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Pe. Garrigou-Lagrange, O.P.

Existência e imortalidade da alma humana

 

A Alma Humana

Existência da Alma Humana

O mais nobre dos seres vivos é o homem. Possui a vida vegetativa (se nutre, cresce e se propaga, o mesmo que as plantas), a vida sensitiva (sente, se move de um lugar a outro e elege o que lhe convém, o mesmo que os animais) e a vida intelectiva, que estabelece uma distância quase infinita entre o homem e os seres inferiores.

No homem não há mais que um e único princípio de vida, a alma inteligente. É o mesmo ser o que vive, sente, pensa e obra livremente. A unidade do homem é o feito mais íntimo e mais profundo da consciência. A alma produz, com relação ao corpo e de uma maneira muito mais perfeita, todo o que os princípios inferiores produzem nas plantas e nos animais, e além disso exerce em si mesma e por si mesma os atos da vida intelectiva.

Os três ato da vida intelectiva. Esta vida intelectiva se manifesta também por três atos eminentemente superiores aos demais:

1) O ato de pensar e formar idéias. O homem pensa, abstrai e tira das imagens materiais (que lhe proporcionam os sentidos) idéias universais, gerais e absolutas. Além disso, conhece coisas que não caem debaixo dos sentidos, coisas puramente espirituais, como o verdadeiro, o bom, o belo, o justo e o injusto. Por último, sabe distinguir as causas e seus efeitos, as substâncias e suas aparências, etc. Estas coisas não as pode fazer nenhum animal. Está claro que os animais vêem, ouvem, reconhecem a seu dono, etc. Mas o conhecimento dos animais está limitado às coisas sensíveis e aos objetos particulares. Não têm idéias gerais senão que conhecem unicamente o que cai debaixo de seus sentidos: ainda que vejam, por exemplo uma árvore ou uma flor, não podem elevar-se à idéia geral de uma árvore ou de uma flor.

O homem conhece o bem e o mal morais. O homem goza do bem que faz e sente remordimentos quando obra o mal. O animal não conhece mais que o bem agradável e o mal prejudicial a seus sentidos. É incapaz de conhecer a verdade ou o dever.

2) O ato de raciocinar, inventar, progredir e falar. O homem raciocina: analisa, compara, julga suas idéias, deduz conseqüências, calcula, se dá conta das coisas, e sabe o que faz e por que o faz. Graças a esta capacidade, inventa as ciências, as artes, as industrias, etc. No entanto, o animal não raciocina nem calcula, nem tem consciência de seus atos; só se guia pelo seu instinto. Nunca aprenderá a escrever ou calcular; nem tampouco história, nem geografia, nem sequer o alfabeto. Não inventa nada nem faz progresso algum.

Só o homem fala. Por sua razão, o homem possui a palavra falada e a palavra escrita. Só o homem possui a intenção explícita e formal de comunicar o que pensa. O animal só lança gritos para manifestar o prazer ou a dor que sente.

3) Só o homem obra livremente. Tem liberdade para eleger entre as diversas coisas que lhe são apresentadas. Quando faz algo se diz: "Poderia muito bem não fazê-lo". O animal não é livre: tem por guia o instinto cego que não lhe permite deliberar ou eleger; por isso não responde aos seus atos, e se se lhe castiga depois de ter feito algo inconveniente é para que não o repita, não para que raciocine.

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Imortalidade da Alma Humana

Se prova que a alma é imortal:

) Um ser é naturalmente imortal quando é incorruptível. Agora bem, a alma é incorruptível, porque é simples, indivisível. Além disso, pode viver e obrar independentemente do corpo, porque é um espírito; logo é imortal por natureza. Um espírito não pode morrer (esta são provas racionais).

Se nossa alma devesse perecer, seria:

1) ou por encerrar em si mesma princípios de corrupção;
2) ou por não ter outra razão de existir que dar a vida ao corpo;
3) ou por aniquilá-la Deus. Pois bem, nenhuma destas três hipóteses pode ser admitida.

1) Nossa alma é incorruptível, ou seja, que não encerra em si nenhum princípio de dissolução e de morte. A morte não é mais que a decomposição, a separação das partes de um ser. Mas a alma não tem partes, pois é simples e indivisível; por isso não pode descompor-se, dissolver-se ou morrer;

2) A vida da alma não depende da vida do corpo. Já temos demonstrado que é espiritual (possui uma vida, a da inteligência, que é completamente independente de nossos órgãos corporais, em suas operações e em seu princípio). Por isso, esta vida não cessa no momento da morte, em virtude de sua natureza espiritual, nossa alma sobrevive ao corpo.

3) Nenhum ser pode aniquilar a alma, exceto Deus mas não o fará, como o provaremos depois. Logo, a alma é imortal, não por favor ou privilégio, senão porque tem, em sua natureza espiritual, os princípios de uma vida imutável.

) Temos um desejo natural e irresistível que de uma felicidade perfeita e de uma vida sem fim prova a imortalidade da alma. Agora bem, este desejo não pode ser satisfeito na vida presente e, por isso, deve ser satisfeito na vida futura; se não, Deus, autor da nossa natureza, teria se zombado de nós, dando-nos aspirações e desejos sempre defraudados, nunca satisfeitos. Isso não pode ser.

1) Todo homem que penetre em seu coração encontrará nele um imenso desejo de felicidade. Este desejo não é um efeito de sua imaginação, pois não é ele quem o deu, e não está em seu poder rejeitá-lo. Este desejo não é uma coisa individual, pois todos os homens o experimentaram e o experimentam diariamente. Esta aspiração brota, pois, do fundo de nosso ser e se identifica com ele. A felicidade é a meta sinalada por Deus à natureza humana. Agora bem, é possível que Deus tenha posto em nós um desejo tão ardente, que não possamos satisfazer? Nos criou para a felicidade, e nos colocou na impossibilidade de consegui-la? Evidentemente não, pois nesse caso Deus não seria Deus de verdade. Deus, que não engana o instinto de um inseto, enganaria o desejo que infundiu em nossa alma?

2) Mas esta felicidade perfeita não se encontra na terra: nada nesta vida pode satisfazer nossos desejos; todos os bens finitos não podem encher o vazio de nosso coração: ciência, fortuna, honra, satisfações de todas as classes, caem nele como em um abismo sem fundo. O homem, só o homem, busca em vão a felicidade, cuja imperiosa necessidade enche na alma. Nunca está contente, porque aspira a uma bem-aventurança completa e sem fim. Como não é feliz neste mundo, é necessário que encontre a felicidade na vida futura.

) Deus não pode aniquilar a alma. Absolutamente falando, poderia fazê-lo em virtude de sua onipotência; mas não o fará, porque não a criou imortal por natureza para destruí-la depois. Além disso isso opor-se-ia a seus atributos divinos: sua sabedoria e sua justiça.

As conseqüências práticas da imortalidade da alma

A crença na imortalidade da alma produz excelentes frutos: é para o homem consolo na desventura, causa da virtude, fonte dos maiores heroísmos. E ao contrário, a negação da imortalidade da alma produz frutos de morte. Se a alma deve morrer, não há virtude, nem dever, nem religião, nem sociedade possível. Tudo desmorona-se.

De um professor de seminário