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O JOVEM
INSTRUÍDO NA PRÁTICA DE SEUS DEVERES RELIGIOSOS
Nova
edição brasileira
S.Paulo
Escolas
profissionais salesianas
1937
A
Juventude
Dois são os ardis de que principalmente costuma servir-se o
demônio para afastar os jovens do caminho da virtude.O primeiro é
fazer-lhes crer que para servir a Deus é preciso levar uma vida
melancólica, longe de todo divertimento e prazer.Não é assim, queridos
jovens.quero ensinar-vos um plano de vida cristã, que vos faça felizes e
alegres e que, ao mesmo tempo, vos dê a conhecer quais são os
verdadeiros divertimentos e os verdadeiros gozos, de tal forma que
possais dizer com o santo profeta Davi: “Sirvamos a Nosso Senhor em
santa alegria: servíte Dómino in laetítia”.Tal é precisamente o fim
deste livrinho: Ensinar-vos a servir a Deus e a viver sempre alegres.
O outro engano é a esperança de ter uma longa vida e de converter-vos
mais tarde, quando velhos, ou na hora da morte.Tomai cuidado, meus
filhos, porque muitos foram vítimas deste engano.Quem nos garante que
chegaremos a velhice?Seria preciso fazer um contrato com a morte para
que nos esperasse até lá.Mas a vida e a morte estão nas mãos de Deus,
que delas pode dispor como melhor lhe agrada.
E ainda quando Nosso Senhor vos concedesse uma vida longa,
ouvi o grande aviso que vos dá: “A estrada que o homem começa a trilhar
na juventude, por essa mesma continuará na velhice até a morte.: Adoléscens juxta viam suam, etiam cum senúerit, non recédet ab ea”.Isto
significa: se começamos a viver bem agora que somos moços, continuaremos
a viver bem pela vida afora, teremos uma boa morte, que será o princípio
de uma felicidade eterna.Pelo contrário, se desde moços nos deixamos
dominar pelos vícios, geralmente assim continuaremos em todas as fases
de nossa vida até a morte, que será indicio funesto de uma infelicíssima
eternidade.Para que tal desgraça não vos aconteça a vós, aqui vos
proponho uma breve e fácil norma de vida, mas suficiente para vos
tornardes a consolação dos vossos pais, a honra da pátria bons cidadãos
na terra e mais tarde venturosos habitantes do Céu.
Esta pequena obra está dividida em três partes.Na primeira encontrareis
as coisas principais que deveis praticar e o que haveis de evitar para
viverdes como bons cristãos.Na segunda parte estão colecionadas várias
práticas devotas, que estão em uso nas paróquias e nas casas de
educação.Na última parte encontra-se o Ofício de Nossa Senhora, as
Vésperas de todo o ano e o Ofício dos Defuntos.No fim encontrareis ainda
um diálogo relativo aos fundamentos de nossa santa religião, de acordo
com as necessidades dos tempos, e por último uma coleção de cantos
sacros.
Meus caros amigos, eu vos amo de todo o coração; é me suficiente saber
que sois jovens, para que vos ame profundamente.Encontrareis autores
muito mais virtuosos e mais ilustrados do que eu, mas dificilmente
podereis achar alguém que mais do que eu vos ame em Jesus Cristo e mais
do que eu deseje a vossa verdadeira felicidade.Amo-vos porque conservais
em vosso coração o tesouro da virtude: enquanto possuis tal tesouro
tendes tudo; mas se o perderdes, vos tornareis os mais infelizes e
desventurados do mundo inteiro.
O Senhor
esta sempre convosco e faça com que, pela prática destas poucas normas,
possais alcançar a salvação da vossa alma e desta arte argumentar a
glória de Deus, único fim deste livrinho.
O Céu
vos conceda longos anos de vida feliz e consista sempre a vossa grande
riqueza no santo temor de Deus, que vos há de cumular de favores
celestiais no tempo e na eternidade.
Dom
Bosco.
Primeira Parte
Do que
necessita um jovem para ser virtuoso
ARTIGO
I.
Conhecimento de Deus
Observai, queridos filhos, tudo o que existe no Céu e na terra.O sol, a
lua, as estrelas, o ar, a água, o fogo; tempo houve em que todas estas
coisas não existiam.Nenhuma coisa pode jamais dar a existência a si
mesma.Deus com a sua onipotência, as tirou todas do nada, criando-as; é
por isso que Ele se chama Criador.
Este Deus, que sempre existiu e sempre há de existir, depois de ter
criado todas as coisas contidas no Céu e na terra, criou também o homem,
que é a mais perfeita de todas as criaturas visíveis.Por isso, os nossos
olhos, a boca, a língua, os ouvidos, as mãos, os pés, são todos dons do
Senhor.
O homem distingue-se de todos os outros animais, principalmente por ter
uma alma que pensa, raciocina, quer e conhece o que bem e o que é
mal.Esta alma, por ser um puro espírito, não pode morrer com o corpo;
mas, quando este for levado a sepultura, irá ela começar outra vida, que
mais há de acabar.Se praticou o bem, será sempre feliz com Deus no
Paraíso, onde gozará de todos os bens eternamente; se fez o mal, será
punida com um terrível castigo, no inferno, onde padecerá para sempre o
fogo e toda a sorte de tormentos.
Considerai contudo, meus filhos que nós fomos criados todos
para o Paraíso e Deus, que é Pai bondoso, condena ao inferno somente
quem o merecer pelos seus pecados.Óh! quanto o Senhor nos ama e quanto
deseja que façamos boas obras para assim poder-nos tornar participante
daquela grande felicidade, que tem reservada para todos eternamente no
Céu!
ARTIGO
II.
Deus tem
particular amor à juventude
Persuadidos que estamos, caros jovens, de que fomos todos criados para o
Céu, devemos dirigir todas as nossas ações para alcançar este grande
fim.A isto nos há de mover o prêmio que Deus nos promete, o castigo com
que nos ameaça.Mas o que mais que tudo nos deve levar a amá-Lo e a
servi-Lo, há de ser o grande amor que nos têm.Pois que, embora Ele ame a
todos os homens, como obra de suas mãos, consagra todavia um afeto todo
particular aos meninos e acha as suas delícias em permanecer no meio
deles: "Deliciae meac esse cum filiis hóminum". Deus vos ama, porque de vós
espera muitas boas obras; ama-vos porque estais numa idade simples,
humilde, inocente e, por via de regra, não vos tornaste ainda vítima do
inimigo infernal.
Há ainda outras provas não menores da especial benevolência que vos tem
o Divino Redentor.Ele assegura que considera como feitos a si mesmo
todos os benefícios que vos fizerem a vós e ameaça de maneira terrível
os que vos escandalizam.
Eis as suas palavras: “Se alguém escandalizar a um destes
pequeninos que crêem em Mim, melhor lhe fora que lhe atassem ao pescoço
uma mó de moinho e que o lançassem ao fundo do mar”.Gostava muito que os
meninos O seguisse, chamava-os para perto de Si, abraçava-os, e lhes
dava a sua santa benção. “Deixai, dizia, deixai que os meninos venham a
mim: 'Sínite párvulos veníre ad me'”; dando assim evidentemente a conhecer
que vós, ó jovens, sois as delícias do seu coração.
Visto que o Senhor vos ama tanto, deve ser vosso firme propósito
corresponder-Lhe, fazendo tudo o que lhe agrada e evitando tudo o que o
poderia desgostar.
ARTIGO
III.
A
salvação da alma depende geralmente
do tempo
da juventude
Dois são os lugares que nos estão reservados na outra vida: para os
maus, o inferno, onde se sofre todos os tormentos; para os bons, o
Paraíso, onde se goza todos os bens.Mas o Senhor vos diz claramente que
se vós começardes a ser bons no tempo da juventude, sereis igualmente no
resto da vida, a qual será coroada com uma eternidade de glória.Pelo
contrário, se começardes a viver mal no tempo da juventude, muito
facilmente continuareis assim até a morte, e isto vos conduzirá
inevitavelmente ao inferno.
Por isso, quando virdes homens de idade avançada entregues
ao vício da embriaguez, do jogo, da blasfêmia, podereis quase sempre
dizer que tais vícios começaram na juventude: Adoléscens juxta viam
suam, etiam cum senúerit, non recédet ab ea.Ah! filhos querido, diz
Deus, recorda-te do teu criador no tempo de tua juventude.Em outro lugar
declara feliz o homem que desde a sua adolescência tenha levado o jugo
dos mandamentos: Bonum est viro, cum poratáverit jugum ab adolescéntia
sua.
Esta verdade foi bem conhecida pelos santos, especialmente por santa
Rosa de Lima e por são Luis Gonzaga, os quais, tendo começado a servir
fervorosamente a Nosso Senhor desde a mais tenra idade, quando adultos
só achavam gosto nas coisas de Deus e assim se tornaram grandes santos.O
mesmo se diga do filho de Tobias que, desde o início de sua juventude,
foi sempre obediente e submisso aos seus pais:Este morreram e ele
continuou a viver virtuosamente até a morte.
Mas dirão alguns: se começamos agora a servir a Deus, tornaremos
tristonhos.Respondo-vos que isso não é verdade.Andarás triste quem serve
ao demônio, pois que, por mais que se esforce para estar alegre, terá
sempre o coração a lhe segredar entre lágrimas: És infeliz, porque és
inimigo do teu Deus.Quem mais afável e jovial que São Luis Gonzaga?Quem
mais alegre e gracioso do que São Felipe Néri e São Vicente de Paulo?E
contudo, a vida deles foi um contínuo exercício de todas as virtudes.
Animo pois, meus caros filhos; dedicai-vos em tempo á virtude e eu vos
garanto que tereis sempre o coração alegre e contente e experimentareis
quanto é doce e agradável o serviço do Senhor.
ARTIGO
IV.
A
Primeira Virtude de um jovem é a obediência aos seus pais e superiores
Assim como uma plantinha, embora
colocada em bom terreno, num jardim, contudo toma forma defeituosa e vai
definhando se não for cultivada e, de algum modo, guiada até certa
altura, assim vós, meus caros filhos, vos inclinareis fatalmente para o
mal, se não vos deixardes guiar por quem está encarregado da vossa
educação e do bem da vossa alma.Essa guia vós atendes nos vossos pais e
nos que fazem suas vezes; a eles deveis obedecer com docilidade. “Honra
teu pai e tua mãe e terás vida longa na terra”, diz o Senhor.
Mas em que consiste essa honra?consiste em obedecer-lhes,
respeitá-los e prestar-lhes assistência.Obedecer-lhes e por isso, quando
vos mandão alguma coisa, fazei-a prontamente, sem resistir, e
guardai-vos de proceder como alguns que resmungam, escolher os ombros,
sacodem a cabeça e, o que é pior, respondem mal.Esses fazem grande
injúria aos seus pais e também a Deus, pois que nas ordens dos pais se
manifesta a vontade de Deus.Nosso Salvador, apesar de ser onipotente,
para ensinar-nos a obedecer, foi submisso em tudo a Santíssima Virgem e
a São José, na humilde ocupação de artífice: "Et erat súbditus illis". Para
obedecer a seu Pai celeste ofereceu-Se á morte dolorosíssima da cruz:
"Factus obédiens usque ad mortem; mortem autem crucis".
Deveis também ter grande respeito a vosso pai e a vossa mãe
e não empreender coisa nenhuma sem sua licença, nem dar a conhecer seus
defeitos.São Luis Gonzaga não fazia coisa nenhuma sem licença e, na
falta de outrem, a pedia aos mesmos criados. O jovem Luis Comolo foi
obrigado um dia a estar longe de seus pais por mais tempo do que lhes
tinham permitido.Mas ao chegar em casa, todo choroso pediu logo
humildemente perdão daquela desobediência involuntária.
Finalmente, deveis prestar aos pais assistência em suas necessidades com
o serviços domésticos de que fordes capazes especialmente
entregando-lhes todo o dinheiro ou qualquer coisa que vos venha as mãos,
usando de tudo conforme suas indicações.É também estrito dever de um
jovem rezar de manhã e à noite pelos seus pais, para que Deus lhes
conceda todos os bens espirituais temporais.
Tudo o que vos disse a cerca da obediência e do respeito aos pais,
deveis também praticar em relação a qualquer outro superior,
eclesiástico ou secular, e por isso também em relação aos vossos
professores, dos quais igualmente recebereis de boa vontade, com
humildade e respeito os ensinamentos, os conselhos as correções, certos
de que tudo o que eles fazem é para a vossa maior vantagem e que a
obediência prestada aos superiores é como se fora prestada ao mesmo
Jesus Cristo e a Nossa Senhora.
Duas coisas vos recomendo com maior empenho. A primeira é que sejais
sinceros com os superiores, não encobrindo nunca as vossas faltas com
fingimentos, muito menos negando-as.Dizei sempre a verdade com
franqueza. As mentiras, além de ofenderem a Deus, vos tornam filhos do
demônio, que é o príncipe da mentira, e, vindo-se depois a saber a
verdade, passareis por mentirosos, com grande desdouro perante os
superiores e os companheiros.Em segundo lugar, vos recomendo que
aceiteis os conselhos e as advertências dos superiores como norma de
vossa vida e do vosso modo de agir.Felizes vós, se assim fizerdes; os
vossos dias serão venturosos, todas as vossas ações serão bem ordenadas
e servirão de edificação aos outros.Por isso, concluo dizendo-vos: O
menino obediente tornar-se-á santo; pelo contrário, o desobediente segue
um caminho que o levará a perdição.
ARTIGO
V.
Do
respeito que devemos ter ás igrejas e aos ministros sagrados
Á obediência e ao respeito aos superiores deve andar unido o
respeito ás igrejas e a todas as coisas da religião.Somos cristãos; por
isso devemos venerar tudo o que se relaciona com este estado de cristãos
e especialmente a igreja, que é chamada templo de Deus, lugar de
santidade, casa de oração.Tudo o que pedirmos a Deus na igreja,
alcançaremos: "Omnis enim qui petit áccipit".Ah! meus caros filhos, quanto
sois agradáveis a Jesus Cristo e que belo exemplo dais aos outros,
estando na igreja com devoção e recolhimento! Quando São Luis ia à
igreja, corria a gente para vê-lo e todos ficavam edificados pela sua
modéstia e pelo seu porte.Quando entrardes em uma igreja, evitai correr
e fazer ruído; mas, tomando água benta e depois de fazer a devida
reverência ao altar, ide ao lugar que vos está marcado e ajoelhando
adorai a Santíssima Trindade, rezando três glórias ao Pai.
Se ainda não for hora de começarem as funções religiosas,
podeis rezar as setes alegrias de Nossa Senhora ou fazer algum outro
exercício de piedade.Evitai com o maior cuidado ri na igreja ou falar
sem necessidade.É suficiente uma palavra ou um sorriso para dar mau
exemplo e incomodar os que assistem ás sagradas funções.Santo Estanislau kostka estava na igreja com tanta devoção, que muitas vezes
não ouvia quem o chamava, nem percebia os empuxes com os quais os seus
criados o advertiam que já era tempo de voltar para casa.
Recomendo-vos sumo respeito aos sacerdotes e aos
religiosos.Por isso recebei com veneração os avisos que vos derem; tirai
o chapéu em sinal de respeito, quando falais com eles ou quando os
encontrardes na rua.Deus vos livre de que chegueis a desprezá-los com
atos ou com palavras.Tendo alguns menino escarnecido do profeta Eliseu
dando-lhe apelidos, o Senhor os castigou fazendo sair de uma floresta
dois ursos, que, atirando-se a eles, mataram quarenta e dois.Quem não
respeita os ministros sagrados deve recear um grande castigo de Nosso
Senhor.Sempre que se falar deles, imitai o jovem Luis Comolo, o qual
costumava dizer: Dos ministros sagrados ou falar bem ou calar
absolutamente.
Por último, quero adverti-los que não deveis envergonhar-vos de ser
cristãos também fora da igreja!Por isso, quando passardes de ante das
igrejas ou de alguma imagem de Maria ou dos outros Santos, não deixeis
de tirar o chapéu em sinal de veneração.Desta arte mostrar-vos-eis
verdadeiros cristãos e Deus vos encherá de bênçãos por causa do bom
exemplo que dais ao próximo.
ARTIGO
VI.
Leitura
espiritual da palavra de Deus
Além das costumadas orações de manhã e da noite, peço-vos
que destineis também um pouco de tempo á leitura de algum livro, que
trate de coisas espirituais, como o livro da Imitação de Cristo, A Filotéia de São Francisco de Sales, A preparação para a Morte de Santo
Afonso Maria de Ligório, Jesus ao coração do Jovem, as vidas dos santos
e outros semelhantes.Da leitura de tais livros tirareis grandes
vantagens para a vossa alma.E se repetirdes aos outros o que lerdes ou
então se lerdes em presença deles, especialmente dos que não souberem
ler, fareis uma obra de caridade muito meritória perante Deus.
Mas ao mesmo tempo que vos inculco as boas leituras, tenho
que recomendar-vos, com todas as veras de minha alma, que fujais como da
peste dos maus livros e da má imprensa.Por isso, todo livro, todo jornal
ou folheto em que se fale mal da religião e de seus ministros ou em que
haja coisas imorais e desonestas, lançai-os logo para longe de vós, como
farias com um copo de veneno.Em tais casos deveis imitar os cristãos de Éfeso, quando ouviram São Paulo pregar sobre o dano que causaram os maus
livros.Aqueles fervorosos fiéis carregaram-nos as braçadas para a praça
pública e com eles fizeram uma fogueira, achando melhor queimar todos os
livros do mundo do que expor a alma ao perigo de cair no fogo
inextinguível do inferno.
Assim como o nosso corpo sem alimento adoece e morre, da mesma forma a
nossa alma definha, se não lhe dermos o seu alimento: o alimento da alma
é a palavra de Deus, isto é, as práticas, a explicação do Evangelho e o
Catecismo.Fazei pois toda diligência em estardes em tempo na igreja, e
portai-vos nela com a maior atenção aplicando a vós mesmos as coisas que
se relacionam com vosso estado.Recomendo-vos também muito que
freqüenteis o catecismo.Não digais: Já o estudei, já fiz a primeira
comunhão; pois que também nesse caso a vossa alma precisa de alimento,
como vosso corpo.E se a privais deste sustento, vos poreis em gravíssimo
perigo espiritual.Tomai também cuidado para não cairdes naquele ardil do
demônio, quando o sugere esse pensamento: Isto convém muito ao meu
companheiro Pedro; isto serve para Paulo.Não meus caros; o pregador fala
a todos e a sua intenção é aplicar a todos as verdades que está
explicando.Por outro lado, lembrai-vos que o que não serve para
corrigir-vos de coisas passadas, pode servir para preservar-vos de algum
pecado no futuro.
Ao
ouvirdes algum, procurai recordá-lo e durante o dia e especialmente à
noite antes de deitar-vos recolhei-vos um pouco para refletir sobre o
que ouviste.Se assim fizerdes tirareis grande vantagem para a vossa
alma.
Recomendo-vos também que façais todo o possível esses vossos deveres
religiosos nas vossas paróquias, sendo o vosso pároco especialmente
destinado por Deus para cuidar de vossas almas.
Meios de
perseverança
I. O
que devem fazer especialmente os jovens
ARTIGO
I.
Como se
ao de haver nas tentações
Também na vossa tenra idade, amados jovens o demônio vos arma laços para
vos cair em pecado e assim tornar a vossa alma sua escrava e inimiga de
Deus.Deveis pois vigiar atentamente para não sucumbirdes quando fordes
tentados, isto é, quando o demônio vos instiga a fazer mal.
Muito
contribuirá a preservar-vos das tentações o evitar as ocasiões, as más
conversas e os espetáculos públicos, onde não há nada de bom e de onde
sempre vem algum dano á alma.Procurai estar sempre ocupados no vosso
ofício, no estudo, no canto, na música e quando não tendes nada para
fazer, armai altarzinhos, arranjai imagens ou quadros ou ide
entreter-vos algum tempo em diversões honestas, bem entendido, com
licença dos pais.Faze com que o demônio não te encontre nunca
desocupado, diz São Jerônimo.
Quando fordes tentados, não espereis que a tentação se apodere de vosso
coração, mas fazei logo uma coisa para livrar-vos dela, ou pelo trabalho
ou pela oração.E se a tentação continuar, fazei o sinal da cruz, beijai
algum objeto, bento dizendo: Maria, auxílio dos cristãos, rogai por mim;
ou então: São Luis, fazei com que não ofenda o meu Deus.Indico-vos este
santo, porque foi proposto pela Igreja como padroeiro especial e modelo
da juventude.Ele, com efeito, para vencer as tentações, fugia de todas
as ocasiões; jejuava freqüentemente a pão e água, açoitava-se de tal
forma que as roupas, as paredes e o chão ficavam salpicados de seu
sangue inocente.Foi assim que são Luis obteve uma completa vitória sobre
todas as tentações.Assim a obtereis também vós, se procurardes imitá-lo
ao menos na mortificação dos sentidos, especialmente na modéstia, e se
vos encomendardes de coração a ele quando fordes tentados.
ARTIGO
II.
Remédios
para algumas ciladas de que o demônio usa para enganar a mocidade
O primeiro laço que o demônio costuma armar-vos para alcançar a ruína
das vossas almas, é sugerir-vos o pensamento de que será muito difícil
que durante quarenta, cinqüenta ou sessenta anos, que vos promete de
vida, possais caminhar pela difícil vereda da virtude, sempre afastados
dos prazeres.
Quando o demônio nos sugerir este pensamento, respondei-lhe:
Quem me assegura que eu chegue a essa idade?A minha vida está nas mãos
de Deus; pode ser que um dia de hoje seja o último da minha vida.Quantos
da minha idade estavam ontem alegres, cheios de vida e de saúde e hoje
são levados á sepultura!Quantos meus companheiros desapareceram deste
mundo na flor dos anos!E não poderia acontecer isto também a mim!E mesmo
quando tivéssemos que trabalhar alguns anos para Nosso Senhor, não
teremos uma recompensa extraordinária na eternidade de glória e de gozo,
no Céu!Além disto, nós vemos que os que vivem na graça de Deus estão
sempre alegres e também no tempo das aflições têm o coração feliz.Pelo
contrário, os que se entregam aos prazeres vivem mal humorados,
inquietos e por mais que se esforcem em achar a paz nos seus
divertimentos, sentem-se cada vez mais infelizes: "Non est pax ímpiis",
diz Nosso Senhor.
Acrescentará alguém: Somos moços; se começamos a pensar na eternidade,
no inferno, isto nos tornará melancólicos e pode até dar-nos volta ao
juízo.De acordo, que o pensamento de uma eternidade feliz, o pensamento
de um suplício que não há de acabar nunca mais, seja um pensamento
triste e aterrador.Dizei-me porém: Se só o pensar nisto pode dar volta
ao juízo, que seria se para lá fossemos realmente? Melhor será portanto
pensar nisso agora, para não cair no futuro, pois é certo que se nisso
pensarmos bem, não cairemos em tamanha desgraça.Observai porém que se é
triste o pensamento do inferno, enche-nos de consolação a esperança
daquele Paraíso onde se gozam todos os bens.Por isso é que os Santos,
enquanto pensavam seriamente na eternidade das penas, viviam em grande
alegria, com a firme esperança em Deus de serem delas preservados e de
chegar um dia a posse dos bens infinitos, que Nosso Senhor reserva a
quem o serve.Animo pois, ó meus caros, começai a servir ao Senhor e
experimentareis quanto é doce e agradável o seu serviço e de quanta
consolação encherá ele o vosso coração no tempo e na eternidade.
ARTIGO
III.
Para
conservar a bela virtude
Toda virtude é nos jovens precioso ornamento que os torna queridos de
Deus e os homens.Mas a virtude rainha, a virtude Angélica, a santa
pureza é um tesouro de tal valor, que os jovens que a possuem
tornaram-se iguais aos anjos de Deus no Céu, embora vivam ainda na
terra: Erunt sicut ángeli Dei in coelo, são palavras do Senhor.Esta
virtude é como o centro ao redor do qual se congregam e se conservam
todos os bens e se por desgraça se vier a perder, perdem-se também todas
as demais virtudes. "Venérunt autem mihi ómnia bona páriter cum illa", diz
o Senhor.
Mas esta
virtude, meus jovens, que vos torna outros tantos anjos do Céu, esta
virtude que tanto agrada a Jesus e a Maria, é muito combatida pelo
inimigo das almas, que costuma dar-vos terríveis assaltos para vo-la
fazer perder ou para levar-vos a manchá-la.Por este motivo eu vos indico
algumas normas ou armas espirituais, com as quais certamente
conseguireis conservar a virtude e repelir o inimigo tentador.
A arma principal é o recolhimento.A pureza é um diamante de grande
valor; ora, se alguém se expor com o tesouro a vista dos ladrões, corre
grande perigo de ser assassinado.São Gregório Magno declara que se
alguém carrega em publico um tesouro pela rua, é sinal que quer ser
roubado.
Ao recolhimento acrescentai o uso freqüente da confissão sincera, da
comunhão devota e a fuga dos que, com os atos ou com as conversas
mostram que não apreciam esta virtude.
Para
prevenir os assaltos do demônio, recordai aquele aviso do salvador: Este
gênero de demônio, isto é, as tentações contra a pureza, só se vencem
com o jejum e com a oração.Com o jejum, isto é, com a mortificação dos
sentidos refreando os olhos, a gula, fugindo do ócio, não dando ao corpo
senão o descanso estritamente necessário.Jesus Cristo recomenda que se
deve recorrer a oração, mas a oração fervorosa é cheia de fé, não a
deixando até que tenha sido afastada a tentação.Tendes também armas
formidáveis nas jaculatórias, isto é, invocando os santos nomes de
Jesus, e José e de Maria.Dizei portanto amiúde: Meu Jesus,
misericórdia.Jesus, salvai-me.Maria, concebida sem pecado, rogai por mim
que recorro a vós.Maria, auxílio dos Cristãos, rogue por mim.Doce
coração de Maria, sede a minha salvação.Sagrado coração de meu Jesus,
não Vos quero tornar a ofender.É também muito eficaz beijar o santo
Crucifixo, a medalha ou o escapulário de Nossa Senhora.
Mas, se todas as armas não foram suficientes para afastar a tentação
maligna, recorrei então á arma invencível, que é a presença de
Deus.Estamos nas mãos de Deus, que tudo vê, que é o Senhor absoluto de
nossa vida e pode fazer-nos morrer no instante.E nós teremos a ousadia
de ofendê-Lo em sua presença?O Patriarca José, quando estava como
escravo no Egito, sendo tentado para cometer uma ação nefanda, respondeu
logo á pessoa que o tentava: Como poderei eu cometer este pecado na
presença de meu Senhor?E vós dizei também: Como poderei eu deixar-me
induzir a cometer este pecado na presença de Deus, do meu criador, do
meu Salvador, Daquele Deus que só num instante pode tirar-me á vida,
como vez ao primeiro que cometeu estes gêneros de pecados?Na presença
Daquele Deus que, no mesmo ato em que eu O ofendo, pode precipitar-me
nas penas eternas do inferno?
De minha
parte, creio ser impossível que se deixe vencer de tais tentações e
perigos quem recorre ao pensamento da presença de Deus.
ARTIGO
IV.
Devoção
a Maria Santíssima
Um grande sustentáculo para vós, meus queridos filhos, é a
devoção a Maria Santíssima.Ouvi como ela vos convida: "Si quis est
párvulus, véniat ad me": Quem for pequenino, venha a mim.Si fordes seus
devotos, além da abundância das suas bênçãos neste mundo, ela vos
garante o paraíso na outra vida.Qui elúcidant me, vitam eternam
habébunt.Tende pois amais íntima convicção de que obtereis todas as
graças desta boa mãe, contanto que não peçais coisas que resultem em
vosso dano.Deveis pedir-lhe com insistência particularmente três graças,
que são necessárias para todos, mais especialmente para vós, meus caros
jovens.
A primeira é a de não cometerdes nunca nenhum pecado mortal durante a
vossa vida.Sabeis que significa cair em pecado mortal?Quer dizer
renunciar a sermos filhos de Deus para tornar-nos escravos de
satanás.Quer dizer perder aquela beleza que nos faz iguais aos Anjos aos
olhos de Deus, para tornar-nos deformes como demônios na sua
presença.Quer dizer perder todos os merecimentos já adquiridos para a
vida eterna; quer dizer ficar suspenso por um fio muito fraco por sobre
a boca do inferno; quer dizer fazer enorme injúria a uma bondade
infinita e é este maior mal que se possa imaginar.Oh! Sim, por quantas
graças vos obtenha Maria, seria todas inúteis sem esta graça de não cair
nunca em pecado mortal.Esta é graça que haveis de pedir de manhã e á
noite e em todas as vossas práticas de piedade.
A segunda graça que deveis pedir a Nossa Senhora é a de poder conservar
a preciosa virtude da pureza.O jovem que a conserva tem a maior
semelhança com os Anjos do Céu.Pelo que o seu anjo da Guarda o considera
como irmão e se alegra sobremaneira pela sua companhia.
Como me está muito a peito que todos os conserveis esta bela virtude,
vos indico ainda alguns outros meios para conservá-la do veneno que a
poderia contaminar.Antes de tudo evitai a companhia das pessoas de
diversos sexos.Entendamo-nos: Quero dizer que os meninos nunca devem
contrair familiaridades com meninas; de outra forma esta bela virtude se
acharia em grande perigo.A guarda dos sentidos contribui também
muitíssimo a conservação desta bela virtude.Evitai portanto todo excesso
no comer e no beber; evitai os teatros, os bailes e semelhantes
diversões, que são a ruínas dos bons costumes.
Mas guarde particularmente os olhos, que são as janelas pelas quais o
pecado entra no nosso coração e por onde o demônio, vêem a tomar posse
de nossa alma.nunca vos detenhais a olhar para as coisas contrárias, por
pouco que seja, á modéstia.São Luis Gonzaga nem sequer queria que lhe
vissem os pés, quando se deitava ou quando se levantava.
Outro menino, sendo interrogado porque fosse tão recatado na vista,
respondeu: Tomei a resolução de não fitar nunca o rosto de uma mulher,
para reservar os meus olhos para fixar pela primeira vez se não for
indigno formosíssimo da Mãe da Pureza, Maria Santíssima.
A terceira graça que deveis implorar solicitamente da Virgem
Imaculada é de poder sempre andar afastados da companhia daqueles jovens
que tem más conversas, isto é, certas conversas que não se fariam na
presença de vossos pais ou de alguma pessoa de respeito.Guardai-vos
destes tais, muito embora fossem eles vossos parentes.Posso garantir-vos
que ás vezes é mais prejudicial a companhia desses, do que a de um
demônio.Felizes vós, meus caros filhos, se fugirdes da companhia dos
maus!Então estareis certos de que trilhais o caminho do céu;
diversamente, correreis muito grande perigo de perder-vos para
sempre.Por isso quando virdes companheiros vossos proferirem blasfêmias,
desprezar as práticas religiosas para afastar-vos da igreja ou, pior
ainda, dizer palavras contrárias, por pouco que seja, á virtude da
modéstia, fugi deles como da peste.Ficai certos de que, quanto mais
puros forem os vossos olhares e vossas conversas, tanto mais Maria se
comprazerá em vós e maiores graças vos alcançará de seu Filho e Nosso
Redentor Jesus Cristo.
São essas três graças mais necessárias na vossa idade; e as alcançareis,
com certeza, de Nossa Senhora, se fordes sempre seus devotos sinceros,
rezando todos os dias o Santo Rosário ou ao menos três ave Maria e três
glórias com a Jaculatória: Querida Mãe Virgem Maria fazei que eu salve a
minha alma.
Com essas três graças trilhareis desde agora o caminho que vos há de
tornar homens honrados na idade madura.Nessas graças tereis também o
penhor certo da felicidade eterna que Maria Santíssima á de alcançar
infalivelmente aos seus devotos.
ARTIGO
V.
Advertências aos Jovens inscritos
em
alguma congregação ou Oratório
Se tendes a bela sorte de estar
alistados em alguma congregação ou oratório, procurai freqüentá-los
pontualmente e observai suas regras com exatidão.Recomendo-vos
especialmente que tenhais grande respeito aos diretores, procurando
pedir sempre a sua licença quando tiverdes que ausentar-vos.Na igreja
estai com toda a modéstia e em silêncio, lendo ouvindo ler algum livro
devoto até que comecem os Ofícios Divinos.Então, com alegria de espírito
e com recolhimento, cantai os louvores do Senhor.Quando tiverdes de
conversar-vos ou fazer a Santa Comunhão, procurai fazê-los na fossa
congregação ou oratório, porque isto será de bom exemplo e contribuirá
muito para animar os outros a freqüência destes sacramentos.
Excetua-se contudo a Comunhão da Páscoa, que convém que seja feita na
própria paróquia.Além disso, além disso, também outras vezes, quando
puderdes, procurai aproximar-vos dos Santos Sacramentos na igreja da
vossa paróquia, para dar bons exemplos aos outros e para conservar a
união com o vosso pároco.
Se no vosso oratório tendes a boa comodidade de passar o tempo de
recreio nos dias santos, tomai parte nele de boa vontade: mas evitai as
brigas dar apelidos aos companheiros mostrar-vos mal satisfeitos com os
brinquedos que forem designados.E quando ouvires ou presenciardes alguma
coisa inconveniente a esse lugar santo, ide logo avisar o superior, para
que se impeça toda ofensa de Deus.
Coisa ótima seria que os mais adiantados contassem exemplos edificantes
aos outros.
Cede
sinceros na palavras e evitai toda mentira, porque se fordes apanhados
em mentira, além de ofender a Deus, ficareis desmoralizados perante
vossos companheiros e superiores.Recomendo-vos que tenhais uma confiança
filial do vosso diretor, recorrendo a ele quando tiverdes alguma dúvida
de consciências.
Tendes também grande respeito a todos os demais superiores,
especialmente se forem sacerdotes; encontrando-os, tirai logo o
chapéu.Quando falardes com eles, respondei as suas perguntas com
humildade e sinceridade.Os que são escolhidos para serem cantores,
assistentes e cargos semelhantes, tenham grande empenho em mostrar que
são os mais exemplares e zelosos nas práticas de piedade.A todos, por
fim, recomendo grande exatidão na observância das regras porfiando cada
um em ser o mais fervoroso, modesto e pontual nos exercícios de devoção.
ARTIGO
VI.
O Jovem
na Escolha do Estado
Nos seus eternos desígnios, Deus
marcou a cada um de nós uma determinada condição de vida e as graças
relativas.Como em todos os casos, também neste, que é de capital
importância, deve o cristão procurar conhecer á vontade divina, imitando
assim a Jesus Cristo, que protestava ter vindo ao mundo somente para
cumprir a vontade do seu Eterno Pai.
É pois de suma importância, meus filhos, que procureis enxergar bem
claramente neste assunto, para não vos iniciardes em estados e ocupações
as quais o Senhor não vos destina.A uma alma favorecida por Deus de modo
singular, manifestou Ele por via extraordinária o estado a que a
chamava.Vós não pretendais tanto, mas consolai-vos com a segurança de
que Deus vos guiará pelo reto caminho, contanto que da vossa parte não
descuideis dos meios oportunos para tomar uma prudente determinação.
Um destes meios é conservar-se ilibado durante a infância e juventude,
ou reparar com uma sincera penitência os anos passados infelizmente no
pecado.
Outro
meio é a oração humilde e perseverante.Será bom repetir com São Paulo:
Senhor, que quereis que eu faça? Ou então com Samuel: falai, Senhor, que
o vosso servo vos escuta; ou com o Salmista: Ensinai-me a fazer a Vossa
vontade, porque sois Vós o meu Deus, ou alguma outra efetuosa aspiração
semelhante a estas.
Quando tiverdes de chegar a uma determinação, dirigi-vos a Deus com as
mais especiais e freqüentes orações; aplicai para este fim a Santa Missa
que ouvirdes, aplicai algumas comunhões.Podereis também fazer alguma
novena, algum tríduo, alguma abstinência, visitar algum santuário
célebre.
Recorrei também a Nossa Senhora, que é a Mãe do bom conselho; a São
José, seu esposo, que sempre foi fidelíssimo ás ordens divinas; o Anjo
da guarda, aos vossos Santos Padroeiros.
Ótima coisa seria, sendo possível, antes de tomar uma decisão de tamanha
importância, fazer os exercícios espirituais ou algum dia de retiro.
Prometei que haveis de fazer a vontade de Deus, aconteça o que acontecer
e apesar da desaprovação de quem julga de acordo com o ponto de vista do
mundo.
Acontecendo que os pais onu outras pessoas de respeito quisessem
dissuadi-vos do caminho ao qual Deus vos chama, lembrai-vos que então é
o caso de por em prática o grande aviso do Evangelho, isto é, de
obedecer de preferência a Deus que aos homens.Não esqueçais
absolutamente o respeito e a honra que lhes deveis; respondei e tratai
sempre com humildade e mansidão, mas sem prejudicar o supremo interesse
da vossa alma.Tomai conselho sobre o modo de vos haverdes e confiai
naquele que tudo pode.Consultai pessoas prudentes e amigas de Deus,
especialmente o confessor, declarando com toda a clareza o vosso caso e
as vossas disposições.
Quando
São Francisco de Sales manifestou em sua casa que Deus o chamava ao
sacerdócio, os pais lhe observaram que, na qualidade de primogênito da
família, devia ser seu apoio e sustentáculo, que a inclinação ao estado
eclesiástico provinha de uma devoção indiscreta e que ele poderia
perfeitamente tornar-se santo também vivendo no mundo; e até, para
melhor levá-lo secundar as suas intenções, propuseram-lhe um casamento
muito vantajoso.Mas nada pôde demovê-lo do seu propósito.Antepôs
constantemente à vontade de Deus á vontade dos pais, a quem amava com
toda a ternura e dedicava profundo respeito.Preferiu renunciar a todas
as vantagens temporais, a ter que faltar á graça da vocação.E os pais,
que, não obstante alguma idéia menos reta, derivada do ponto de vista
mundano, eram pessoas piedosas, mais tarde tiveram que declarar-se
satisfeitos com a resolução do filho.
II. o
que especialmente devem os jovens evitar
ARTIGO
I.
Fugir do
ócio
O laço principal que o demônio arma á
juventude é o ócio, origem funesta de todos os vícios.Persuadi-vos pois,
meus caros jovens, que o homem nasceu para trabalhar e quanto evita o
trabalho, está fora do seu centro e corre grande perigo de ofender a
Deus.O ócio diz o Espírito Santo, é o pai de todos os vícios e a
ocupação os combate e os vence a todos.Nada atormenta mais os condenados
no inferno do que o pensamento de ter passado no ócio aquele tempo, que
Deus lhe tinha dado para se salvarem.Pelo contrário, nada há que tanto
console os bem-aventurados no paraíso, quanto a pensar que um pouco de
tempo empregado na glória de Deus lhes proporcionou uma felicidade
eterna.
Não quero com isso dizer que deveis andar ocupados desde a manhã até à
noite, sem nenhum descanso: eu vos quero bem e vos concedo de boa mente
aquelas diversões que não são pecado.Todavia, não posso deixar que
recomendar-vos de preferência aquelas coisas que, enquanto servem de
recreio, também podem ser alguma utilidade.
Por exemplo, o estudo da história, de geografia e das artes
mecânicas e liberais e outros estudos e trabalhos domésticos, os quais,
enquanto vos distraem, podem dar-vos conhecimentos úteis e honestos e
contentar os vossos superiores.Podeis, além disso, também divertir-vos,
bem entendido, em jogos e divertimentos lícitos, capazes de recrear-vos
sem se vos tornarem de peso.Antes porém pedi a devida licença e daí
preferência aos jogos que requerem destreza de movimentos, por serem os
mais úteis á saúde.Longe de vós certos enganos, pequenas fraudes,
trapaças, certos ditos picantes, que muitas vezes causam discórdias e
ofendem os vossos companheiros.No brinquedo na conversação ou em outro
qualquer passatempo, elevai alguma vez o vosso pensamento a Deus,
oferecendo aqueles mesmos divertimentos para sua honra e glória.Ómnia in
glóriam Dei fácite, escreve São Paulo.São Luis, enquanto se entretinha
uma vez brincando alegremente com outros seus companheiros, ao ser
interrogado que teria feito, se naquele instante viesse um Anjo avisá-lo
que, depois de um quarto de hora, Deus o teria chamado ao seu tremendo
juízo, prontamente respondeu que teria continuado a brincar: “Porque
estou, acrescentou, que estes divertimentos agradam a Deus”.
O que muito encarecidamente vos recomendo, quanto aos passatempos e
recreios, é que fujais, como da peste, dos maus companheiros.
ARTIGO
II.
Fugir
dos maus companheiros
Há três espécies de companheiros: os bons, os maus e os que não são
totalmente maus, mas nem são bons.Com os primeiros podeis entreter-vos e
tirareis proveitos; com os últimos, tratai quando houver necessidade,
sem contrair nenhuma familiaridade.Quanto aos maus, esses devem-se
absolutamente evitar.Mas quais são esses maus companheiros?Prestai
atenção e ficareis sabendo quais sejam.
Todos os jovens que na vossa presença não se envergonham de ter
conversas obscenas, de dizer palavras equívocas ou escandalosas,
murmurações, mentiras, juramentos vãos, imprecações, blasfêmias, ou
então procuram afastar-vos das coisas da igreja, os que vos aconselham a
roubar, a desobedecer aos vossos pais ou a transgredir algum dever
vosso, todos esses são maus companheiros, ministros de satanás, dos
quais deves fugir mais do que da peste e do diabo em pessoa.Ah! meus
caros, com as lágrimas nos olhos eu vos suplico que eviteis e aborreçais
tais companhias.
Ouvi o que diz o Nosso Senhor: quem andar com o virtuoso
será também virtuoso.O amigo dos estultos tornar-se-á semelhante a
ele.Foge do mal companheiro como da mordedura de uma cobra venenosa: quasi a fácie cólubri (Eccl. XXI, 22).Em suma, se andardes com os bons,
eu vos afianço que ireis com os bons ao Paraíso.Pelo contrário,
freqüentando companheiros perversos, vos pervertereis também vós, com
perigo de perder irremediavelmente a vossa alma.
Dirá alguém: São tantos os meus companheiros, que seria preciso sair
deste mundo para evitá-los todos.Bem sei que são muitos numerosos os
maus companheiros e é por isso mesmo que vos recomendo com empenho que
fujais deles.E se, para não tratar com eles, fosseis obrigados a ficar
sozinhos, felizes de vós, porque teríeis em vossa companhia Jesus
Cristo, a bem-aventurada Virgem e o vosso Anjo da Guarda.Poderemos
encontrar companheiros melhores do que esses?
Contudo pode-se também ter bons companheiros e serão os que
freqüentemente os S.S. Sacramentos da Confissão e da Comunhão, os que
freqüentam a igreja, os que com as palavras e como exemplo vos incitam
ao cumprimento dos vossos deveres e vos afastam da ofensa de Deus.A
estes deveis freqüentar e tirareis muito proveito.
Desde
que Davi, quando jovem, começou a freqüentar um bom companheiro chamado
Jónatas, tornaram-se ambos bons amigos com proveito recíproco, porque um
animava ao outro na prática da virtude.
ARTIGO
III.
Evitar
as más conversas
Quantos jovens estão no inferno por ter dado ouvidos ás más
conversas!Estas verdade já a inculcava São Paulo, quando dizia que as
conversas inconvenientes nem sequer se devem nomear entre cristãos,
porque são a ruína dos bons costumes: Corrúmputi mores collóquia
mala.Fazei de conta que as conversas são como os alimentos: por muito
bom que seja um prato é suficiente que sobre ele caia uma só gota de
veneno para dar a morte aos que dele comerem.O mesmo acontece com a
conversação obscena.Uma palavra, um gesto, um gracejo basta para ensinar
a malícia a um ou também a muitos meninos, os quais tendo vivido até
então como inocentes cordeirinhos, por causa daquelas conversas e maus
exemplos perdem a graça de Deus e se tornam infelizes escravos do
demônio.
Poderá alguém dizer: Conheço as funestas conseqüências das
más conversas; mas como se há de fazer?Estou numa casa, numa escola, num
serviço, em uma casa de negócio, em um lugar onde se fazem más
conversas.Infelizmente, meus caros jovens, sei que há desses casos; por
isso vos indico o modo de sairdes dessa dificuldade sem ofender a
Deus.Se são pessoas inferiores a vós, corrigi-as com rigor; dado o caso
que sejam pessoas a quem não convenha admoestar , fugi, se vos for
possível; não podendo, ficai firmes em não tomar parte nem com palavras,
nem com os sorrisos e dizei no vosso coração: Meu Jesus, misericórdia.E
se, apesar destas precauções, vos achardes ainda em perigo de ofender a
Deus, dar-vos-ei o conselho de Santo Agostinho, que diz: Apprechénde
fugam, si vis reférre victóriam. Foge, abandona o lugar, a escola, a
oficina, suporta todos os males deste mundo, ante que a morar em um
lugar ou tratar com pessoas que põem em perigo a salvação da tua
alma.Porque diz o Evangelho, melhor é sermos pobres, desprezados, sofrer
que nos cortem os pés e as mãos e até que nos arranquem os olhos e ir
assim ao Céu, antes que ter tudo o que desejamos no mundo e depois
perder-nos eternamente.
Pode às vezes acontecer que algum companheiro vos escarneça
e se ria de vós, mas não importa: tempo virá em que o riso e o sarcasmo
dos malvados se transmudará em pranto no inferno e o desprezo dos bons
se converterá na mais consoladora alegria no céu: Tristítia vestra
vertétur in gáudium.Notai contudo que, permanecendo vós fiéis a Deus,
acontecerá que os vossos mesmos detratores será obrigados a prezar a
vossa virtude, já não se atreverão a molestar-vos com os seus perversos
motejos.
Onde se achava São Luis Gonzaga, ninguém já se atrevia a proferir
palavras menos honestas, e si ele chegava na ocasião em que outros as
pronunciavam, diziam logo: Silêncio!Ai vem Luis.
ARTIGO
IV.
Evitar o
escândalo
A palavra escândalo quer dizer tropeço e chama-se escândalo aquele que
com palavras ou obras dá a outrem ocasião de ofender a Deus.O escândalo
é um pecado enorme, porque rouba a Deus as almas que ele criou para o
Céu e que foram resgatadas com o sangue precioso de Jesus Cristo, e as
rouba para entregá-las ao demônio, que as conduzirá ao inferno.Dessa
maneira, o escandaloso pode ser chamado um verdadeiro ministro de
Satanás.Quando o demônio com os seus artifícios não consegue de outra
forma apoderar-se de algum jovem, costuma servir-se dos escandalosos.De
que enormes pecados sobrecarregam sua consciência aqueles jovens que na
igreja, nas ruas, nas escolas ou em outros lugares dão escândalos!
Quanto mais numerosas são as pessoas que os vêem, tanto mais grave é a
sua culpa aos olhos de Deus.E que deveremos dizer dos que chegam até a
ensinar a malícia aos que são ainda inocentes? Ouçam esses infelizes o
que lhes diz o Salvador.Tendo tomado um dia uma criança pela mão,
voltou-se para as turbas que o escutavam e disse: “Ai de quem der
escândalo a um deste pequeninos que crêem em mim; infelizmente há
escândalos no mundo, mas ai de quem der escândalo: melhor lhe fora que
lhe atassem ao pescoço uma mó de moinho e o atirassem ao fundo do
mar”.Se fosse possível tirar os escândalos do mundo, quantas almas iriam
ao Paraíso, as quais, pelo contrário perdem-se eternamente no
inferno!Guardai-vos pois desta raça de criminosos: fugi deles como do
mesmo demônio.
Uma menina de poucos anos, ao ouvir uma conversa
escandalosa, disse a quem falava: “foge daqui, ó demônio maldito”.Se
vós, meus caros, quereis ser verdadeiros amigos de Jesus e de Maria,
deveis não somente fugir dos escandalosos, mas empenhar-vos em reparar
com o vosso bom exemplo o grande mal que eles causam ás almas.Por isso,
as vossas conversas sejam boas e modestas; sede devotos na igreja,
obedientes e respeitadores para com vossos superiores.Oh! quantas almas
então imitando-vos trilharão o caminho do Céu! E vós tereis a certeza de
para lá ir em sua companhia, pois, como diz Santo Agostinho, o que
alcança a salvação de uma alma pode fundadamente esperar que há de
salvar a sua: Animam salvásti, animam praedestinásti.
São
estas as principais coisas das quais vós, meus caros jovens, deveis
fugir no mundo, se quiserdes seguir uma norma de vida virtuosa e cristã.
Sete
Considerações
Para os
vários dias da semana
Desejando eu muito que cada dia façais um pouco de leitura espiritual, e
como acho que nem todos podeis ter á mão livros apropriados para isto,
apresento-vos aqui sete breves considerações, uma para cada dia da
semana, com o fim de servirem aos que não podem ler outros livros deste
gênero.Antes de começar a leitura, reze de joelhos esta oração:
“Meu
Deus, arrependo-me de todo meu coração de vos ter ofendido; concedei-me
a graça de compreender bem as verdades que vou meditar e abrasai-me no
vosso amor.Virgem Maria, Mãe de Jesus, Anjo de minha guarda, Santos e
Santas do Céu, roguem por mim”.
Domingo
Fim do homem
Considera, meu filho, que este teu corpo, esta tua alma te foram dados
por Deus, sem nenhum merecimento de tua parte, quanto te criou á sua
imagem.Ele te fez seu filho no Santo Batismo; amou-te e ama-te ainda com
ternura de pai e criou-te para este único fim: para que o ames e o
sirvas nesta vida e possas assim ser um dia eternamente feliz com Ele no
Céu.
Não estás portanto no mundo somente para gozar, nem para enriquecer, nem
para comer, beber e dormir, como os animais; o teu fim é muitíssimo mais
nobre e mais sublime; o teu fim é amar e servir ao teu Deus e salvar a
tua alma.Se assim fizeres, quantas consolações, experimentarás na hora
da morte! Mas se não procurares servir a Deus, quantos remorsos terás no
fim da vida! As riquezas, os prazeres que buscaste com tanto empenho,
somente te servirão para amargurar o teu coração e então conhecerá o mal
que tais coisas fizeram á tua alma.
Meu filho, não queiras de modo algum ser do número daqueles que pensam
somente em satisfazer o corpo com atos, conversas e divertimentos
maus.Naquela hora extrema, esses se encontrarão em grande perigo de se
condenarem eternamente.Um secretário do rei da Inglaterra expirava
dizendo: “Ai de mim! Gastei tanto papel em escrever as cartas do meu
príncipe e não usei uma folha para tomar nota dos meus pecados e fazer
uma boa confissão!”.
Torna-se ainda maior aos teus olhos a importância deste fim,
se consideras que dele depende a tua salvação ou a tua perdição.Se
salvas a alma, tudo estará bem e gozarás para sempre; mas se não
alcançares isto, perderás alma e corpo, Deus e Paraíso e serás condenado
para sempre.Não imiteis aqueles infelizes que se iludem dizendo:
“Cometerei este pecado, mas depois me confessarei”.Não te enganes a ti
mesmo desta forma: Deus amaldiçoa a quem peca na esperança do perdão: Maledictus homo qui peccat in spe. Lembra-te que todos os que estão no
inferno tinham esperança de emendar-se mais tarde e no entanto se
perderam eternamente.Quem sabe se depois terás tempo para confessar-te?
Quem te garante que não hajas de morrer logo depois do pecado e que a
tua alma não seja precipitada no inferno? Além disso, que grande loucura
não seria ferir-te a ti mesmo na esperança de que o médico te venha
depois curar a ferida? Afasta pois a enganadora idéia de poderes
entregar-te a Deus mais tarde; neste mesmo momento detesta e abandona o
pecado, que é o maior de todos s males e que, afastando-te de teu fim,
te priva de todos os bens.
Quero ainda indicar á tua consideração um laço terrível com que o
demônio prende e arrasta á perdição tantos cristãos: é deixar que
aprendam as coisas da religião, mas não as pratiquem.Eles sabem que
foram criados por Deus par amá-Lo e servi-Lo e entretanto, com suas
obras, parece que buscam somente a própria ruína.Quantas pessoas não
vemos nós neste mundo que em tudo pensam menos em salvar-se? Se digo a
um jovem que freqüente os Sacramentos que faça um pouco de oração,
responde-me: “Tenho mais que fazer; preciso trabalhar, preciso
divertir-me”.Ó infeliz! E acaso não tens uma alma para salvar?
Por isso, tu, ó jovem cristão, que lês esta consideração, vê
lá, não te deixes enganar desta maneira pelo demônio; promete a deus que
tudo o que fizeres ou disseres e pensares no futuro será para o bem da
tua alma; porque seria a maior loucura ocupar-te com tanto empenho no
que acaba tão depressa e pensar tão pouco na eternidade, que nunca há de
acabar.São Luis podia ter prazeres, riquezas e honras, mas renunciou a
tudo dizendo: “Que me serve tudo isto para a minha eternidade?” – “Quid haec ad aeternitátem?”.Conclui também tu da mesma maneira: “Tenho uma
alma; se a perco, perco tudo.Que me vale ganhar o mundo inteiro, se isto
for com prejuízo de minha alma? Quid enim pródest hómini, si mundum
univérsum lucrétur, ánimae vero suae detriméntum patiátur?”. De que me
serve vir a ser um grande homem, um ricaço, adquirir fama de sábio
tornando-me conhecedor de todas as artes e ciências deste mundo, se
depois vier a perder a minha alma?.De nada te serviria toda a sabedoria
de Salomão, se vieres a perder-te.
Dize pois assim: “Fui criado por Deus para salvar a minha alma e a quero
salvar a todo o custo; quero que no futuro o único fim das minhas ações
seja amar a Deus e salvar a minha alma.Trata-se de ser ou para sempre
feliz ou para sempre infeliz.Perca-se tudo contanto que me salve! Meu
Deus, conceda-me o perdão dos meus pecados e fazei que não caia jamais
na desgraça de ofender-vos. Ajudai-me com a vossa santa graça para que
possa fielmente amar-Vos e servir-Vos fielmente no futuro.Maira, minha
esperança, intercedei por mim”.
Segunda-feira
O pecado
mortal
Oh! Se soubesses, meu filho, o que fazes quando cometes um
pecado mortal?Dás as costas aquele Deus que te criou e te cumulou de
benefícios; desprezas a sua graça e a sua amizade.Quem peca diz com os
fatos ao Senhor: “Apartai-vos de mim, já não quero obedecer-Vos, não vos
quero servir, não vos quero reconhecer por meu Senhor: Non sérviam.O meu
Deus é aquele prazer, aquela vingança, aquele ódio, aquela conversação
obscena, aquela blasfêmia”.Poder-se-á imaginar ingratidão mais
monstruosa do que esta?Entretanto, meu filho, tudo isto fizeste quando
ofendes-te ao teu Senhor.
Maior ainda se torna esta ingratidão, refletindo que, para pecar,
serviste das mesmas coisas que Deus te deu.Ouvidos, olhos, boca, língua,
mãos, pés, são todos dons de Deus e tu deles te serviste para ofendê-Lo!
Ah! Ouve pois o que te diz o Senhor: “Filho, eu te criei do nada; dei-te
tudo o que agora tens, fiz-te nascer na verdadeira religião e receber o
Santo Batismo.Podia deixar-te morrer quando estavas no pecado:
conservei-te a vida para não te condenar ao inferno; e tu, esquecido de
tantos benefícios, queres servir-te dos meus próprios dons para
ofender-Me?”.Quem não se sentirá tomado de profundo pesar por ter feito
tamanha injúria a um Deus tão bom, tão benfazejo para conosco, suas
criaturas?
Deves ainda considerar que este Deus, embora seja bom e
infinitamente misericordioso, todavia fica muito indignado quando o
ofendes.Por isso, quanto mais tempo viveres no pecado, tanto mais vais
provocando e acumulando a ira de Deus contra ti.Deves portanto recear
muito que os teus pecados cheguem a tal número que Ele por fim te
abandone.In plenitúdine peccatórum púniet. Não que isto aconteça por te
faltar a misericórdia divina, mas é que te faltará o tempo para pedir
perdão, pois que não merece a misericórdia de Deus quem abusa para
ofendê-Lo.Com efeito, quantos viveram no pecado na esperança de
converter-se e entretanto chegou a morte e faltou-lhes o tempo para
disporem os negócios da consciências e agora estão eternamente
perdidos!Teme que não te venha acontecer a mesma coisa a ti.Depois de
tantos pecados que Deus te perdoou, deves com razão recear que, com mais
algum pecado mortal, a ira divina te fulmine e te precipite no
inferno.Dê graças a Deus por ter-te esperado até agora e toma desde já
uma firme resolução dizendo: “Basta, meu Deus; o pouco de vida que ainda
me resta não a quero desperdiçar em ofender-Vos; hei de empregá-la em
vos amar e chorar os meus pecados.Arrependo-me de todo o coração.Meu
Jesus, quero amar-Vos; dê-me força.Virgem santíssima, Mãe de meu Jesus,
ajudai-me.Assim seja”.
Terça-feira
A morte
A morte é a separação da alma do corpo, como total abandono das coisas
deste mundo.Considera portanto, meu filho, que a tua alma deverá
separar-se do corpo; mas não sabes se a morte te assalta na tua cama, ou
durante o trabalho, ou na rua, ou em outra parte.A ruptura de uma veia,
um catarro, uma hemorragia, uma febre, uma chaga, uma queda, um
terremoto, um raio, bastam para te tirar a vida.Isso pode acontecer
daqui a um ano, daqui a um mês, a uma semana, a uma hora e talvez ao
terminar a leitura desta consideração.Quantos se deitaram à noite cheios
de saúde e de manhã foram encontrados mortos!Quantos acometidos de algum
ataque morreram de repente!E depois para onde foram?Se estava na graça
de Deus, felizes deles!Gozarão para sempre.Se, pelo contrário, se
achavam em pecado mortal, estão para sempre perdidos.Dizei-me, filho, se
tivesses que morrer neste instante, o que seria de tua alma?Ai de ti, se
não te manténs sempre preparado!Quem não está hoje preparado para bem
morrer, corre grande perigo de morrer mal.
Embora seja incerto o lugar e incerta a hora de tua morte, é porém muito
certo que a morte há de vir.Quero esperar que a última hora de tua vida
não venha repentinamente ou de modo violento, mas aos poucos e precedida
de uma doença comum.Mas há de chegar um dia no qual, estendido numa
cama, estarás prestes a passar a eternidade, assistido por um sacerdote
que encomendará tua alma, tendo um crucifixo ao lado e uma vela acesa do
outro, e derredor os aparentes que choram.Terás a cabeça dolorida, os
embaçados, a língua ressequida, a garganta presa, a respiração ofegante,
o sangue a arrefecer, o corpo consumido, o coração aflito. E logo que a
alma expire, o teu corpo vestido de poucos andrajos será a apodrecer em
uma cova.Ai os ratos e os vermes roeram todas as tuas carnes e de ti
restaram apenas quatros ossos descarnados e um pó nauseabundo.Abri um
sepulcro e vê a que ficou reduzido aquele jovem rico, aquele ambicioso,
aquele soberbo.Lê com atenção estas linhas, meu filho, e lembra-te que
elas se aplicam também a ti igualmente como a todos os demais
homens.Agora o demônio,para induzir-te a pecar, procura arrancar-te
deste pensamento e levar-te a escusar a tua culpa, dizendo-te não ser
enfim tão grande mal aquele prazer, aquela desobediência, aquela omissão
da missa nos domingos; mas na hora da morte descobrir-te-á a gravidade
destes e de outros teus pecados, pondo-os diante de ti.E que haverás de
fazer tu então, no ponto de te encaminhares para tua eternidade?Ai de
quem, se achar em desgraça de Deus naquele momento!
Considera que do instante da morte depende a tua eterna
salvação ou eterna perdição.Nas proximidades da morte, ao avizinhar-se
aquela ultima vez que se fecha a boca, a luz daquela vela, quantas
coisas se hão de ver!Duas vezes temos diante de nós uma vela acesa:
Quando somos batizados e em ponto de morte; a primeira vez, para
conhecermos os preceitos da lei divina que devemos guardar; A Segunda,
para que vejamos se os temos cumprido.Por isso, meu filho, a luz dessa
vela as de ver se amas-te o teu Deus ou se o desprezas-te; se honras-te
o seu santo nome ou se O blasfemas-te; hás de ver os dias santos
profanados, as missas deixadas, as desobediências aos superiores, os
maus exemplos dados aos companheiros; verás aquela soberba, aquele
orgulho que te lisonjeava; verás... mas, oh! Deus! Tudo verás naquele
momento, no qual se abrirá diante de ti o caminho da eternidade: Moméntum a quo pendet aéternitas.Oh! grande, oh! terrível momento, do
qual depende uma eternidade de glória ou de tormentos!compreendes bem o
que te digo?Quero dizer que daquele momento depende ir para o Céu ou
para o inferno; ser para sempre feliz ou para sempre infeliz; para
sempre filho de Deus ou para sempre escravo do demônio; para sempre
gozar com os anjos com os santos no céu ou gemer e arder para sempre com
os condenados no inferno!
Teme grandemente pela tua alma e pensa que do viver bem depende uma boa
morte e uma eternidade de glória.Por isso, não difiras por mais tempo e
prepara-te desde já para fazer uma boa confissão e dispor bem as coisas
da tua consciência, prometendo a Nosso Senhor perdoar os teus inimigos,
reparar os escândalos dados, santificar os dias de guarda, cumprir os
deveres do teu estado.
E agora, põe-te na presença de teu Deus e dize-Lhe de coração: Meu Deus,
desde este momento eu me converto a Vós; amo-Vos, quero amar-Vos e
servir-Vos até a morte.virgem santíssima, minha Mãe, ajudai-me naquele
terrível momento.Jesus, José e Maria, espire em paz entre vós a minha
alma.
Quarta-feira
O Juízo
O Juízo é a sentença que o salvador há de pronunciar no fim
de nossa vida, sentença com a qual fixará o destino de cada um por toda
a eternidade.Apenas a alma tiver saído do corpo, comparecerá logo
perante o supremo juiz.a primeira coisa que torna este comparecimento
terrível á alma do pecador, é que a alma se encontrará sozinha na
presença de um Deus desprezado, de um Deus que conhece todos os segredos
do nosso coração, todos os nossos pensamentos.E que levaremos
conosco?Levaremos aquele pouco de bem ou de mal que tivermos feito
durante a vida: Ut réferat unusquísque própria corporis, prout gessit,
sive bonum, sive malum.Não se pode então inventar nem escusa nem
pretexto nenhum.Santo Agostinho, falando deste tremendo comparecimento,
disse: “Quando tu, ó homem, compareceres diante do criador para seres
julgado, terás sobre tua cabeça um juiz indignado; de um lado os pecados
que te acusam; de outro os demônios prontos a executar a condenação;
dentro de ti uma consciência que te agita e te atormenta; debaixo de ti
um inferno aberto, pronto a tragar-te.Em tais apertos, para onde irás,
para onde fugirás?”.Feliz de ti, ó meu filho, se tiveres feito o bem
durante a tua vida.Entretanto o divino juiz abrirá os livros da
consciência e começará o exame: Judícium sedit, et livre apérti sunt.
Então dirá aquele juiz inapelável: quem és tu? – Sou um Cristão,
responderás. –Bem, replicará Ele; se és Cristão, vamos ver se procedeste
como Cristão.Em seguida começará a recordar as promessas feitas no Santo
Batismo, pelas quais renunciaste ao demônio, ao mundo, á carne;
lembrar-te-á as graças que te concedeu, as muitas vezes que recebeste os
sacramentos, as pregações, as instruções, os avisos dos confessores, as
correções dos pais: Tudo será posto diante de ti. –Mas tu, dirá então o
divino juiz, apesar de tantos dons, de tantas graças, oh! Quão mal
correspondestes a tua profissão de cristão!Mal chegando a idade em que
apenas começavas a conhecer-Me, começaste a ofender-Me com mentiras, com
faltas de respeito na igreja, com desobediências a teus pais e com
muitas outras transgressões dos teus deveres.Ainda bem se com o ocorrer
dos anos tivesses melhorado o teu procedimento; mas não: Justamente com
a idade aumentou em ti, infelizmente, também o desprezo a minha
lei.Missas perdidas, profanação dos dias santos, blasfêmias, jejuns não
observados, confissões mal feitas, comunhões às vezes sacrílegas,
escândalos dados aos companheiros: Eis o que fizeste em vez de
servir-Me.
Voltar-se-á para o escandaloso, cheio de indignação,
dizendo: Vês aquela alma que caminha pela estrada do pecado?Foste tu,
com as tuas conversas imorais, que lhe ensinaste a malícia.Tu, como
cristão que és, devias ensinar com o bom exemplo o caminho do Céu aos
teus companheiros; pelo contrário, traindo o meu sangue, lhes ensinaste
o caminho da perdição.Vês aquela alma no inferno? Foste tu com os teus
pérfidos conselhos, que a arrancaste a mim para entregá-la ao
demônio.Foste tu a causa de sua eterna perdição.Agora pague a tua alma
por aquela outra que deitaste a perder com os teus escândalos: Répetam
anima tuam pro anima illíus.
Que te parece, meu filho, deste exame?Que te diz a consciência? Estás
ainda em tempo, se quiseres; pede a Deus perdão de teus pecados e faze
um sincero propósito de não tornar a pecar; começa desde hoje uma vida
de bom cristão, preparando-te assim um tesouro de boas obras para o dia
em que deverás comparecer perante o tribunal de Jesus Cristo.
Á vista das rigorosas contas que o juiz supremo exige do pecador,
tentará este abduzir alguma escusa ao pretexto, dizendo que não sabia
que deveria ser submetido a um exame tão rigoroso.Mas receberá esta
resposta: E não ouviste aquele sermão e aquela explicação do
catecismo?Não leste naquele livro que eu haveria de pedir rigorosas
contas de tudo? O infeliz então se encomendará a misericórdia divina;
mas a misericórdia não é mais para ele, porque não merece misericórdia
quem por tanto tempo dela abusou e porque na morte termina o tempo da
misericórdia.Recomendar-se-á aos anjos, aos santos, a Maria Santíssima;
e Maria responderá por todos: Agora e que pedes o meu auxílio?Não me
quiseste por Mãe durante a vida e agora já não te quero por filho; já
não te conheço.Então o pecador, não encontrando mais nenhum refúgio,
bradará as montanhas, aos rochedos, que o cubram e eles não se moveram.
Invocará o inferno e vê-lo-á aberto: Inférius horréndum
chaos.Esse é o momento em que o inexorável juiz proferirá a tremenda
sentença: filho infiel, dirá, para longe de mim.Meu Pai celeste te
amaldiçoou: Eu também te amaldiçôo.Vai para o fogo eterno a gemer e
sofrer com os demônios por toda a eternidade: Discédite a me, maledíeti,
in ignem aetérnum.Aquela alma infeliz, ante de afastar-se para sempre do
seu Deus, volverá pela última vez o olhar ao Céu e no auge da desolação
dirá: Adeus, companheiros, adeus, amigos que habitais o reino da glória;
adeus, pai, mãe, irmãos, irmãs; vós gozareis para sempre e eu serei para
sempre atormentado.Adeus, meu anjo da guarda, anjos e santos todos do
paraíso: Não vos tornarei a ver jamais.Adeus, ó Salvador, adeus ó cruz
santa, adeus, ó sangue em vão por mim derramado; não vos tornarei a ver
jamais.Desde este momento eu não sou filho de Deus; serei para sempre
escravos dos demônios no inferno.-Então os demônios, que se tornaram
senhores desta alma, arrastando-a e empurrando-a, a farão cair nos seu
abismos de torturas, de misérias, de tormentos eternos.
Meu filho, não receais que tal sentença seja também a
tua?ah! por amor de Jesus e de Maria, prepara com boas obras uma
sentença favorável e lembra-te que como é terrível a sentença proferida
contra o pecador, igualmente consolador será o convite que há de dirigir
Jesus a quem viveu cristãmente.Vêm, dirá, vêm para posse da glória que
te preparei.tu me serviste com fidelidade no prevê tempo de tua vida;
agora gozarás eternamente: Intra in gáudium Dómine tui.
Meu
Jesus, concedei-me a graça de poder ser também eu um desses
bem-aventurados.Virgem santíssima, ajudai-me; protegei-me na vida e na
morte e especialmente quando me apresentar ao vosso Filho para ser
julgado.
Quinta-feira
O
Inferno
O inferno é um lugar destinado pela justiça divina para
punir com suplícios eternos os que morrem em pecado mortal.A primeira
pena que os condenados sofrem no inferno, é a pena dos sentidos, que são
atormentados por um fogo que queima horrivelmente, sem nunca diminuir de
intensidade.Fogo nos olhos, fogo na boca, fogo em todas as partes.Cada
sentido sofre a própria pena; os olhos sofrem pela fumaça e pelas trevas
e são aterrados pela vista dos demônios e dos outros condenados.Os
ouvidos, dia e noite só escutam contínuos uivos, prantos e blasfêmias.O
olfato sofre enormemente pelo mal cheiro daquele enxofre e pez ardente
que o sufoca.A boca é atormentada por sede devoradora e fome canina: At famem patiéntur ut canes.O mau rico no meio daqueles tormentos, ergueu o
olhar ao céu e pediu, como grande graça, uma pequena gota de água para
mitigar a aridez de sua língua e também essa gota de água lhe foi
negada.Por isso aqueles infelizes, requeimados de sede, devorados pelas
chamas, atormentados pelo fogo, choram, gritam e se desesperam.Oh!
inferno, inferno!Como são infelizes os que caem em teus abismos!.-E Tu
que dizes, meu filho?Se tivesses que morrer neste instante, para onde
irias?Se agora não podes conservar um dedo sobre uma pequena chama de
vela, se não podes agüentar nenhuma fagulha de fogo na mão sem gritar,
como poderás agüentar-te então entre aquelas chamas por toda a
eternidade?
Considera além disso, meu filho, o remorso que experimenta a
consciência dos condenados.Eles padeceram o inferno na memória, na
inteligência, na vontade.Recordaram continuamente o motivo da sua
perdição, isto é, por terem querido secundar alguma paixão.Esta
lembrança é o verme que nunca morre: Vermis eórum non móritur.Recordaram
o tempo que Deus lhes deu para evitar a perdição, os bons exemplos dos
companheiros, os propósitos feitos e não cumpridos.Pensarão nos sermões
ouvidos, nos avisos do confessor, nas boas inspirações para deixar o
pecado; vendo que já não há remédio, lançarão gritos desesperados.A
vontade nada terá do que deseja e ao contrário padecerá todos os males.A
inteligência conhecerá finalmente o grande bem que perdeu.A alma
separada do corpo, ao apresentar-se no tribunal divino, entrevê a beleza
de Deus, conhece toda a sua bondade, chega quase a contemplar por um
instante o esplendor do paraíso, ouve talvez também os cantos
armoniosíssimos dos anjos e dos santos.Que dor ver que tudo isso se
perdeu para sempre!Que poderá resistir a tais tormentos?
Meu filho, tu que agora não se importas de perder o teu Deus
e o paraíso, conhecerás a tua cegueira quando vires tantos companheiros
teus, mais ignorantes e mais pobres do que tu, triunfarem e gozarem no
reino dos céus, ao passo que tu serás amaldiçoado por Deus e serás
arrojado para longe daquela pátria feliz, do gozo do mesmo Deus, da
companhia da Santíssima Virgem e dos santos.Eia pois, faze penitência,
não esperes para quando não houver mais tempo, entrega-te a Deus.Quem
sabe se não é este o último chamado e, se não correspondes, quem sabe se
Deus não te abandona e não te deixa cair naqueles eternos suplícios!Oh!
meu Jesus, livrai-me do inferno: A poenis inférni, libera me, Dómine!
Sexta-feira
A
Eternidade das Penas
Considera, meu filho, que si fores para o inferno, nunca mais dele
sairás.Lá se sofrem todas as penas e todas eternamente.Passarão cem anos
que caíste no inferno, passarão mil e o inferno estará ainda em seu
começo; passarão cem mil, cem milhões, passarão milhões de séculos e o
inferno terá apenas principiado.Si um anjo levasse aos condenados a
notícia que Deus os quer libertar do inferno depois de passados tantos
milhões de séculos quantas são as gotas de água do mar, as folhas das
árvores e os grãos de areia da terra, esta noticia lhes causaria a maior
satisfação.É verdade, diriam, que devem passar ainda tantos séculos, mas
um dia hão de acabar.Pelo contrário, passarão todos estes séculos e
todos os tempos que se possam imaginar e o inferno estará sempre no
principio.Todos os condenados fariam de boa vontade com Deus o seguinte
pacto: Senhor, aumentai quanto entenderdes este meu suplício; deixai-me
nestes tormentos por quanto tempo quiserdes, contanto que me deis a
esperança de que um dia hão de acabar.Mas nada; esta esperança, este
termo nunca chegará.
Se ao menos o pobre condenado pudesse enganar-se a si mesmo e iludir-se
dizendo: Quem sabe, um dia talvez terá Deus piedade de mim e me
arrancará deste abismo!Mas não, nem isto: verá sempre escrita diante de
si a sentença de sua eternidade infeliz.Pois então, irá ele dizendo,
todas estas penas, este fogo, estes gritos, nunca mais acabarão para
mim?Não, lhe será respondido, não, jamais.E durarão sempre?Sempre, por
toda a eternidade.Sempre, verá escrito naquelas chamas que queimam:
sempre, na ponta das espadas que o transpassam; sempre, naqueles
demônios que o atormentam; sempre, naquelas portas eternamente fechadas
para ele.Oh! eternidade! Oh! Abismo sem fundo! Oh! Mar sem praias! Oh!
Caverna sem saída! Quem não tremerá ao pensar em ti? Maldito pecado! Que
tremendos suplícios preparas para quem te comete!Ah! nunca mais, nunca
mais pecarei durante a minha vida.
Mas o que deve encher de pavor é pensar que aquela horrível
fornalha está sempre aberta debaixo de teus pés e que é suficiente um só
pecado mortal para lá te fazer cair.Compreendes bem, meu filho, o que
estás lendo? Uma pena eterna por um só mortal que cometes com tanta
facilidade.Uma blasfêmia, uma profanação dos dia santos, um furto, um
ódio, uma palavra, um ato, um pensamento obsceno basta para seres
condenado ás penas do inferno.Oh! meu filho, escuta pois o meu conselho:
Si a consciência te acusa de algum pecado, vai depressa confessar-te
para começar uma vida boa.Põe em prática todos os meios que te indicar o
confessor.Se for necessário, faze uma confissão geral.Promete que hás de
fugir das ocasiões perigosas, dos maus companheiros e se Deus te
indicasse até que deves deixar o mundo, segue logo a sua voz.Tudo que se
fizer para evitar uma eternidade de tormentos, é pouco, é nada: Nulla
nímia secúritas, ubi periclitátur aetérnitas.(S. Bern.).Oh! quantos na
flor da idade abandonaram o mundo, a pátria, os parentes, foram viver
isolados nas cavernas, nos desertos, alimentando-se somente de pão e
água, e até às vezes só de raízes, e tudo isto para evitar o inferno! E
tu que fazes, depois de tantas vezes que mereceste o inferno com o
pecado, que fazes? Lança-te aos pés do teu Deus e dize-Lhe: “Senhor,
estou pronto a fazer o que Vós quiserdes; nunca mais hei de pecar em
minha vida; já por demais vos tenho ofendido; mandai-me todos os
sofrimentos que quiserdes durante esta vida, contanto que eu possa
salvar a minha alma”.
Sábado
O
Paraíso
Quanto nos apavora o pensamento e a consideração do
inferno, igualmente nos consola a lembrança do Paraíso, preparado por
Deus para todos os que o amam e o servem durante esta vida.Para que
possas fazer dele uma idéia, contempla uma noite serena.Como é belo
contemplar o céu com aquela multidão e variedade de estrelas! Umas
menores, outras maiores, outras estão prestes a desaparecer. Todas porém
com boa ordem e segundo a vontade do seu Criador.Acrescenta a isto a
visão de um belo dia, mas de tal forma que o esplendor do sol não
ofusque a claridade das estrelas e da lua.Supõe além disto ter a mão
tudo o que de belo se encontrar no mar, na terra, nos povoados, nas
cidades, nos paços dos reis e dos monarcas do mundo inteiro.Acrescenta a
isto as bebidas mais delicadas, os alimentos mais saborosos, a música
mais doce, a harmonia mais suave.Pois bem: tudo isto junto não é nada em
comparação da excelência, dos bens, dos gozos do Paraíso.Oh! como bem
merece ser desejado e ardentemente amado aquele lugar onde se goza de
todos os bens!O bem-aventurado não poderá deixar de exclamar: Estou
saciado da glória do Senhor: Satiábor cum apparúerit glória tua.
Considera além disso o gozo que inundará a tua alma ao
entrares no Paraíso.O encontro, o acolhimento dos amigos; a nobreza, a
beleza dos Querubins, dos Serafins, de todos os Anjos e de todos os
Santos, que aos milhões e milhões louvam o Criador; o Coro dos
Apóstolos, a multidão imensa dos Mártires, dos Confessores, das
Virgens.Há também um exército enorme de jovens que, por terem conservado
a virtude da pureza, cantam a Deus um hino que ninguém mais pode
entoar.Oh! quanto gozam naquele reino os bem-aventurados! Sempre
mergulhados na alegria, sem a menor doença, sem desgostos e preocupações
que perturbem a sua paz e o seu gozo.
Considera além disso, meu filho, que todos os bens até aqui
considerados são um nada em comparação do grande prazer que se
experimenta na visão de Deus.Ele alegra os bem-aventurados com o seu
olhar amorável e derrama no seu coração um mar de delícias.Da mesma
forma que o sol ilumina e embeleza o mundo inteiro, assim Deus, com a
sua presença ilumina todo o Paraíso e enche os seus afortunados habitadores de gozos inefáveis.Nele hás de ver, como em um espelho,
todas as coisas, gozarás de todos os prazeres da mente e do coração.São
Pedro no Monto Tabor, por ter visto uma só vez o rosto de Jesus radiante
de luz, ficou repleto de tanta doçura que exclamou fora de si: Senhor,
bom é para nós que fiquemos aqui: Dómine, bonum est nos hic esse.E lá
teria ficado para sempre.Que prazer não será pois contemplar, não por um
instante, mas para sempre, para sempre gozar desse rosto divino que
enleva os Anjos e os santos e que aformoseia todo o Paraíso! E a beleza
e amabilidade de Maria, de que prazer deve também encher o coração do
bem-aventurado! Oh! Sim! Quanto são amáveis os teus tabernáculos , ó
Senhor! Quam dilécta tabernácula tua, Dómine virtútum! Por isso os coros
dos anjos e dos bem-aventurados cantam a sua glória dizendo: Santo,
Santo, Santo é o Deus dos exércitos.A ele seja dada honra e glória por
todos os séculos.
Coragem pois, meu filho; neste mundo terão que sofrer alguma
coisa, mas não importa: o prêmio que hás de receber no Céu compensará
infinitamente todos os teus sofrimentos.Que consolação não será a tua,
quando te encontrares no Céu na companhia dos parentes, dos amigos, dos
Santos, dos Bem-aventurados e exclamares: Estou salvo e estarei sempre
com Deus: Semper cum Dómino érimus.Então é que hás de abençoar a hora em
que abandonaste o pecado, a hora em que fizeste aquela boa Confissão e
começaste a freqüentar os sacramentos, o dia em que deixaste os maus
companheiros e te entregaste á virtude; e cheio de gratidão te volverás
para o teu Deus e cantarás seus louvores e sua glória por todos os
séculos.
Assim seja.
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