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Apresentação
O livro conta a história da família onde
nasceu Santa Teresinha do Menino Jesus.
Carta-prefácio de S.E.R. D. Francisco
Picaud, Bispo de Bayeux e Lisieux
(escrevendo ao autor do livro)
(...) Tenho a firme convicção de que este livro fará um bem imenso
com a apresentação aos olhos de numerosos leitores do quadro vivo de um
matrimônio cristão. Quando tantas influências malsãs atingiram a
indissolubilidade, a união e a fecundidade dos lares, que espetáculo
atraente e encantador nos oferece o lar do casal Martin, apesar da
austeridade aparente do dever e do sacrifício! Quando a falta de
formação familiar dos filhos manifesta tantas vezes a incompetência
educativa de tantos pais, mesmo batizados, que encanto e que bem não é
notar, particularmente na correspondência da Senhora Martin, a
delicadíssima ternura e a vigilância constante de uma mãe realmente
cristã! Quando no seio das famílias as vocações religiosas e sacerdotais
encontram tantas vezes um ambiente desfavorável e mesmo oposições
formais, que lembrança eloqüente não são da hierarquia das vocações as
nobres aspirações e os santos desejos, confiados a Deus pela Rendilheira
de Alençon e pelo Patriarca dos Buissonnets!
Encontrar-se-iam hoje muitos pais que levassem, como fez o Sr.
Martin, a sua "Rainhazinha" ao Sr. Bispo de Lisieux com o fim de
apressar a sua entrada em religião, apesar de saber que tal passo
apressaria ao mesmo tempo o despedaçar do seu coração e a sua solidão?
A estes exemplos de vida conjugal e de vida de família ajuntou V.ª
Rev.ª os exemplos de uma vida laboriosa e de uma elevada consciência
profissional, que hoje também é oportuno recordar para esclarecer e
corrigir o procedimento de muitos leitores. Para tudo dizer numa
palavra, é o retrato de dois modelos incomparáveis - para não dizer de
dois santos padroeiros - que V.ª Rev.ª propõe à admiração e à imitação
dos pais cristãos.(...)
Edição: Livraria Apostolado da Imprensa - Porto - 1953
Trecho
do Livro
Cap. II - À
Busca do Ideal
(contando
sobre o Sr. Luis Martin, pai de Santa Teresinha)
(...)
Completara vinte e dois anos. Chegara para ele a hora de escolher entre
o casamento e o serviço militar. Optou pelo claustro.
Possuía
uma sólida formação religiosa. O capitão Martin
(seu pai)
tinha-lhe ensinado a entregar-se a Deus sem reservas, numa doação total,
à maneira de soldado, ou antes, de combatente. A comunhão, tão freqüente
quanto o permitiam os usos do tempo, tinha-lhe apurado a piedade. O
contato com a fé bretã e alsaciana só podia fortificá-la. O temperamento
de tendências contemplativas levava-o à conversão íntima coração a
coração, com o Mestre interior que arrebata a alma, como presa Sua. E
ele deixou-se arrebatar.
Para que
lado havia de se dirigir? Contemporâneo do alvorecer do romantismo,
iniciara-se Luis, precocemente, no culto da natureza. A majestade de um
pôr do sol, os murmúrios da floresta, o marulhar das vagas convidavam-no
a um recolhimento que se assemelhava à contemplação. Este apaixonado de
Chateaubriand e de Lamartine era, além disso, um cristão habituado à
leitura da Bíblia. Sensível às belezas da "terra carnal", depressa as
ultrapassava, para cantar, ao modo franciscano, "o hino das criaturas".
Gostaria de estabelecer o seu retiro num desses sítios grandiosos onde a
própria paisagem eleva os olhares para o céu. Soubesse ele, além disso,
de um Instituto onde a atividade impregnada de oração pudesse satisfazer
o ardor cavalheiresco que sentia palpitar dentro de si, o atrativo da
aventura e o gosto do perigo... e estava feita a escolha.
(...) O
certo é que julgou encontrar no Eremitério do Grande S. Bernardo a
realização plena do seu ideal.
(...)
Depois de, lá no alto, no meio da sua paisagem fantástica, cantarem os
louvores de Deus, os grupos de religiosos salvadores seguem, guiados
pelo faro dos cães, através das geleiras, por frios rigorosos de vinte
graus negativos, a socorrer as vítimas de aludes ou os viajantes
perdidos na neve. Esta combinação de vida claustral, de oração poética e
de caridade heróica não realizaria bem o sonho de Luís Martin?
(...)
Cansado do mundo, como Dante (...), o que ele vinha mendigar à porta do
Mosteiro era "a Paz".
Negada a
sua entrada no Mosteiro por desconhecimento das línguas clássicas, o Sr.
Luis Martin voltou para casa, desolado, porém com um projeto de aprender
o latim para um dia poder voltar.
(...) Ao
domingo a porta de seu estabelecimento mantinha-se obstinadamente
fechada. Luís entregava-se com os seus aos exercícios de piedade.
Zélia
Guérin, católica e igualmente desejosa de entrar em um convento, a
Visitação de Mans, tomou como lema: "Venho aqui para ser santa".
Tinha então vinte e nove anos.
Mas os
planos de Deus para esses dois jovens era outro...
Impossibilitada de continuar por encargos familiares e problemas de
saúde, (...) uma intervenção misteriosa facilitou a aproximação. Um
dia em que Zélia Guérin passava pela Ponte de São Leonardo, cruzou-se
com um mancebo, cuja nobreza de fisionomia e dignidade de maneiras e
modos reservados a impressionaram. Neste instante uma voz interior
segredava-lhe: "Foi este que eu preparei para ti". Informou-se
discretamente a respeito da identidade dele e começou a conhecer Luís
Martin.
(...) O
seu acordo moral estabeleceu-se tão depressa que os esponsais vieram
selar, sem demora, o mútuo compromisso, e três meses depois do primeiro
encontro puderam unir-se diante de Deus.
(...) A
cena passou-se à meia noite, na mais rigorosa intimidade, como que para
não saborearem da cerimônia senão o perfume cristão e talvez também
porque as grandes obras de Deus se operam no silêncio noturno, e a união
de que havia de nascer a Santa de Lisieux tinha o selo da grandeza.
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