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História de uma Família, P. Stéphane-Joseph PIAT, O.F.M.

Apresentação

O livro conta a história da família onde nasceu Santa Teresinha do Menino Jesus.

 

Carta-prefácio de S.E.R. D. Francisco Picaud, Bispo de Bayeux e Lisieux

(escrevendo ao autor do livro)

 

(...) Tenho a firme convicção de que este livro fará um bem imenso com a apresentação aos olhos de numerosos leitores do quadro vivo de um matrimônio cristão. Quando tantas influências malsãs atingiram a indissolubilidade, a união e a fecundidade dos lares, que espetáculo atraente e encantador nos oferece o lar do casal Martin, apesar da austeridade aparente do dever e do sacrifício! Quando a falta de formação familiar dos filhos manifesta tantas vezes a incompetência educativa de tantos pais, mesmo batizados, que encanto e que bem não é notar, particularmente na correspondência da Senhora Martin, a delicadíssima ternura e a vigilância constante de uma mãe realmente cristã! Quando no seio das famílias as vocações religiosas e sacerdotais encontram tantas vezes um ambiente desfavorável e mesmo oposições formais, que lembrança eloqüente não são da hierarquia das vocações as nobres aspirações e os santos desejos, confiados a Deus pela Rendilheira de Alençon e pelo Patriarca dos Buissonnets!

Encontrar-se-iam hoje muitos pais que levassem, como fez o Sr. Martin, a sua "Rainhazinha" ao Sr. Bispo de Lisieux com o fim de apressar a sua entrada em religião, apesar de saber que tal passo apressaria ao mesmo tempo o despedaçar do seu coração e a sua solidão?

A estes exemplos de vida conjugal e de vida de família ajuntou V.ª Rev.ª os exemplos de uma vida laboriosa e de uma elevada consciência profissional, que hoje também é oportuno recordar para esclarecer e corrigir o procedimento de muitos leitores. Para tudo dizer numa palavra, é o retrato de dois modelos incomparáveis - para não dizer de dois santos padroeiros - que V.ª Rev.ª propõe à admiração e à imitação dos pais cristãos.(...)

Edição: Livraria Apostolado da Imprensa - Porto - 1953

 

Trecho do Livro

Cap. II - À Busca do Ideal

(contando sobre o Sr. Luis Martin, pai de Santa Teresinha)

(...) Completara vinte e dois anos. Chegara para ele a hora de escolher entre o casamento e o serviço militar. Optou pelo claustro.

Possuía uma sólida formação religiosa. O capitão Martin (seu pai) tinha-lhe ensinado a entregar-se a Deus sem reservas, numa doação total, à maneira de soldado, ou antes, de combatente. A comunhão, tão freqüente quanto o permitiam os usos do tempo, tinha-lhe apurado a piedade. O contato com a fé bretã e alsaciana só podia fortificá-la. O temperamento de tendências contemplativas levava-o à conversão íntima coração a coração, com o Mestre interior que arrebata a alma, como presa Sua. E ele deixou-se arrebatar.

Para que lado havia de se dirigir? Contemporâneo do alvorecer do romantismo, iniciara-se Luis, precocemente, no culto da natureza. A majestade de um pôr do sol, os murmúrios da floresta, o marulhar das vagas convidavam-no a um recolhimento que se assemelhava à contemplação. Este apaixonado de Chateaubriand e de Lamartine era, além disso, um cristão habituado à leitura da Bíblia. Sensível às belezas da "terra carnal", depressa as ultrapassava, para cantar, ao modo franciscano, "o hino das criaturas". Gostaria de estabelecer o seu retiro num desses sítios grandiosos onde a própria paisagem eleva os olhares para o céu. Soubesse ele, além disso, de um Instituto onde a atividade impregnada de oração pudesse satisfazer o ardor cavalheiresco que sentia palpitar dentro de si, o atrativo da aventura e o gosto do perigo... e estava feita a escolha.

(...) O certo é que julgou encontrar no Eremitério do Grande S. Bernardo a realização plena do seu ideal.

(...) Depois de, lá no alto, no meio da sua paisagem fantástica, cantarem os louvores de Deus, os grupos de religiosos salvadores seguem, guiados pelo faro dos cães, através das geleiras, por frios rigorosos de vinte graus negativos, a socorrer as vítimas de aludes ou os viajantes perdidos na neve. Esta combinação de vida claustral, de oração poética e de caridade heróica não realizaria bem o sonho de Luís Martin?

(...) Cansado do mundo, como Dante (...), o que ele vinha mendigar à porta do Mosteiro era "a Paz".

Negada a sua entrada no Mosteiro por desconhecimento das línguas clássicas, o Sr. Luis Martin voltou para casa, desolado, porém com um projeto de aprender o latim para um dia poder voltar.

(...) Ao domingo a porta de seu estabelecimento mantinha-se obstinadamente fechada. Luís entregava-se com os seus aos exercícios de piedade.

Zélia Guérin, católica e igualmente desejosa de entrar em um convento, a Visitação de Mans, tomou como lema: "Venho aqui para ser santa". Tinha então vinte e nove anos.

Mas os planos de Deus para esses dois jovens era outro...

Impossibilitada de continuar por encargos familiares e problemas de saúde, (...) uma intervenção misteriosa facilitou a aproximação. Um dia em que Zélia Guérin passava pela Ponte de São Leonardo, cruzou-se com um mancebo, cuja nobreza de fisionomia e dignidade de maneiras e modos reservados a impressionaram. Neste instante uma voz interior segredava-lhe: "Foi este que eu preparei para ti". Informou-se discretamente a respeito da identidade dele e começou a conhecer Luís Martin.

(...) O seu acordo moral estabeleceu-se tão depressa que os esponsais vieram selar, sem demora, o mútuo compromisso, e três meses depois do primeiro encontro puderam unir-se diante de Deus.

(...) A cena passou-se à meia noite, na mais rigorosa intimidade, como que para não saborearem da cerimônia senão o perfume cristão e talvez também porque as grandes obras de Deus se operam no silêncio noturno, e a união de que havia de nascer a Santa de Lisieux tinha o selo da grandeza.

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Dom Bosco

A. Auffray, S.D.B.

História de uma Família
P. Stéphane-Joseph PIAT, O.F.M.