontade se move em busca dos meios, porque primeiro quer o fim; mas se se trata do primeiro ato volitivo do fim, como sucede ao iniciar-se nossa vida racional, ou pela manhã ao despertar, quando começa a atuar a vontade, não se requererá uma moção superior que faça entrar em exercício nossa atividade volitiva, uma moção que faça passar nossa vontade do estado de repouso, da inatividade, a seu primeiro ato, causa dos seguintes? Aqui há algo novo, que requer uma causa; e não possuindo ainda nossa vontade essa nova perfeição, não pode ela se dar a si mesma. O mais não sai do menos. (Santo Tomás, Iª-IIae, q. 9, a. 4; q. 10, a. 4)

Diremos que a causa de tal movimento particular de um corpo ou de um espírito é outro movimento anterior? Mas se se considera o movimento como tal, seja que trate do atual, seja dos precedentes, deixa-se de ver que consiste no passo da potência do ato. Pois bem, a potência é menos perfeita que o ato; de onde ela não pode dar-se a si mesma. O mais sairia do menos, se para todo movimento não houvesse motor.

A pedra pode mudar de lugar, mover-se; se realmente se move, não é sem um motor que a lance no espaço ou a atraia.

A planta passa da potência ao ato quando cresce; mas isso não sucede sem a influência do sol, do ar, e dos sucos da terra.

O animal passa da potência ao ato ao ir até a presa que o atrai; mas isso não sucede sem o influxo superior do instinto, que lhe impulsiona a alimentar-se disto e não daquilo.

O homem passa da potência ao ato, da ignorância ao conhecimento; sua inteligência se enriquece paulatinamente. Mas no é ela quem se da a si mesma estas novas riquezas que antes não possuía.

Também nossa vontade passa da potência ao ato, e nele se afirma em ocasiões até o heroísmo. De onde lhe vem esta nova perfeição? Não tendo-la anteriormente, não pôde se dar a si mesma.

De onde todo movimento, seja corpóreo, seja espiritual, precisa de uma causa; o móvel não se move sem motor. O motor pode ser interno, como o coração do animal; mas se por sua vez o motor é movido, precisa de outro motor superior; o coração que cessa de latir na morte, não pode de novo pôr-se em movimento. Seria preciso que interviesse o autor da vida, que lhe deu e conservou o movimento até o desgaste do organismo.

Todo movimento exige um motor: tal é o princípio mediante o qual esclarece Santo Tomás o fato geral do movimento. Os animais, privados de inteligência, veem os movimentos sensíveis; mas não podem compreender que todo movimento exige um motor. Não apreendem o ser inteligível, as essenciais inteligíveis, nem as razões de ser das coisas, senão somente os fenômenos sensíveis: cor, som, calor, etc. Pelo contrário, o objeto de nossa inteligência é o ser e as razões de ser das coisas; por isso compreendemos que sem motor não há movimento.

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Todo motor exige um motor supremo

Ainda um passo a mais. Se todo movimento, corporal ou espiritual, exige um motor, existirá por necessidade um motor supremo?

Muitos filósofos afirmaram com Aristóteles a possibilidade de uma série infinita de motores acidentalmente subordinados no passado; por exemplo: que não houve princípio a série de gerações animais; que não existiu uma primeira galinha nem um primeiro ovo, melhor, sem começo algum, de sempre houve galinhas que pusessem ovos; que o movimento circular do sol não teve começo nem terá fim.

Imaginemos o ciclo de fenômenos meteorológicos constituído pela evaporação da água dos rios e do mar e pela chuva, em série indefinida, sem uma primeira chuva que inicie a série de ciclos.

Nós, os cristãos, sabemos pela Revelação que o mundo começou, que foi criado, não ab aeterno, senão no tempo. É artigo de fé definido nos Concílios.

E precisamente por ser artigo de fé, e não somente preâmbulo dela, mantém Santo Tomás que não se pode demonstrar com somente a luz da razão que o mundo começou (Iª, q. 46, 2). Por que ultrapassa esta verdade as forças de nossa inteligência? Porque esse começar do mundo depende da livre vontade de Deus. De ter-lo querido, teria Deus criado o mundo milhares e milhões de anos antes, e ainda com muito maior anterioridade, sem que houvesse um primeiro dia do mundo, sem somente uma dependência do mundo a respeito do Criador: como a pegada do pé na areia depende do pé, e não teria começado, de ter o pé sempre permanecido fixo.

Não parece, pois, impossível, diz Santo Tomás, que o mundo tenha existido sempre, dentro da dependência do Criador; se bem que a Revelação nos ensina que de fato o mundo teve princípio.

Mas se a série de motores acidentalmente subordinados no passado pode ser infinita e não exige por necessidade um primeiro no tempo, não acontece o mesmo com a série de motores necessários e atualmente subordinados no momento presente. Neste caso é imprescindível chegar a um motor supremo atualmente existente, o qual não somente deu o impulso inicial de mundo, mas também mova agora todas as coisas.

Um exemplo: o barco conduz o pescador; as ondas arrastam o barco; a terra leva consigo as ondas do mar; o sol atrai a terra; um centro desconhecido atrai o sol. E depois? Não se pode proceder em infinito na série de causas atualmente subordinadas. Requere-se uma causa suficiente primeira e suprema, não somente no passado, mas também  no presente; e é necessário que dita causa suprema obre, influencie atualmente, sem o qual não obrariam as causas subordinadas, que o fazem somente movidas por outra.

Querer prescindir da origem, é substituir a mola do relógio por um jogo de rodas em número infinito. Para que anda o relógio, pouco importa que milhares e milhões de vezes no passado, e ainda sempre, se lho deu corda; o que importa é que o relógio tenha mola. Da mesma forma, pouco importa que a terra tenha começado a girar em torno do sol; o importante é que atualmente o sol a atraia, e que seja por sua vez atraído por outro centro superior atualmente existente. É necessário chegar a um motor primeiro que possa plenamente responder do ser mesmo ou da realidade de sua ação.

Contudo responder do ser de sua ação somente poderá quem de si a possua, não somente em potência, mas também em ato, quem seja sua ação mesma, sua atividade mesma, quem seja a Vida mesma, sem ter-la recebido de outro. Um motor desta natureza tem que ser em absoluto imóvel, ou seja, tem que ter de si o que os demais adquirem pelo movimento; tem de ser, por conseguinte, ESSENCIALMENTE DISTINTO de todos os seres móveis, sejam corpos ou espíritos. Com isto cai por terra o sistema panteísta: não pode Deus confundir-se com o mundo, sendo Ele imutável, e o mundo sujeito à mudança; a mudança exige um primeiro motor imóvel ou imutável, o qual seja sua própria ação ab aeterno e não passe da potência ao ato; um primeiro motor que seja o Ser mesmo, pois o obrar pressupõe o ser, e o modo de obrar é consequência do modo de ser: Ego sum Dominus et non mutor (Ml 3, 6). Não é verdade que tudo passe e nada permaneça, que tudo seja inconsistente, e nenhuma coisa estável. Existe por necessidade um primeiro motor absolutamente imóvel.

Negar a necessidade de uma causa suprema seria admitir que o movimento se explica por si mesmo, que um móvel, por si mesmo e sem motor, pode passar da potência ao ato e dar-se a si mesma o ato, a perfeição que não possuía. Prescindir de uma causa suprema é, como foi dito, pretender "que um pincel pinte só, por força de cabo longo". É manter que o mais sai do menos.

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Pode-se argumentar outro exemplo, tirado da ordem do movimento espiritual, para demonstrar a necessidade de um motor supremo, não somente no passado, mas também no presente.

Nossa vontade começa a apetecer certa coisa; um enfermo, por exemplo, deseja chamar o médico. Por que? Porque quer se curar e porque a cura é um bem. Começou por querer esse bem, e tal querer é um ato distinto de sua faculdade volitiva; nossa vontade não é de si um ato eterno de amor ao bem; não contém seu primeiro ato senão em potência; e quando o ato se manifesta, nasceu nela algo novo, uma nova perfeição. Para encontrar a última razão de ser da mudança, da realidade mesma deste primeiro ato volitivo, é precisa ascender a um primeiro motor dos espíritos e das vontades, a um primeiro motor que não tenha recebido influxo para obrar, senão que obre sem ter-se dado o obrar; a um primeiro motor que seja sua própria atividade, que obre e exista por si mesmo, porque o obrar pressupõe o ser, e o modo de obrar é consequência do modo de ser.

Somente o Ser por essência é que é por si mesmo, pode em  última análise responder do ser ou da realidade do devir, que não é por si mesmo.

Não se faz patente a nós a existência de um primeiro motor quando, encontrando-nos diante de um dever urgente e indeclinável, por exemplo, a família ou a pátria que salvar, sentimos profundamente nossa debilidade e impotência para passar ao ato? O que importa então são as obras, não as palavras. E quem nos fará passar da potência ao ato, senão Aquele que nos deu a vontade e pode movê-la, porque é  mais íntimo a ela que ela mesma?

Do mesmo modo, o primeiro ato de nossa inteligência, seja o amanhecer a vida intelectual, seja pela manhã ao despertarmos, supõe um primeiro impulso da Inteligência suprema, sem cujo concurso nada poderíamos pensar. Esse impulso, que para muitos passa inadvertido, se manifesta às vezes de uma maneira palpável nas faíscas do gênio. Mas ainda os mesmos gênios são somente partícipes da vida intelectual. E tudo o que é por participação depende de aquele que é por si mesmo e não por outro.

Não se manifesta às claras a existência do primeiro motor das inteligências, quando, em uma grave situação onde não se vê qual seja nosso dever, nos recolhemos no mais íntimo de nós mesmos até descobrir a luz que nos faltava? Como passar da potência ao ato, sem o concurso dAquele que nos deu a inteligência e é o único que pode enriquecê-la com novas luzes?

O primeiro motor não está, pois, em potência para nenhuma nova perfeição; é Ato puro, sem mistura de imperfeição. Por onde se distingue real e essencialmente de todo espírito limitado, que passa da potência ao ato, da ignorância ao conhecimento, de todo espírito angélico ou humano. Eis aqui uma nova refutação do sistema panteísta.

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Terá de ser necessariamente espiritual o primeiro motor dos espíritos e dos corpos?

É evidente que, para mover as inteligências e as vontades, sem violentá-las, tem de ser espiritual. O mais não sai do menos.

Mas também por ser motor dos corpos deve ser espiritual o primeiro motor. Porque, como já foi dito, o primeiro motor é imóvel, ou seja, é sua ação mesma e seu ser mesmo; o qual não se pode dizer dos corpos: todo corpo é móvel, a matéria está em perpétuo movimento.

Ainda supondo que a matéria primeira estivesse dotada de energias primitivas essenciais, não seria um agente que desse razão por si mesma do ser de sua ação; para sê-lo, não somente teria de ter sua ação e sua existência, mas também ser sua mesma ação e sua mesma existência; teria de ser absolutamente imóvel ou possuir por si toda a perfeição, e não tender a ela. Pois bem, não sucede isto com a matéria, a qual está em perpétuo movimento e recebe constantemente perfeições ou formas novas, perdendo ao mesmo tempo outras.

É, pois, coisa manifesta, ser espiritual o primeiro motor dos espíritos e dos corpos.

Dele fala a Liturgia quando diz:

Rerum Deus tenax vigor

Immotus in te permanens

Deus, força invencível que move todas as coisas e permanece soberanamente imutável.

Mas que sorte de imobilidade é a do Motor supremo dos espíritos e dos corpos?

Não, certamente, a imobilidade da inércia, a do corpo inerte, que é ainda menos que o movimento. Pelo contrário, á a imobilidade da atividade suprema, que nada tem por adquirir, porque por si e sem esforço possui quanto pode ter, até transbordar. Em um navio vão os marinheiros de uma parte a outra às suas funções; mas, quem os dirige e move? O capitão, imóvel sobre a ponte, o qual obra espiritualmente com sua inteligência e sua vontade. A contemplação imóvel da verdade é incomparavelmente mais vivente que a agitação.

A imobilidade do primeiro motor não é a imobilidade da pedra, mas a da contemplação e do amor do Bem supremo.

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Propriedades do motor supremo

Segue-se de quanto temos dito que o primeiro motor, por ser ato puro sem mistura de potência imperfeita, não é aperfeiçoável; melhor É INFINITAMENTE PERFEITO; puro ser, pura intelecção sempre atual da verdade suprema, puro amor sempre atual da plenitude do ser sempre atualmente amado.

ESTÁ PRESENTE EM TODAS AS PARTES, tendo de mover todas as coisas, que não se movem senão por meio dele.

É ETERNO, porque de sempre tem todo seu ser que de ninguém recebeu, e toda sua ação de pensamento e de amor, sem mudança. Possui sua vida toda de uma vez, em um instante único e imóvel, acima do tempo. Não começou a ação criadora de Deus ao ser criado o mundo; é eterna, mas seu efeito apareceu no tempo, quando Ele quis, no momento fixado de toda a eternidade.

O primeiro motor é ÚNICO; porque o Ato puro não recebeu a existência: é a existência; é o Ser por essência, que não admite multiplicidade; se tivesse dois primeiros motores, cada um deles não sendo o outro, seria limitado e imperfeito, e não poderia ser o Ato puro e o Ser por essência.

Além disso, um segundo Ato puro seria supérfluo, não podendo coisa alguma mais que o primeiro. E que coisa mais absurda que um Deus supérfluo?

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Se, pois, há um primeiro motor dos corpos e dos espíritos atualmente existente, que consequências práticas podemos tirar dele?

1º Temos de distinguir na vida duas classes de imobilidade: a da inércia e a da atividade superior. A imobilidade da inércia ou da morte é ainda inferior ao movimento; mas lhe é superior a imobilidade da contemplação e do amor de Deus, que é origem de movimento e sabe dirigi-lo e canalizá-lo.

Cuidemos de não dissipar nossa vida na agitação, antes, de recolhê-la, para que nossa ação seja mais profunda, mais continuada e duradoura, orientada à eternidade.

2º No ápice de nossa alma, entremos com frequência em comunicação com o primeiro motor dos espíritos e dos corpos, com o Deus vivo, autor de nossa alma e de seus atos naturais, e também da graça e da saúde.

Seja nossa primeira comunicação pela manhã ao despertar, porque então recebemos o influxo divino que põe em ação nossa atividade; recebamos bem este primeiro impulso e sejamos-lhe dóceis, sem desviar-nos desde o princípio da jornada.

Durante o dia retomemos nosso trato com Aquele que é o autor da vida, que não se limitou a dar o impulso inicial, como quem da uma machadada, nem se contenta com mover-nos ao princípio do dia, antes bem nos mantém constantemente e atua nosso querer, por livre que seja, em tudo o que tem de real e bom, com a única exceção do mal.

Pela noite, antes de deitarmos, renovemos a comunicação com Ele; então, tudo quanto a sã filosofia nos acaba de ensinar acerca do primeiro motor do corpos e dos espíritos, manifestar-nos-á transfigurado, realçado, no "Pai nosso".

"Venha a nós teu reino": o reino da Inteligência suprema que dirige as demais inteligências. "Seja feita tua vontade": a vontade à qual as demais devem subordinar-se para alcançar o fim verdadeiro.

"Não nos deixe cair em tentação", antes ampara-nos com teu poder, mantém nossa inteligência na verdade, nossa vontade no bem. Então penetraremos cada vez mais o sentido das palavras do Apóstolo São Paulo no Areópago (At. 17, 24): "O Deus que criou o mundo e todas as coisas contidas nele... de um só fez sair toda a linhagem dos homens... querendo que os homens busquem e como às apalpadelas lhe encontrem; por mais que não está longe de cada um de nós, porque NELE TEMOS A VIDA, O MOVIMENTO E O SER", não somente o ser natural, senão também o sobrenatural da graça, que é a vida eterna começada. Deste motor supremo, foco de onde brota a vida da criação, somente de uma forma abstrata e imperfeita pudemos falar; mas o veremos cara a cara logo do término de nossa carreira à eternidade.