|
Pelo Dr. Héctor
Guiscafré G.
Até agora, queridos leitores de "Familia
Católica", revisamos os deveres dos pais em quase todos os números
da revista, mas não tocamos no assunto dos deveres dos filhos para
com seus pais e vale a pena fazê-lo por três coisas:
a) Porque todos temos pais (vivos,
ausentes, falecidos ou desconhecidos);
b) Porque todos os deveres são perenes,
ou seja, enquanto vivamos (a exceção é a obediência, como explicarei
depois);
c) Porque devemos inculcar estes
princípios em nossos próprios filhos com a palavra e, sobretudo, com
o exemplo.
Primeiro dever: Ver
por eles, assisti-los, ajudá-los
Todos os deveres começam a valer na
idade em que se apresenta o uso da razão. Então desde muito
pequenos, devemos ir inculcando estes deveres, de acordo com o
desenvolvimento de seu intelecto. As crianças devem ajudar sempre no
que possam aos seus pais. Estar atrás deles, do que precisem, para
cooperar. Por exemplo, incluir em suas orações a seus pais, pedir a
Deus por eles.
Aproximar o chinelo ao pai ou a
almofada à mãe ou à avó. Mais adiante ajudar-lhes com as sacolas de
compras, ajudar-lhes a consertar algo, acompanhá-los quanto estão
sozinhos, etc. Teria mil exemplos aos jovens vivendo em casa, desde
pegar algo que caio no chão, até levá-lo para viver em sua casa, se
isto fosse fatível, quando a mãe ou ou o pai fiquem sozinhos e
idosos, ou ambas as coisas. Quase sempre é melhor estar com a
família que em um asilo, ao menos que existam graves problemas para
isso, de uma ou ambas as partes. E depois, na idade mais madura,
ainda que já estejamos casados ou velhos, ainda que tenhamos netos,
ainda que eles estejam ausentes por viagens ou separação ou morte,
ainda que não os conhecêssemos, devemos estar atrás deles para
assistir-lhes ou ajudar-lhes o mais que possamos.
Por exemplo: Sempre podemos rezar,
sofrer com paciência as penalidades da vida diária oferecendo a Deus
ou pedir uma missa por eles. Que maior ajuda pode haver que a de
receber a Graça de uma Missa estando no purgatório ou, melhor ainda,
estando ainda na luta desta vida? Coloco agora um exemplo negativo
muito claro para melhor mostrar o que quero dizer: Não é possível
ver uma mãe que trabalha por necessidade e um jovem de mais de 15 ou
16 anos que está vagueando; ou que estando ainda na escola não busca
uma forma de ajudar um pouco com os gastos da casa mediante um
trabalho, formal ou informal, mas honrado. Todos deveríamos examinar
como respondemos diante das necessidades físicas ou espirituais de
nossos pais e tentar, sinceramente, fazer melhor. Todos os pais
temos necessidades de uma ou outra índole, ricos e pobres, sábios e
pouco letrados, jovens ou idosos, bons ou maus.
Recordemos o que diz a SAGRADA
ESCRITURA: "Quão infame é aquele que desampara seu pai!"
Honrarás teu Pai e tua Mãe.
Filho, ampara teu pai na velhice, não o
contrarie, e se lhe faltasse o senso, perdoa-o e não o deprecies em
teu valor, porque a esmola dada ao pai não ficará no esquecimento!".
(Apliquemos essas sentenças aos dois: pai e mãe).
Segundo dever: Respeitá-los sempre
Talvez não haja, na SAGRADA ESCRITURA,
um dever tão minuciosamente detalhado como o do respeito dos filhos
para com seus pais. Somente no Eclesiástico existem 12 sentenças de
dever de respeitá-los e honrá-los. Eis aqui quatro delas:
- "Não se salvam os filhos que não
respeitam seus pais";
- "Quem honra seu pai viverá longos
anos";
- É bendito de Deus quem tributa a seus
pais a honra devida";
- É maldito de Deus e infame o que
despreza seus pais".
No antigo testamento se refere a
história de Tobias. Este jovem empreende uma viagem por encargo de
seus pais, acompanhado de um forasteiro que na realidade era um
anjo. A mãe de Tobias, que sentia muita falta dele, disse esse
elogia dele: "Ai de mim, meu filho! Para que te enviamos a terras
distantes se és a luz de nossos olhos, báculo de nossa velhice e
consolo de nossa vida?" Oxalá nossos pais tivessem esse conceito de
nós.
Assim, devemos a nossos pais todo o
respeito e veneração possível. Por eles nos veio a vida. Eles
receberam de Deus a autoridade sobre seus filhos durante sua
formação. São eles que alimentam, cuidam e ensinam os filhos, em
tempo integral, de dia e de noite, todos os dias do ano, até que vão
amadurecendo. Por tudo isso é que os filhos, depois de Deus, é aos
pais a quem devem mais gratidão e respeito. São seu primeiro
próximo, seu próximo mais imediato, o primeiro mandamento dos sete
que se referem ao próximo (O quarto da lei de Deus).
Podem ser - e é conveniente que assim
sejam - muito amigos os filhos dos pais, mas não por isso se deve
diminuir o respeito às coisas de Deus, que finalmente são os pais na
terra: os representantes de Deus e a forma que a providência de Deus
é exercida sobre os filhos.
O respeito aos pais é, além disso,
pedra angular em nossa sociedade. A sociedade é como uma grande
família, onde as diversas autoridades têm a dignidade paterna e os
cidadãos devem ter um respeito filial. Se se perde esse respeito,
podem-se rachar os fundamentos da sociedade. Não é raro observar, na
maioria dos países da atualidade, faltas de respeito incríveis: Se
faz zombaria, abertamente, às autoridades civis inclusive ao
presidente e, por outro lado, as pessoas, para se manifestarem, se
desnudam parcial ou totalmente na rua, e caminham - marcham - muito
ufanos, sem o menor pudor. Mais que libidinoso esse ato, dá pena ver
a falta de respeito à sociedade e a elas mesmas. Todo esse fenômeno
social se iniciou ou tem uma forte relação, com a falta de respeito
aos pais nas famílias, aos mestres nas escolas, aos chefes nos
trabalhos, aos policiais nas ruas. Por fim, não quero deixar passar,
algo importante: vocês me poderiam dizer: "Mais que respeitar,
devemos os filhos amar nossos pais já que se há amor, há respeito".
Ao que eu responderia: sim e não. Sim,
enquanto que, o que se ama de verdade, intensamente, se cuida, se
venera, não se quer fazer o menor dano e portanto se respeita. Mas
não é o mesmo. Deus não disse no quarto mandamento "amar teus pais",
senão honrá-los. Evidentemente que a maioria de nós amamos nossos
pais e tachamos ser um malvado ao que diga que não ama sua mãe, por
exemplo. Mas Deus que nos conhece muito melhor do que nós cremos nos
conhecer, nos pôs uma meta mais alta e justa de a que somente
amá-los. Porque honrar é respeitar uma pessoa que consideramos
superior, é venerá-la, reverenciá-la, acatá-la, enaltecê-la,
premiá-la. Se pode amar ou não, mas se deve honrar. E esse é o
mandamento: Honrarás teu pai e tua mãe. Não depende do quanto gostes
de teus pais o honrá-los mais ou menos. Não depende de que tão bons
ou maus sejam ou foram. A falta ao mandamento é não honrá-los. Por
isso estou parcialmente de acordo com vocês, amáveis leitores, se é
que assim opinavam. Se bem que é muito mais fácil respeitar a quem
muito se ama, nem sempre se respeita o que se ama.
Terceiro dever: a
obediência durante a etapa de formação dentro do lar
O terceiro dever dos filhos para com os
pais é o de obedecer-lhes. Os filhos não somente são procriados, por
isso devem a assistência aos pais, não somente são subordinados -
pelo que devem respeito e veneração - senão que também são
dependentes desses pais e, portanto, Deus lhes conferiu a autoridade
para poder educar e decidir sobre seus filhos, contato possam
valer-se por si mesmos, pelo que é um dever desses últimos, o de
obedecer.
Pois bem, os deveres de obediência não
pesam sobre os filhos sempre e na mesma forma. Assim diz um
conhecido moralista sobre esse assunto: "... o dever de obediência
se extingue com a pátria potestade, ou seja, ao emancipar o filho
por maioridade ou ao tomar estado". A razão é muito simples; eles
têm que madurar e se emancipar. Seria mal se continuassem sendo
filhos dependentes toda sua vida. Eles têm e devem seguir sua
vocação e para isso devem deixar seus lares e formar os seus, onde
Deus lhes dará seus filhos e assim sucessivamente.
O filho deve ser obediente porque não
nasce formado nem maduro, nem biológica, intelectual ou moralmente.
No entanto, este dever de obediência, não somente cessa com o tempo,
senão que nem sempre se dá com a mesma intensidade. À medida que vão
madurando os filhos, pelo labor dos pais, vão progressivamente
ganhando a confiança desses mesmos pais. Assim, pouco a pouco a
obediência deve ser substituída por uma atitude de gratidão e
reconhecimento, de respeito e veneração, que deve originar: um
desejo fervente de cumprir sua vontade, de fazer o que querem os
pais, mas que não obriga o filho a obedecer, quando já está formado
e saiu do lar. Este passo, da obediência absoluta à não obediência,
não é abrupto, senão que se vai dando paulatinamente.
Mas, vocês me dirão - e com muita razão
- "essa é a teoria, na prática da vida e em muitos casos, é muito
difícil assinalar os limites da autoridade dos pais e a obediência
dos filhos". E é assim, em efeito, muito difícil.
Mas não esqueçamos outro conceito muito
importante: quando o filho já é maior, terminou sua formação e já
pode voar sozinho, mas, por alguma razão, continua no lar, cessa a
obediência filial - como filho dependente já que em potência já é
independente - mas se deve manter a obediência aos superiores, como
o são os chefes de família. É uma obediência de espécie diferente,
parecida à dos trabalhadores de uma fazenda com seu patrão. Porque
em toda família deve haver ordem e cabeça e se o filho já maduro
participa dos bens familiares, deve cumprir com seus deveres e as
regras da casa; é o justo. Agora, quando o filho deixa o lar -
porque se casa ou toma estado religioso ou por sua profissão - aí
termina também esta obediência. Poderíamos resumir, em quanto ao
dever de obediência a seus pais, que existem três possíveis estados
de vida:
- Os filhos menores, com um dever de
obediência filial que vai diminuindo em relação direta com o
desenvolvimento físico, mental e espiritual da criança, até cessar a
pátria potestade;
- Os filhos maiores que seguem na casa
paterna, com um dever de obediência distinto ao filial pela
autoridade que têm os chefes de família em seu lar e por justiça,
devido a sua participação nos bens familiares;
- Os filhos que fizeram uma vida aparte
e que já não têm o dever de obediência de nenhum espécie ainda que
persista, para toda sua vida (dos filhos), o dever de assistência
espiritual ou material e o de respeito e veneração a seus pais.
Agora, me poderias dizer, amigo leitor,
que existem casos especiais e eu te diria: Sim, tens razão, cada
caso em particular é diferente e é necessária a católica adaptação a
cada situação, com o conselho de um bom sacerdote. Mas os
conceitos básicos dos moralistas católicos que revisamos, aí estão e
não mudam, são os mesmos sempre.
4º Mandamento da Lei de Deus: Honrarás
teu pai e tua mãe!, ou seja, os assistirá em suas necessidades, os
respeitará e os obedecerá.
Terminemos dizendo que, cumprir estes
três deveres: o de assistência, o de respeito e o de obediência, é o
que Deus nos mandou ao nos ordenar "honrarás teu pai e tua mãe". E
se não fazemos esses três deveres, faltamos ao 4º mandamento da lei
de Deus, como nos ensina, claramente, o último papa santo, São Pio
X, em seu catecismo o qual, na letra, diz:
O que nos manda o quarto mandamento?:
Honrará teu pai e tua mãe. Este mandamento nos manda respeitar ao
pai e à mãe, obedecer-lhes em tudo o que não é pecado e
assistir-lhes em suas necessidades espirituais e temporais.
Sigamos o exemplo da Sagrada Família.
Assim podemos ver claramente como devemos de ser os pais e como
devemos de ser os filhos. Peçamos à Santa Mãe de Nosso Senhor Jesus
Cristo, a Virgem Maria e a seu pai na terra, o Senhor São José, que
intercedam por nós, para que Deus nos dê a Graça necessária para
cumprir como eles com nossos deveres de pais e a Nosso Senhor Jesus
Cristo, que nos dê a Graça suficiente para cumprir, também, nossos
deveres de filhos e chegar a ser, como Ele foi:
Um bom filho, um filho que sempre
cumpriu com seus três deveres para com seus pais, um filho que
sempre os honrou... ou seja, que os assistiu, respeitou e
obedeceu... um filho perfeito!
Retirado da Revista "Familia
Católica" - Outono-inverno 2006 (APUD Site Convicción Radio).
|